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INDICE

1. INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 1
A TEORIA DOS CHEFES SOBRE AS ORIGENS DA GUERRA ............................................................. 2
2. YAMARUZU ....................................................................................................................................... 2
3. A DISSIDÊNCIA DOS CHEFES E DAS SUAS POPULAÇÕES ...................................................... 4
3.1 MAHIA: CHEFE DA DISSIDÊNCIA ......................................................................................... 5
4. CHEFATURA DE UALALA E M’PAKALA ................................................................................. 6
Segundo testemunho de Manuel Trinta: ............................................................................................... 8
Segundo relatos de Latifa A: ................................................................................................................. 9
5. TENTATIVAS DE CONVERSAÇÕES DA FRELIMO COM VISTA AO REGRESSO DE
ALGUNS RÉGULOS AS SUAS ZONAS DE ORIGEM ............................................................................ 9
6. CONCLUSÃO .................................................................................................................................... 12
7. BIBLIOGRAFIA ................................................................................................................................ 13

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1. INTRODUÇÃO

O tema que nos propomos a estudar atribuído na cadeira de Moçambique Contemporâneo tem
como titulo A Teoria dos Chefes sobre as Origens da Guerra. O trabalho visa debater opiniões
dos sobre os motivos que levaram os chefes assim como as populações a entrar em dissidência
com o Estado, entende-se aqui o Estado como a Frelimo. Apos a proclamação da independência,
em 25 de Junho de 1975, eclodiu a guerra civil em Moçambique, as suas principais razões
permanecem tenebrosas para muitos de nós, razão pela qual existem opiniões divergentes sobre as
origens da guerra entre a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) e Resistência Nacional
Moçambicana (RENAMO), as suas principais motivações podem ser uma incógnita, mas o que
está claro para qualquer um de nós são as consequências nefastas que esta guerra trouxe para as
populações em vários pontos de Moçambique, de como as populações civis que nada tem a ver
com as diferenças politicas e ideológicas se tornaram o escudo dos dois partidos protagonistas
deste conflito militar na medida que para lograrem seus objectivos, subjugaram, exploraram,
assassinaram um numero incalculável de inocentes, tornando deste modo o período apos 1975,
mas um momento de pânico, de carnificina, de exploração entre irmãos que pensávamos ter
ultrapassado com a conquista da independência frente ao colonialismo Português.

Pretendemos com o presente trabalho trazer opiniões de quem vivenciou esta aterradora
experiência e para tal se buscará relatos de testemunhas na Província de Nampula como amostra
da presente temática, pois os relatos dos actores e vitimas dos que vivenciaram este período de
guerra são de extrema importância devido a consistência de seus depoimentos, alias são os próprios
actores e as vitimas da guerra que vão ser os primeiros a tentar interpretar a origem e a atribuir um
sentido a guerra, segundo Geffray, por essa razão torna-se prudente trazer o conteúdo destas
interpretações no presente trabalho para de certa forma situar o espirito local da guerra e deste
modo induzir o estimado leitor a descortinar a penumbra que paira sobre a presente temática.

Para a realização do presente trabalho consultas bibliográficas serviram de alicerce elementar para
recolha de informações que nos permitiram desenvolver o mesmo, mas outros tipos de pesquisa
foram levadas a cabo e foram também de extrema importância com destaque para auscultação de
indivíduos que viveram este período, docentes, etc.

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A TEORIA DOS CHEFES SOBRE AS ORIGENS DA GUERRA

2. YAMARUZU

Segundo o Livro sobre Antropologia da Guerra contemporânea em Moçambique, (1991) entre os


primeiros a tentar interpretar a origem e atribuir um sentido a guerra estão os seus actores e vítimas
directas, YAMARUZU, a decana duma linhagem nobre da região, enuncia o ponto de vista, a
teoria dos chefes sobre a origem e a dinâmica local da guerra, dando-nos ao mesmo tempo
preciosas informações sobre as motivações dos que entraram em dissidência:

Segundo Yamaruzu eram os Mapéwé (chefes) que faziam existir a comunidade através do épepa

Épepa: é a farinha de sorgo que cada chefe de linhagem (humu) tem e que lhe permite comunicar
com os antepassados do seu grupo.

Graças ao épepa a desgraça nunca atingia a comunidade. Esta guerra que nos aflige hoje foi
provocada pelo “abaixo” (abaixo refere os slogans ritualmente proferidos pelas novas
autoridades locais, que marcam i inicio e o fim das suas intervenções publicas). Não podíamos
fazer nada, não podíamos depositar o épepa, nem podíamos ir a nenhum local sagrado porque
tínhamos medo. Quando nos surpreendiam a depositar o épepa, eramos presos.

Foi por isso que deixamos de depositar o épepa para deixar os donos (A Frelimo) fazerem o que
queriam, para deixar os akunha (terminologia que significa literalmente “brancos” designava
outrora os europeus). Fazerem o que querem, deixamos de por o épepa e por causa disso a guerra,
quando chegou, não pediu autorização para entrar. A comunidade era regularmente protegida pelo
épepa. Então quando a guerra veio na nossa comunidade, já ninguém a podia impedir, já não
rezávamos, foi por isso que a guerra veio e entrou violentamente na nossa terra, atingiu o nosso
povo. Dispersamo-nos. A guerra destruiu-nos. Foram acontecimentos muito maus e por isso a terra
está queimada. Ficamos muito tristes, esperávamos a nossa última hora, porque eles destruíram
todas as nossas coisas, partiram tudo, queimaram tudo, então a guerra chegou violentamente.

YAMARUZU, para explicar a procedência da guerra conta uma história onde se coloca em cena
ao lado de Mpéwé Mazua, seu irmão, face a um cão também nobre, Mpéwé:

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Um dia apareceu um cão. Todos diziam que era nobre (Mpéwé) e que era preciso respeita-lo. Ele
visitava sempre os mapéwé. Passaram-se três dias, antes de vir a casa, nesse dia, eu tinha
acendido o fogo e estava sentada em companhia do meu irmão, o mpéwé Mazua, que tinha vindo
visitar seu sobrinho – meu filho-, a beber aguardente de caju. Quando vimos entrar o cão,
levantamo-nos para o cumprimentar. Batemos as mãos e ele passou devagar, os seus passos
faziam o barulho do galope dum cavalo. Ele entrou na casa, passou junto do meu quarto e deitou-
se junto da minha cama.

Então o meu irmão Kulué, que também lá estava, saiu, pegou no cabo duma enxada e começou a
bater no cão, mas esse não se mexia, não gania e Kulué cansou-se. Saiu de novo e deitou-se para
descansar. Então o cão saiu a ladrar e queria morder, tivemos que lhe pedir desculpa pelo meu
irmão, que não sabia que o cão era Mpéwé. Então o cão parou de ladrar e foi-se embora em
morder Kulué. No dia seguinte soubemos que o Sr. Jakomé tinha morto o cão com a sua
espingarda. Já o tinham enterrado. Mas passado dois dias, ele já tinha desaparecido do buraco e
ouvimos dizer que andava na região de um lado para o outro. Então houve varias tentativas para
matar o cão, mas falharam todas. Por fim, ouvimos dizer que ele tinha começado a tacar as
pessoas que encontrava: todas as pessoas mordidas morriam pouco tempo depois.~

Foi assim que se passou a historia do cão que veio dos lados do rio Muatage.

Com efeito, foi das margens do Muatage que em 1985, vieram as primeiras incursões dos homens
da Renamo. A história do assassinato dum cão mpéwé como motivo da guerra exprime uma
interpretação colectiva local da sua origem. Se alguma ambiguidade havia sobre o sentido das suas
afirmações, Yamaruzu encarregou-se de a eliminar ao responder a seguinte pergunta:

Porque é que a terra se queimou?

A terra queimou-se porque os mapéwé eram tratados como cães. As apawyamwene também eram
tratados como cadelas. Antigamente, as pessoas quando nos viam levantavam-se e
cumprimentavam-nos e depois nós mandávamo-las sentar. Ultimamente, quando nos viam passar,
gritavam: abaixo comer galinha (refeição oferecida aos notáveis da chefatura em testemunho
de respeito). Abaixo por épepa. Então nós andávamos tristes, porque afinal eram nossos filhos
que nos faziam isso…Louvado seja Deus.

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Yamarazu, assim como seu irmão Mazua, refugiaram-se na zona governamental, abandonando as
suas terras e uma parte do seu povo, actualmente sob o controlo da Renamo. Yamuruzu vive em
Alua (Distrito de Namapa), onde o encontramos, e Mazua refugiou-se no posto administrativo que
tem o seu nome (no distrito de Memba), Locais que estão sob o controlo da Frelimo. Apesar das
queixas importantes que tem da Frelimo. Ambos colaboram com as autoridades. Eles nunca se
enganaram sobre a natureza promovida pela Renamo e sobre seu resultado; contrariamente a
muitos dos seus membros de sua chefatura e da sua própria linhagem, nunca alimentaram a ilusão
de que esta fosse uma “boa guerra”.

3. A DISSIDÊNCIA DOS CHEFES E DAS SUAS POPULAÇÕES

A história da conquista destas regiões pela Renamo ‘e antes de mais a historia, por vezes patética,
de algumas dezenas de milhares de camponeses que no período de 1984 á 1986 se subtraíram ao
controlo do Estado da Frelimo. A conquista estendeu-se pelos anos de 1984 e 1985. No ano
seguinte, o processo de polarização das populações na guerra estava no essencial realizado.

A leste da estrada 360, ao sul do rio Mecuburi, até Março de 1984 a Renamo não tinha não tinha
ainda feito nenhum ataque no Distrito de Eráti. Mas os rumores já causavam os seus efeitos de
forma indirecta, foi por conta disso que as milícias a mando do exército reuniram as populações
dispersas em aldeias e queimaram todas as habitações ainda existentes nos territórios linhagisticos
fora das aldeias. A principal preocupação da Frelimo era de controlar os movimentos e actividades
das populações rurais, impedindo o seu contacto com a Renamo, cujos primeiros destacamentos
ameaçam as zonas fronteiriças do sul do distrito: eles estão em Muecate e no Motapo.

Paralelamente a esta espetacular intervenção violenta e espectacular decidida pelo exército os


antigos régulos e cabos são chamados a participar na organização da segurança das aldeias e são
encarregados de fazer patrulha para informarem a administração de qualquer movimento suspeito.
Recusar esta tarefa seria interpretado como uma manifestação de hostilidade em relação ao partido
e, portanto, de uma virtual simpatia para com a Renamo. Mas ao mesmo tempo, eles são todos
suspeitos a priori e é-lhes dado a entender que serão presos caso a Renamo entre nas suas antigas
áreas de jurisdição.

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3.1 MAHIA: CHEFE DA DISSIDÊNCIA

Nessa altura todos os mahumu (chefes de linhagem) e todos os mapéwé (chefes de chefaturas) do
distrito vêem os membros das suas linhagens e chefaturas ser deslocadas em massa, obrigados a
abandonar as suas antigas habitações e currais queimados, as suas terras, as culturas e uma boa
parte das suas colheitas, as suas árvores e cemitérios, para se instalar nas aldeias comunais.

Mahia, um antigo régulo mpéwé da Macuane, é um desses chefes e será o primeiro a oferecer
hospitalidade aos soldados da Renamo, vindo depois a tornar-se o principal chefe da dissidência
da região. Mahia que em 1984 vivia a leste do posto administrativo de Nacaro (actual distrito de
Eráti). E sempre se tinha declarado abertamente contra a construção das aldeias, que dizia serem
lugares de preguiça. Ninguém até então tinha conseguido convencer, e as populações da sua
chefatura, das vantagens da politica aldeã do partido. Mas dessa vez todos são obrigados a
submeter-se, as habitações dispersas são destruídas e as populações de Mahia instaladas pela forca
na aldeia, um homem de nome Martins é nomeado secretário da aldeia, o que agrava ainda mais a
tensão, porque se trata de um membro pertencente a uma linhagem outrora submetida por uma
antepassado de Mahia, ou seja, o único responsável e representante da população de Mahia
reconhecido pelo Estado é um epothe do velho chefe, um dos seus próprios escravos, como se diz
em português local.

Tirarem o seu povo das suas terras para instalar na aldeia sob aa autoridade dum homem que ele
considera um impostor é uma humilhação para Mahia. Do seu ponto de vista e segundo a sua
expressão estão a roubar-lhe o seu povo e sua terra. Por conta disso decide então entrar em
dissidência ou seja, decide entra em desavença em divergência com a Frelimo e vai para alojar-se
no mato: abandona o seu território, passa os limites do distrito do Eráti, portanto penetrando no
mato do distrito de Monapo, com ele seguem-lhe alguns milhares de pessoas, grande maioria da
sua chefatura, que continuam a reconhece-lo como seu chefe os seu mpéwé, nesse contexto pede
hospitalidade para si e para os seus seguidores na área dum outro chefe da Macuane, Mezope,
também ele um antigo régulo da administração, que propõe que Mahia se instale com sua gente
junto ao rio Mariri, próximo a sua chefatura. Uma residência que situa-se a cerca de 80 km dos
centros urbanos importantes mais próximos (Nacala, Memba e Namialo). E no mesmo momento
os homens da Renamo multiplicam os seus ataques na estrada Nampula- Nacala. E passados

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algumas semanas os primeiros emissários da Renamo apresentam-se a Mahia, nas margens do rio
Mariri.

Nada poderia ilustrar melhor como o conflito entre as populações rurais e o partido se alimenta,
por um lado, da estratégia de construção do Estado no campo através das aldeias e por outro lado,
da recusa de reconhecer a legitimidade da autoridade dos notáveis locais linhagisticos e de
chefatura, a aplicação conjunta brutal e humilhante destas duas diretivas levou o velho chefe Mahia
a procurar afastar-se e colocar-se fora do controlo do Estado para em seguida consumar a ruptura
entrando em dissidência armada graças a Renamo. Embora os motivos da rebelião de Mahia sejam
os mesmos que levaram os outros chefes locais a fazer o mesmo, pouco tempo depois, no entanto,
as condições em que ele tomou a sua decisão de ruptura revestem um caracter excepcional. A tua
atitude radical tomada antes de pode contar com a protecção armada da Renamo, e a sua coragem,
explicam talvez o interesse que esta terá por ele e prefiguram o papel que terá o seu sucessor no
dispositivo político e militar local estabelecido pela Renamo.

Com efeito Mahia morre pouco tempo depois destes acontecimentos (em 1985), sucedendo-lhe o
seu sobrinho uterino que assume a sua identidade, o seu nome as suas esposas o seu épepa e todos
atributos do seu cargo, inclusive todas as consequências da iniciativa de revolta tomada pelo seu
predecessor e por sua vez organiza a participação da sua gente na guerra, onde vai posteriormente
se tornar chefe de guerra de todos os chefes locais que o seguiram na dissidência, com poderes
bastante alargados comparativamente com aos outros chefes que o seguiram na dissidência.

4. CHEFATURA DE UALALA E M’PAKALA

Ualala cujo território histórico se situa na margem norte do rio Mecuburi, tem um papel importante
na guerra. Em 1986, abandonou os seus domínios para estabelecer residência a sul do rio, no posto-
avançado de Namijaco, de que se tornou chefe.

As tensões políticas e sociais aldeãs que se verificaram ao norte de rio Mecuburi são análogas as
que motivaram a dissidência de Mahia a sul do mesmo rio, mas convêm no entanto abordar a
história da chefatura de M’Pakala, um chefe vizinho de Ualala, porque a sua participação na guerra

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significa a de toda Macuane a norte do rio. A norte da casa de Ualala a uma dezena de quilómetros
apenas, encontra-se a chefatura de M’pakala, este tem pela Renamo o mesmo sentimento de
simpatia que Ualala, em 1984 estabeleceu os primeiros contactos com a Renamo na mesma altura
que Ualala recebia os soldados da Renamo em complô na sua palhota.

O facto a reter nesta região é a diminuição da audiência das populações nas aldeias, onde algumas
mulheres idosas é iam assistir quando haviam, para as populações os rumores da guerra confirmava
as perspectivas duma evolução violenta para acabar com a situação de indignidade em que se
encontravam, a tal ponto que os responsáveis das aldeias só regime já se veem obrigados a
esconder-se para salvar as suas vidas, o que para administração fica evidente que os habitantes
estão prontos para entrar massivamente em dissidência, e M’Pakala é favorável ao sucesso da
iniciativa de subversão da população até que tirou seu épepa para as rezas., os responsáveis de
Namapa impotentes face ao regresso dos Mapéwé a cena politica e receosos dos efeitos da sua
magia, decidem prender o velho chefe, M’Pakala avisado das intenções das autoridades, foge para
o distrito vizinho de Memba, onde se refugia na casa de um dos filhos de sua esposa na aldeia
comunal de Ekopo, no território da chefatura de mpéwé Nivale. Mas lá ele é reconhecido e
informam as autoridades, estas pelas FAM (Forças Armadas de Moçambique) designam alguns
oficias para o distrito de Ekopo onde M’pakala vem a ser capturado sem nenhuma resistência e
conduzido a Namapa onde fica preso.

Por representar uma ameaça devido a sua importância, os oficias decidem transferi-lo para
Nampula, há relatos de uma coluna que uma manha sai para levar o velho chefe de Namapa, para
Nampula, mas M’pakala nunca chegou a Nampula e nunca mais ninguém o viu….

Alguns responsáveis que estavam em Namapa ignoravam o que tinha acontecido ao velho chefe,
mais depois atribuem responsabilidade a administração e do Partido, que os soldados mataram
M’Pakala, que este teria sido provavelmente sido fuzilado nas montanhas junto da estrada para
Nampula.

As consequências desta execução sumaria serão consideráveis. A morte do chefe na altura em que
uma rebelião surda amadurecia no seio das populações da região com a aproximação da
guerrilha, vai acelerar e em certos casos motivar a adesão à Renamo de todos os outros chefes de
Macuane, a norte do rio Mecuburi.

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Logo que souberam da morte do seu chefe os habitantes da chefatura de M’Pakala, partilham sua
indignação, e em conjunto decidem pegar em armas para se vingar. Entretanto os soldados da
Renamo se encontravam distantes, como não podiam enfrentar directamente as FAM, que
dispúnhamos de armas modernas, começam a vingar-se daqueles que entregaram o seu chefe
ao Estado e ao pelotão de execução, atacando as populações da chefatura de Nivale ou seja
os aldeões de Ekopo onde se tinha refugiado M’pakala. Por conta disso, de Mahopa partem
guerreiros armados de catanas e azagaias que espalham terror nas terras de Nivale, saqueiam as
habitações matam os fugitivos, pilham camiões, violam mulheres e raptam várias pessoas, em
resposta os homens de Nivale organizam-se e ao mesmo estilo invadem, matam, pilha, saqueiam
no território dos seus vizinhos, onde conseguem recuperar algumas mulheres raptadas por ocasião
das primeiras acções. Assim uma guerra com armas brancas, mortífera de civis de duas antigas
chefaturas, fora do controlo e sem intervenção directa das forças combatentes organizadas quer da
FRELIMO como da RENAMO.

Depois de uma acção de guerra que deu uma vantagem significativa aos homens de Nivale sobre
os seus agressores, a Renamo decide intervir no conflito, os homens de guerrilha, desta vez com
armas automáticas (Kalashnikov AK47) preparam uma armadilha as populações de Nivale. Os
seus uniformes permitem-lhes fazer-se passar por soldados das FAM, e pedem aos responsáveis
locais para prepararem uma visita do administrador no dia seguinte. Todas as populações de Nivale
são convidadas a estar presentes na reunião. Perante os camponeses são os soldados da Renamo
que se apresentam e não o administrador…

Segundo testemunho de Manuel Trinta:

Os bandidos chegaram e vieram directamente a aldeia de Ekopo. Eu vi-os com toda a população,
quando chegaram começaram a perguntar onde é a casa do administrador, as pessoas respondem
que não sabiam, então os soldados começam a ameaça-las, raptaram 97 pessoas, e mataram 9
com as armas, incendiaram as palhotas, alvejaram uma criança na perna que veio a ser socorrida
para hospital.

Por esse motivo Manuel trinta decide abandonar o distrito de Nivale e 5.500 pessoas o seguem em
direcção ao distrito de Alua deixando para trás as suas terras.

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Até o distrito de Eráti, a gente de M’Pakala cujos actos de guerra contra os seus vizinhos acabamos
de referir, organizaram-se para o combate depois de terem ido ao posto administrativo de Alua
para protestar e reclamar que M’Pakala fosse libertado, perante o fracasso dessa iniciativa, logo
de seguida perante evidencia da sua morte organizam primeiras operações contra a população de
Nivale, onde ainda sob a tentativa de libertar o seu chefe escrevem uma carta contendo o seguinte
segundo o secretario do comité Distrital Jerónimo N:

Nós sabemos que vocês mataram o nosso tio, mas não temos medo, vamos continuar a guerra,
vocês não deviam tê-lo morto, se quisessem, podiam tê-lo convencido a cessar as acções que ele
cometia. Por isso nós vamos continuar com a guerra. A morte de M‘pakala acelerou a guerra sob
direcção dos seus sobrinhos e filhos.

Segundo relatos de Latifa A:

Na altura em que M’Pakala foi preso, os bandidos estavam chegar a região só atacavam os
responsáveis administrativos e políticos, por isso as pessoas não fugiam e engajavam-se nas
fileiras pensando que era uma guerra justa, uma coisa boa. Foi nessa altura que ouvimos falar
da entrada em guerra dos chefes Muerimu, Namicolo, Caleia, quase todos os chefes para os lados
de Memba, Namicolo, populações de Meliva, Caleia etc.

Todos os territórios dessas chefaturas passa então para o controlo de guerrilha. Com essas últimas
alianças, o dispositivo politico, militar e demográfico resultante da polarização das populações
locais na guerra estabelece-se definitivamente, tomando a configuração que se observa ainda hoje.

5. TENTATIVAS DE CONVERSAÇÕES DA FRELIMO COM VISTA AO REGRESSO


DE ALGUNS RÉGULOS AS SUAS ZONAS DE ORIGEM

Muerimu é um dos principais chefes Eráti que dirigi a iniciação masculina em toda região e goza
a esse título de uma grande autoridade que nenhum outro chefe Eráti lhe poderia disputar, excepto
evidentemente o próprio Khomala.

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Muerimu é o único notável ligado a guerrilha que não pertence a Macuane. A sua chefatura fica
situada no limite ocidental da área controlada pela Renamo e foi a primeira, e a única, a entrar em
dissidência em todo o país Eráti. Uma dezena de outros chefes da tribo Eráti, pares de Muerimu e
seus irmãos, de mesma linhagem nobre do grande chefe Eráti Khomala, mantiveram-se fies ao
Estado da Frelimo.

Em 1987, houve negociações intensas entre representantes do Partido e Muerimu, com vista ao
seu regresso ao seio do Estado. As razoes que levaram Muerimu entrar em dissidência são as
mesmas das outras chefaturas, a sua posição rebelde face a administração, a sua ambição colocam
a guerra um cenário favorável para conquistar e exercer abertamente uma autoridade politica ainda
maior, mas independentemente da personalidade particular de Muerimu, as implicações
ideológicas e politicas da sua função e as circunstancias históricas e geográficas nas quais ele a
exerce são suficientes para pressentir a existência dum clima favorável a dissidência.

A influencia que exercia no seio da população era muito grande por parte de Muerimu, os próprios
membros da elite administrativa do distrito são, na sua maioria, originários do Pais Eráti, e
cresceram no respeito por Muerimu, que em muitos casos tinha dirigido as cerimonias da sua
iniciação. Também eles estão consternados pelo que se passa com o velho chefe e parecem sentir
por vezes uma espécie de compaixão e preocupação quando falam da sua aventura, fala até de
armadilha em que ele se deixou apanhar entrando em guerra ao lado da Renamo.

Essa atitude especial em relação a Muerimu é já, por si mesma, uma circunstância susceptível de
favorecer a recuperação do chefe dissidente. Tanto mais que é relativamente fácil contactar um
Muerimu e a sua gente, instalados nos limites da área controlada pela Renamo, mas será esperar
pelo ano de 1986 para que se crie uma situação realmente nova, que permitirá o início de
negociações. Gaspar Zimba Governador da Província de Nampula, estabelece orientações de que
os habitantes das aldeias devem voltar para os seus antigos territórios para cultivarem as suas terras
e tratarem das árvores de fruto (caju) que tinham abandonado alguns anos antes. Tal iniciativa
segundo Gaspar Zimba tinha como objectivo permitir que os produtores voltassem para as suas
antigas machambas, esta iniciativa permitia igualmente acalmar os conflitos sociais e políticos que
se desenvolviam no campo, na zona governamental, e que resultavam da subversão dos
procedimentos de controlo social do acesso a terra do dispositivo das aldeias.

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Foi nesse contexto que Antunes Mualama a mando das orientações do Governador Zimba tentou
contactar Muerimu e a sua gente, para os convidar as voltar a viver todos juntos e livremente junto
das suas arvores e das suas machambas, onde residiam antes da entrada da guerra.

Antunes M. – Eu pensei que podíamos fazer voltar essas pessoas, conforme as orientações da
província, de Sua Exa. O antigo governador Zimba. E pensei que processo da castanha de caju
poderia estender-se a todo o distrito do Eráti, incluindo as zonas perigosas. Nos queríamos
realmente que as pessoas controladas pelo inimigo viessem vender as suas castanhas, mas como?
As pessoas que vinham do outro lado eram maltradas aqui, interrogadas, presas e não sei que
mais…

… Várias tentativas foram impressas no sentido de trazer de Muerimu para a sua zona de origem
assim como para o lado da Frelimo segundo relatos abaixo de Antunes Mualama:

Antunes Mualama - … Então da terceira vez veio a rainha na loja de Nanthala como tínhamos
combinado. Nos oferecemos vestido, com uma blusa… oferecemos também duas calças e dois
casacos para Muerimu e dissemos-lhe para dizer que foi a Frelimo seus filhos quem oferecem e
que podiam vir viver onde viviam antigamente com a sua população. Isto foi dito em público…

… Mas o próprio Muerimu nunca vinha, pois lhe foi dito que ele tinha medo de ser morto tanto
pela Frelimo, como pela Renamo se descobrisse os seus contactos com a Frelimo. Mas foi um
incidente com um soldado bêbado da Frelimo que condicionou o fracasso dessas negociações,
pois ele tentou tomar medias unilateralmente contra um desses m’jibas que vinha da zona da
Renamo para vender castanha. Obrigou-o a vir para o interrogar sobre a guerra e ameaçou-o
mata-lo. Mas quando o m’jiba fugiu para base, certamente contou o que tinha acontecido… a
partir dessa altura o processo voltou para trás, as pessoas abandonaram a venda da castanha, e
deixaram de vir… Nunca mais tivemos contactos com Muerimu.

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6. CONCLUSÃO

Chegada a esta derradeira fase do trabalho o desfecho não poderia ser contrario a satisfação do
grupo de estudo, na medida que foi extremamente produtivo e esclarecedor acima de tudo a
presente temática, uma vez que enriqueceu de certa maneira algum conhecimento que trazíamos
antes sobre o tema que tem como titulo a teoria dos chefes sobre as origens da guerra.

Foi evidente que as motivações que levaram com que os chefes como a maior parte da população
entrar em dissidência contra o poder do Estado caracteriza-se por um dominador comum que
consiste no descontentamento generalizado pelo facto de os próprios chefes assim como as suas
populações serem obrigadas a viver de em aldeias comunais, portanto as suas motivações eram
mais do que profundas e suficientes e para que estes não tivessem hesitado em pegar nas armas
contra o poder do Estado.

Portanto como se viu no inicio a Rainha Yamaruzu interpreta a guerra apresentando como a
consequência do afastamento e da humilhação em que os chefes foram expostos pela Frelimo, da
devastação dos lugares do culto e da destruição dos objectos rituais, compreende-se facilmente a
indignação e a revolta dos dignatários, que eram os senhores desses lugares e os detentores do
conhecimento de que depende a eficiência desses objectos. E a dissidência levantada pelos régulos
era apoiada sem contestação pelas suas populações com destaque para os jovens que eram
recrutados pela Renamo que ficaram conhecidos com m’jibas, empunhados de armas brancas
como catanas, azagaias, arcos e flechas incluindo armas de fogo artesanais, enveredavam por essa
aventura assassina acreditando que a guerra que eles faziam era bela e justa, pois culpavam os
secretários das aldeias pela opressão a que estavam sujeitos.

Entretanto mais do que qualquer justificação, independentemente das motivações levantadas por
essas testemunhas que vivenciaram esta terrível experiencia principalmente para a população civil
que foi a maior vitima desta guerra civil, o importante foi a assinatura de paz que foi alcançada
entre a Frelimo e a Renamo em 1992 em Roma na Itália que pois fim a todas essas hostilidades
entre irmãos de um único Pais. E conduziu o pais para um novo cenário politico social e cultural
onde os valores da democracia, ou seja a liberdade, justiça, segurança, igualdade, são o alicerce
primordial de um Estado de Direito e Democrático vem em primeiro que qualquer ideologia
politica de um Partido.

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7. BIBLIOGRAFIA

Antropologia da Guerra contemporânea em Moçambique, Porto, apontamentos, 1991.

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