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E. P. THOMPSON - HISTORIA E POLITICA Déa Ribeiro Fenelon* Falar de Thompson neste semindrio, que, em razdo de sua morte, procura home- nagear € colocar em discussao a trajet6ria deste historiador inglés, ¢ motivo de pesar pela sua perda, mas de satisfag4o por participar desta atividade. Aqui, certamente, se proporcionaré a ocasifio para avaliacdes e para o didlogo sobre sua obra. Coube a mim © tema Historia e Politica. E facil prever que diferentes aspectos de sua vida ¢ de sua contribuigdo, como historiador, serao abordados nesta série de palestras ¢ creio ser uma importante homenagem que poderemos prestar a quem tanto lutou por uma histéria que buscasse 0 “fazer-se”” dos sujeitos hist6ricos em sua prdtica social e para quem a experiéncia social era a mais rica das possibilidades histéricas. Procuro, portanto, de maneira geral, falar do assunto ¢ deixar para outros temas mais especificos e discussdes mais precisas de categorias de andlise propostas por Thompson. Refazer alguns de seus caminhos, acompanhar suas polémicas, perceber a essén- cia da mudanga e do crescimento e em quais diregdes, so alguns de nossos objetivos e, por certo, também dos organizadores deste semindrio. Ao nos propormos esta tarefa temos a esperanga de estarmos também refazendo alguns de nossos préprios caminhos, nossos pontos de vista, esclarecendo duividas de interpretagdes ao longo destes anos, trabalhando algumas diferenciacdes e, sobretudo, fazendo avangar 0 to reclamado de- bate académico, Que seja Thompson a nos proporcionar esta oportunidade s6 pode ser motivo de jtbilo por, de alguma forma, vivenciarmos suas propostas e darmos corpo concretude a suas idéias. Com certeza Thompson sempre me pareceu 0 historiador em quem desejava me inspirar, com quem estabelecer didlogo, com quem aprender a dificil relagfo entre orientagGes tedricas, que ao mesmo tempo valorizassem a pratica da investigacao, sa- lientassem perspectivas de uma producdo de conhecimento, que mantivesse uma relacio * Departamento de Historia da PUC-SP. Proj. Hist6ria, Sdo Pauto, (12), out. 1995 7 critica com a pesquisa, a descoberta, ¢ constante coeréncia com a idéia de lutar pela ‘ransformagao social, no agora, para forjar um futuro melhor. Um historiador para quem a relacdo Histérica e Politica nao tivesse que ser justificada ou explicada a cada passo, porque ela é inerente 4 sua prépria concepgao sobre o significado de trabalho intelectual ¢ profissional. Atento as questées do presente, sabendo que seu trabalho exige posicionamentos, a todo instante, ele sempre esteve 14, produzindo, trabalhando, polemizando, ou “‘demonstrando” contra a instalago dos mfsseis nucleares Lembro-me de nossas dificuldades para fazer chegar até aos alunos de Mestrado em Hist6ria, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), nas primeiras turmas de 1976/1977, alguns dos artigos de Thompson sobre a questo da “Lucha de clases sin clase..."’, “Tiempo y disciplina en la sociedad industrial...", ‘La economia moral del siglo XVIII...”, “Patrician society, plebeian culture...” muitos outros que acaba- ram por nos chegar em espanhol, reunidos por Joseph Fontana, em Tradicién, revuelta y consciencia de clase, em 1979. Mas ficava a maior parte da obra, nao s6 de Thomp- son, mas de outros e do debate ou das polémicas geradas em toro de suas posigdes, 86 acessfveis a quem dominava a I{ngua inglesa. Varias promessas frustradas e adiadas, promessas de que The making of the English working class seria waduzido para 0 Pproximo ano, mas estas s6 se concretizaram em 1987, quando a editora Paz e Terra langou o 1° volume, em portugués. Dificuldades quanto a cesstio dos direitos autorais, tradugio, etc. retardaram o aparecimento da obra em portugués, pois a 1* edigdo, em lingua inglesa, surgira em 1963. Edigdes em espanhol eram disputadissimas, mas 0 debate se fragilizava pela incapacidade da maioria de acompanhar seus desdobramentos, ler as revistas especializadas, etc. Pode-se até registrar o fato de algumas das produgGes criticas as categorias de Thompson ou os debates sobre classe, experiéncia, consciéncia, etc. terem sido absor- vidos sem que se percebesse este cardter da critica ou se desse o devido valor ao significado das posigdes e do debate. Muitas vezes, também, esta producio foi absor- vida como isolada, fora do contexto em que foi motivada, sem atentar para as respostas € as provocacées e com isto se perdia muito até do valor das ironias, por exemplo, para nao falar apenas do contetido. Isto pode explicar porque mesmo agora, tantos anos depois, alguns ainda absor- vem Thompson de maneira acritica e de certa forma “primitiva” ou como “modelo”, sem perceber as nuances das modificagdes operadas por ele mesmo, ou a riqueza das discussdes dai advindas e por nado acompanharem o debate que se estabeleceu depois. De outra forma, alguns de seus mais ferozes criticos, entre nés, ainda combatem hoje posicdes que nem ele mesmo defenderia da mesma maneira, algum tempo depois, porque esclareceu diividas, reavaliou criticas, reviu categorias, realizou outras pesquisas 78 Proj. Historia, Sdo Paulo, (12), out. 1995 também reafirmou entendimentos. Em alguns momentos, a critica entre nés assumiu até caracteristicas politicas bastante radicais, que toraram a leitura bastante indigesta para alguns, que ainda se apegavam & rigidez dos conceitos recitados segundo manuais, nao de todo superados, 4 mancira de Biblia. E agora, que também virou modismo decretar a faléncia do socialismo, o fim do comunismo como regime, e proclamar a vit6ria inconteste do capitalismo, afastando © marxismo como teoria, pritica ou método de andlise, a situag%o se complicou ainda mais, pois, se de um lado a direita se aproveita para dizer que “tudo acabou”, de outro, a prépria esquerda ndo est conseguindo realizar a critica, enfrentar os problemas e dialogar com algumas questées perturbadoras. Na verdade, em minha avaliacio, creio que Thompson s6 se tornou mais conhe- cido na academia, no Brasil, como autor a merecer debate, muito mais por sua polémica com Althusser e os estruturalistas marxistas, através de seu livro A miséria da teoria, traduzido e publicado no Brasil, em 1981, pela Zahar, que significativamente excluiu de sua traducdo os outros ensaios da edigdo inglesa de 1979.! O livro imediatamente se tomou ponto para debate na Universidade, principalmente nos cursos de pés-gra- duacdo de hist6ria e ciéncias sociais. Por isto mesmo, muito das discussdes posteriores, das polémicas e dos diélogos com outros autores ¢ com a produgiio da New Left Review ou da History Workshop, por exemplo, terem sido ignorados. Significativamente, ganha espago entre nés, no perfodo, todas as tradugdes das obras de Perry Anderson, que em seu “Arguments within English marxism’”? polemizara com Thompson, na defesa do estruturalismo marxista ¢ de Althusser. Nao é, pois, para todos os intelectuais que leram A miséria da teoria ou que se empenharam nas polémicas sobre o estruturalismo, que a figura do “historiador Thomp- son” se destaca. Para nds, entretanto, este ¢ um grande ponto de aproximag&o: um historiador que enfrenta as questGes te6ricas de sua produgao intelectual, coisa rara entre os historiadores, que usualmente nao tem grande disposico para os debates ted- ricos sobre os pressupostos da produgio historiografica e suas implicagdes politicas. Tanto entusiasmo para falar de Thompson ¢ outro ponto que quero deixar regis- trado. Por buscar sua inspiraco e orientagdo, claro est4 que nunca busquei apenas “novos modelos” — como as vezes se imagina ou se diz -, mesmo porque, se a ins- piragio vem daf, o impulso é de quebrar ortodoxias, é de aprender a construir as 1 Um destes artigos, “The peculiarities of the English”, saiu traduzido h4 pouco nos Textos Didaticos, 10, do IFCH/Unicamp, em 1993. 2. livro de Perry Anderson teve uma tradugo espanhola com o titulo Teoria, politica y historia. Un debate con E. P. Thompson. Madrid, Siglo XXI, 1985. Proj. Histéria, Sdo Paulo, (12), out. 1995 79