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homem

a história de um caminho rumo ao fim do pensamento


texto redigido com o apoio de uma bolsa individual de dissertação de mestrado da
Fundação para a Ciência e Tecnologia

referência
SFRH | BM | 20030 | 2004

títulos provisórios
Vox varius: da morte do objec to ao retorno da oralidade (2004)
Investig ações sobre o humanismo português (2005)

beneficiário da bolsa
Fausto André Cardoso

instituição universitária
Faculdade de Ciências Sócias e Humanas | Universidade Nova de Lisboa

área de investigação
mestrado em Ciências da Comunicação | variante Cultura Contemporânea e Novas Tecnologias

coordenador científico
Dr. José Bragança de Miranda

2 | 2 | 2007
gostaria de agradecer muito a Orlanda André pelo seu doce e incondicional apoio neste caminho,

ao Pedro Afonso pelas suas conversas sobre biologia e outras e a música, à Joana Lobo Antunes pelas suas
generosas aulas de bioquímica - e à Cristina Carvalhinho pela bd de física, Gonçalo Cabaça pelas imagens e Bino
pela serpente cósmica

muito obrigado querida Francesca Leali, Dina Campos e São Vicente por me ensinarem para além do pensamento e
mais

muito obrigado ao António Silva, ao Álvaro Medeiros e ao Pedro Monteiro por estarem sempre presentes

obrigado àqueles para quem dirijo esta tese (aquém do sonho, mas dentro do sonho):
Juliana Estevez, Paula Ferreira, Renata Estevez, Nuno Moreira, Catarina Santos, Claudia Giordani, Maria João
Taborda, Pedro Paiva, Sara Porto e João Porto
índice

foreword por D. H. Lawrence p. 5

o homem e o negativo
animal p. 9
anulação do animal p. 10
a máquina antropológica da biologia p. 13
a máquina antropológica da ontologia p. 15
um passo em frente com Bergson p. 18
que corpo p. 23

indivíduo p. 37
homo: a inteligência plena cria o pleno eu p. 39
uma partícula ontológica p. 47
do grito ao significado p. 50
uma condição psicológica p. 52

o homem e o espelho
mundo p. 63
que corpos qualquer coisa sobre a matéria p. 65
do nada ao tudo p. 69
caos qualquer coisa sobre a ordem p. 77
outras novidades do fim do milénio p. 83
elemento imponderável p. 88
vazio e qi p. 98

colectivo p. 109
princípios de criação do humano e inumano p. 111
a escrita e a história: do deus-natureza-polimórfico ao deus-papá-lei p. 115
o novo mundo de um só deus p. 120
o caminho do ethos p. 126

as histórias p. 137
nota:
homem. parece possível ainda não existir um único ser humano. existem mulheres e homens que em todos os cantos
do mundo tentam inventar o humano. esse receptáculo de um sonho maior do que nós. esta é uma análise da
história dessa invenção até hoje. e esse é um processo que por cá no ocidente ficou ensombrado por uma estrutura
baseada no poder económico-patriacal. a invenção do humano passa creio que na sua essência pela mulher e pelos
modelos de organização social não-ocidentais, no entanto, é das estruturas do homem ocidental que posso falar. é
que, até certo ponto, homem e ocidental é o que eu sou
foreword por D. H. Lawrence

The present book is a continuation from Psychoanalysis and the Unconscious. The generality of readers had
better just leave it alone. The generality of critics likewise. I really don’t want to convince anybody. It is quite in
opposition to my whole nature. I don’t intend my books for the generality of readers. I count it a mistake of our
mistaken democracy that every man who can read print is allowed to believe that he can read all that is printed. I
count it a misfortune that serious books are exposed in the public market, like slaves exposed naked for sale. But
there you are, since we live in an age of mistaken democracy, we must go trough with it.
I warn the generality of readers, that this present book will seem to them only a rather more revolting
mass of wordy nonsense than the last. I would warn the generality of critics to throw it into to the waste paper
basket without more ado.
As for the limited few, in whom one must per force find an answerer, I may as well straight off say that I
stick to the solar plexus. That statement alone, I hope, will thin their numbers considerably.
Finally, to the remnants of a remainder, in order to apologize for the sudden lurch into cosmology, or
cosmogony, in this book, I wish to say that the whole thing hangs inevitably together. I am not a scientist. I am an
amateur of amateurs. As one of my critics said, you either believe or you don’t.
I am not a proper archaeologist nor an anthropologist nor an ethnologist. I am no scholar of any sort. But I
am very grateful to scholars for their sound work. I have found hints, suggestions for what I say here in all Kinds
of scholarly books, from the Yoga to Plato and St John the Evangel and the early Greek philosophers like
Herakleitos down to Frazer and it’s Golden Bough, and even Freud and Frobenius. Even then I only remember
hints – and I proceed by intuition. This leaves you quite free to dismiss the whole wordy mass of revolting
nonsense, without a qualm.
Only let me say, that to my mind there is a great field of science which proceeds in terms of life and is
established on data of living experience and of sure intuition. Call it subjective science if you like. Our objective
science of modern knowledge concerns itself only with phenomena, and with phenomena as regarded in their
cause-and-effect relationship. I have nothing to say against our science. It’s perfect as far as it goes. But to regard it
as exhausting the whole scope of human possibility in knowledge seems to me just puerile. Our science is a science
of the dead world. Even biology never considers life, but only mechanistic functioning and apparatus of life.
I honestly think that the great pagan world of which preceded our own era once, had a vast and perhaps
perfect science of its own, a science in terms of life. In our era this science crumbled into magic and charlatanry.
But even wisdom crumbles. I believe that this great science previous to ours and quite different in constitution and
nature form our science once was universal, established all over the then-existing globe. I believe it was esoteric,
invested in a large priesthood. Just as mathematics and mechanics and physics are defined and expounded in the
same way in the universities of China or Bolivia or London or Moscow today, so it seems to me in the great world
previous to ours a great science and cosmology were taught esoterical in all countries of the globe, Asia, Polynesia,
America, Atlantis and Europe. Belt’s suggestion of the geographical nature of this previous world seems to me
most interesting. In the period which geologists call the Glacial Period, the waters of the earth must have been
gathered up in a vast body on the higher places of our globe, vast worlds of ice. And the sea-beds of today must
have been comparatively dry. So that the Azores rose up mountainous form the plain of Atlantis, where the
Atlantic now washes, and the Easter Isles and the Marquesas and the rest rose lofty from the marvelous great
continent of the Pacific.
In that world men lived and taught and knew, and were in one complete correspondence all over the earth.
Men wandered back and forth from Atlantis to the Polynesian Continent as man now sail from Europe to America.
The interchange was complete, and knowledge, science was universal over the earth, cosmopolitan as it is today.
Then came the melting of the glaciers, and the world flood. The refugees from the drowned continents
fled to the high places of America, Europe, Asia, and the Pacific Isles. And some degenerated naturally into
cavemen, Neolithic and palaeolithic creatures, and some retained their marvelous innate beauty and life-perfection,
as the South Sea Islanders, and some wandered savage in Africa, and some, like Druids or Etruscans or Chadeans
or Ameridians or Chinese, refuse to forget, but taught the old wisdom, only in its half-forgotten, symbolic forms.
More or less forgotten, as knowledge: remembered as ritual, gesture and myth-story
There is no natural r eligion

o argumento
O Homem só tem noção da propriedade moral através da Educação.
Por natureza ele é apenas um órgão natural sujeito aos Sentidos.

A.
I
O Homem só consegue percepcionar através dos seus órgãos naturais ou corporais.
II
Por meio da razão o Homem só consegue comparar e julgar aquilo que já percepcionou.
III
Da percepção de 3 sentidos ou 3 elementos ninguém consegue deduzir um quarto ou um quinto.
IV
Ninguém conseguiria ter mais do que pensamentos naturais ou orgânicos se apenas tivesse percepções orgânicas.
V
Os desejos dos homens estão limitados pelas suas percepções, ninguém pode desejar o que não percepcionou.
VI
Os desejos e percepções do homem, apreendidos apenas pelos órgãos dos sentidos, estão limitados a objectos dos
sentidos.

B.
I
As Percepções do Homem não estão limitadas aos órgãos da percepção, ele apreende mais do que os sentidos (ainda
que muito agudos) são capazes de descobrir.
II
A Razão, ou o rácio de tudo o que conhecemos, não é a mesma que há de ser quando conhecermos mais.
III
(omisso)
IV
O que é limitado é desprezado pelo seu possuidor. A fastidiosa volta, até mesmo de um universo, depressa se
tornaria num mero moinho com rodas engenhosas.
V
Se muitos ficam iguais ao que eram poucos, quando possuído – Mais! Mais! é o grito da alma enganada; menos que
tudo não satisfaz o Homem.
VI
Se alguém desejar o que é incapaz de possuir, o desespero há de ser o seu eterno destino.
VII
Sendo o desejo do Homem Infinito, Infinita é a posse & ele próprio é Infinito.

conclusão
Se não fosse pelo carácter Poético ou Profético, o Filosófico & o Experimental seriam em breve o rácio de todas as
coisas, & ver-se-iam paralisados, incapazes de fazer fosse o que fosse,
a não ser repetir a mesma volta fastidiosa uma e outra vez.

aplicação
Sendo o desejo do Homem Infinito, Infinita é a posse & ele próprio é Infinito.

Por isso
Deus vem a ser o que somos,
para virmos a ser o que ele
é
William Blake | 1788
animal

aqui se trata como o homem tentou historicamente separar-se dos restantes seres vivos
Individualmente o animal é a primeira negação do homem. Para haver homem é necessário suspender o
animal. Quando se diz que o homem é o animal consciente, está implícito que de entre todos os animais só um é
consciente – o homem. E esta asserção faz-nos sentir incalculavelmente superiores a qualquer outro ser vivo. Faz-
nos sentir que de facto somos algo que já não é da ordem do animal.
Mas esta suspensão não é apenas uma condição psicológica e emocional. É uma eliminação que actua
ferozmente sobre a realidade.

Em 550 milhões de anos, desde do momento em que a vida se desmultiplicou num polimorfismo imenso de
seres multicelulares 1, a biodiversidade aumentou contínua e exponencialmente com excepção dos períodos de
extinção com principal incidência nas passagens de era (do paleozóico ao mesozóico e do mesozóico ao cenozóico).

figura 1 – evolução do número de famílias do câmbrico até hoje

Os primeiros hominídeos 2 entram em cena (no Pliocénico) há apenas 5 milhões de anos com a
biodiversidade no seu cume. O hominídeo moderno aparece à cerca de 40 000 anos, ali no ponto final do diagrama –
aquela bolinha representa o início da mais específica das extinções em massa. São as chamadas extinções de
Pliocénico tardio explicadas aqui por Peter Bryant 3:

1
a designada explosão câmbrica: Até há cerca de seiscentos milhões de anos, não existiam organismos mais complexos que as bactérias, as algas pluricelulares e o plâncton
unicelular. Então, há 543 milhões de anos, no inicio do Câmbrico, num período não ultrapassando dez milhões de anos, criaturas com dentes, tentáculos e maxilares materializaram-
se tão subitamente como aparições. Numa erupção de criatividade sem precedentes e jamais repetida, a natureza parece ter delineado os planos para virtualmente a totalidade do reino
animal – (J. Madeleine Nash citada em Narby, p. 124)
2
termo que define as criaturas morfologicamente mais perto de um homem actual do que de um macaco
3
as citações em inglês que se seguem e as tabelas são retiradas do Capítulo 1 Introduction History of Life do livro em hipertexto de Peter J. Bryant Biodiversity and
Conservation

10
In late Pleistocene, during the last 50,000 years, there were mass extinction events in many different parts
of the world, involving at least 200 genera (plural of genus = a group of related species). But this was different
from previous episodes of mass extinction:

1. It was much more selective, involving mainly the megafauna: the large herbivores (mammoths, mastodons, huge
ground sloths, cave bears, woolly rhinoceros, other rhinoceroses, etc.) and the carnivores that fed on them, the dire
wolves and saber-tooth cats. There was no accelerated extinction of smaller terrestrial species, plants, or marine
organisms.

The following disappeared from America, Europe and Australia:


All herbivores > 1000 kg
75% of herbivores 100-1000 kg
41% of herbivores 5-100 kg
< 2% of herbivores < 5kg

2. It occurred at different times on different land masses:

Time of start of major extinction


episodes (years before present)
Africa and S.E. Asia 50,000
Australia 50,000
North Eurasia 13,000
North America 11,000
South America 10,000
West Indies 4,000
New Zealand 900
Madagascar 800

This excludes any global catastrophe or climatic change as an explanation.


In all of these cases except Africa, the extinctions occurred shortly after the first arrival of prehistoric humans.
The first humans were faced with animals that had evolved in the absence of human predators, and the animals
were probably easily overcome. Therefore, the most plausible explanation is that these extinctions were caused by
overexploitation by human hunters

A desmultiplicação acelerada dos hominídeos e a exploração maciça dos recursos naturais à sua disposição
levavam à invasão e à consequente extinção das outras espécies de estrutura similar. Só para fazer uma ideia há
apenas 12 000 anos atrás a paisagem na América do Norte era assim:

North America had an amazing Megafauna including condors with a sixteen-foot wingspan, ground sloths
as big as hippos, three kinds of elephants, three kinds of cheetah and five other kinds of big cat, several kinds of
pronghorn antelopes, long-legged, antelope-like pigs, an assortment of camel, llama, deer, horse, and bison species,
giant wolves, giant bears and giant armadillos. North America has been called a "super-Serengeti" with more big
animal species than you would find in Africa. But 11,000 years ago, nearly all of these big animals - 70 species or
95% of the megafauna - disappeared completely. This is exactly the time when humans (Paleo-Indians) colonized
North America, and their arrival and skill as hunters at that time is documented by the appearance of artifacts

Eis uma suspensão bem concreta do animal. E esta tendência tem uma vítima bem precisa – os mamíferos
de grande porte, ou seja, os nossos irmãos mamíferos (ou mais cientificamente a classe a que pertencemos 4). O
animal mais parecido connosco no espelho - aqueles que colocámos nesse espaço de espectáculo de demonstração do
poder do homem, de enclausuramento dos seus medos e de morte lenta a que chamámos jardim zoológico.

Entretanto é sabido que a coisa não melhorou.

4
o ser humano faz parte da ordem dos primatas (mamíferos com unhas e com o dedo polegar oponível aos outros) na classe dos mamíferos do sub-filo dos
vertebrados (animais que desenvolvem coluna vertebral, medula espinal e caixa craniana), filo dos cordados (animais com corda dorsal como esqueleto interno,
aparelho circulatório fechado, tubo neural, simetria bilateral e celoma) do reino dos animais (organismos pluricelulares heterotróficos que possuem em adultos
tamanho e forma fixa, efectuam movimento através de células moleculares, digerem e armazenam nutrientes)

11
Number of Endangered and Extinct Animal Species from the IUCN's Red List, 1996

Critically
Vulnerable Total
Class Endangered Endangered Extinct
threatened
Mammals 169 315 612 1096 89
Birds 168 235 704 1107 108
Reptiles 41 59 153 253 21
Amphibians 18 31 75 124 5
Insects 44 116 377 537 73
Other animals 471 423 1194 2088 343

imagem 2 – quadro de espécies animais em perigo de extinção e registadas extintas (desde 1642)

É preciso ter em conta que actualmente já só contamos com 4 000 espécies de mamíferos e 9 000 de
pássaros. O que significa então que cerca de um quarto dos mamíferos está em perigo de extinção.

O quadro seguinte dá-nos agora uma ideia dos usos destes corpos hoje:

Reported U. S. imports of wildlife per year (1980 – 1985)

Type Product Declared


value ($millions)

Primates 12-14,000 live (mostly for biomedical 1.2


research)

Furs 6 million raw skins 0.5-1 million 800


manufactured products

Ivory 5,000 raw tusks 4-6 million worked or carved 20-30


products

Birds 800,000 live 15

3-500,000 live 2-4 million skins 15-20


Reptiles million manufactured products 200-250

Fish 125 million 25-30

Shells 12-15 million raw shells 50 million 13


manufactured products

Corals 1,000-1,500 tons raw coral 2-3 million 5-6


manufactured products

Cacti 1-2 million whole plants N/A

Orchids 3-500,000 whole plants N/A

Source: World Wildlife Fund, U. S. Department of the interior

imagem 3 – tabela de importações comerciais de animais selvagens para os EUA (média anual dos anos 1980-85)

12
Os únicos animais de grandes porte em grande quantidade são os que domesticamos (espécies que foram
sendo construídas ao longo do tempo) para abate: mantendo-os em cativeiro enquanto esperam a morte que os
levará a uma prateleira de um supermercado. Fazendo juz à nossa história recente de hominídeos continuamos a
fazer com os outros animais o mesmo de sempre: a comê-los e usar os seus restos mortais para ornamentação e jogo
– formas de demonstração do poder da espécie.

Também mantemos, mas de forma bem mais extremizada, a nossa tendência para a sobrepopulação e
destruição do habitat através do consumo voraz dos recursos seguida de mais ocupação do espaço. Ou seja, aquilo
que definimos como extinção do pliocénico tardio é um processo ainda em curso Nesse sentido é relevante ter em
conta que destruímos floresta tropical ao rácio de 60 000 km 2 por ano 5. Do total de floresta tropical original do
planeta terra foi destruído cerca de 44%. Outro dado importante é que desde 1642 6, 245 espécies de plantas
vasculares foram registadas extintas.

A luta com o animal como ideal de construção do humano desenvolve-se essencialmente a partir das duas
disciplinas antropocêntricas de análise dos corpos viventes: a filosofia (inicialmente apenas encarregue do homem) e
a biologia (do animal). Ambas apresentam-se desde a génese como máquinas de construção de um ideal
antropológico recorrente do fechamento do homem (e do seu pensamento) em si mesmo.

a máquina an tropológica da biologia

No que concerne a existência do homem tudo começa no animal, ou no que resta dele. Nessa doença mortal
do animal (Kojève) onde começa e acaba o homem. A verdade é que o homem para ser o que considerou ser homem
teve que separar-se do animal.
Assim, desde o início dos tempos da história do humano que a grande negação era o animal – e isto não só
porque iniciavam as tentativas de separação consciente - mas porque o animal era o principal promotor da vida e da
morte do hominídeo que começa a compreender o que lhe rodeia cada vez mais. Quanto maior a sua compreensão,
mais se distancia do mundo, da natureza, do animal, mais vê no animal a sua própria morte – física e transcendente.
O animal é o irmão maldito num espaço contínuo de mistérios que empurram para a morte. Daqui também
nasce Deus. Daí os deuses animais e deuses cósmicos originais. Deus segue a negação em que consiste o animal, mas
nos termos do colectivo. Deus, animal, morte e vida. Uma mistura indelével e incomportável para o ambicioso
hominídeo. Ele não consegue parar o seu movimento, nem o seu pensamento. Através da estratégia e da técnica
conquista o espaço e vai esgotando os seus recursos. A disseminação torna-se também uma forma de controlo.
Mais tarde a matéria torna-se mais formalizável nas suas mãos. Menos surpresas acontecem – o espaço e
os seus respectivos perigos diminuem. Nasce o homo faber que reina até hoje 7.

Os percursos da máquina conceptual de separação do homem do animal são vários e foram


exponencialmente se adensando quanto maior o pensamento e a sua arrogância própria. A ciência pela posição na
qual ela própria se coloca (como formadora da realidade real), obviamente está sujeita a ser a que mais longe vai nos
seus erros (e infelizmente nas consequências nefastas das suas visões fantasiosas), tal como a sua irmã gémea: a
religião como instituição. Basta relembrarmos que o evento que levou mais longe as potencialidades do mal – bem
espelhado nos depoimentos e imagens de Auschwitz - formou-se a partir de um ideal de supremacia biológica e
explorou ao máximo a inumanidade da experimentação científica sobre os corpos.

No campo do saber a biologia vai ocupar o lugar de acção do pensamento por excelência da máquina
antropológica.
No século XVII esta disciplina estava tão longe da vida ao ponto de considerar que ela formava-se
continuamente do nada - por exemplo, o biólogo Van Helmont chegou a defender em 1652 que os ratos eram:
formados pela acção recíproca de grãos de trigo com roupa suja. É curioso lembrarmo-nos que a biologia da abiogénese,
em vez de contrariada, foi confirmada por Leewenhoek já com utilização dos primeiros microscópios e só depois de
2000 anos de Aristóteles é que Joblot e Pasteur conseguiram comprovar que um ser vivo nasce de um ser vivo. E
assim ainda estamos presos nesta racional, contudo estranha proposição:
que a vida nasce da própria vida

5
This is mainly due to slash-and-burn agriculture in areas of high population growth, in which small areas are cleared and used for a few years until they become infertile, and then
more acreage is cleared (Bryant, chapter 1)
6
altura em que se começou a criar bases de dados sobre o desaparecimento de espécies
7
num período em que a cibernética o põe perante o perigo de ser suplantado e tornar-se faber homo

13
Mas recuemos um pouco e, seguindo o percurso de Giorgio Agamben em L’aperto, vejamos o fragmento
final da história da máquina antropológica até ao seu colapso conceptual:

cena 1
Tudo estava bem no reino animal antropocêntrico até que, de repente, um símio numa gaiola faz irritar o
cientista Carl von Linné com Descartes. Para Linné, o filósosfo francês certe non vidit símios 8. O pai da taxonomia
animal moderna não conseguia encontrar grandes diferenças entre ele (ou Descartes) e um qualquer símio.
De repente, o espaço vazio entre homem e animal torna-se incompreensível e evidencia a precariedade do
humano e obriga-o a definir o seu espaço fora da animalidade como algo que não é dado biologicamente.
Trata-se no fundo de uma ironia brutal do conhecimento, é no centro de esforço de separação do homem
do animal que o homem percebe que sempre precisou de considerar-se o máximo da evolução animal - embora não o
admitisse, pois a sua superioridade tinha que ser de natureza - e agora não é animal nem homem. Mais
precisamente, é demasiado homem e demasiado animal para ser o que quer que seja.

Por isso, Agamben separa homem do humano como se homem fosse uma classificação de um animal em
potência que se concretiza só no acto de ser humano:

o homem é o animal que deve reconhecer-se como humano para sê-lo (Agamben 5, p. 33)

Linné dividia o homem dos outros primatas apenas através de duas formas: os espaços vazios entre os
dentes e um certo favoritismo de Deus. Mas Deus (pelo menos o Deus a que parecia referir-se Linné) deixa de fazer
parte das nossas divisões. O século XIX, trata disso definitivamente com o evolucionismo.

cena 2
Não é por acaso que o decisivo rombo a este Deus da Igreja Apostólica Romana surja com a recolocação do
problema do animal na sua relação com o homem que surge tardiamente na mente de um jovem nas ilhas de
Galápagos. É interessante constatarmos que o saber da biologia provocou duas heresias simultâneas: aproxima-nos
do animal e distancia-nos de Deus. Pensar que um homem era uma pequena evolução de um macaco só podia
provocar o mais profundo repúdio em quem tinha tido tanto trabalho ao longo de séculos em superiorizar-se em
relação aos restantes seres vivos. E é por isso que, mais do que a própria religião, é a sua outra face – a ciência – de
onde partem os mais vigorosos ataques ao evolucionismo de Darwin 9.

cena 3
A máquina antropológica surge em toda a sua força dentro do próprio evolucionismo. O seu mais
orgulhoso indutor foi Ernst Haeckel que iniciou esse tortuoso percurso no sentido do escorregadio missing link
(sprachloser Urmensch). Se o homem está anatomicamente separado de Deus (em princípio ainda o de Linné) agora
surge inevitavelmente ligado ao macaco na sua evolução – evitar a desonra consistia em encontrar o momento em
que o macaco se transforma em homem

para assim o homem poder mais uma vez estar separado de todo o passado no seu trono de puro ser superior

Haeckel introduziu como pura especulação um novo estádio (Pithecanthropus alalus) a que deu a designação
(parece ironia) de homem-macaco (Affenmensch). Mal foi descoberto em 1891 um crânio mais parecido ao do homem
(Pithecanthropus erectus), Haeckel regozijou perante a descoberta do que considerava ser o missing link - quantas
vezes se repetiu mais tarde este equívoco.
Mas a verdade é que o próprio Haeckel reconheceu que o elemento discriminante entre homem e macaco,
não era um crânio ou qualquer outra prova anatomico-paleontológica, mas a linguagem. Ou seja, se nem os vazios
entre os dentes nem a presunta predilecção de um Deus entretanto perdido não são discriminantes suficientes (ou
seja, se se admite a igualdade física do corpo e a igualdade metafísica das almas animais – o animismo), aquilo que
nos difere do macaco está essencialmente do que sai da nossa boca – composição e utilização de um sistema de
comunicação baseado na palavra.

8
citado em Aganbem 5, p. 30 – originalmente numa nota de Systema naturae, sive, Regna tria naturae systematice proposita per classes, ordines, genera & species, Haak,
Lugdini Batavorum, 1735
9
Por outro lado, no âmbito da religião oficial do ocidente, Deus enganara-se precisamente onde não poderia: na criação do homem. Adão desaparece onde aparece um
símio. A desconfiança generaliza-se imediatamente. E o ateísmo afirma-se como nova religião. Depois veio o existencialismo, o nihilismo, etc, etc. Fernando Pessoa:
Nasci num tempo em que a maioria dos jovens tinha perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os maiores os haviam tido – sem saber porquê (Soares, Bernardo, O livro do
desassossego, Assírio e Alvim, Lisboa, 2005, frag. 1)

14
cena 4
Heymann Steinthal é o linguista que vai tentar então explicar como é possível para o homem tornar-se
homem a partir da linguagem, ou melhor, identificar no complexo preceptivo do homem (em oposição, claro, ao seu
antecedente evolutivo) aquilo que permite a aparição da linguagem e, consequentemente, a formação do que
realmente é humano.
Foi então que aconteceu um caso sublime de honestidade intelectual: o próprio Steinhal identifica o círculo
retórico do pensamento subjacente à sua própria tentativa – ele apercebe-se do centro paradoxal do seu projecto,
pois viciara o jogo ao colocar o estádio pré-linguístico da intuição (que conduziria à linguagem) como já sendo parte
do homem.

Analisemos então o percurso do infantil homem-deus do pensamento ocidental:

fase1:
somos um ser superior porque deus nos criou antes de todas as criaturas – isto é bom porque põe-nos efectivamente
acima de todos os outros seres que incidem na matéria e que percepcionamos; mau por que não permite o total antropocentrismo
– o pai ao criar-nos é-nos obrigatoriamente superior e isso pesa

fase2:
o pai mentiu-nos e nós somos o resultado de uma evolução animal – isto é bom porque podemos libertarmo-nos
finalmente do pai – se ele mentiu aqui, talvez tenha mentido no resto, na verdade já nem o vejo (conclusão: ele esteve sempre
ausente, enganei-me a mim mesmo – estou sozinho, percebi a verdade e domino-me a mim e posso dominar sem culpa o
mundo); a parte má é que algo me prende indelevelmente à terra (já não sou o ser especial, mágico e com potencialidades de
transcendência metafísica), sou pouco mais que um macaco e nem o facto de eu o ter dizimado (e potencialmente até à extinção)
pode mudar isso

Hoje o mundo ocidental vive no seu burguesismo a depressão decorrente da fase2.

a máquina an tropológica da ontologia

A filosofia nasce como o amor ao conhecimento da vida, da vida humana entenda-se, ou melhor, da
organização do universo mental da existência humana (e é interessante constatar como os pré-socráticos
preocupavam-se com o homem mais na sua relação com o universo 10). Se, como Haeckel reconheceu, o problema
coloca-se ao nível da linguagem – a filosofia ocidental baseia-se precisamente no nó entre linguagem e existência –
a ontologia. Todo o nosso pensamento se gere identificando o ser e o não ser, o sim e o não. Daí ser um pensamento
da moral e do transcendental. Eu versus o outro. A terra versus o Céu. Bem versus mal.

(Lao Zi:

no mundo todos julgam saber o que faz a beleza ser a beleza


- daí a fealdade
todos julgam saber o que faz o bem ser bem
- daí o não bem)

E também um pensamento lógico. Um sim oposto a um não, um 1 oposto a um 0, permite a organização do


matemático. Por isso é que a filosofia como a concebemos hoje no ocidente é a criação conjunta de Aristóteles
(lógica da) e Platão (moral transcendental).

A filosofia ocidental antes da fase2 atinge o seu apogeu com o discurso cartesiano (e com um outro legado
fundamental de certa forma em oposição: a Ética de Espinoza). Depois divide os seus objectivos, ou melhor,
mantém-se unos em 3 caminhos com uma tendência mais vincada:
1. o caminho de tendência para a lógica desemboca no processo triádico de tese-antítese-síntese hegeliano
2. a tendência para a moral apresenta a sua melhor tentativa com o diálogo (fusão da razão pura com a
razão moral) através da estética kantiana
3. o transcendental é levado ao seu extremo com a anulação de deus e o super-homem nietzschiano

10
alguém disse: se soubéssemos o que teria acontecido para além do que, na realidade, tem de acontecer, diríamos haver razões para acreditar num maior equilíbrio do pensamento e
da civilização ocidentais caso tivéssemos trocado Aristóteles por Heráclito na altura da cerimónia da colocação da primeira pedra deste edifício europeu em ruínas

15
Mas o problema mantinha-se o mesmo: o ser, o ser-homem – ontologia. Ser homem, ser deus. No fundo, o
problema de sempre (desde a chamada consciência) – o deus no homem, o homem no deus. Pela via da separação do
homem a tudo (a começar pelo animal) e a sua fusão com Deus até à anulação do último. Consciência como forma de
poder. Eis a descrição mais precisa de homem (aqui vale a pena recordar que homem não é toda a humanidade).

Se há de facto algum pensador que levou ao extremo o pensamento onto-lógico ocidental, esse pensador
foi Heidegger 11. O título O Ser e o Tempo diz tudo. Ele faz essa tentativa megalómana e impossível de reunir lógica,
moral e transcendental. (E essa tentativa é claramente impossível porque tentada como acto teórico-racional, como
livro, como pensamento escrito lógico, como tese).
Se dentro do quadro da razão a ontologia é levada ao seu extremo, na sua relação directa proporcional,
assim acontece com o binómio linguagem e existência. A linguagem é a morada do ser. Haeckel, o biólogo, limita-se
apenas a dizer que é a linguagem que determina a passagem do macaco ao homem.

E assim, e não por acaso, Heidegger desde o início que precisa de separar o homem do animal. E (também
não é coincidência) vai apoiar-se precisamente no biólogo mais importante em toda esta discussão – Jakob von
Uexküll – que foi precisamente o causador do principal rombo na máquina antropológica.
Em 1934, o biólogo alemão publica um pequeno livro que introduz decisivamente a questão da percepção e
finalmente destrói a ingénua visão antropomórfica do animal através da separação entre Umgebung e Umwelt.

Um golpe de vista pelos insectos voadores, como as abelhas, os zângãos e as libélulas, que se agitam num prado
florido, desperta sempre em nós a impressão de que o Mundo inteiro se mantém aberto a estes seres tão invejáveis. Até os
animais adstritos á terra, como as rãs, os ratos, os caracóis e os vermes parecem mover-se livremente na Natureza livre.
Esta impressão, porém, é enganadora. Na verdade, cada um destes animais, que se movem livremente, está preso a um
determinado mundo que ele habita e cujos limites compete aos ecologos pesquisar.
À priori, não temos a menor dúvida de que existe um mundo imenso que se desdobra ante os nossos olhos e do qual
cada animal destaca o mundo que habita. Aparentemente, cada animal dentro do mundo em que vive, depara com um grande
número de objectos, com os quais mantêm relações mais ou menos estreitas. Daqui parece resultar automaticamente, para cada
biólogo experimental, que a sua missão é colocar diferentes animais perante o mesmo objecto, a fim de estudar as relações entre
animal e objecto, operação em que o mesmo objecto serve de padrão em todas as experiências com animais.
Assim, os investigadores americanos, em milhares de experiências, iniciadas com ratos brancos, têm procurado
incansavelmente examinar os mais diversos animais, nas suas relações com um labirinto. A mediocridade dos resultados obtidos
com estes trabalhos, executados, alias, segundo o mais rigorosos métodos quantitativos e os cálculos mais perfeitos, podia tê-la
previsto quem se desse conta de que é falsa a pressuposição implícita de que um animal pode alguma vez entrar em relação com
um objecto (Uexküll, p. 115)

Percebemos então que o espaço objectivo em que nós vemos um ser vivo (Umgebung) não corresponde ao
mundo-ambiente (Umwelt) que esse ser vivo percepciona. Um objecto só existe na medida em que se apresenta na
forma precisa com que algo se encaixa no campo limitado dos sentidos de cada ser.
Ou seja, a natureza é habitada por um conjunto de seres fechados no seu mundo-próprio - entre os quais o
homem. Não existe um espaço e um tempo unitário entre todos os seres vivos e, acrescentaríamos, muito menos
com uma unidade baseada naquilo que é a percepção do homem.
Cada espécie reage a determinados e muito precisos portadores de significado (Bedeutungsträger). Essa
reacção é da ordem do reflexo. Cada receptor admite determinadas influências exteriores que resultam em precisas
acções de movimento. Exemplo:

No caso das borboletas nocturnas é perfeitamente indiferente que o som a que os animais estão submetidos, seja o
produzido por um morcego, ou o resultante do atrito de uma rolha de vidro: a acção é sempre a mesma. Aquelas borboletas
nocturnas que em virtude da sua brilhante coloração são bem visíveis, afastam-se, voando, pela acção de sons altos, ao passo que
as que possuem colorações dissimuladoras se aproximam deles. A mesma nota ou sinal provoca resultados opostos. A alta
conformidade com um plano patenteia-se nos dois modos opostos de comportamento. Não pode tratar-se aqui de qualquer
discriminação ou intenção, pois que nenhuma borboleta nocturna jamais viu a cor do seu próprio tegumento. O que há de
pasmoso na conformidade com um plano torna-se neste acaso ainda mais impressionante ao verificarmos que a engenhosa
estrutura microscópica do órgão da audição da borboleta nocturna é exclusivamente receptiva destes sons altos emitidos pelo
morcego. São absolutamente surdas para os outros sons (idem, p. 65)

11
E tanto no seu pensamento como na sua vida encontramos a potência e a fraqueza deste espírito essencialmente europeu. Não por acaso os três grandes filósofos
(essa estranha profissão do pensamento) que marcaram a 2ª metade deste século – Deleuze, Agamben e Foucault – promovem nos seus escritos (numa relação de
amor-ódio mais ou menos explícita) num constante diálogo com o alemão

16
imagem 4 – os saltões de fenos imersos no seu portador de significado – o som

[A imagem desenhada do livro original representa a experiência com saltões de fenos. Num quarto, diante
de um microfone receptor, coloca-se um exemplar vivo a fretenir, um fêmea. Se num outro quarto se puserem machos próximo
de uma coluna emissora, estes ao ouvirem o som emitido do fretenir da fêmea, aproxima-se da coluna, sem darem atenção a
uma outra fêmea que frenete sob uma campânula de vidro. A imagem óptica não exerce qualquer acção (idem, p. 67)]

Cada ambiente é uma unidade fechada em si mesma onde há uma simbiótica continuidade entre o animal e os
seus Bedeutungsträger que provoca uma cegueira aos restantes elementos preceptivos de forma radical (esta ideia é
importante, pois está na génese da ideia heideggeriana de pobreza do mundo no animal). Esta é uma verdade válida
para a experiência humana. Tempo e espaço efectivamente como construções diferenciadas segundo as máquinas
perceptivas fisiológicas de cada ser.

(A verdadeira e determinante pergunta seria: como a borboleta é cega à diferenciação do ser produtor do som,
ao que é que nós somos cegos? 12)

A abelha, a libélula ou a mosca que observamos voar à nossa volta num dia de sol, não se movem no mesmo mundo
onde as observamos, nem partilham connosco – ou entre elas – o mesmo tempo e o mesmo espaço. Não existe uma floresta
enquanto ambiente objectivamente determinado: existe uma floresta-para-o-guarda-florestal, uma floresta-para-o-caçador,
uma floresta-para-o-botânico, uma floresta-para-o-viajante, uma floresta-para-o-amigo-da-natureza, uma floresta-para-o-
lenhador e ainda uma floresta onde se perde o capuchinho vermelho (idem, p. 77)

Reformulando a terminologia de Uexküll, Heidegger fala (nos seus cursos entre 1929 e 1930) de um
animal que estabelece a sua relação com os desinibidores (Enthemmende - termo substitutivo de Bedeutungsträger)
através da vertigem (Benommenheit) que o absorve inteiramente. É deste modo que Heidegger pode começar
cautelosamente por separar o animal da pedra - o animal apresenta uma abertura em contraposição à pedra que
existe sem mundo.
Mas nessa abertura do animal o ente mantém-se inacessível, o animal não tem um mundo, tem
simplesmente o desinibidor, tal é a forma avassaladora com que é absorvido por este. Ou seja, a sua relação com o
desinibidor é a causa da sua abertura ao mundo, mas também a causa do seu fechamento - o animal é pobre de mundo
porque é aberto a tê-lo, mas não chega a tê-lo porque não pode aferrar o desinibidor como ente em si.

12
no filme Mothman Profecies, a personagem Richard Gere pergunta a um especialista em seres do outro mundo porque é que estes seres superiores não avisam as
catástrofes simplesmente falando normalmente connosco. Ele respondeu: Tu és superior a uma barata, não és? Alguma vez tentaste falar normalmente com uma?

17
O problema aqui é a ideia do desinibidor como ente em si, ou seja, o pressuposto que o mundo abre-se no
momento em que se os seu constituintes revelam-se como ente. [E Lévinas avisa-nos: o pensamento ocidental consiste
em não entender o ser senão como fundação do ente. (A filosofia, toda a filosofia não foi senão linguagem do ser, ela é a
modalidade pela qual o ser pode dizer-se; porque há uma linguagem silenciosa do ser a que o homem responde) 13 ]

Agamben perante este dilema afirma: Ma poiché questo avere è l'essere aperto per il disinibitore, e tuttavia a
questo essere è sottrata proprio la possibilità dell'aver rivelato il disinibitore in quanto ente, per questo l'avere dell'essere aperto
è un non-avere, e precisamente un non-avere un mondo, se è vero che al mondo appartiene la rivelabilità dell'ente come tale
(Agamben 5, p. 59). Se é verdade que o mundo pertence a revelação do ente como tal...

Mas o objectivo de Heidegger é o de estabelecer muito claramente a separação entre a experiência do


mundo do animal como (Weltarmut ) pobreza do mundo e a do homem como (Weltbilden) formador de mundo como
forma de dissolver o conceito de origem metafísica (e biológica) de animal racional – Heidegger sabe que o homem
não é simplesmente um animal com o acréscimo da razão.

E Agamben continua justamente confuso: Heidegger sembra qui oscilare fra due poli opposti, che ricordano in
qualche modo i paradossi della conoscenza - o piuttosto dell'inconoscenza - mistica. Da una parte lo stordimento é una
apertura più intensa e trascinante di qualsiasi conoscenza umana; dall'altra esso, in quanto non è in grado di svelare il proprio
disinibitore, è chiuso in un'opacità integrale. Stordimento [Benommenheit que traduzimos por vertigem] animale e apertura
del mondo sembrano così stare in raporto fra loro come teologia negativa e teologia positiva, e la loro relazione è altrettanto
ambigua di quella che insieme oppone e lega in una segreta complicità la notte oscura del mistico e la chiarità della conoscenza
razionale (idem, p. 62-63)

Langeweile é o conceito-chave para a passagem do animal ao homem. É o tédio para Heidegger que
demonstra ao homem num espaço de negatividade a possibildade de suspender o desinibidor. O processo produz-se
em duas fases: na primeira, o homem experiencia o ser-deixado-vazio, onde estamos presos no tédio, não nos
desprendemos ou estamos por qualquer razão constringidos ou vinculados a isso e tal experiência é a do Dasein
imerso no ente que se refuta na sua totalidade - e aqui Heidegger estabelece o paralelo com o animal que na
vertigem (Benommenheit) também está exposto ao não-revelado, por outras palavras, ambos estão abertos a um
fechado; na segunda fase, apresenta-se o Dasein como ser-mantido-em-suspenso, onde na sua recusa explicita as
possibilidades de ser que não utiliza.

La noia profonda appare allora come l'operatore metafisico in cui si attua il passaggio della povertà di mondo al
mondo, dall'ambiente animale, al mondo umano: in questione è, in essa, nulla di meno che l'antropogenesi, il diventare Da-sein
del vivente uomo (o, come scrive anche Heidegger nel corso, questa assunzione da parte dell'uomo del fardello che è, per lui, il
Dasein), non apre su un spazio ulteriore, più ampio e luminoso, conquistato al di là dei limiti dell'ambiente animale e senza
relazione ad esso: al contrario, esso è aperto solo atraversso una sospensione e una disativazione del rapporto animale con il
disinibitore (idem, p. 71)

Dentro deste quadro é possível afrontar mais consistentemente o famoso e mal interpretado termo Dasein:

Da-sein é uma palavra-chave do meu pensamento, e por essa mesma razão, produtora de graves equívocos. Para
mim, Da-sein não significa mais do que, se posso exprimi-lo num francês talvez impossível, être-le-là. E le-là é precisamente
!"#$%&': desvelamento – abertura 14

O Da é !"#$%&' porque produz um espaço de abertura entre o aqui e o lá que confere a possibilidade de ser
(Da - Sein). E aqui fica patente que esforço ontológico de Hedegger incide essencialmente sobre o transcendental.
Trata-se de passar para lá. Ser o lá. E o ser lá encontra-se na possibilidade de abertura ao mundo patente no
homem.

Com o aborrecimento profundo que o homem destaca-se do animal ao perceber a sua própria absorção nos
seus portadores de significado e nesse processo apercebe-se das possibilidades de ser que não está a ser, ou seja, o
seu próprio fechamento.
E é por isso que em Ser e Tempo o ponto de partida de abertura do ser é uma tonalidade negativa (a
Stimmung fundamental) –

a angústia

13
Lévinas, Emmanuel, Deus, a morte e o tempo, , Almedina, Coimbra, 2003, p. 136-37
14
Heidegger em carta a Jean Beaufret de 23 de Novembro de 1945 traduzida em Lettre sur L’humanisme, Paris, 1964, p.182 (citado em Agamben 1, p. 11)

18
um passo em fr ente com Bergson

Mas neste percurso para entender antes demais a consciência do animal (e, se calhar então a do homem) é
preciso perceber as formas da vida tomou - mais do que os presuntos e muito falados processos psicológicos de
animais e homens.

Os seres vivos não são confinados ao animais. Existem outros 4 reinos: monera, protista, fungi e plantae. Os
dois primeiros apresentam uma variedade de organismos unicelulares desde as bactérias (o tipo de organismo mais
abundante na Terra) até às diatomáceas (que realizam a maior parte da actividade fotossintética que ocorre na
Terra). O terceiro agrupa os seres mais estranhos: são formados por micélio (conjunto de filamentos designados
hifas) em estrutura cenocítica (organismos multinucleados, sem limites celulares definidos), são os cogumelos e os
fungos (como o bolor) – os principais decompositores (juntamente com as bactérias) e, como tal, tão essenciais para
a manutenção das formas superiores de vida como os produtores de alimentos.

O seguinte quadro dá-nos uma ideia das divisões tendo em conta horizontalmente a questão da
subsistência - e é absolutamente revelador ver o cordado homem no topo da linha da designação consumidor - e
verticalmente a temporalidade:

imagem 5 – quadro taxonómico de Whittaker

nota A.
o élan vital
(apropriação da matéria através da vida)

A vida é essencialmente uma força antiga que foi-se desmultiplicando e complexificando ao longo de mais
de 3 mil milhões de anos. Segundo Bergson 15 fragmenta-se em indivíduos e espécies por duas razões:

1. a resistência que a vida encontra por parte da matéria inerte


2. e a força explosiva – devido a um equilíbrio instável de tendências – que a vida contém em si.

15
todos os excertos que se seguem são retirados dos capítulos 1 - Da evolução da vida: mecanismo e finalidade e 2 – As direcções divergentes da vida: torpor, inteligência,
instinto de A evolução criadora (Bergson, p.59-87 e p. 95-159)

19
A resistência da matéria inerte foi o primeiro obstáculo que teve de ser removido. A vida parece tê-lo conseguido à
força de humildade, fazendo-se muito pequena e insinuante, torneando as forças físicas e químicas, consentindo mesmo fazer
com elas parte do caminho

Aproveitando relações electroquímicas ter-se-ia manifestado nos primeiros organismo unicelulares. Para
após milhões de anos finalmente a sua força explosiva apresentar-se em toda a sua potência. E creio que podemos de
facto ver hoje a explosão câmbrica como sendo esse ponto temporal. Há cerca de 500 milhões de anos atrás a vida
desmultiplicava-se numa imensidade de formas multicelulares 16, libertando-se formalmente para desenvolver-se a
partir de várias tendências em relação com a multiplicidade do ambiente que as circundava, mas unidas num mesmo
esforço evolutivo.

Obviamente que isto implica uma discussão sobre o evolucionismo. Tentemos analisar como Bergson
consegue fazer uma crítica subtil ao mecanicismo - o vencedor da luta ideológica científica - sem cair no finalismo
puro a partir da sua teoria do élan vital:

A ideia darwinista de uma adaptação que se efectua pela eliminação automática dos inadaptados é uma ideia simples
e clara. Em contrapartida, e precisamente porque atribui à causa externa, directora da evolução, uma influência inteiramente
negativa, ela tem dificuldade em explicar o desenvolvimento rectilíneo e progressivo de aparelhos complexos. Como explicar a
identidade de estrutura de órgãos extraordinariamente complexos em linhas de evolução divergentes ? 17
Os neodarwinistas provavelmente têm razão, pensamos nós, quando afirmam que as causas essenciais da variação são
as diferenças inerentes ao germe de que o indivíduo é portador, e não as experiências desse indivíduo no decurso da sua vida.
Onde nos é difícil seguir esses biólogos é quando consideram as diferenças inerentes ao germe como puramente acidentais e
individuais. Não podemos deixar de acreditar que elas são o desenvolvimento de uma impulsão que passa de germe para germe
através dos indivíduos, que não são, por conseguinte, puros acidentes, e poderiam muito bem aparecer ao mesmo tempo, sob a
mesma forma, em todos os representantes de uma mesma espécie ou, pelo menos, num certo número deles. Para já, aliás, a teoria
das mutações modifica profundamente o darwinismo neste ponto. Afirma que num dado momento, após decorrido um
longo período, a espécie inteira tem uma tendência para se alterar. Portanto, a tendência para se alterar não é acidental

Deste modo, compreende-se talvez melhor a posição dos neolamarkianos na sua defesa quantos às causas
de ordem psicológica no decurso da evolução e como posta de parte de forma algo leviana.
A proposta de Bergson apresenta-nos um percurso evolutivo onde o élan vital funciona como uma pura
força que vai actuando sobre a matéria e deixando a matéria actuar sobre ela para formar seres cada vez mais
complexos. É como um ser que sabe onde quer chegar, mas é demasiado forte e livre e apressado e cheio de coisas
dentro, cheio de amor e de diferença dentro, vai explodindo por todos os lados como uma criança, tomando várias
formas, partes de formas, mudando constantemente de forma, porque não sabe como chegar onde sabe que vai
chegar

Uma coisa é reconhecer que as circunstâncias externas são forças com as quais a evolução deve contar, outra é afirmar
que elas são as causas directoras da evolução. Esta última é a tese do mecanicismo. Esta doutrina exclui absolutamente a
hipótese de um élan original, ou seja, de uma pressão interior que levaria a vida, por formas cada vez mais complexas, a
destinos cada vez mais elevados. No entanto este élan é vísivel, e um simples olhar sobre as espécies fósseis mostra-nos que a
vida poderia não ter evoluído, ou evoluído apenas em termos mais restritos, se tivesse escolhido, o que seria muito mais cómodo
para ela, anquilosar-se nas suas formas mais primitivas. Alguns foraminíferos não variaram desde a era siluriana. Impassíveis
testemunhas das inúmeras revoluções que revolveram o nosso planeta, os língulas são hoje o mesmo que eram nos tempos mais
recuados da era paleozóica.
A evolução não é apenas um movimento para diante; em muitos casos observa-se um marcar passo, e muitas vezes
ainda um desvio , um retrocesso. É preciso que assim seja e as mesmas causas que cindem o movimento evolutivo, fazem com
que a vida, ao evoluir se distraia muitas vezes de si própria, hipnotizada pela forma que acabou de produzir

16
Até há cerca de seiscentos milhões de anos, não existiam organismos mais complexos que as bactérias, as algas pluricelulares e o plâncton unicelular. Então, há 543
milhões de anos, no inicio do Câmbrico, num período não ultrapassando dez milhões de anos, criaturas com dentes, tentáculos e maxilares materializaram-se tão
subitamente como aparições. Numa erupção de criatividade sem precedentes e jamais repetida, a natureza parece ter delineado os planos para virtualmente a
totalidade do reino animal. Desde 1987, descobertas de importantes leitos de fósseis na Gronelândia, China,, na Sibéria e agora na Namíbia, mostraram que o período
de inovação biológica ocorreu virtualmente no mesmo instante que o tempo geológico em redor do Mundo. Agora, virtualmente todos concordam que o Câmbrico
começou há quase exactamente 543 milhões de anos e, mais espantoso ainda, que todos os filos presentes no registo fóssil, á excepção de um, apareceram nos
primeiros cinco a dez milhões de anos (artigo da paleotóloga J. Madeleine Nash em Mayr, Ernst, Toward a New Philosofy of Biology: observations of an evolucionist,
Harvard University Press, Cambridge, 1998 – citada em Narby, p. 124)
17
Bergson utiliza o exemplo do olho: Dois pontos são igualmente evidentes num órgão como o olho: a complexidade da estrutura e a simplicidade do funcionamento. O olho é
composto por parte distintas, como a esclerótica, a córnea, a retina, o cristalino, etc. O pormenor de cada uma destas partes é quase infinito. Falando apenas da retina, sabe-se ela
contém três camadas sobrepostas de elementos nervosos – células multipolares, células bipolares, células visuais -, cada uma delas tem a sua individualidade e constitui, sem duvida,
um organismo muito complexo: embora isto seja apenas um esquema simplificado da fina estrutura dessa membrana. O mecanismo do olho é assim, composto de uma infinidade de
mecanismos, todos eles extremamente complexos. Contudo a visaõ é um facto simples. A partir do momento em que o olho se abre, a visão começa a funcionar. Precisamente porque o
seu funcionamento é simples, a mais pequena distracção da natureza na construção desta máquina infinitamente complexa podia ter tornado a visão impossível. È este contraste entre
a complexidade do órgão e a unidade da função que desconcerta o espírito

20
Tentemos então analisar as principais tendências que a vida tomou até nós.

nota B.
planta ! animal
(apropriação do espaço e do tempo através do movimento)

O percurso da complexidade faz-nos então deixar de parte reinos unicelulares monera e protista e o
estranho reino fungi para nos concentrarmos então no multifacetado reino desses incríveis seres multicelurares
autotróficos – as plantas – em contraposição ao animais.
É muito importante perceber que Bergson fala-nos de tendências (e não de características estanques) ao
falar de reinos ou espécies, etc. (o grupo já não se definirá pela posse de certas características, mas pela tendência em
acentuá-las). É afirmado desde logo que não há uma característica específica que distinga a planta do animal, pois na
realidade não há uma única propriedade da vida vegetal que não tenha sido encontrada, em algum grau, em certos
animais. Analisemos então plantas e animais no quadro das suas tendências na procura da manutenção da própria
vida:

o vegetal retira directamente do ar, da água e da terra os alimentos para se manter vivo, especialmente o carbono e o
azoto, os quais encontra na sua forma mineral. Pelo contrário, o animal só pode assimilar esses mesmos elementos se já
estiverem fixados para ele nas substâncias orgânicas, pelas plantas ou por animais. O animal, não podendo assimilar
directamente o carbono e o azoto que estão presentes em toda a parte, é obrigado a procurar, para se alimentar, os vegetais que
já assimilaram esses elementos, ou os animais que retiraram do reino vegetal. Por conseguinte o animal é necessariamente
móvel

Esta tendência que provém do seu modo subsistência está interligada com a própria noção de consciência,
enquanto conhecimento de si e do externo como forma de produzir escolha em acção.

Entre mobilidade e a consciência existe uma relação nítida. Certamente, a consciência dos organismos superiores
parece estar ligada a alguns dispositivos cerebrais. Quanto mais se desenvolve o sistema nervoso, mais numerosos e precisos se
tornam os movimentos à escolha, e mais esclarecida a consciência que os acompanha. Mas nem esta mobilidade, nem esta
escolha, nem por conseguinte, esta consciência têm como condição necessária a presença de um sistema nervoso: este apenas
canaliza em sentidos determinados, e eleva a um mais alto grau de intensidade, uma actividade rudimentar e vaga, difusa na
massa da substância organizada. Quanto mais descemos na escala animal, mais os centros nervosos se simplificam e separam,
até que, finalmente, os elementos nervosos desaparecem, misturados na massa de um organismo menos diferenciado. Mas o
mesmo se passa com todos os outros orgãos, com todos os outros elementos anatómicos; e seria tão absurdo recusar a consciência
a um animal, por não ter cérebro, como declará-lo incapaz de se alimentar por não ter estômago

Nota-se imediatamente que esta ideia de consciência é muito mais ampla, profunda e principalmente
honesta do que a visão antropológica. A consciência como posse exclusiva da mente teórica hiper-especulativa e
viciosa do ser humano comprovado num maior grau de encefalização tem em si algo de pueril e arrogante.

O organismo mais humilde é consciente na proporção em que se move livremente.


Como é que a planta, que se fixou à terra e que encontra o seu alimento sem se mexer, se teria desenvolvido no sentido
da actividade consciente? A planta é, então, geralmente inconsciente. Aqui, mais uma vez, é preciso evitar distinções radicais.
Consciência e inconsciência marcam as direcções em que se desenvolveram os dois reinos.
Em resumo, o vegetal fabrica directamente substâncias orgânicas como minerais: esta aptidão dispensa-o, em geral, de
se mover e, por isso mesmo, de sentir. Os animais, obrigados a procurar o seu alimento, evoluíram no sentido da actividade
motora e, por consequência, de uma consciência cada vez mais ampla, cada vez mais distinta

O que está aqui em causa é a formação de uma consciência alargada do animal, de conhecimento como
escolha, escolha que parte da formação e desenvolvimento de uma determinada plasticidade orgânica.
Essa possibilidade de escolha, é aberta pelas possibilidades que a própria evolução da vida dispôs com a sua
tendência para a mobilidade, para procura e consumo do alimento (nomeadamente através da caça). A tendência
para procurar significou, por um lado, o aumento das capacidades sensio-motoras através da complexificação de todo
o organismo (através de especialização celular) , por outro, aumentou drasticamente a possibilidade de escolha em
relação ao interno e ao externo do animal. A escolha implica a criação e desenvolvimento de processos psicológicos
também sempre cada vez mais complexos.

21
nota C.
animal ! homem
(apropriação da consciência através da inteligência)

Bergson identifica no animal duas tendências psicológicas fundamentais e divergentes do movimento


consciente actuar sobre a matéria (a sua e a externa): a intuição 18 e a inteligência.

Dissemos que, na planta, a consciência e a mobilidade no animal, que estão adormecidas, podem despertar; e que o
animal vive sob a ameaça constante de ser arrastado para a vida vegetativa. As duas tendências perseguem-se mutuamente;
encontramo-las por toda a parte misturadas; é a proporção que difere. O mesmo se passa relativamente à inteligência e ao
instinto. Não existe inteligência na qual não se descubra vestígios de instinto, não há instinto que não esteja envolto numa
franja de inteligência. Esta franja de inteligência foi a causa de tantos equívocos. Nessas duas formas da actividade psíquica
vemos dois métodos diferentes de acção sobre a matéria inerte

A vida organizou-se no sentido de duas formas de conhecimento que se podem dividir em instinto e
inteligência. A inteligência, desenvolvida principalmente no sentido dos vertebrados até ao seu apogeu no homem,
manifesta-se sobretudo nos objectos que cria através da técnica – fruto e mecanismo indissociável dessa nova forma
psíquica de actuar sobre a matéria que designamos inteligência.

O instinto completo é a faculdade de utilizar e mesmo de construir instrumentos organizados; a inteligência completa
é a faculdade de fabricar e de empregar instrumentos inorganizados. O instinto é, portanto, necessariamente especializado, não
sendo mais que do que a utilização de um instrumento específico com um objecto determinado. Pelo contrário, o instrumento
fabricado inteligentemente é um instrumento imperfeito. Só se obtém a custo de um esforço. É quase sempre de manuseamento
difícil. Mas como é feito de matéria inorganizada, pode tomar qualquer forma, servir para qualquer uso, retirar o ser vivo de
qualquer nova dificuldade que surja, conferir-lhe um número ilimitado de poderes. Inferior ao instrumento natural para a
satisfação de necessidades imediatas, tem tantas mais vantagens sobre este quanto menor for a urgência da necessidade.
Se a força imanente à vida fosse uma força ilimitada, poderia talvez ter desenvolvido o instinto e a inteligência nos
mesmos organismos. É-lhe difícil ir longe em várias direcções ao mesmo tempo. Ela tem de escolher. Ora, pode escolher entre
duas maneiras de agir sobre a matéria inerte; pode realizar esta acção imediatamente, criando um instrumento organizado
com o qual trabalhará; ou então pode realizá-la mediatamente, num organismo, que, em vez de possuir naturalmente o
instrumento requerido, fabricá-lo-á ele mesmo moldando a matéria inorgânica. Daí a inteligência e o instinto, que divergem
cada vez mais á medida que se desenvolvem, mas que nunca se separam completamente um do outro.
Assistimos, em quase todos os vertebrados, mais à procura do que à difusão da inteligência. Ela só toma
completamente posse de si mesma no homem - é a dispensa definitiva que o instinto recebe da inteligência. Mas não é
menos verdade que a natureza deve ter hesitado entre dois modos de actividade psíquica, um que garantia o sucesso imediato,
mas limitado nos seus efeitos, o outro aleatório, mas cujas conquistas, se alcançasse a independência, podiam estender-se
indefinidamente. O maior sucesso coube, novamente aqui, a quem correu o maior risco. Instinto e inteligência representam,
então, duas soluções divergentes, igualmente elegantes, de um mesmo e único problema 19

Desta forma o homem enquanto exponente máximo do desenvolvimento da inteligência define-se


essencialmente como ser-produtor de objectos.

Se nos pudéssemos despojar de todo o orgulho, se para definir a nossa espécie, nos limitássemos estritamente ao que a
história e a pré-história nos apresentam como características constantes do homem e da inteligência, não diríamos talvez
Homo sapiens, mas Homo faber. Em resumo a inteligência, considerada no que parece ser a sua actividade original, é a
faculdade de fabricar objectos artificiais, em particular utensílios para fazer utensílios, e de variar indefinidamente a sua
fabricação

18
neste sentido, obviamente a intuição não é entendida aqui como mero acto inconsciente
19
como exemplo do desenvolvimento do instinto Bergson descreve a acção dos himenópteros: Sabe-se que as diversas espécies de himenópteros paralisadores depositam os
seus ovos em aranhas, escaravelhos e lagartas que continuarão a viver imóveis durante alguns dias, e servirão assim de alimento fresco ás larvas, tendo antes sido submetidos pela
vespa a uma sábia operação cirúrgica. A esfex de asas amarelas, que escolheu como vítima o grilo, sabe que este tem três centros nervosos que comandam os seus três pares de patas, ou
pelo menos age como se soubesse. A amófila eriçada dá nove picadas sucessivas em nove centros nervosos da sua lagarta, e depois abocanha-lhe a cabeça e aperta-a. O tema geral é «a
necessidade de parasitar sem matar»: as variações estão subordinadas á estrutura do sujeito sobre o qual se opera. Não há dúvida que a operação nem sempre é executada com
perfeição. Mas, porque o instinto é falível como a inteligência, porque também é susceptível de apresentar desvios individuais, isso não significa que o instinto da esfex tenha sido
adquirido, como se pretendeu, por tacteamentos inteligentes. Suponho, que ao longo do tempo, a esfex tenha acabo por, conhecer um por um, por meio de tentativas, os pontos da sua
vítima que deve picar para a imobilizar, e o tratamento especial que deve infligir ao cérebro para que a paralisia não provoque a morte, como supor que os elementos tão especiais de
um conhecimento tão preciso se tenham transmitido regularmente, um a um, por hereditariedade?
Mas toda a dificuldade prende-se com o facto de querermos traduzir o conhecimento do himenóptero em termos de inteligência. Somos então obrigados a comparar a esfex com o
entomologista, que conhece a lagarta, tal como conhece todas as outras coisas, ou seja, de fora, sem ter, pela sua parte, um interesse especial e vital. A esfex teria de aprender uma a
uma, como o entomologista, as posições dos centros nervosos da lagarta pelo menos teria de adquirir o conhecimento prático dessas posições experimentando os efeitos da sua picada.

22
Consideremos então agora a questão do poder. Tudo isto define-se no quadro de um animal – o homem –
que se auto-coroou como rei da Terra e dos animais. Lembremos o jardim zoológico ou a psicologia de base na
relação com os animais de estimação.

Em termos de dominação do mundo - considerando o mundo como mero espaço habitado por seres vivos -
na realidade existem apenas outros dois tipos de organismos na corrida: Schizophyta e Arthropoda.

Os primeiros são quantitativamente os reais vencedores – as bactérias constituem 99% da totalidade dos
seres vivos na Terra. É interessante que no caso das bactérias heterotróficas elas são ou parasitas patogénicas ou
são simbióticas com outros organismos, apresentando-se normalmente como protectoras desses organismos 20. As
bactérias são seres unicelulares com grande velocidade de divisão celular e grande resistência que lutam entre si
num equilíbrio entre eliminação, reciclagem e conservação próprio e também dos restantes organismos.

Os artrópodes, por seu lado, são territorialmente os vencedores. É o filo de animais que apresenta maior
número de espécies conhecido e que abundam em toda a superfície da terra. A classe insecta é claramente a mais
importante e extensa deste filo. Também aqui encontramos uma competição directa com o homem (através da
transmissão de doenças e na obtenção de alimento) e, inversamente, também defendem os outros organismos -
vários insectos são depredadores de insectos daninhos e, por exemplo, a abelha, além da cera e do mel, proporciona
imensos benefícios na polinização de numerosas plantas angiospérmicas, de cujas sementes e fruto depende a
alimentação humana.

Constata-se que tanto as bactérias como os insectos são outros dominadores da Terra, precisamente no
sentido em que entram em competição directa com o homem, podendo num maior número de casos que qualquer
outra espécie, destruí-lo.
Se o domínio da bactéria e do artrópode advém da sua dimensão e das suas capacidades de adaptação e
multiplicação, o poder do homem estabelece-se ao nível da técnica. Para Bergson, se o homem era a máxima
evolução da inteligência, os artrópodes representavam a máxima evolução do instinto.

Qual é a característica coincidente dos seres dominadores ? Que actuam em grupo. Uma bactéria por si não
faria nada (aliás, nós falamos de populações de bactérias), é da sua repetição que a sua actuação na matéria tem
sucesso (daí a sua tendência brutal para a desmultiplicação). No caso, dos artrópodes (pela sua alta evolução de
consciência instintiva) encontramos precisamente as mais complexas e extensas redes de organização social baseada
no polimorfismo. Em relação ao homem é óbvia a sua tendência para a sociabilização (e os animais igualmente
sociais são essencialmente da classe mammalia, que desembocou no homem).

A força parece começar na união dos corpos através de um quadro de organização comum – qualquer coisa
entre as noções de massas e de comunidades.

que corpo

Mas que corpos são estes que se unem? Um corpo é antes de mais um composto de matéria viva. Matéria
química que também ela se une no sentido de subsistir. A primeira estrutura química capaz de tal feito é a célula.
Como tal, a célula é no fundo o que define um ser vivo enquanto unidade mínima de existência autónoma
de um organismo 21. Para além disso, ela define igualmente o seu grau de complexificação.

O termo célula (do grego kytos = cela; do latim cella = espaço vazio), foi usado pela primeira vez por Robert
Hooke em 1655 para descrever suas investigações sobre a constituição da cortiça analisada através de lentes de
aumento. A teoria celular, porém, só foi formulada em 1839 por Schleiden e Schwann que concluíram que todo ser
vivo é constituído por unidades fundamentais: as células.

Precisamente até ao século XIX, reinou a concepção de Aristóteles de divisão dos seres vivos em plantas e
animais. Perante os seres unicelulares que se apresentavam Haeckel propôs em 1866 um novo reino – o protista.
Em 1969, Whittaker propôs o sistema aqui adoptado baseado nos diferentes tipos de organização e nas
formas de nutrição (ou subsistência) – vejamos de novo o quadro:

20
por exemplo, no homem, parte do fornecimento da vitamina K, necessária à coagulação do sangue, ou a protecção de infecções graves, devem-se a bactérias deste
tipo. Por isso é que a destruição dessas bactérias, no caso de terapia prolongada com antibióticos, vulnerabiliza os tecidos humanos a bactérias e fungos causadores de
doença e surjam sintomas de avitaminose
21
daí o vírus não ser considerado um ser vivo - carecem de vida independente, capacidade de crescimento e reprodução próprias das células

23
Este quadro taxonómico dá-nos simultaneamente uma ideia básica da evolução celular:

organismos unicelulares procariontes (Monera)


!
organismos unicelulares eucariontes (Protista)
!
organismos multicelulares (Fungi, Plantas e Animais)

Os principais tipos de nutrição são: fotossíntese, absorção e ingestão.


!
Que correspondem às seguintes funções: produção, decomposição e consumo.

O reino monera das bactérias, o mais primitivo (hoje existem registos fósseis de bactérias com 3, 85
milhões de anos) curiosamente não apresentava nem apresenta nutrição por ingestão. O protista apresenta todos os
tipos de nutrição que vão depois corresponder às 3 linhas evolutivas divergentes onde se separa definitivamente o
modo de ingestão primordial nos seres pluricelulares.

Nós somos biologicamente o apogeu do ser de consumo.

Vejamos então o percurso da evolução:

plano 1

- 4,5 mil milhões de anos

nascimento do palco:
surge o sistema solar e, como tal a Terra

24
plano 2

- 4 mil milhões de anos

o palco estabiliza e o actor entra:


surge a vida

duas hipóteses foram formuladas para tal misterioso acontecimento:

1. evolução química:
a terra pré-biológica apresenta uma grande actividade de vulcões e pela força da gravidade 4 gases ficam retidos na
atmosfera: hidrogénio (H2), vapor de água (H2O), metano (CH4) e amoníaco (NH3) – da conjugação da conjugação
desses gases surgiram compostos orgânicos entre os quais aminoácidos que depois organizaram-se de forma
articulada seguindo depois uma cada vez maior complexificação. Esta teoria é essencialmente baseada na tese de
Oparin (1924) e na sintetização de compostos orgânicos em laboratório 22

2. panspermia:
na realidade a teoria que a vida ter-se-ia propagado de sistema solar em sistema solar através de esporos de
microrganismos já vinha do século XIX com as teses de Lord Kelvin e Svante Arrhenius. Mas foi já neste século
que outros autores avançaram que a vida teria origem extraterrestre com principal destaque para Francis Crick (o
tal que desvendou a cadeia de ADN) que chegou inclusive a propor (assim como Leslie Orgel) uma panpermia
dirigida fruto de uma decisão consciente de vida inteligente extraterrestre

A verdade é que - mal a superfície terrestre arrefeceu o suficiente para formar uma fina crusta repousando
sobre o magma em fusão – apareceu o primeiro ser vivo.

Os vestígios recentemente descobertos de actividade biológica datando de há 3, 85 milhões de anos atrás consistem
numa proporção reduzida de carbobo – 13 para carbono -12 em certas rochas sedimentares da Gronelândia – ver Mojziz e
outros (1996) e Hayes (1996). John Hayes (na Nature nº 384) escreve : A nova descoberta parece estender este registo fóssil até
ao fundo da camada sedimentar do nosso planeta, alterando de forma crucial as avaliações anteriores destes sedimentos mais
remotos, e não deixando praticamente qualquer intervalo entre o final do último bombardeamento pesado de corpos
registado no interior do Sistema Solar por meteoritos gigantes e a primeira manifestação de vida (Hayes citado em
Narby, p. 160, nota 9)

(Poderia dizer-se que um palco só faz sentido se já existia um actor com algo para representar)

plano 3

- 600 milhões de anos

a explosão criativa do câmbrico

talvez o momento mais singular da história da vida – surgem os seres multicelulares - todos concordam que o
Câmbrico começou há quase exactamente 543 milhões de anos e, mais espantoso ainda, que todos os filos presentes no registo
fóssil, á excepção de um, apareceram nos primeiros cinco a dez milhões de anos (Nash citada em Narby, p. 126)

Do lado da tendência vegetativa da imobilidade desenvolveram-se os organismos que mantiveram as


funções primordiais da vida: produção (plantas) e decomposição (fungi). Duas actividades que mantêm um equilíbrio
por si só com o planeta. E por isso para nós mais do que seres, são essencialmente o que designamos por - a
Natureza.

22
onde se destacam a pioneira experiência de 1953 de Miller (metano + amoníaco + hidrogénio + descargas eléctricas durante 1 semana = aminoácidos) e as
experiências de Fox (18 aminoácidos + porção de lava = proteinoides polímeros semelhantes a proteínas). Nos anos 60, o investigador Sidney Fox depois de
sintetizar vários compostos em lava desenvolveu as suas pesquisas demonstrando que em meio líquido adequado as moléculas de proteínoides reúnem-se em
microesferas. Mas já nessa altura ele avisava: A distância pré-bio-química que medeia entre compostos orgânicos do tipo dos aminoácidos deve ser muito grande. O trabalho que
será descrito só tem a intenção de se chegar a compreender as origens pré-bioquímicas das proteínas (Sidney Fox numa conferência de 1957 – citado em Roque e Castro, p.
189)

25
Reino Fungi
Durante muito tempo, os fungos, foram considerados plantas.
Estrutura: Com excepção de algumas formas unicelulares, como as leveduras, os fungos são basicamente constituído
por filamentos chamados hifas que, no seu conjunto, formam o micélio. São organismos multinucleados, sem limites celulares
definidos.
Alimentação: todos os fungos são heterotróficos. Uns são parasitas, outros são saprófitos e alguns vivem em simbiose
com outros organismos. Caracteristicamente, começam a digerir os compostos orgânicos, por meio de enzimas extracelulares que
segregam sobre a massa alimentar, absorvendo em seguida os produtos alimentares na forma dissolvida.
Reprodução: Os fungos reproduzem-se sexuada e assexuadamente. A reprodução assexuada ocorre por fragmentação
do micélio ou por produção de esporos (Roque e Castro, p. 43)

Reino Plantae
Os seres que fazem parte deste reino são, na sua maioria pluricelulares. Algumas formas são subaquáticas (algas),
mas na sua maioria as plantas são terrestres.
Estrutura: Carecem de poder de locomoção por meio de fibras contrácteis. O componente fundamental das paredes
celulares é a celulose. As mais desenvolvidas apresentam células especializadas, que formam tecidos e órgãos altamente
diferenciados.
Alimentação: Todas as plantas possuem clorofila associada a outro tipo de clorofila e diversos carotenóides como
pigmentos acessórios. São portanto seres autotróficos (idem, p. 51)

Do lado da tendência para o movimento desenvolveu-se a variedade de formas e estruturas complexas que
constituem o reino animal.

Pertencem a este reino todos os organismos heterotróficos e pluricelulares.


Estrutura: As células não possuem parede celular. Quando adultos, possuem, quase sempre, tamanho e forma fixos, ao
contrário das plantas, nas quais o crescimento continua durante a vida inteira do organismo.
Alimentação: A maioria digere os alimentos numa cavidade interna e armazena, como reservas, o glicogénio e
gorduras.
Reprodução: A reprodução é geralmente sexuada.
São capazes de se deslocar ou de efectuar movimentos corporais por meio das fibras contrácteis (células musculares).
Os animais superiores são de todos os organismos os mais complexos. Possuem vários tipos de tecidos especializados e
mecanismos neuromotores e sensoriais complicados que não se encontram nos organismos de outros reinos (idem, p. 76)

Mas para compreendermos a distância que medeia o unicelular do pluricelular vejamos um curioso e
simples ser:

Os seres do género Volvox são constituídos, conforme a espécie, por umas cem a dez mil células. Estas células
dispõem-se de maneira especifica, formando uma esfera oca. Cada célula da colónia apresenta, um cloroplasto, um núcleo e um
citoplasma, e está separada das células vizinhas por uma camada gelatinosa. Se perfurarmos a parede celular e a membrana
citoplasmatica de uma das células da colónia, essa célula morre, mas o resto da colónia continua vivo e realiza todas as suas
funções.

imagem 6 – uma colónia de volvox

Observando o movimento do Volvox verifica-se que o ser roda da esquerda para a direita á medida que se desloca na
água. A deslocação, que resulta do movimento dos flagelos, implica coordenação ajustada do movimento de cada flagelo. Todas
as células terão de mover o seu flagelo de determinada maneira para que o ser avance. Se o movimento de cada flagelo fosse ao
acaso, o movimento seria também ao acaso. Pode-se falar, neste caso, em cooperação intercelular.

26
Nos organismos multicelulares mais complexos que Volvox encontram-se diferentes tipos de células. Todas as células
realizam as actividades vitais básicas, embora cada tipo celular possa realizar um tipo de trabalho complementar além dessas
actividades básicas. Assim, determinado tipo de células pode adaptar-se especialmente a funções de contractilidade, de condução
de fluxo eléctrico, de síntese, etc. As células que realizam uma actividade complementar mostram já especialização.
A evolução determina a aparição de uma especialização celular, que já é evidente em seres do tipo Porífera, embora as
células destes seres conservem um grau elevado de independência. Esta dualidade verifica-se nos seres multicelulares mais
primitivos. Nos seres mais evoluídos a especialização arrasta consigo uma perda de independência. Por exemplo, uma célula
nervosa humana não é capaz de se dividir.
Num organismo existem células diferentes, que constituem o soma, e células germinais que conservam todas as
potencialidades hereditárias da espécie e que constituem o germe. O soma desaparece com o individuo e o germe perpetua-se na
descendência.
Talvez seja interessante recordar que mesmo os organismos pluricelulares, num determinado momento do seu cilclo de
vida, passam por uma fase de organismo unicelular, a fase do ovo ou zigoto (idem, p. 204)

imagem 7 – desenvolvimento embrionário de um pintainho

As fases de construção de um ser vivo complexo:

1. Crescimento (multiplicação por mitose e desenvolvimento celular 23)

2. morfogénese

3. diferenciação celular

Vejamos então o que se forma um homem.

23
através da assimilação de substâncias nutritivas e síntese de novos componentes citoplasmaticos

27
O desenvolvimento embrionário no homem (e nos restantes mamíferos) tem um problema ligado ao facto
de o ovo ser alecítico 24 o que implica a viviparidade - o embrião necessita de ser parasita do organismo materno até
ter autonomia. Esta gestação incubativa desenvolve-se no útero.

cena 1
fecundação

cena 2
primeira segmentação: divisão em 2 blastómeros – o mais pequeno origina as células do embrião e o maior a parte
extra-embriorinária

imagem 8 – desenvolvimento embrionário de um humano

cena 3
gastrulação: as células do botão embrionário achatam-se formando a endoderme que juntamente com a ectoderme
formam o disco embrionário

cena 4
entre a endoderme e a ectoderme forma-se mesoderme – completando o trio de pequeníssimas e simples camadas
celulares que darão forma as mais variadas, subtis e complexas formas celulares especializadas separadas por todo o
corpo

A blástula origina três assentadas de células, os folhetos embrionários – ectoderme, endoderme e mesoderme – a partir
dos quais se originam todas as células diferenciadas do organismo definitivo. O desenvolvimento de todas estas estruturas não é
feito ao acaso. A distribuição exacta dos planos de segmentação, a migração das células durante a gastrulação e a produção de
numerosos tipos específicos de células, no processo de diferenciação celular, revelam um grau de ordenamento e organização
altamente especializados. Na regulação destes processos estão presentes factores genéticos, citoplasmaticos e factores
extracelulares.
Da diferenciação dos folhetos embrionários resultam os tecidos, que se associam em órgãos. O destino de cada folheto é
diversificado.
Da ectoderme derivam: epiderme, tecidos de revestimento e glândulas cutâneas; pêlos e unhas, penas, escamas e esmalte
dentário; extremos anterior e posterior do tubo digestivo; sistema nervoso e células sensoriais; cristalino, retina, ouvido interno e
medula das cápsulas supra renais.
A partir da mesoderme formam-se: derme, córtex das cápsulas supra renais, peritoneu; tecido conjuntivo, ossos e
cartilagens; dentes (excepto esmalte), aparelho excretor e a maior parte do aparelho renal; órgãos reprodutores, músculos,
coração, artérias, veias, e sangue.
A endoderme origina: corda dorsal; tecidos epiteliais que recobrem o tubo digestivo (excepto a boca e o ânus),
revestimento epitelial do aparelho respiratório; bexiga urinaria; ouvido médio; porção epitelial constituinte do fígado, pâncreas,
tiróide, timo e paratiroides (idem, p. 274-276)

24
pouca quantidade deutolécito e, como tal, desprovido de reservas

28
imagem 9 – a diferenciação dos folhetos embrionários

As células com especialização diferente divergem, em geral, tanto morfologicamente como funcionalmente. Nos
organismos multicelulares, as diferentes células agrupam-se num nível de organização superior, que se denomina tecido, o qual
é constituído por células com idêntica origem, morfologia e função. Tal separação é consequência de uma diferenciação celular
no decorrer do desenvolvimento embrionário, que determina uma divisão do trabalho, especializando-se as células numa
determinada actividade.
Tecidos diferentes agrupam-se e funcionam coordenadamente, constituindo uma estrutura denominada órgão, que
apresenta a função típica do tecido fundamental, actuando os restantes tecidos como auxiliares. Assim, por exemplo, o coração é
constituído basicamente por tecido muscular cardíaco, graças ao qual se contrai e provoca a circulação do sangue. Contudo os
tecidos conjuntivo, nervoso, etc, que o acompanham contribuem para o desempenho cabal da sua função.
Os grupos de órgão que trabalham para o mesmo fim constituem os sistemas de órgãos. Cada planta ou animal é um
conjunto de sistemas, cada um dos quais e constituído por um conjunto de órgãos. Estes são constituídos por tecidos, os tecidos
por células e as células pelos seus componentes celulares, os componentes celulares por moléculas e as moléculas por átomos (idem,
p. 205)

O organismo humano apresenta os seguintes grupos fundamentais de tecidos: epitelial, conjuntivo,


muscular e nervoso

plano 1
tecido epitelial
função: revestimento e protecção do organismo
células fundamentais: pavimentosas, cúbicas e cilíndricas
tipos:
1. epitélio simples e estratificado
2. epitélio glandular

plano 2
tecido conjuntivo
função: revestimento e protecção do organismo
células fundamentais: fibroplastos, células mesenquimatosas indeferenciadas,
macrófagos, adipócitos, mastócitos, plasmócitos
tipos:
1. tecidos conjuntivos laxos e densos
2. tecido cartilígeno
3. tecido ósseo
4. sangue (plasma + glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas sanguíneas)

29
plano 3
tecido muscular
função: revestimento e protecção do organismo
células fundamentais: fibroplastos, células mesenquimatosas indeferenciadas,
macrófagos, adipócitos, mastócitos, plasmócitos
tipos:
1. músculo liso
2. músculo esquelético
3. músculo cardíaco

plano 4
tecido nervoso
função: revestimento e protecção do organismo
células fundamentais: neurónios

Estes tecidos através de infinitas e subtis variações formam todos os componentes do homem. Falamos por
exemplo de muitos milhões de células que formam uma poderosa estrutura de tecidos composta por 208 ossos
individuais unidos num complexo sistema articular que envolve ossos, músculos, tendões cartilagens e ligamentos
para formar um sistema locomotor que permite um sem número de variações de movimento. Ossos esses revestidos
por 650 músculos individuais cobertos por 20 m2 de pele com 13 500 glândulas de suor.

Todo o corpo é irrigado por artérias e veias que juntas têm um comprimento de 100 000 milhas (mais de 3
vezes a volta ao mundo) onde correm cerca de 30 triliões de células de glóbulos vermelhos. Falamos por exemplo de
células que permitem diferenciar o odor de 100 mil diferentes cheiros. 600 milhões de alvéolos que permitem por
dia inalar 16 000 litros de ar (com 40 biliões de triliões de moléculas de oxigénio). 13 biliões de células nervosas
onde impulsos químicos viajam a mais de 300 km/h para transmitir constantes acções voluntárias e involuntárias.
100 biliões (em 10 000 km) de neurónios para gestir infinitos pensamentos, visões e emoções. Milhões de células
para glóbulos brancos, rede linfática, medula, linfóctos, etc, etc, etc, etc.

São inúmeros tipos de células numa complexa rede de microscópicas variações que se organiza num amplo
conjunto diversificado de formas e relações articuladas entre si para estabelecerem e confluírem pelos vários órgãos
e glândulas e líquidos internos. Este órgãos estabelecendo novas ligações de modo a formarem sistemas de funções
ao mesmo tempo autónomas e ligadas com todo o organismo.

imagem 10 – uma célula animal

A plasticidade obtida por uma célula é, de facto, extraordinária. Isso (e a razão pela qual consegue
articular-se com o todo) prende-se com um segredo muito recentemente descoberto.

30
Uma célula animal dizíamos é uma estrutura química. É essencialmente composta por água (H2O – 70% -
transporte), sais minerais ( regulação química), carbohidratos e lípidos (energia), proteínas (estrutura, defesa e
catalização) e nucleotídeos (ATP 25, ácidos nucléicos) que se dividem entre a membrana celular, o citoplasma (com
os seus vários orgánulos) e o núcleo. Ocorrem imensas acções precisas no interior de uma célula que permitem a sua
susbistência, duplicação, desempenho de funções especializadas e interacção com outras células.

Dentro do núcleo encontra-se o segredo: uma molécula em forma de hélice formada por duas cadeias
complementares de nucleotídeos – o ácido dexorribonucléico ou ADN.

Um fio de ADN é muito mais pequeno do que a luz visível que os seres humanos percepcionam. Mesmo contornando
os limites do olho nu com o mais poderoso dos microscópicos ópticos, é impossível apercebermo-nos dele. O ADN é cerca de cento
e vinte e cinco vezes mais estreito que o menor comprimento de uma onda visível da luz.
O núcleo de uma célula mede aproximadamente dois milionésimos da cabeça de um alfinete. O fio de ADN, com dois
metros de comprimento, compacta-se no interior deste volume minúsculo enrolando-se infinitamente em volta de si mesmo,
conciliando assim comprimento extremo e pequenez infinitesimal, tal como as serpentes mitológicas. Esticando o ADN
contido no núcleo de uma célula humana, obtém-se um fio de dois metros cujo diâmetro não mede mais que umas dezenas de
átomos. Este fio é mil milhões de vezes maior do que a sua própria largura. O nosso ADN pessoal [com os seus 200 mil
milhões de quilómetros] é capaz de envolver a Terra cinco milhões de vezes (Narby, p. 84)

imagem 11 – os 23 pares de cromossomas do humano

Um ser humano tem 46 destes fios dispostos em 23 pares chamados de cromossomas. Ao longo da cadeia
em espiral encontramos degraus compostos por pares de bases nucleótidas adenina-timina e citosina-guanina. Estas
quatro bases (A, T, C e G) formam um sistema de linguagem para a produção de proteínas dentro da própria célula.

imagem 12 – zoom out da cadeia genética dupla ao cromossoma de ADN

25
Trifosfato de Adenosina (ATP) - Tipo especial de nucleotídeo, formado por adenina, ribose e três fosfatos. Tem a função de armazenar energia nas ligações
fosfato

31
imagem 13 – zoom in da cadeia genética dupla às junções de bases nucleótidas

Uma proteína é um conjunto de aminoácidos. Designamos gene ao conjunto de informação necessária à


criação de uma proteína, ou seja, a um grupo de alguns milhares de bases que designam os vários aminoácidos
precisos. Deste modo, existe um código que usa as 4 letras disponíveis (A, T, C e G) para formar palavras químicas
compostas 3 letras (codões) que correspondem a um dos vinte aminoácidos. Assim, por exemplo: TTT (timosina 3
vezes seguida ) quer dizer fenilalanina, GAC (guanina, adenina, citosina) quer dizer leucina, AAT também quer
dizer leucina já TAG quer dizer STOP - das 64 possíveis (4 letras x 3 grupos = 64) 3 palavras são de paragem.

A produção de uma proteína processa-se então do seguinte modo:

plano 1.
os fios de ADN separam-se

plano 2.
bases livres juntam-se à parte do fio que contem a informação desejada (A junta-se a T, T a A, C a G e G a C)

plano 3.
assim é criado um novo fio mais pequeno (só com a informação para a proteína) – o ARNm (m de mensageiro) que
se desprende do molde e sai do núcleo para o citoplasma da célula

imagem 14 – processo de transcrição genética para a formação de cadeias de aminoácidos

plano 4.
um ribossoma passa pelo fio de ARNm e lê os codões (TTT, GAC, etc) e o aminoácido correspondente é trazido por
uma molécula de ARNt (t de transferência)

plano 5.
os aminoácidos trazidos pelo ARNt vão formando uma cadeia até ser lido um codão de paragem (como o tal TAG) e
a cadeia solta-se do ribossoma para então dobrar-se e formar uma proteína completa

32
Toda a complexidade que descrevemos do corpo humano é descrita a partir deste fio em dupla hélice cerca
de cento e vinte e cinco vezes mais estreito que o menor comprimento de uma onda visível da luz, através deste sistema
básico de 4 letras.

Mas algo mais incrível foi descoberto: o mecanismo do ADN está presente e actua desta mesma forma em
todos os seres vivos desde os seres mais complexos até aos seres mais simples como as bactérias.

Conclusões a retirar:

1.
o ADN veio provar o animismo primitivo – de facto, todos os seres são animados pela mesma estrutura
(incrivelmente simples, precisa e fonte de complexidade)

2.
todos os seres têm efectivamente uma origem comum que remonta pelo menos quase até ao início do planeta
(logo depois da superfície terrestre estabilizar à 3,9 mil milhões de anos)

3.
apesar de todas as alterações e mutações das formas de vida que foi tomando e inclusive o mundo à sua volta o ADN
manteve-se inalterável na sua estrutura e de forma idêntica em todos os seres vivos desde a sua origem 26

Tudo isto num único simples composto químico – o ácido desoxirribonucleico (que mais não é que uma
cadeia de 4 bases nitrogenadas em repetição e ácido fosfórico).

E o linguista Roman Jakobsen observou algo de curioso: até descobrirmos o código genético a construção
de sistemas de codificação deste tipo só tinha sido realizado pela inteligência humana 27.

(parece que no início era o mesmo o !"#$%)

E o antropólogo Jeremy Narby pergunta:

Como pode a biologia pressupor que o ADN não é consciente, se nem sequer compreende o funcionamento do cérebro
humano, a sede da nossa consciência, ela própria elaborada a partir de instruções contidas no ADN? Como pode a natureza
não ser consciente se a nossa própria consciência é fruto da Natureza?

E agora o que é a consciência?

26
como constata Sidney Pollack: A superfície do planeta mudou muitas vezes, mas o ADN e o mecanismo celular que permite a sua duplicação mantiveram-se constantes.
Schödinger disse que o ADN era um cristal aperiódico, mas isso minimiza a sua estabilidade: nenhuma pedra, nenhuma montanha, nenhum oceano, nem mesmo o sol que brilha sobra
as nossas cabeças se mantiveram tão estáveis e constantes durante um tal período de tempo. Nada de inanimado, independentemente da sua complexidade, foi capaz de se manter
inalterado nem que fosse uma fracção de tempo durante o qual o ADN e o seu mecanismo de duplicação coexistiram (Signs of life: the language and meanings of DNA, Viking, New
York, 1994, p. 29-30 citado em Narby, p. 86)
27
Consequentemente, podemos afirmar que, de todos os sistemas transmissores de informação, o código genético e o código verbal são os únicos fundados na utilização de elementos
distintos que, apesar de serem desprovidos de significado por si próprios, são utilizados para construir as unidades mínimas de significado, nomeadamente as entidades dotadas de um
significado que lhes é próprio no código em questão (Essais de Linguistique générale, vol. 2 rapports internes des languages, Les Editions Minuit, Paris, p. 25 citado em
Narby, p. 177, nota 4)

33
indivíduo

aqui se conta como o homem efectivamente separou-se de si mesmo, do seu corpo e do mundo para ganhar
uma nova forma de consciência
Vimos que o corpo não produz a ideia daquilo que designamos humano. O problema da auto-formulação do
homem parece ter que passar pelo pensamento. O homem é o animal que deve reconhecer-se como humano para sê-lo.

Mas afinal o que é o pensamento? Na realidade esta está longe de ser uma fácil questão. Argumentaremos
que o pensamento como o concebemos assenta num mecanismo constante de

divisão.

O pensamento é o resultado da plena formação da tal tendência evolutiva a que se chamou inteligência.
Este modelo que advém do animal equipado com sistema nervoso ligado a um cérebro e desse modo pleno de
possibilidades de acção. Este animal depara-se constantemente com um corpo que o coloca perante a necessidade e
capacidade de fazer constantemente escolhas que garantam novas estratégias de sobrevivência. O mecanismo de
divisão é o mecanismo de uma mente que está cheio de escolhas e que se percepciona como indivíduo. Assim,
existem dois motores essenciais que se interligam neste processo. O primeiro (a substância, o conteúdo) desta
divisão é
a consciência de si ou a criação do indivíduo.

Para conseguir essa consciência de si foi necessário separar-se de tudo o resto. E aqui entra o segunda
força motriz (a forma) linguagem. A linguagem é o método de divisão que permite o auto-reconhecimento.
Linguagem é, antes de mais, indicação. A linguagem permite ao pensamento nomear para reconhecer. Cria
distâncias. Isola e divide: Isto, aqui – aquilo, ali.

Eu - tu.

E é deste modo que é possível criar uma existência que se pensa a si própria. O individuo é aquele que
antes de mais define um espaço de distância claro entre ele e tudo o resto. Eu existo, logo eu sou eu. Eu e mais nada.
É isso que eu sou. A linguagem permite isto, permite pensar em objectos divididos para formular as relações entre
eles que mais interessam ao indivíduo. E isto é a base do nosso pensamento – sujeito versus objecto. E objecto é tudo
o resto convertido em pensamento. Daí a ideia do outro.

O pensamento surge assim paradoxalmente também como negação do próprio homem – ele age mesmo
perante a própria ausência do sujeito. Ele não precisa do eu, a não ser como conceito, como objecto e elemento
dentro de proposições 1 (apesar de ser o mais importante). Esta matematicidade do pensamento criado a partir da
linguagem advém do seu carácter de técnica. Difícil e dura e no entanto penetrou de forma indelével o cérebro e o
corpo do homem.
A linguagem é uma criação técnica da inteligência que incide drasticamente sobre o próprio corpo humano
transformando-o num indivíduo total em si próprio que é o animal homo.

O problema que aqui se trata é o da separação plena do indivíduo ao nível da sua própria mente.

1
não deixa de ser interessante constatar que este mecanismo ao criar um homem separando-o de tudo, também o anula – parece que linguisticamente só podemos ser
ou nada ou tudo

38
homo: a inteligência plena cria o pleno eu

Para melhor perceber o que está em causa vamos rebuscar Bergson 2 onde o tínhamos deixado para
percebermos melhor a relação entre técnica e inteligência e como ela determina então a génese do poderoso binómio
pensamento-linguagem com o qual definimos historicamente o ser humano:

Se nos pudéssemos despojar de todo o orgulho, se para definir a nossa espécie, nos limitássemos estritamente ao que a
história e a pré-história nos apresentam como características constantes do homem e da inteligência, não diríamos talvez
Homo sapiens, mas Homo faber. Em resumo a inteligência, considerada no que parece ser a sua actividade original, é a
faculdade de fabricar objectos artificiais, em particular utensílios para fazer utensílios, e de variar indefinidamente a sua
fabricação

Então o que é exactamente a fabricação?

A fabricação exerce-se exclusivamente sobre a matéria inerte, no sentido em que, mesmo que empregue materiais
orgânicos, trata-os como objectos inertes, sem se preocupar com a vida que lhes deu forma. Da própria matéria inerte retém
apenas o sólido: o resto escapa-se-lhe devido à sua própria fluidez. Então, se a inteligência tende a fabricar, podemos prever que
o que existe de fluido no real escapar-lhe-á em parte, e o que há propriamente vital no vivo escapar-lhe-á completamente.
A nossa inteligência, tal como sai das mãos da natureza, tem como objectivo principal o sólido inorgânico. A
inteligência só está á vontade, só se sente completamente em casa, quando opera sobre a matéria inerte, em particular sobre os
sólidos. Qual é a propriedade mais geral da matéria inerte? Ela é extensa, apresenta-nos objectos exteriores e outros objectos, e,
nestes objectos, partes exteriores a outras partes. Ao passo que a representação intelectual da continuidade é negativa, não sendo,
no fundo, mais que a recusa do nosso espírito, diante de qualquer sistema de decomposição actualmente dado, em considerá-lo
como único possível.
A inteligência só representa claramente o descontinuo. Mas o que interessa é saber onde é que o móvel vai, aonde é que
está num qualquer momento do seu trajecto. Por outras palavras, interessa-nos acima de tudo, as suas posições actuais ou
futuras, e não o progresso pelo qual passa de uma posição a outra

nota D.
o segundo homem
(apropriação do pensamento através da linguagem)

Como vimos a inteligência é essencialmente uma forma de actuar sobra a matéria diferente do instinto
encontrada pela vida. Mas é um mecanismo que nega a essência contínua da vida e da própria realidade em prol de
um objectivo, de uma função

A nossa inteligência desvia-se da própria mobilidade porque não tem qualquer interesse em ocupar-se dela, pois o
movimento é sem dúvida a própria realidade, e a imobilidade é sempre apenas aparente ou relativa. Mas a inteligência está
destinada para uma coisa diferente. A menos que forçada por si mesma, ela segue o caminho inverso; parte sempre da
imobilidade, como se esta fosse a realidade última elementar; quando quer representar o movimento, ela reconstrui-o com
mobilidade que justapõe. Esta operação, cuja ilegitimidade e perigo na ordem especulativa mostraremos, cria artificialmente
problemas filosóficos insolúveis. Veremos que a inteligência, tão hábil a manipular o inerte, revela a sua imperícia logo que toca
no vivo. Quer trate da vida do corpo ou do espírito, ela procede com o rigor, a rigidez e a brutalidade de um instrumento que
não estava destinado a tal uso. A história da higiene e da pedagogia pode dizer muito a este respeito.
Só nos sentimos á vontade no descontínuo, no imóvel, no morto. A inteligência é caracterizada por uma
incompreensão natural da vida. O instinto, pelo contrário, é moldado na própria forma da vida. Enquanto que a inteligência
trata todas as coisas mecanicamente, o instinto procede, se assim se pode falar, organicamente. Se a consciência que nele dorme
despertasse, se se interiorizasse em conhecimento em vez de se exteriorizar em acção, se soubéssemos interrogá-lo e ele pudesse
responder, revelar-nos-ia os segredos mais íntimos da vida

A inteligência actua sobre o inerte e como tal não apreende nunca o fluxo das coisas – a vida. Esta é a
origem fundamental da negatividade. Dividir, isolar para trabalhar sobre partes. A inteligência enquanto técnica
biológica de fabricar técnicas usa a fórmula da conquista militar

– dividir para conquistar, é a lógica do poder.

2
recorrendo ainda a citações do capítulo 2 – As direcções divergentes da vida: torpor, inteligência, instinto de A evolução criadora (Bergson, p. 127 – 148)

39
A técnica é a característica distintiva do humano (a dispensa definitiva do instinto pela inteligência no
humano), na medida em que a inteligência é um sistema de criação de instrumentos, de técnicas através do
pensamento – recolha e mobilização de informação sobre objectos para a construção.

O que faz da inteligência e o pensamento consequente em si uma técnica.


Técnica de produzir técnicas.

E esta é também em parte a razão pela qual os hominídeos provocam as extinções do Pliocénico. O seu
mecanismo de criação de estruturas de sobrevivência ultrapassa-se a si próprio. E como tal parte à conquista do
próprio mundo. Talvez é interessante aqui constatar que o homem é o único ser vivo que não tem sub-espécies.

Só um homem poderia subsistir.

O hominídeo define-se no deixar de lado a sobrevivência estrita para ocupar brutalmente o espaço (sendo
que tal ainda é mais evidente com o advento do homo). Ele define acções que já não são mera sobrevivência. Através
do uso da técnica pensamento e do pensamento convertido em técnicas – ou seja, a inteligência jogando com as
formas - o homem assume as suas novas escolhas de acção. Ocupa o espaço e multiplica-se.

Antes de inserirmos o problema da linguagem torna-se necessário precisar um pouco mais a ideia de
consciência em Bergson:

existe diferença entre duas espécies de inconsciência: a que consiste numa consciência nula e a que provém de uma
consciência anulada. Quando executamos maquinalmente uma acção habitual, quando o sonâmbulo vive automaticamente o seu
sonho, a inconsciência pode ser absoluta; mas isto prende-se, desta vez, com o facto da representação do acto ser posta em cheque
pela execução do próprio acto, o qual é de tal modo semelhante à representação, e insere-se nela de modo tão perfeito, que a
consciência já não encontra aí lugar. A representação é obstruída pela acção. A prova disso é que, se a realização do acto é
impedida ou entravada por um obstáculo, a consciência pode surgir. Portanto, ela estava presente, mas neutralizada pela acção
que inteirava a representação. Esta inadequação do acto à representação é precisamente aquilo a que chamamos consciência.
A consciência é a luz imanente à zona de acções possíveis ou de actividade potencial que ilumina a acção
efectivamente realizada pelo ser vivo. Significa hesitações ou escolha. Onde muitas acções igualmente possíveis se esboçam sem
haver qualquer acção real, a consciência é intensa. Poderíamos definir consciência do ser vivo como uma diferença aritmética
entre a actividade potencial e a actividade real. É a distância entre a representação e a acção

Aqui vemos como Bergson é percursor de Heidegger, pois há um paralelismo indelével entre consciência
anulada e pobreza de mundo animal – essa abertura que não se concretiza por coincidência total com a acção. Mas no
homem o caso é diferente – a inteligência já interpreta as acções e mais que isso imagina acções, tem a possibilidade
de abrir constantemente novas potencialidades.

Se a consciência é a distância entre a representação e a acção, embora tanto o instinto como a inteligência
envolvam conhecimento, este conhecimento é mais vivido e inconsciente no caso do instinto, mais pensado e consciente no caso da
inteligência.
Se considerarmos no instinto e na inteligência aquilo que possuem de conhecimento inato, vemos que este conhecimento
inato lida no primeiro caso com coisas e no segundo com relações. A inteligência naquilo que tem de inato, é o conhecimento de
uma forma, o instinto implica o conhecimento de uma matéria.
Este conhecimento inteiramente formal da inteligência tem uma vantagem incalculável sobre o conhecimento material
do instinto. Uma forma, precisamente porque vazia, pode ser preenchida por qualquer coisa, mesmo por coisas que não servem
para nada. Um ser inteligente traz consigo os meios com que se superar a si próprio.
No entanto, ele superar-se-á menos do que quer, menos ainda do que imagina. O carácter puramente formal da
inteligência priva-a da base de que necessita para se inserir nos objectos de maior interesse para a especulação. O
instinto pelo contrário, tem a materialidade pretendida, mas é incapaz de procurar o seu objecto tão longe: ele não especula. Há
coisas que só a inteligência é capaz de procurar, mas, por si própria, nunca encontrará. Estas coisas, apenas o instinto as
poderia encontrar; mas ele nunca as procurará

(Actualmente, é bem evidente o delírio da especulação e a sua desadequação para lidar com o reais
problemas que se colocam aos homens – a parafernália de objectos inúteis que nos envolve é um exemplo óbvio.
Portanto o problema da técnica do pensamento e do seu descontrolo na criação de técnicas e processos técnicos.

E depois ainda a pergunta: que coisas não procuramos ou não encontramos desprovidos desse instinto?)

40
Este carácter formal e especulativo da inteligência explica a existência da linguagem. A inteligência
encontra na linguagem um reflexo perfeito do seu procedimento e uma forma de fazer o pensamento explodir todas
as fronteiras (a tal dispensa definitiva do instinto) da matéria. A inteligência encontra toda a mobilidade que necessita
com a criação de universos simbólicos externos. O pensamento do primata torna-se essencialmente formal.

É preciso uma linguagem cujos signos – que não podem ser em número infinito – sejam extensíveis a uma infinidade
de coisas. Esta tendência do signo em transportar-se de um objecto para outro é característica da linguagem humana. O signo
instintivo é um signo aderente, o signo inteligente é um signo móvel. Ora, esta mobilidade das palavras, feita para que passem
de uma coisa para outra, permitiu-lhes estender-se das coisas às ideias. Provavelmente, sem a linguagem, a inteligência teria
ficado sujeita aos objectos materiais que ela tinha interesse em considerar. Teria vivido um estado de sonambulismo, exterior a
si mesma, hipnotizada pelo seu próprio trabalho. A linguagem contribui muito para libertá-la. A parte do momento em que a
inteligência, reflectindo sobre as suas acções, se apercebe a si própria como criadora de ideias, como faculdade de representação
em geral, não há objecto de cuja ideia ela não queira ter, tenha ou não esse ojecto uma relação directa com a acção prática. Com
efeito, só a inteligência se preocupa com a teoria. E a sua teoria quer englobar tudo, não só a matéria inerte, sobre a qual tem
naturalmente poder, mas também a vida e o pensamento.
A própria linguagem, que lhe permitiu alargar o seu campo de operações, é feita para designar coisas, e nada mais
que coisas: é apenas porque a palavra é móvel, porque caminha de uma coisa a outra, que a inteligência deve mais tarde ou mais
cedo tê-la apanhado em andamento, quando não estava assente sobre nada, para aplicá-la a um objecto que não é uma coisa e
que, até aí escondido, esperava o auxílio da palavra para passar da sombra a luz. Mas a palavra, cobrindo este objecto,
converte-o em coisa. Assim, a inteligência, mesmo quando já não opera sobre a matéria inerte, segue os hábitos contraidos nesta
operação: aplica as mesmas formas utilizadas para a matéria inorgânica.
Os conceitos, com efeito, são exteriores uns aos outros, como se fossem objectos no espaço. Eles constituem, reunidos, um
«mundo inteligível» que se assemelha pelas suas características essenciais ao mundo dos sólidos, mas cujos elementos são maias
leves, mais diáfanos, mais fáceis de manusear pela inteligência do que a imagem pura e simples das coisas concretas; com efeito,
já não são a própria percepção das coisas, mas a representação do acto pelo qual a inteligência se fixa nelas. Já não são
imagens, mas símbolos. A nossa lógica é o conjunto de regras que se deve seguir na manipulação dos símbolos

Ou seja, a linguagem estabelece-se como meio privilegiado da acção da inteligência pela sua mobilidade
entre as coisas (que são já imagem) e os conceitos.
E isto sim é a base do que chamamos hoje pensamento –

a inteligência a actuar através da linguagem criando objectos separados que se vão ligando entre si
seguindo as especulações sobre o que será melhor ou pior para o indivíduo num determinado momento da sua vida

O pensamento do animal homem. O animal, cordado, vertebrado, mamífero, primata, homem. O tal homo
sapiens com 98% de material genético idêntico a um chimpazé (e inclusive com menos um par de cromossomas 3).
E quem é este ser? Agamben diz-nos que homo sapiens

não é nem uma substância nem uma espécie claramente definida: é, mais concretamente, uma máquina ou um artifício
para produzir o reconhecimento do humano (Agamben 5, p. 34)

Na procura de tentarmos perceber de forma um pouco mais clara que ser é este pode ser útil completarmos
agora a história da evolução iniciada no capítulo precedente Completemos então o nosso percurso 4 até chegarmos
ao primata sapiente:

plano 1 – a Terra

- 4,5 mil milhões de anos

nascimento do palco:
surge o sistema solar e, como tal a Terra

3
A utilização de técnicas mais antigas tinha demonstrado que os macacos superiores possuíam 48 cromossomas em vez dos 46 que existem no homem. Os métodos modernos permitem
comparar os cromossomas um a um. Pode-se assim estabelecer correspondência entre o cariótipo do homem e do chimpanzé e mostrar que é possível passar de um cariótipo a outro
com pequenas modificações. Assim, a passagem de 48 a 46 cromossomas seria devido a união de dois cromossomas. Os cromossomas 4 e 5 do homem e do chimpanzé diferem por
inversão de uma pequena região envolvente do centrómetro (Roque e Castro, p.146 a 147)
4
com Peter Bryant (Biodiversity and conservation, chapter 1 e 2)

41
plano 2 – a Vida

- 4 mil milhões de anos

A series of giant meteorites ("the late heavy bombardment") essentially sterilized the planet about
3.8 billion years ago. Rocks 3.5 billion years old contain microfossils of primitive one-celled organisms without a
nucleus ("prokaryotes") resembling bacteria and blue-green algae, and carbon isotope ratios characteristic of
biological materials, representing the earliest clear signs of life. The first cells with a nucleus ("eukaryotes")
appeared 2 billion years ago, and the first organisms
made up of many cells (multicellular algae) appeared about 1.8 billion years ago 5

plano 3 – a Explosão (início do paleozóico)

- 600 milhões de anos

After 3 billion years of very little change, all of a sudden during the Cambrian period, there was a frenzy of
evolutionary innovation that generated just about all of the existing major types (phyla and classes) of marine
invertebrates plus many others that no longer exist. Accurate dating methods used in 1993 (involving
measurements of uranium and lead isotopes) indicate that the explosion happened during a very short period - from
533 to 525 million years ago.

The Cambrian explosion probably generated over 100 major animal groups with fundamentally different body
plans, but only about 30 survived to this day. Examples of those that survived are arthropods (insects, spiders,
crustaceans), echinoderms (sea urchins and starfish), mollusks (snails, clams), and chordates, the latter represented
in the Cambrian by worm-like animals with a rod-like backbone but eventually giving rise to the vertebrates.
Although large numbers of new families evolved in the later periods of earth history, these later innovations did
not include major reorganizations of the body plan, but rather variations on themes that were established
in the Cambrian

plano 4 – a Evolução (fim do paleozóico)

- 360 milhões de anos

The Carboniferous fish gave rise to modern bony fishes. In these the fins have lost their lobes, and one lung
has been lost and the other converted to a swim bladder. They also gave rise to the amphibians, in which both
lungs have been retained and the limbs strengthened and specialized for walking. These amphibians, like modern
frogs and salamanders, hatched from eggs and spent their larval period in the water as tadpoles. They then went
through a change of body organization called metamorphosis, in which they lost their tail and developed legs, and
moved out on to the land as adults. They were the first land-dwelling vertebrates, and some of them were
massive animals two or three feet long. In addition to the primitive amphibians there were some very primitive
reptiles that were totally terrestrial, like today's lizards. In these animals the egg gave rise directly to a miniature
version of the adult, which could survive on the land.
The arthropods of the Carboniferous had also moved onto the land and had in fact taken to the air. Many
of the ancient insects were gigantic compared to present day ones, among them mayflies with a 14-inch wing
span, and giant six-winged insects, in which the first pair of wings had been already reduced to nubs but not
eliminated as they are in all present-day insects. These insects had long sucking mouthparts with which they
sucked the juices out of large primitive pinecones. Feeding on these insects were dragonflies with a 30-inch
wingspan

5
In addition to prokaryotes and eukaryotes, a third major group of organisms, called Archea, consisting of about 500 species but making up about 30% of the
biomass on Earth, was not discovered until 1977. They live in the most extreme environments on Earth - the hottest, coldest, and highest-pressure environments, so
they are sometimes called "extremophiles". Most of their known biomass is in the Antarctic

42
imagem 15 – tabela do tempo geológico

plano 5 – os Répteis (mesozóico)

- 245 milhões de anos

At the end of the Permian, 245 million years ago, huge numbers of animals became extinct. About 96% of
all marine animal species and 52% of the families disappeared in the greatest mass extinction the world has ever
known. Recent data shows that 8 of 27 orders of insects, 21 of 27 families of reptiles, 6 of 9 families of amphibians
and most of the terrestrial plant life disappeared at this time. This happened over a remarkably short period - about
one million years.
The most popular theory is that it was caused by flood volcanism in Siberia - huge continent-sized
floods of scorching hot magma, about a mile deep, poured out from fissures in the Earth's crust and spread over the
land. However, studies reported in 2001 suggest an alternative explanation - that the extinction might have been
caused, like the later one that finished off the dinosaurs, by a giant meteorite hitting the Earth. It took about 100
million years for the species diversity to recover from this extinction event.
Reptiles and mammal-like reptiles dominated the landscape in the Triassic. Late Triassic was the time when the
first true mammals, descendants of the mammal-like reptiles, appeared. The first ones were small, like
Megazostrodon, resembling a modern shrew.

At the end of the Triassic many of the amphibians, reptiles and most of the mammal-like reptiles disappeared and
were replaced by the dinosaurs and crocodiles in addition to some early turtles, lizards and frogs.
The Jurassic and Cretaceous together were the age of giant reptiles. For 150 million years, the dominant
vertebrates on the land were the dinosaurs. (By comparison, humans have been on the earth for only about 3
million years)

43
plano 6 – os Mamíferos (cenozóico)

- 65 milhões de anos

At the end of the Cretaceous, 65 million years ago, not only did the dinosaurs disappear completely, but so did
flying reptiles (pterosaurs), and marine reptiles (ichthyosaurs and plesiosaurs). In fact, between 60 and 80% of all
animal species, including many marine forms, disappeared. Most turtles, crocodiles and primitive birds also
disappeared but some survived to give rise to modern forms.
There have been numerous theories to account for the extinction of dinosaurs. But during the 1980's strong
evidence was obtained to support the idea, originally proposed by Luis Alvarez, that a global catastrophe, caused
by the impact of an asteroid, comet or meteorite, was responsible. Enormous amounts of debris would have been
thrown into the atmosphere, making the Earth so cold and dark that cold-blooded animals like dinosaurs were
unable to survive.

Mammals appeared on the earth long before the extinction of the dinosaurs; in fact, they originated in the early
Jurassic about 200 million years ago. By late Cretaceous small primitive marsupials (mammals that brood their
young in a pouch, like opossums), and insectivores, similar to shrews and hedgehogs, were quite abundant and
widespread. Some of these animals survived the Cretaceous/Tertiary catastrophe and evolved into the
dominant life forms of the next era - the fur-bearing, warm-blooded mammals that eventually gave rise to
the human species.
Only after the dinosaurs were gone did the mammals begin their great diversification and become the
dominant land animals. Then, within 10 million years, there were mammals of all kinds living in many different
habitats on land, in the sea and in the air. There were herbivores, carnivores, whales, bats. Some of them were very
large, and those weighing more than about 100 pounds are referred to as the Megafauna. Most of these species
are extinct

plano 7 – o Hominídeo

- 5 milhões de anos

The Pleistocene is the time when humans evolved in the old world. The first hominids (i.e. creatures more
closely related to humans than to apes) lived in Africa. Scientists have now identified about 14 species, of which
the best known is Australopithecus. They were 1-1.5 meters tall, walked upright, had a protruding jaw, prominent
eyebrow ridges and a small braincase

plano 8 – o Homo

- 1 milhão de anos

Homo erectus appeared in Africa, with a brain as big as the smallest modern human brain. Homo erectus
differed from modern humans by the prominent brow ridges and receding chin. They made sophisticated stone
hand-axes with sharp edges, possibly made spear points, and probably used fire. They spread over Africa and
Asia and survived until about 400,000 years ago

Como vimos o DNA manteve-se inalterável desde o início da vida na Terra. Este sistema de codificação foi
criando seres cada vez mais complexos. À 65 milhões de anos atrás a extinção dos dinossauros permitiu que um
novo grupo de corpos se emancipasse – os mamíferos. Dentro do grupo fisiologicamente mais complexo – os
primatas – à 5 milhões de anos dá-se uma transformação.

Aqui começa genealogia do eu.

44
Se de facto todos os seres vivos, até aos mais simples seres unicelulares, são conscientes e conscientes da
sua existência - na medida em que fazem inúmeras escolhas de acção, para além de quererem manter-se vivos e
propagar-se continuamente - , até agora só os primatas e os golfinhos apresentaram-nos a capacidade de auto-
reconhecimento abstracto (a começar pelo olhar no espelho).

Ou seja, eu só existe quando um sujeito separa-se de si através de uma técnica de representação (um
espelho ou uma linguagem, por exemplo). Eu sou eu a olhar para mim próprio como algo externo. Abstractizo-me.
Esta é a consequência óbvia da tal tendência da vida para a inteligência que actua sobre objectos que separa. Ela
produz logo de início a separação mais radical. Do sujeito inteligente em relação a ele próprio. A inteligência torna-
se mais importante que a própria existência concreta, ela define a própria existência (por isso é que temos tendência
para achar que um ser como uma formiga não tem consciência que existe, porque somos antes de ser, inteligência,
um mecanismo que permite-nos inclusive perceber que esse mecanismo está ausente nas formigas - a inteligência
snoba a não inteligência, snoba a consciência mais elegante e vivida do instinto 6).

Tentemos perceber a formação da mente do homo através do especialista em evolução dos sistemas
cognitivos Merlin Donald. Ele começa por discutir uma mente episódica - que analisa e articula acontecimentos
memorizados - presente nos mamíferos e cujos expoentes máximos são hominídeos e macacos:

Os macacos representam o topo da mente episódica: capazes de procedimentos como na maior parte dos animais com
sistemas nervosos centrais e extremamente capazes nas áreas da percepção de acontecimentos e de armazenamento episódico. Os
mamíferos, em geral, são excelentes nestas áreas, mas os macacos tem uma capacidade muito desenvolvida para a auto-
representação e melhores capacidades de resolução de problemas que outros mamíferos e mesmo que outros primatas. Nos nossos
parentes mais próximos os chimpanzés, as estruturas sociais dependem do estabelecimento de numerosas relações, e isto requer
uma boa percepção dos acontecimentos e memoria episódica. Ao contrário das sociedades complexas dos insectos, que operam
com ferohormonas e com princípios reflexos estereotipados, e automáticos, os chimpanzés lembram-se de inúmeras relações
diádicas, nitidamente individuais, aprendidas anteriormente.
De um ponto de vista humano, as limitações da cultura episódica estão nas áreas da representação. Os animais são
excelentes a analisar e relembrar situações, mas não podem representar uma situação para reflectirem sobre ela (Donald, p. 197)

Relações diádicas, nitidamente individuais. A inteligência criou uma forma de criar indivíduos. Como se a vida
quisesse agora que o cada elemento dentro da sua espécie de vanguarda pudesse autoafirmar-se, conhecer-se –
começar a saber quem é.

Trata-se de começar a abrir o interno do ser.

O autoconhecimento tem de começar humildemente pela auto-representação. O indivíduo inicial precisava


de uma nova forma de representação que lhe revelasse algo mais de si. Daí Donald definir como primeira grande
transição cognitiva a passagem da mente episódica à mente mimética com o advento do Homo erectus:

A capacidade mimética ou mimese baseia-se na possibilidade de produzir actos representacionais conscientes, auto-
iniciados que são intencionais mas não linguísticos.
Pode fazer-se uma distinção entre mímica, imitação e mimese.
A mímica é literal, uma tentativa de fazer uma duplicação tão exacta quanto possível. Portanto a reprodução
exacta de uma expressão facial ou repetição do som de outra ave por um papagaio constituem mímica. Muitos animais têm
alguma capacidade de mímica, usualmente em relação à sua espécie, embora as aves possam mimar outras espécies.
A imitação não é tão literal como a mímica; os filhos, ao copiarem o comportamento dos pais, imitam, mas não
mimam a maneira de agir dos pais. A imitação encontra-se especialmente nos macacos.
A mimese adiciona uma dimensão representacional à imitação. Engloba normalmente a mímica e a imitação para
uma finalidade superior, a de actuar e representar de novo um acontecimento ou relação. Alguns gestos são miméticos, pelo
menos na sua origem – por exemplo, tocar no coração ou cobrir a cara para indicar desgosto. O gesto pode ter tido origem em
alguém a imitar a reacção sincera de desgosto de outra pessoa, mas, ao ser usado, como representação, terá de considerar-se um
acto mimético. Pode ter sido difundido culturalmente por simples imitação; mas a sua invenção original foi a de um acto
mimético.
Deste modo a mimese é fundamentalmente diferente da imitação e da mímica, na medida em que envolve a invenção
de representações intencionais. Quando existir uma plateia para interpretar a acção, a mimese também serve o
propósito de comunicação social. Todavia, a mimese pode ser simplesmente a representação do acto do individuo para si
mesmo para treinar e melhorar uma capacidade: o acto pode ser analisado, repetido, e de novo analisado, isto é, representado
para a própria pessoa. A mimese não está obrigatoriamente ligada á comunicação externa (idem, p. 208-209)
6
Agamben falando da carraça de Uexkull com os seus três Bedeutungsträge instintivos: Ma a questi tre elementi essa è immediatamente unita in una relazione così intensa e
appassionata come non è forse mai dato provare nei rapporti che legano l'uomo al suo mondo. La zecca è questa relazione e non vive che in essa e per essa (Agemben 5, p. 51)

45
Não está forçosamente ligada à comunicação externa. Isto porque de facto estamos no início de uma psicologia
mais complexa e individualizada fruto de uma acção da inteligência cada vez maior que pressiona o ramo onde mais
se desenvolve – o dos mamíferos. No entanto, a verdade é que só a comunicação externa justifica esta evolução.

A passagem para Homo erectus é o resultado de um processo de criação de um eu, que permite a criação de
um novo nós. Esta nova espécie é mais adaptável e complexa porque pode designar funções e estipular novas
estratégias de sobrevivência através da indicação. Ou seja, mexendo com as partes que ele isola no espaço: ele
próprio, os outros e os objectos e outros seres.

Trân Duc Thao, um estudioso da evolução opera a passagem do hominídeo ao homo sapiens precisamente
apoiando-se no problema da indicação. A necessidade de indicação nasceria na caça em grupo dos Australopitecos

Com efeito a indicação a outrem, que definimos na sua forma originária como uma orientação à distância, implica
pelo menos dois sujeitos, um orientador e um orientado, separados por uma certa distância. No caso da orientação a si próprio,
não temos senão um único sujeito, simultaneamente orientador e orientado. Como fazer nestas condições a orientação à
distância? Evidentemente, o movimento só é possível se o sujeito toma distância por assim dizer em relação a si próprio. De
resto, é na realidade o que sentimos mais ou menos em nós próprios, quando fazemos este gesto ou outro qualquer gesto
significativo dirigido a nós próprios.
É-nos necessário voltar ao gesto originário da indicação para examinar uma relação que deixámos de lado até aqui
para tornar a exposição mais clara: a relação de reciprocidade. No movimento do trabalho colectivo, os trabalhadores indicam
uns aos outros o objecto dos seus esforços comuns. Cada um é, pois, alternativamente, ou mesmo simultaneamente, dador e
receptor da indicação, orientador e orientado..
No movimento das indicações recíprocas, os trabalhadores pré-hominídeos, reenviando o mesmo gesto uns aos outros,
reflectem-se por assim dizer e vêem-se uns nos outros «como num espelho» (Duc Thao, p. 20-22)

Sem esta relação de reciprocidade não teria nascido nem mimesis, nem sequer a própria linguagem. Ou
seja, este é essencialmente um processo de auto-consciência que necessita da figura dos outros para lhe conferir
sentido. É o sentido da relação com o grupo. E a verdade é que o próprio Donald se apercebe que

a cultura mimética teve os seus sucessos pragmáticos no fabrico de ferramentas e nas actividades socialmente
coordenadas, como a caça, a manutenção de um lar sazonal e o uso do fogo. Porém, a sua maior importância deve ter sido na
modelação colectiva e, portanto, na estruturação da sociedade hominídea, em si mesma. A cultura mimética foi uma adaptação
estável e bem sucedida, uma estratégia de sobrevivência para os hominídeos que durou mais de um milhão de anos.
Proporcionou a estruturas básica, sociais e semânticas, às quais se adicionou mais tarde a linguagem simbólica. As estruturas
do cérebro que sustentam a acção mimética, exclusivas dos humanos, constituíram o cérebro humano arcaico, que mais tarde se
viria a modificar para incorporar a capacidade linguística nos seus mecanismos de sistemas e módulos (Donald, p. 245)

Portanto o que define no final de contas o primeiro homo (o erectus) são os instrumentos (homo faber) e as
acções de grupo. A inteligência cria ferramentas e estratégias de organização do grupo para fins comuns como nas
formigas. Mas, ao contrário das formigas, utiliza uma forma de comunicação não biológica, mas representacional.

Deste modo, cada indivíduo reconhece-se como tal separando-se de tudo o resto. E isto por uma razão
precisa: para se indicar e indicar os outros e indicar objectos e desse modo sim ser possíveis estratégias de acção. Eu
sou eu, tu és tu – o indivíduo reconhece a existência de outros indivíduos e de grupos de indivíduos. E é isso
permite a interacção - eu faço isto e tu fazes aquilo – para a formação de grupos mais consistentes e adaptáveis
através de estratégias que passam essencialmente pela criação e consolidação de relações familiares estáveis e vão
até novas fórmulas de caça organizada.

Mas aquilo que efectivamente nasce de belo nesta nova forma de consciência a emergir é a possibilidade
que a mimese oferece de comunicar emoções e manifestá-las em grupo em rituais e jogos comunitários e ainda
promover os primeiros contactos pedagógicos de transmissão de conhecimento:

e pela primeira vez a vida encontrou corpos de seres que


dançaram e cantaram e jogaram em conjunto

Contudo o nosso problema é, neste momento, o indivíduo e seu pensamento nos termos estritos dum
mecanismo formal. A questão de fundo do pensamento parece ser como é que ele utiliza sistemas de significação que
permitem a um sujeito isolar partes da realidade e relacioná-las. Isolá-las é delimitá-las nos espaço e torná-las
passíveis de serem indicadas. Os objectos relacionam-se para formar novas significações passíveis de serem
comunicáveis. Ora, a primeira coisa que ele quer indicar é ele próprio. E assim torna-se parte e individuo e vê os
outros também como indivíduos passíveis de serem tal como ele indicados. Eu e tu sem as palavras eu e tu.

46
Ora, deste modo é talvez mais fácil perceber que não é por acaso que a ontologia desde a sua génese liga-se
à linguagem em torno do problema da indicação. O pronome (o eu, o tu, o nós, o isto, o aquilo, etc) , desde as ligações
em Aristóteles até aos shifters de Jakobsen, demonstra como o ser é antes de mais linguagem.

Linguisticamente o indivíduo tem um (pro)nome:


eu

uma partícula ontológica

Falemos então de linguagem e de ontologia. Para tal teremos de viajar até ao berço do pensamento
moderno ocidental – a Grécia clássica.

É de facto revelador constatar como o momento mais consolidante da origem da metafísica (quando a
dialéctica da synagogé platónica é invadida pelo quadro racional do topos aristotélico) faz coincidir ontologia e
linguagem através da divisão da !"#$%, ou seja, a substância em si.

Confrontemo-nos imediatamente com as Categorias:

Substância, na acepção mais fundamental, primeira e principal do termo, não se diz de qualquer sujeito nem está em
qualquer sujeito, por exemplo, este homem e este cavalo. No entanto, podemos falar de substâncias segundas, espécies em que se
incluem as substâncias primeiras, e nas quais, se são géneros, ficam contidas as mesmas espécies. Por exemplo: o homem
individual inclui-se na espécie denominada homem, e, por sua vez, incluímos essa espécie no género animal. Designamos
portanto de segundas estas últimas substâncias, isto é, o homem e o animal, ou seja, a espécie e o género.

A substância primeira nunca se predica de categoria alguma, e nem mesmo é predicável de um sujeito qualquer, mas,
nas substâncias secundárias, a espécie predica-se de todos os exemplos individuais, e o género predica-se de todos esses e ainda
das espécies. O mesmo ocorre com as diferenças, que tanto se predicam das espécies como dos indivíduos. Além disso, a definição
das espécies e dos géneros aplica-se às substâncias primeiras, e a do género à espécie, pois tudo quanto afirmamos do predicado é
também possível afirmar do sujeito. De modo análogo, a definição das diferenças aplica-se aos indivíduos e à espécies, mas,
como anotámos atrás, são sinónimas as categorias, cujo nome é comum, e cuja noção idêntica, de onde se segue que em todas as
proposições que têm por predicado uma substância ou uma diferença, o predicado é sinónimo.

Toda a substância parece significar um certo este. No que se refere à substâncias primeiras, é incontestável que elas
significam um certo este, porque o expresso é uma forma individual e um uno indivisível. No caso das substâncias secundárias
em virtude da própria forma de nomeação, também podemos admitir que elas significam uma forma determinada, como ao
dizermos, por exemplo, homem, animal. Contudo não é assim, pois tais palavras significam antes uma qualidade, porque o
sujeito não é, como no caso da substância primeira, uno e singular. Na verdade, homem é atribuível a uma multiplicidade, e o
mesmo se diz do animal (2a11 – 18 e 3a37 – 3b17)

A substância - as essências - de segunda ordem são fundamentalmente tudo aquilo que pode ser nomeado
pelos substantivos, enquanto que as essências primeiras são um certo este existente, melhor, este algo existente 7 - a
substância [primeira] parece significar um certo este. Assim, o Ser apresenta-se desde logo como acto de linguagem, o
Ser como esse algo nomeado. Ligando-se indelevelmente à esfera do pronome demonstrativo, ou seja, como acto de
indicação.

A !&'() !"#$%, enquanto significa um (*+, (- (isto é, contemporaneamente, o «este» e o «que») é, podemos dizer, o
ponto no qual se actua a passagem da indicação à significação, do mostrar ao dizer. A dimensão do significado do ser é uma
dimensão limite da significação, o ponto em que recai na indicação (Agamben 1, p. 25)

Daí a sua estranha segunda característica (não se diz de qualquer sujeito nem está em qualquer sujeito) que
consiste numa negatividade essencial 8. Enquanto indicação, este ente não apresenta nenhuma qualidade, apenas é e
nada há além dele (daí que se não existissem essências primeiras seria impossível que existissem outras coisas – 2b6).

7
Ammonio escreve (Cat. 2a, 34-35) ao comentar Aristóteles - o Isto significa a indicação, ou seja, a essência segundo o sujeito (citado em Agamben 1, p.25)
8
que aliás é uma dupla negação – não presente no sujeito, nem dito do sujeito

47
Esta dimensão limite da significação (este além do qual não há definição) independente e in-predicável
determina que a passagem do ser em acto ao inteligível implique sempre uma negatividade.

Na Metafísica algo de totalmente revelador :

um indivíduo particular sensível ou inteligível (chamamos inteligíveis os círculos matemáticos, sensíveis os círculos de
bronze ou lenho), disto não há definição, é apenas conhecido através da noesi ou da sensação; no entanto, quando este sai do
ser em acto, não é claro se é ou não é, mas é dito e conhecido como logos universal (1036a, 2-8)

Paralelo entre o gesto do hominídeo – mente, linguagem e filosofia repetem-se entre si num mesmo
mecanismo de negatividade que é o de ser na sua própria negação – o eu elimina o eu efectivo seja num gesto, na
palavra, no discurso ou no pensamento. A separação implica negação, mas esta abstracção do ser era a única forma
que sabíamos de ser, ou melhor, de saber ser. Eu penso, logo eu existo.

A conexão original do problema do ser com a indicação está presente desde sempre na história da filosofia
passando por Hegel, Heidegger e Wittgeinstein. Aliás, toda a história da metafísica é sustentável só a partir desta
junção operada pela indicação (entre linguagem e ser) que define a cisão entre ser e ente. Por isso, como vimos
Lévinas (ao pensar Heidegger) adverte que o pensamento ocidental consiste em não entender o ser senão como fundação
do ente. (A filosofia, toda a filosofia não foi senão linguagem do ser, ela é a modalidade pela qual o ser pode dizer-se; porque
há uma linguagem silenciosa do ser a que o homem responde)

E a indicação encontra a sua concretização linguística precisamente nessa estranha categoria gramatical
que denominamos o pronome. Acompanhemos então a sua história 9 :

cena 1.
Aristóteles (Poética) fala-nos de ligações – termo que engloba todos os termos que não sejam nome ou
verbo. São na realidade os estóicos que fixam o carácter de indicação (criando os demonstratio) dos pronomes ao
criarem a categoria articulações indicativas (que englobava igualmente os artigos). Mais tarde, no primeiro tratado
gramatical compilado por Dionisio Trace surge então a denominação grega da qual deriva pronomen

cena 2.
No séc. II d.C que o gramático alexandrino Apollonio Discolo opera finalmente a ligação do pronome à
esfera da substância primeira, operação esta aceite pelo principal gramático latino da Antiguidade Tardia, Priciano
então professor em Constantinopla.
Assim nasce o estatuto privilegiado do pronome na história do pensamento medieval e moderno – injunção
fundamental para o pensamento lógico e teológico. Porque se o nome fazia parte do discurso que correspondia às
categorias aristotélicas da substância (segunda) e da qualidade (!!"#$), isto é, na terminologia gramatical latina, a parte do
discurso que designa substantiam cum qualitate, uma substância determinada num certo modo – o pronome situa-se além
dessa determinação e, num certo sentido, nos limites da própria linguagem, ele significa substantiam sine qualitate, a pura
essência em si anterior e para além de qualquer determinação qualitativa (Agamben 1, p. 25)

O pronome coincide agora com a esfera do puro ser, dimensão de significado dos trascendentia (ens, unum,
aliquid, bonun, verum) – aliquid e unum são pronomes – chamam-se assim porque não existe nenhum género ao qual
pertencem nem podem ser definidos. Sono i maxime scibilia, ciò che sempre è già conosciuto e detto in ogni oggetto
appreso o nominato e al di là del quale nulla può essere predicato o conosciuto (idem, p. 30)

cena 3.
Os gramáticos medievais dividem o pronome dos trascendentia já que estes denotam o objecto como objecto
na sua universalidade, enquanto o pronome indica uma essência indeterminada, um puro ser determinável através
de actos particulares de concretização que são a demonstratio e a relatio – ou seja, a demonstração ou relação realizam
a significação do pronome. Assim, o pronome efectua a passagem do significar ao mostrar: o puro ser (substantia
indeterminata) em si insignificável e indefinível torna-se significável e determinável através de um acto de
identificação.

9
seguindo o percurso proposto por Agamben em Il linguaggio e la morte: um seminário sull luogo della negatività

48
Como constatava Prisciano, sem actos indicativos, os pronomes são nulos e vazios. Para perceber como o
puro ser pode ser indicado (ou melhor, em que consiste essa demonstratio que dá significado ao pronome) o
pensamento lógico-gramatical distingue duas espécies de demonstratio: a) ad sensum – que significa o que mostra; b)
ad intellectum – não significa o que mostra – onde se inclui o modus significandi do nome próprio
O desembocar de todo este percurso na definição de demonstratio ad intellectum evidencia o problema de
representar dois estatutos de presença diferentes: um certo e imediato e outro por uma espécie de diferimento
temporal, algo incerto

cena 4.
Dois dos principais pensadores da linguística moderna vão afrontar o problema através de duas formas de
classificação do pronome que encerram a mesma conclusão: os indicadores de enunciação (Benveniste) e os shifters
(Jakobson):

Para Benveniste, o pronome (assim como os outros indicadores da enunciação como aqui, agora, hoje,
amanhã) não possuem um referente objectivo, visto que só podem ser definidos na instância do discurso donde
provêm:

Qual é a realidade a que se referem eu e tu? Unicamente a uma realidade de discurso que é algo de singular. Eu só
pode ser definido em termos de «locução» e não em termos objectivos, como acontece com um signo nominal. Eu significa - a
pessoa que enuncia a presente instância do discurso que contém eu 10

Em Jakobson, o pronome está inserido na categoria dos shifters – unidades gramaticais, presentes em
qualquer código que não podem ser definidas fora de referimento à mensagem e que funcionam como símbolo-
índice (seguindo as formulações de Peirce).

Eu designa a pessoa que diz eu. Deste modo, por um lado, eu não pode representar o seu objecto sem ser-lhe
associado por uma regra convencional e, em códigos diferentes, o mesmo sentido é a atribuído a sequências diferentes, como eu,
ego, ich, I, etc. : portanto, eu é um símbolo. Por outro lado, apesar disso o signo eu não pode representar o seu objecto se não se
encontra numa relação existencial com esse objecto 11

A linguística moderna revela a como o significado do pronome se produz através um referimento deíctico a
uma concreta instância do discurso. Os pronomes e os outros indicadores de enunciação referem-se (antes do
próprio significado) ao acto de linguagem, e só como tal (na instância da enunciação) pode produzir significado. Mas
se para a ciência da linguagem esta dimensão é da conversão da língua em palavra, para a história da filosofia
ocidental esta dimensão é o Ser - ou seja, aquilo que sem ser nomeado é já indicado em cada dizer.

Toda a ontologia alicerça-se sobre a cisão entre significação e indicação. No fundo, sobre dito e não-dito ,
esse indizível que assombra 12. Isto implica directamente três fundamentos formais da metafísica:
1) que o ser (o Espírito, Geist, etc) só é concebível e produzível através da linguagem;
2) que o ser (desse modo) está envolto numa negatividade essencial;
3) que quando eu indico (no espaço da instância de enunciação) o ser e a linguagem acontecem porque se
auto-reflectem

Chegamos à conclusão que a linguagem enquanto acto de indicação fala antes demais de si mesma. Diz eu
aconteço. Mas para que esta lugar do discurso possa surgir é preciso algo que estabeleça a tal relação existencial
(Jakobsen) e contemporaneidade (Bienveniste) entre shifter e a instância do discurso.

Esse algo que liga existencialmente o sujeito (com o shifter eu) à instância do discurso e diz eu aconteço

- é a voz

10
Problèmes de linguistique générale, vol. I, pp. 252-253 (citado em Agamben 1, p. 33)
11
Shifters, verbal categories and the Russian verb in Selected Writings, vol. II, p. 132 (idem, p. 35)
12
para retirar todas as implicações deste facto seria talvez necessário perceber, por um lado, como se produziu o impasse (criado pela linguagem) que impediu
Heidegger de completar Sein un Zeit e, por outro lado, a concentração total de Wittgenstein na demonstração dos limites do formalismo para chegar ao silêncio

49
do grito ao significado

imagem 16 – curvatura da base do crânio em gorilas (G), chimpazés (C), austrolopiecíneos (A), neandertalenses (N) e sapiens (S)

Nos anos 80, Lieberman 13 apresentou um novo dado anatómico na evolução do homo bem mais
interessante que o convencional coeficiente de encefalização. Ele analisou a curvatura da superfície da base do
crânio para postular a sua teoria que liga directamente a linguagem simbólica à fala.
A descida da laringe na curvatura da base do crânio do homo sapiens apresenta um corte radical com base
plana dos gorilas e hominídeos (embora possa-se verificar uma evolução ténue da curvatura). A importância desta
análise é que a descida da laringe representa a formação de um espaço para o elaborado aparelho vocal
supralaríngeo cujos músculos vocais são responsáveis por uma enorme variedade de sons.

Em 1871, 12 anos depois de The origin of species, Darwin em The descent of man tinha proposto uma visão
para o desenvolvimento da linguagem no homem 14.
Ele partia precisamente da capacidade de representação do primata como forma de organização simbólica
do mundo. Embora a sua descrição seja vaga podemos conceber que esta capacidade baseava-se num conjunto de
representações visuais e motoras ao estilo do estádio mimético que vimos na proposta de Merlin Donald.
Segundo Darwin, a evolução continuou depois através da génese de uma forma primitiva da linguagem que
não era gestual, mas vocal. O desenvolvimento das vocalizações seguiria assim 3 padrões até à linguagem falada
como a concebemos hoje:

plano 1

imitação directa de sons naturais

plano 2

vocalizações voluntárias que iniciavam a utilizar novas cadências e modulações para comunicar emoções e
sentimentos de ciúme, amor e triunfo – um controlo prosódico da voz cada vez maior desembocou em
canções

plano 3

voz articulada
que permite a gestão do que Darwin designou de longas filas de pensamento

13
P. Lieberman talvez o mais importante teórico da biologia cognitiva da linguagem, autor entre outros do livro The biology and evolution of language (Harvard
University Press, Massachusets, 1984) ao qual fazemos referência e onde surge a figura 15 (modificada, Donald, p. 129)
14
nos dois capítulos intitulados Comparision of the mental powers of man and lower animals

50
Esta voz que já articula longas filas de pensamento e produz mais pensamento, viaja pelo homem
modulando emoções, interagindo com o corpo, dizendo antes demais eu estou aqui. A voz é afirmação individual que
comunica para criar ligações. Tal como a linguagem, ela diz do sujeito antes de mais que ele existe, que o seu
pensamento existe, que ele sente, que ele vê o mundo e tem algo a dizer sobre isso.

E o que nos diz a tradição filosófica ontológica transcendental? Bem no início do século XIX, alguns anos
antes da Fenomenologia 15, Hegel já estabelecera o momento de aparição da consciência como o momento da
articulação da memória em linguagem.
Mas para Hegel existe uma articulação precedente a esta – precisamente a articulação da voz em
linguagem. Que Hegel define na passagem da voz vazia animal à voz da consciência humana.

A linguagem enquanto sonoro e articulado é voz da consciência porque cada som tem um significado, isto é, nele
existe um nome, a idealidade de uma coisa existente, o imediato não-existir desta (citado em Agamben 1, p. 57)

A consciência existe na voz articulada. E Hegel explica-nos que o que é articulado é o puro som da voz
animal – a vocal – que é interrompido e preso pelas consonantes mudas. A minha voz serve-se da linguagem como
processo de diferenciação, interrupção e conservação do grito animal.
Aquilo que permite que esta articulação passe de puro som vazio do animal para voz da consciência é o
facto da voz animal ser voz da morte (poder do negativo e da memória – dimensão do puro querer-dizer ). A
linguagem humana enquanto articulação é a tomba da voz animal que prende a essência mais própria – a morte.

Esta é a razão pela qual a linguagem significante é verdadeiramente a vida do espírito que carrega a morte e
mantém-se nela; e, por isso, - enquanto morada (verweilt) na negatividade compete-lhe o poder mágico que converte o
negativo em ser (idem, p. 59 16)

A linguagem nega o homem enquanto indivíduo ao transformá-lo em universal. A existência do ser na


ontologia depende da superação, da transcendência da negatividade da linguagem.

A única saída possível para a questão essencial da ontologia é.

o homem enquanto todo – corpo, pensamento, gesto, voz - ser acto de significado
(como quem dança, canta e joga em liberdade entre os outros)

Estar no eu em cada momento no espaço. Ser quem sou agora.

Estamos no início da concretização do único real horizonte da ontologia. Ser-se como actor da vida. Para
sermos.

Na linha de partida, o nosso cognitivista nota que está um novo ser mimético da Natureza e de si próprio e
dos outros cria um indivíduo consciente do próprio corpo e dos seus movimentos no espaço :

A base cognitiva do acto mimético foi a representação do eu e a consequente melhoria do controlo motor consciente. A
percepção sofisticada dos acontecimentos foi também uma componente essencial, mas já estava muito desenvolvida nos macacos,
até ao nível da metáfora perceptiva.

A maior ruptura com as capacidades dos primatas deve ter sido a nível da representação no cérebro do próprio
corpo do indivíduo e dos seus movimentos no espaço. A essência da capacidade mimética é portanto combinar o poder dos
primatas a nível da percepção de acontecimentos com um mapa consciente do corpo e dos seus padrões de acção, num espaço
objectivo de acontecimentos; e esse espaço de acontecimentos deve ser ordenado de acordo com a representação de si próprio e do
mundo exterior (Donald, p. 233)

15
nas lições de Jena de 1803 a 1806 compiladas em Jenenser Realphilosophie (Hoffmeister, Leipzig, 1931)
16
os termos utilizados por Hegel são aquele evidenciados

51
uma condição psicológica

Mas em todo o caso evitou o olhar de quem quer que fosse. Mas antes do mais, tinha que deixar claro aos potenciais
companheiros de férias que se desinteressava totalmente das suas pessoas. O olhar de Preedy passou pelo meio deles, á volta
deles, por cima deles – perdido no espaço. Dir-se-ia que a praia estava deserta.
Quando por acaso aparecia uma bola lançada na sua direcção, ele parecia surpreendido; deixaria depois um sorriso divertido
iluminar-lhe o rosto (Preedy Simpático), olharia á volta, espantado por haver pessoas na praia, devolveria a bola com um
sorriso para si próprio que não seria um sorriso para ninguém, e depois retomaria a sua inspecção despreocupada e tranquila
no espaço em redor.
Mas eram horas de proceder a uma pequena exibição, a exibição do Preedy Ideal. Com gestos subtis deixou á vista de
quem quisesse olhar o titulo do livro que trazia – uma tradução espanhola de Homero, um clássico portanto, mas nada de
audacioso nem cosmopolita – e a seguir fez cuidadosamente com o seu roupão de praia a com o seu saco um único volume,
protegendo-os da areia (Preedy organizado e Atilado), ergue-se lentamente para distender á vontade o corpo enorme (Preedy
Grande Felino), e deixou cair para o lado as sandálias (Preedy Afinal-despreocupado).
As núpcias de Preedy com o mar! Havia vários rituais possíveis. O primeiro era o passeio que se transforma em
corrida e um mergulho a direito na água, seguido de um crawl robusto e sem salpicos em direcção ao horizonte. De repente,
virar-se-ia e levantaria grandes jorros de espuma branca com as pernas, como se indicasse que, se quisesse, poderia ter
continuado a nadar para longe, e depois ficaria por um pedaço de pé, ao sair da água, para que todos o vissem.
A alternativa a este ritual era mais simples, evitava o choque com a água fria e o risco de exibir um entusiasmo
excessivo. Era tudo uma questão de mostrar tão habituado ao mar, ao Mediterrâneo, e em particular àquela praia, que não
haveria diferença entre a sua maneira de estar dentro de água ou fora dela. Consistia num avanço lento descendo em direcção á
água sem notar sequer que começava a molhar os pés, pois para ele a areia e a água eram a mesma coisa! – com os olhos postos
no céu contemplando indícios, invisíveis para os outros, do estado do tempo (Preedy Pescador Local) (Sanson citado em
Goffman, p. 15-16)

Em A aprsentação do eu na vida de todos os dias, Erwin Goffman analisa o precedente episódio de Contest of
Ladies (onde o escritor Wiilliam Sanson descreve esta entrada em cena na praia de um hotel do turista-performer
inglês Preedy) para chegar a esta conclusão:

O romancista quer fazer-nos ver que Preedy se encontra indevidamente preocupado com as impressões de longo
alcance que sente que a sua mera actividade corporal provocará nos que o rodeiam. Poderemos tomar Preedy ainda mais
ridículo se pensarmos que ele age apenas em vista de causar uma impressão determinada, que essa impressão é falsa e que os
demais presentes ou não ficam nada impressionados com ele ou, pior ainda, sentem que Preedy tenta com a sua afectação
ao impressioná-los de determinada maneira. Mas o que nos importa assinalar aqui é que o tipo de impressão que Preedy pensa
estar a causar é, de facto, o tipo de impressão que correcta ou incorrectamente os outros recolhem de alguém que se encontra no
meio deles (idem, p. 15-16)

Ou, dito de outra forma, independentemente do facto de ser uma estratégia de sedução ou não, o actor está
efectivamente a realizar aquelas acções. São aqueles conjuntos de movimentos que constituem o que acontece e é
isso que constitui o real do que está acontecer para os outros que o vêem. Isto é o mesmo que dizer que:

as nossas ficções constituem a realidade das nossas acções.

O eu – enquanto ego - apresenta-se no social constantemente com uma preocupação (mais ou menos
obsessiva) de como está as ser entendido pelos que o rodeiam. Isto não se deve a uma simples tendência para o
superficial, deve-se a 3 afirmações implícitas no acto com níveis de profundidade diferentes:

1.
eu existo – se as pessoas notam em mim e interagem comigo isso prova-me que existo – os outros são
espelhos de significação

2.
eu sou de algum modo relevante

3.
consequentemente, eu posso retirar alguma vantagem dessa relevância que eu crio e outros aceitam

No episódio de Preedy, a vantagem está na possibilidade de obtenção de sexo.

52
Já no início do século XX, o tão falado Sigmund Freud analisou profundamente a questão do eu. E chegou
ao sexo. Mais tarde não podendo comportar tal descoberta a psicologia afastou-se arrogantemente de Freud sem
completar aquilo que ele iniciara.
Quem não se preocupou foi a irmã que seguindo os princípios do irmão ensinou a publicidade a vender
tudo e mais alguma coisa através do sexo. Trouxe-lhe muito dinheiro. E ainda hoje vemos como quase a totalidade
da publicidade baseia-se num corpo de uma jovem mulher (ou mais) que se apresenta pré-disposta ao acto sexual
numa relação com o produto muitas vezes totalmente imperceptível.

Foucault: Zombaremos da acusação de pansexualismo que em dado momento foi objectada a Freud e à psicanálise.
Mas os que hão-de parecer cegos talvez não sejam tanto os que a formularam como os que a afastaram com um gesto de enfado,
com se ela traduzisse apenas os terrores de uma velha pudicia. Porque os primeiros, afinal, foram simplesmente surpreendidos
por um processo que começara à muito tempo e que não viram que já os rodeava por todos os lados; atribuíam simplesmente ao
mau génio de Freud o que fora preparado há muito; enganaram-se na data da introdução na nossa sociedade de um dispositivo
geral de sexualidade. Mas os segundos, esses erraram quanto á natureza do processo; julgaram que Freud restituía enfim ao
sexo, por uma viragem súbita, o quinhão que lhe era devido e durante tanto tempo lhe fora contestado; não viram que o bom
génio de Freud o colocara num dos pontos decisivos assinalados desde o século XVIII pelas estratégias de saber e de poder; e que
ele relançava assim, com uma eficácia admirável, digna dos maiores autores espirituais e directores de consciência da época
clássica, a injunção secular de ter de conhecer o sexo e de o pôr em discurso. Evocam-se muitas vezes os numerosos processos
pelos quais o Cristianismo antigo nos terá feito detestar o corpo; mas pensemos um pouco em todas aquelas astúcias pelas quais,
há vários séculos, nos fizeram amar o sexo, pelas quais nos tornaram desejável o seu conhecimento, e precioso tudo o que dele se
diz; pelas quais nos incitaram também a utilizar todas as nossas habilidades para o surpreender, e nos amarraram ao dever de
extrair a sua verdade; pelas quais nos culpabilizaram por durante tanto tempo o termos menosprezado. Elas é que mereceriam
hoje o nosso espanto. E devemos pensar que talvez um dia, numa outra economia dos corpos e dos prazeres, já não se
compreenda bem como as astúcias da sexualidade e do poder que fundamenta o seu dispositivo conseguiram submeter-nos a esta
austera monarquia do sexo, ao ponto de nos votarem á tarefa indefinida de forçar o seu segredo e de extorquir a essa sombra as
confissões mais verdadeiras. Ironia deste dispositivo: a de nos fazer acreditar que se trata da nossa «libertação» (Foucault 2,
163-164)

Talvez esta não seja uma ironia.

Um chimpanzé macho na floresta da Tanzânia esta a mastigar um bocado da carcaça de um macaco que capturou.
Outros membros do grupo de caça aglomeraram-se em volta dele na expectativa de receberem um pedaço. Os jovens sentam-se
por baixo no chão da floresta, esperando que fragmentos de ossos ou pingos de sangue caíam junto deles. Na árvore, os pedintes
com as mãos estendidas e as palmas voltadas para cima pedem carne e põem as pontas dos dedos nos beiços do caçador para
chamar a sua atenção. Ele tenta ignorar a sua presença, voltando-se continuamente de costa para eles. Uma excepção a esta
indiferença é uma fêmea com tumefacção sexual que é alvo das atenções do macho. Ele permite que ela tire bocados da carcaça
que, em seguida, partilha com o filho. Ocasionalmente, ela apresenta-lhe a tumefacção e copulam. Entretanto, o dono da carne
permite que um outro chimpanzé, um aliado de longa data, também tire bocados de carne. Esta interacção de carne e sexo, redes
politícas e exibição de estatuto é típica do padrão estratégico da partilha de carne entre os chimpanzés (Stanford, 157-158)

Neste episódio mais prosaico que a sofisticação performativa de Preedy torna-se totalmente visível como
funciona na essência uma estrutura de poder dentro do quadro de um ser vivo que se identifica como indivíduo. As
cartas mais relevantes estão aqui – a figura central dentro do quadro de uma estrutura de poder patriarcal baseada
na alimentação - o facto de ser carne não é de todo irrelevante 17 - e o sexo. Este é o modus operantis basilar de todos
os primatas onde se inclui o homem.

Tentemos fazer o ponto da questão. Há um elemento que trespassa toda esta história – o poder.

Os equinodermos são um filo muito interessante que marca um tipo de evolução totalmente diferente do
homem. A sua forma é sempre na base de 5. O equinodermo que mais suscitou atenção do homem foi a estrela do
mar (precisamente constituída por um centro com 5 braços). A sua característica mais interessante é talvez que ela
pode potencialmente viver para sempre. Reconstrói-se através de um só braço e só morre por um factor externo ao
seu próprio organismo (por exemplo se for pulverizada por um raio laser como sugeriu um documentário). A estrela
do mar é composta por 5 braços sensíveis e sem cérebro repousa nas rochas. Ou pelo menos assim parece.

17
esta relação entre carne e poder patriarcal é analisada no livro Os símios caçadores de Craig Stanford

53
Um amador fotografou muitas vezes estes estranhos seres. Depois lembrou-se de pôr tudo em fast forward
e eis que surgiram movimentos organizados das estrelas do mar. Estes animais sem cérebro que vão sugando o que
encontram pelo caminho para sobreviver de repente apresenta movimentos no espaço não tão irracionais quanto
isso. Mas mais surpreendentemente são descobertas interacções com outras estrelas do mar. Um espectáculo muito
bonito. Elas levantam e ondulam os braços tocando-se mutuamente. No início o investigador pensou que fossem
actos de amor, mas mais tarde percebeu que eram uma espécie de luta em câmara lenta para a obtenção de locais
mais privilegiados – mais estes combates estabeleciam reais formas precisas de
hierarquia.

A evolução de um sistemas nervoso ligado a um cérebro – a tendência da vida para a inteligência - foi algo
que foi permitindo um maior desenvolvimento da capacidade do animal de percepcionar o mundo e como tal
movimentar-se cada vez mais por esse mundo físico. Esta evolução chegou até ao primatas que já desenvolviam uma
nova forma de se relacionar com o mundo criando instrumentos que o levavam além dos seus limites corporais e
experimentando novos significados nas interacções sociais.

No seguimento desta linha evolutiva, a vida através da inteligência criou, com o advento do homem a
capacidade de percepcionar o mundo além do mundo físico dos seus sentidos. O mecanismo que permitiu essa nova
percepção foi a criação de uma técnica – o jogo simbólico. Ao separar os objectos deles próprios, o homem pode ele
tornar-se objecto para o seu entendimento e criar consciência de si. Assim, ele torna-se indivíduo pleno.

Esta consciência de si é um marco magnífico da evolução, mas que trás consigo novas formas de renovar
sofisticadamente uma constante das formas que a vida tomou:

a procura de poder

Portanto a técnica de técnicas que é a inteligência no seu apogeu como a encontramos no homem ganhou
uma técnica de consciência em contraponto com infinitas técnicas que partindo precisamente da ideia do eu
procuraram essencialmente o que a vida sempre procurou: o poder. Poder sobre as outras espécies e poder entre os
seus pares. E um e outro baseavam-se essencialmente nas mesmas duas coisas:

comer e reproduzir-se

Estudos recentes apontam que os australopiecíneos eram essencialmente seres recolectores e a carne que
comiam não caçavam. Sempre gostámos de ver os nossos antepassados como grandes caçadores. Mas foi
essencialmente a sua organização social com partilha de alimentos que permitiram multiplicar-se e manter a sua
progenia.
Tal como as bactérias ou as plantas ou qualquer outro animal, os hominídeos utilizavam o sexo como
forma de invasão do espaço e garantia de sobrevivência. Mas eles criaram algo mais - criaram a família. O seu
mecanismo essencial de sobrevivência era período maior de amamentação e uma estrutura segura de procriação no
seio de uma sociedade organizada onde vários indivíduos se interligavam fortemente. Qualquer coisa como comer e
procriar em paz. Comunicante deste espírito nasceu mais tarde a agricultura.

Mas voltemos ao eu. Um indivíduo consciente como tal quer essencialmente automanter-se e autoreplicar-
se. Há uma correlacção brutal entre aquilo que é mais absoluto num ser vivo que é o mecanismo de sobrevivência e
a propagação da sua semente - como se todos os seres vivos acreditassem que vivem nas suas crias futuras – e o
ADN dá sem dúvida razão de ser a esta estranha fé até de seres compostos de uma única célula.

A verdade é que o homem, o tal macaco sapiente, tem em si um mecanismo que o ultrapassa imensamente
– uma máquina existencial que subsiste à 4 mil milhões de anos. Mais essa máquina - que foi também designada de
gene egoísta - de certa forma torna-se mais incisiva com o advento do animal mais individualizado cujo produto
final é o homo.
O homem no seu esforço de separar-se do animal é como um ser que se olha no espelho e parte-o
horrorizado com o que vê, como a madrasta da branca de neve. Mas a verdade é que quanto mais corre do espelho,
mais o espelho está dentro dele – todas as principais estruturas do que chamámos ser humano são formas de poder
assentes num modelo patriarcal que procura antes demais a obtenção de sexo.

54
Assim o sexo é a obsessão dos tempos modernos e – na era do económico - tudo é vendido através do sexo.
O modelo patriarcal (que de forma assustadora se estende às mulheres) assente na procura do sexo do grande falo
está presente em todo lado:

no carro mais potente,


no emprego melhor,
no míssil mais comprido,
no cartão de crédito mais dourado,
no comer desmedido,
na prepotência discursiva,
na alta definição do televisor,
no exercício forçado de fim-de-semana no health club

[ Como se justifica por exemplo que não se estabeleça a relação óbvia entre um mundo rodeado por discursos de
objectificação da mulher (no sentido de carne penetrável) e o fenómeno da pedofilia (onde pela ausência da
constituição de uma personalidade a carne torna-se mais só carne) ? ]

A ironia é ver como hoje o sexo está já totalmente desconectado de uma relação com a procriação - de
forma efectiva com as técnicas sempre mais avançada de inseminação artificial e de forma simbólica na maneira
como o pensamos e inscrevemos na nossa vida – e, paralelamente, o crescimento exponencial de disfunções sexuais
da era moderna.

Aquele que não quer ser animal está imerso na própria animalidade e ainda (ao contrário do animal) perde
o seu próprio corpo e o dos seu pares.
Para além disso, hoje a manutenção do próprio corpo está aliada a um falso conforto orgânico pleno de
passividade que evidenciam o indivíduo escravizado pelo sua própria mente que manipula os seus profundos desejos
animais - como alguém que se senta encurvado perante a imagem de dois corpos ou um corpo objectificado para
retirar daí um estranho prazer do objecto pornográfico.

Descartes quando faz a separação entre rex cogita e rex extensa analisa de forma perfeita um processo que
começara na realidade há milhões de anos e que hoje atingiu o seu ponto culminante. Mas também hoje a nossa
consciência diz-nos que cogita e extensa são uma mesma coisa. E que o corpo domesticado do homem moderno
imerso na ilusão de um realismo que prende pela alimentação (o trabalho) e o sexo (o sonho) é o total reflexo de
uma mente domesticada, iludida, paralisada – uma mente presa também ela ao cansaço de um sofá.

Este erro de Descartes acabou por dar nome a um livro que revolucionou o estudo da neurologia. António
Damásio baseando-se num vasto conjunto de dados neurológicos e neuropsicológicos chegou à determinante
conclusão que

consciência, emoção e corpo não se podem separar

Damásio percebeu que o que faltava era que o homem encontrasse um elo entre a mente e o corpo, algo
que está já presente nas danças, canções e jogos do homo erectus – a emoção. Deixemos simplesmente o professor
falar 18:

lição 1
relações entre objecto e sujeito através de imagens

A consciência consiste na construção do conhecimento sobre dois factos: que o organismo está envolvido numa relação
com um objecto e que o objecto presente nessa relação o modifica.

O processo de construção do conhecimento requer um cérebro e requer as propriedades de sinalização através dos
quais os cérebros conseguem construir padrões neurais formar imagens. Os padrões e imagens necessários ao aparecimento da
consciência são nem mais nem menos que os deputados cerebrais do organismo, do objecto e da relação entre os dois. Nesta
perspectiva, a compreensão da biologia da consciência transforma-se na questão de descobrir como é que o cérebro consegue
cartografar ambos os actores e a relação que estes mantêm

18
ver capítulo 1 – um passo para a luz (Damásio 1, p. 39-51)

55
lição 2
a relação entre consciência, corpo e sobrevivência

No teatro de relações da consciência o organismo constitui a unidade do nosso ser, ou seja, do nosso corpo; e, no
entanto, a parte do organismo chamada cérebro tem dentro de si uma espécie de modelo desse mesmo organismo.
As raízes profundas do si incluindo do si alargado que abarca identidade e individualidade podem ser encontradas
nos conjunto dos dispositivos cerebrais que de forma contínua e não consciente mantêm o estado do corpo dentro dos estreitos
limites e da relativa estabilidade necessárias à sobrevivência.

lição 3
a sobrevivência e as imagens

A sobrevivência depende de encontrarmos e incorporarmos fontes de energia e de evitarmos toda a espécie de situações
que ameaçam a integridade dos tecidos vivos. Desprovidos da capacidade de acção, organismos como os nossos não
sobreviveriam uma vez que não encontrariam as fontes de energia necessárias à renovação da estrutura do organismo e à
manutenção da vida e não poderiam evitar os perigos presentes no ambiente. Porém, as acções não nos levariam muito longe se
não fossem orientadas por imagens. As boas acções precisam da companhia de boas imagens. As imagens permitem-nos
escolher entre reportórios de acção anteriormente disponíveis e optimizar a execução da acção escolhida.
A capacidade de transformar e combinar imagens de acções e cenários é a fonte de toda a criatividade.
Se as acções estão na origem da sobrevivência e se o seu poder está ligado à disponibilidade de imagens
orientadoras, é bem plausível que dispositivo capaz de maximizar a manipulação efectiva de imagens ao serviço de
um determinado organismo tivesse conferido uma enorme vantagem aos organismos que o possuíssem e tivesse
provavelmente prevalecido na evolução. A consciência é precisamente esse dispositivo.
A novidade pioneira trazida pela consciência foi a possibilidade de ligar o santuário íntimo da regulação
da vida à capacidade de manipular imagens.
A consciência gera o conhecimento de que as imagens existem dentro do indivíduo que as forma, coloca as imagens na
perspectiva do organismo, ligando essas imagens a uma representação integrada do organismo e, ao fazê-lo, permite a
manipulação das imagens em proveito do organismo. Ao surgir na evolução, a consciência anuncia o alvorecer da capacidade
de planeamento individual

Argumentaremos que esse mecanismo de disponibilização de imagens orientadoras instala-se


definitivamente com o operador mimético cognitivo de que Merlin Donald nos fala. O homo é aquele a quem lhe é
facultada a possibilidade de ser um verdadeiro actor da vida. Que através do modelo de representação
mimético pode unir corpo e consciência no quadro da sua relação consigo próprio, como os outros e com o mundo.
Esta possibilidade surge essencialmente da modulação do sistema emocional (o grito e o sentido) como o
comprovam os novos factores de coesão dos grupos – as canções, danças e jogos – e as formas de comunicação
diadicas. Para além da capacidade manual avançada, há outro aspecto do comportamento mimético humano que parece
necessitar de um aparelho neuronal modular especial, adicionado a uma capacidade mimética geral: a mimese facial e vocal que
se combinam na expressão da emoção. A combinação das expressões emocionais facial e vocal pode ter jogado um papel
importante na cultura mimética como ainda o faz na sociedade moderna. Como Darwin sugeriu, faz sentido colocar a evolução
da expressão emocional cedo na evolução humana, como parte do padrão geral de adaptação social mimética (Donald, p. 222)

lição 4
as emoções

As emoções são conjuntos complicados de respostas químicas e neurais que formam um padrão; todas as emoções
desempenham um papel regulador que conduz de uma foram ou de outra à criação de circunstâncias vantajosas para o
organismo que manifesta o fenómeno. Embora a composição e dinâmica exactas das respostas emocionais sejam formadas em
cada indivíduo por um desenvolvimento e um ambiente únicos, a evidência sugere, que na sua maior parte, ou até na sua
totalidade, as emoções resultam de uma longa genealogia de sintonização evolutiva. Elas fazem parte dos dispositivos
bio-reguladores com os quais nascemos para sobreviver. Foi por esta razão que Darwin conseguiu catalogar as expressões
emocionais de tantas espécies e encontrar consistência nessas mesmas expressões, e é também por isso que, em diversas partes do
mundo e em culturas tão diferentes, as emoções são facilmente reconhecíveis. Claro que existem diversas formas de expressão,
assim como variações na configuração exacta dos estímulos que podem induzir emoção em diferentes culturas e indivíduos.
Porém, o que realmente espanta é a semelhança e não a diferença. É essa semelhança que torna possível relações interculturais e
que permite que a arte, a literatura, a música e o cinema atravessem fronteiras com tanta facilidade

56
Todas as emoções usam o corpo como teatro (milieu interno, sistemas visceral, vestibular e músculo-esquelético),
mas as emoções também afectam o modo de operação de numerosos circuitos cerebrais: ou seja, as variadas respostas emocionais
são responsáveis por modificações profundas, tanto na paisagem corporal, como cerebral. O conjunto destas modificações
constitui o substrato para os padrões neurais que eventualmente se tornam nos sentimentos de emoção

planos de resposta complexos, flexíveis e


RAZÃO SUPERIOR individualizados são formulados sob a forma de
imagens conscientes e podem ser executados
como comportamento

CONSCIÊNCIA

SENTIMENTOS padrões sensoriais que assinalam dor e prazer e


emoções quando se transformam em imagens

padrões de resposta complexos e estereotipados


EMOÇÕES que incluem emoções secundárias e de fundo

padrões de resposta relativamente simples e


REGULAÇÃO BÁSICA DA VIDA
estereotipados, que incluem regulação
metabólica, os reflexos, os mecanismos
biológicos subjacentes ao que irá tornar-se dor e
prazer, impulsos e motivações

imagem 17 – níveis de regulação vital

lição 5
sentir

Sugiro que nos tornamos conscientes quando os dispositivos de representação do organismo exibem um tipo específico
de conhecimento sem palavras – o conhecimento que o próprio estado do organismo foi modificado por um objecto.
A forma mais simples sob a qual o conhecimento sem palavras surge mentalmente é o sentir

(Por uns momentos vamos agora recorrer a um convite de Damásio em Ao encontro de Espinoza)

Começo por perguntar ao leitor:


quando pensa num sentimento de que tenha tido experiência, agradável ou não, intenso ou não, o que constitui para si
o conteúdo desse sentimento? Repare que a minha pergunta não tem a ver com a causa do sentimento; ou com a sua valência
positiva ou negativa; ou com os pensamentos que lhe vieram ao espírito na sequência desse sentimento. A pergunta tem a ver
com os conteúdos mentais, com os ingredientes, digamos, que constituem o sentimento.

Para facilitar a resposta, deixe-me fazer uma sugestão: imagine-se deitado na areia de uma bela praia, com o sol do
fim de tarde aquecendo a pele, com o mar a desfazer-se gentilmente aos seus pés, uma brisa ligeira a agitar os pinheiros algures
por detrás de si, e um céu azul sem sombra de nuvem. Dê tempo ao tempo e recorde a experiência em pormenor. Presumo que se
tenha sentido bem e a pergunta que lhe ponho diz respeito a esse bem-estar que sentiu. Em que consiste esse bem-estar?

57
Há várias possibilidades: talvez que o bem-estar tenha vindo em boa parte da temperatura confortável da sua pele.
Ou da respiração calma e fácil, liberta de qualquer resistência no peito ou na garganta. Os seus músculos estavam tão
distendidos que não exerciam qualquer tracção nas articulações. O corpo estava leve, bem implantado no chão, mas leve, era
possível sentir o organismo como um todo, dar-se conta de um mecanismo que funcionava sem qualquer problema, sem dor,
numa simples perfeição. Recorde-se, talvez, de que tinha energia para se movimentar, mas que preferia estar quieto, numa
combinação um pouco paradoxal da capacidade e inclinação para agir e do saborear da quietude. Em suma, o corpo tinha-se
modificado ao longo de diversas dimensões. Algumas dessas dimensões eram óbvias e o seu local fácil de identificar. Outras
dimensões eram mais problemáticas. Por exemplo, era difícil localizar no corpo o bem-estar daquele momento.

As consequências mentais do estado que acabei de descrever são notáveis. Recorde que, quando conseguia desviar a sua
atenção da sensação pura de bem-estar, quando conseguia concentrar-se em ideias que não diziam respeito directamente ao
corpo, encontrava no seu espírito pensamentos cujos temas criavam uma nova onda de sentimentos de prazer. Imagens de
acontecimentos agradáveis que aguardava com expectativa iam e vinham do espírito tal como imagens de acontecimentos
aprazíveis do passado. A sua disposição mental não podia ser mais feliz. No modo de pensamento em que se encontrava, as
imagens mentais tinham um foco nítido e surgiam abundantemente e sem esforço. O sentimento do momento estava a ter duas
consequências. A primeira era o aparecimento de pensamentos cujos temas eram consonantes com a emoção e sentimento de que
estava a ter experiência. A segunda consequência era um modo de pensamento, um estilo de processo mental, digamos, que
aumentava a velocidade da geração das imagens mentais e as tornava ainda mais abundantes. Tal como Wordsworth, nos seus
poemas Tintern Abbey, o leitor tinha «doces sensações sentidas no sangue e sentidas ao longo do coração», e dava conta de que
essas sensações «purificavam o espírito numa recuperação tranquila». Aquilo que o leitor normalmente considera «corpo» e
«espírito» juntavam-se em perfeita harmonia. Todos os conflitos que o tinham preocupado antes deste momento nada eram
mais que memórias distantes.

Eu diria que aquilo que definia o sentimento agradável desse momento, aquilo que justificava o uso do termo
sentimento e a ideia de que o sentimento é diferente de qualquer outro tipo de pensamento, era a representação mental do
corpo a funcionar de uma certa maneira. O sentimento de uma emoção, no seu mais puro e estreito significado, era a
ideia do corpo a funcionar de uma certa maneira. Nesta definição, a palavra ideia pode ser substituída pelas palavras
pensamento ou percepção. No momento em que o leitor considerava o sentimento na sua essência, separado do objecto que o
causava e dos pensamentos e modo de pensar que lhe era consequentes, o conteúdo do sentimento aparecia claramente como a
representação de um estado muito particular do corpo.

Este comentário aplica-se inteiramente aos sentimentos de tristeza, aos sentimentos de qualquer outra emoção, aos
sentimentos dos apetites e aos sentimentos das várias acções regulatórias que continuamente ocorrem no organismo. Os
sentimentos, no sentido em que a palavra é usada neste livro, emergem das mais variadas reacções homeostáticas, não somente
das reacções a que chamamos emoções no sentido restrito do termo. De um modo geral, os sentimentos traduzem o estado da
vida na linguagem do espírito. Aquilo que proponho é que as diversas reacções homeostáticas, das mais simples às mais
complexas, são acompanhadas necessariamente por estados do corpo que são bem distintos. Os objectos mais variados da nossa
experiência do dia a dia, desde daqueles que são prescritos pela evolução biológica àqueles que aprendemos na nossa história
individual, têm a capacidade produzir certos padrões de reacção homeostática (no seu papel de objectos emocionalmente
competentes, tal como descreveremos no capítulo dois) e é também verdade que maneiras de estar do corpo estão fortemente
associados a certos temas de pensamento e a certos modos de pensar. A tristeza, por exemplo, é acompanhada por uma produção
reduzida de imagens mentais e por uma atenção excessiva para essas poucas imagens. Por outro lado, nos estados de felicidade
as imagens mudam rapidamente e a atenção que lhes é dada é reduzida. No seu mais essencial, os sentimentos são percepções, e
aquilo que proponho é que o apoio fundamental dessas percepções diz respeito aos mapas cerebrais do estado corpo.

Na construção de um sentimento, a percepção do estado do corpo, é assim acompanhada pela percepção de temas
consonantes com esse estado e pela percepção de um certo modo de pensar. Estes dois acompanhantes resultam da construção de
meta-representações no nosso processo mental, uma operação de alto nível na qual uma parte do nosso espírito representa uma
outra parte desse mesmo espírito. É este processo de alto nível que nos permite dar conta de que os nossos pensamentos são mais
ou menos vagarosos à medida que mais ou menos atenção lhes é devotada. Em conclusão, a minha hipótese de trabalho sobre
aquilo que são os sentimentos indica que um sentimento é uma percepção de um certo estado do corpo, acompanhado
pela percepção de pensamentos com certos temas e pela percepção de um certo modo de pensar. Todo este conjunto
perceptivo se refere á causa que lhe deu origem. Os sentimentos emergem quando a acumulação dos pormenores mapeados no
cérebro atinge um determinado nível. A filosofa Suzann Langer captou a natureza desse momento de emergência dizendo que
o sentimento começa quando a actividade do sistema nervoso atinge uma “frequência crítica”(Damásio 2, p. 101-104)

58
lição 6
a consciência como uma história

Sugiro que nos tornamos conscientes quando os dispositivos de representação do organismo exibem um tipo específico
de conhecimento sem palavras – o conhecimento de que o próprio estado do organismo foi modificado por um objecto – e quando
este ocorre simultaneamente com a representação saliente de um objecto. A forma mais simples sob a qual o conhecimento sem
palavras surge mentalmente é o sentir.
A consciência começa como o sentir do que acontece quando vemos, ouvimos ou tocamos. Ou seja, é um sentimento que
acompanha a produção de qualquer tipo de imagem: visual, auditiva, táctil ou visceral no interior dos nossos organismos vivos.
Desde as suas humildes origens que a consciência é conhecimento, o conhecimento é consciência, não menos interligados do que
verdade e beleza estavam para Keats.

A consciência inicia-se quando os cérebros conquistam o poder, humilde mas revelador, de contar uma
história sem palavras, a história de que existe vida dentro do organismo e que os estados do organismo vivo, dentro
do corpo, estão continuamente a ser alterados por encontros com objectos ou acontecimentos reais ou pensados. A
consciência emerge quando esta história primordial – a história de um objecto que modifica o estado do corpo de forma causal –
pode ser contada usando o vocabulário universal e não verbal dos sinais de corpo. Quando a história é contada pela primeira
vez, espontaneamente, sem que esse conto tenha jamais sido solicitado, e a partir daí sempre que a história é repetida, o
conhecimento acerca do que o organismo está a viver emerge automaticamente como resposta a uma pergunta que nunca foi
formulada. A partir desse momento começamos a conhecer

59
mundo

aqui se trata como o homem tentou historicamente conceber as relações entre a totalidade dos factos que
percepcionou
Nos primeiros tempos da civilização, toda a gente achava que a terra era plana.
Não porque as pessoas fossem estúpidas ou porque teimassem em acreditar em coisas idiotas. Achavam que a terra era
plana porque se baseavam em provas sólidas. Não se tratava apenas de questão de «É o que parece ser», porque a terra não
parece ser plana. Tem um aspecto caótico de altos e baixos, com montes, vales, ravinas, penhascos, etc.
Claro que existem planícies onde, em áreas limitadas, a superfície da terra parece de facto bastante plana. Uma dessas
superfícies encontra-se na área entre o tigre e o Eufrates, onde se desenvolveu a primeira civilização histórica (com escrita), a
dos Sumérios.
Talvez fosse o aspecto da planície o que convenceu os argutos Sumérios, a aceitar a generalização de que a Terra era
plana; de que, se se conseguisse aplanar todas as elevações e depressões, ficaria a planura. Para essa ideia terá contribuído o
facto de as extensões de água (charcos e lagos) terem um ar bastante plano em dias calmos.
Outra maneira de encarar a coisa é perguntar qual é a «curvatura» da superfície da Terra. Ao longo de uma
extensão considerável, quanto se desvia a superfície (em média) da perfeita planura? A teoria da terra plana levaria a crer que
a superfície não se desvia de modo algum da planura, que a sua superfície é de zero por milha.
Hoje, evidentemente, dizem-nos que a teoria da Terra plana está errada; que está toda errada, muito errada, totalmente. Mas
não está. A curvatura da Terra é quase de zero por milha, pelo que, embora a teoria da Terra plana esteja errada, acontece que
está quase certa. Foi por isso que a teoria durou tanto tempo.

Havia, por certo, razões para achar que a teoria da Terra plana não satisfazia e, por volta de 350 a.C. , o filósofo
grego Aristóteles resumiu-as. Primeiro, algumas estrelas desapareciam por detrás do Hemisfério Sul quando se viajava para
norte, e por detrás do Hemisfério Norte quando se viajava para sul. Segundo, a sombra da Terra sobre a Lua durante um
eclipse lunar era sempre um arco de círculo. Terceiro, aqui, mesmo na terra, os navios desapareciam no horizonte, fosse qual
fosse a direcção que tomavam, deixando de se ver primeiro o casco.
Estas três observações não poderiam ser explicadas racionalmente se a superfície da terra fosse plana, mas poderiam
ser explicadas se se partisse do principio de que a Terra era uma esfera.
Mais: Aristóteles acreditava que toda a matéria sólida tinha tendência para se aproximar de um centro
comum e, se a matéria sólida tinha essa tendência, terminaria numa esfera. Um dado volume de matéria está, em média,
mais próximo de um centro comum se for uma esfera do que se tiver qualquer outra forma.
Cerca de um século depois de Aristóteles, o filósofo grego Eratóstenes reparou que o Sol projectava uma sombra de
diferentes comprimentos em diferentes latitudes (todas as sombras teriam o mesmo comprimento se a superfície da Terra fosse
plana). A partir da diferença de comprimento da sombra, calculou o tamanho da esfera terrestre e verificou que tinha 25 000
milhas de circunferência.
A curvatura de tal esfera é cerca de 0,000126 por milha, quantidade muito próxima do zero por milha, como podem
ver, e que não é fácil de medir através das técnicas ao dispor dos antigos. A pequenina diferença entre 0 e 0,000126 explica o
facto de ter demorado tanto tempo a passara da Terra plana á Terra esférica.
Lembremo-nos de que mesmo um pequenina diferença como a que há entre 0 e 0,000126 pode ser extremamente
importante. Essa diferença avoluma-se. Não é possível fazer mapas de grandes áreas da Terra com nenhuma precisão se não se
tiver em conta a diferença e se não se considerar a Terra uma esfera em vez de uma superfície plana. Longas viagens oceânicas
não podem ser empreendidas sem uma maneira sensata de localizar a posição do navio no oceano e isso não é possível sem se
considerar a terra esférica em vez de plana.
Além disso, a Terra plana pressupõe a possibilidade de uma Terra infinita, ou da existência de um «fim» da
superfície. Mas a Terra esférica postula uma Terra que é simultaneamente infinita e finita, e é este ultimo postulado que é
compatível com todos os achados posteriores.
Portanto, embora a teoria da Terra plana esteja apenas ligeiramente errada e dê credito aos seus inventores, bem
vistas as coisas, está errada o bastante para ser posta de parte a favor da teoria da Terra esférica.

Mas será a Terra uma esfera?

64
Não, não é uma esfera; não o é no sentido matemático rigoroso. Uma esfera possui certas propriedade matemáticas –
por exemplo, todos os diâmetros ( isto é, todas as linhas rectas que vão de um ponto na sua superfície, através do centro, a outro
ponto da sua superfície) têm o mesmo comprimento.
Isso não é todavia verdadeiro no que se refere à Terra. Vários diâmetros da Terra diferem em comprimento.
O que levou as pessoas a pensar que a Terra não era uma verdadeira esfera? Para começar, o Sol e a Lua tem
contornos que são círculos perfeitos dentro dos limites da medição nos primórdios do telescópio. Isto está de acordo com a
suposição de que o Sol e a lua têm uma forma perfeitamente esférica.
Contudo, quando Júpiter e Saturno foram observados pelos primeiros estudiosos através do telescópico, logo se tornou evidente
que os contornos desses planetas não eram círculos, mas nítidas elipses. Isso significava que Júpiter e Saturno não eram
verdadeiras esferas.
Isaac Newton, nos finais do século XVII, demonstrou que um corpo maciço formava uma esfera sob a atracção de
forças gravitacionais (exactamente como Aristóteles afirmara), mas apenas se não estivessem em rotação. Se estivessem em
rotação, formar-se-ia um efeito centrífugo que oporia a substância do corpo á gravidade, e este efeito seria maior quanto mais
nos aproximássemos do equador. O efeito seria igualmente maior quanto mais depressa um objecto esférico girasse e Júpiter e
Saturno giravam na verdade muito depressa.
A Terra girava muito mais devagar do que o Júpiter ou Saturno, pelo que o efeito seria menor, mas continuaria a
existir. Procedeu-se a medições da curvatura da Terra no século XVIII que mostraram que Newton tinha razão.
A Terra tem, por outras palavras, uma «barriga» equatorial. È achatada nos pólos. È mais um «esferóide
achatado» do que uma esfera. Isto quer dizer que os vários diâmetros da terra variam de comprimento. Os diâmetros mais
compridos são os que se estendem de um ponto do Equador a um ponto oposto ao equador. Este «diâmetro equatorial» é de 12
755 quilómetros. O diâmetro mais curto vai do Pólo Norte ao Pólo Sul e este «diâmetro polar» é de 12 711 quilómetros
(Asimov, p. 223-225)

Que mecanismo de conhecimento está aqui subjacente?

Basta pensarmos na descoberta da esfericidade. Primeiramente Aristóteles começou a olhar para o


horizonte e os barcos, olhou para a sombra da Terra na lua e por fim olhou para o movimento das estrelas.
Eratóstenes juntou a isto o seu olhar sobre as sombras do Sol na terra e eis que chegamos à conclusão que terra é
redonda.
Ou seja, o primeiro movimento é o de olhar para o que está além do próprio mundo (o barco que se perde
no horizonte, a lua, o sol, as estrelas). Um segundo movimento é o de relacionar o mundo com o que está para além
dele. E como fazer isso? Vendo como as estrelas, o sol, a lua, se projectam sobre o mundo. Ao olhar para o espelho a
Terra encontra a sua própria forma. São os reflexos, as sombras daquilo que o rodeia sobre ela que fazem com que
ela encontre a sua própria verdade. A verdade é um plano de relação que se efectiva.

primeira r egra:
nós só podemos perceber algo externo a nós através do que está além desse algo

segunda regra:
nós só podemos compreendermo-nos a nós próprios pelo reflexo que o que nos rodeia produz em nós

que corpos qualquer coisa sobre a matéria

Aquilo que podemos designar como a descrição do mundo à nossa volta têm uma disciplina precisa que se
chama física. Ela é a mãe-ciência congregadora de tudo o que pensamento possa imaginar como sendo o real na sua
relação com os espelhismos que os nossos sentidos apercebem do que nos rodeia. Por exemplo, a ideia de refracção
da luz só existe porque um bastão parece dobrar-se quando imerso na água. E esta constatação dos sentidos – a
Física é a forma de compreender o mundo físico através dos problemas que nos colocam os nossos sentidos físicos -
acabou por desempenhar um papel na queda da teoria mecanicista 1 que reinou totalitariamente até ao século XIX.

Qual foi o problema de partida da física? Bem, como vimos os esforços iniciais tenderam para a descrição
do espaço que nos rodeia. Mas os próprio gregos perceberam (e por isso chegaram à esfericidade da Terra) que isso
relacionava-se com o primeiro verdadeiro enigma do físico: o movimento.

Para contar esta história vamos recorrer ao romance do pensamento científico intitulado do par Evolução
da física o par Eistein-Infield 2.

1
fazendo cair a teoria corpuscular para inaugurar a teoria ondulatória da luz o que destronou a ideia de luz como substância
2
todas as citações seguintes retiradas do primeiro capítulo A ascensão da interpretação mecanicista (Einstein e Infield, p. 18-67)

65
Aristóteles está de novo no início da história. Vejamos o que ele nos escreveu em Mecânica:

um corpo em movimento pára, até que a força que o empurra não pode mais empurrá-lo

Galileu decidiu ver a questão ao contrário e tal permitiu-lhe compreender melhor os corpos celestes num
sistema com o Sol no centro e, desta forma, inaugurou a física e a ciência tal como a concebemos hoje. Vejamos o
que ele escreveu em Duas Novas Ciências:

qualquer velocidade imprimida a algo móvel é por natureza invariável, sempre que estiver ausente qualquer causa externa de
aceleração ou de retardamento. Condição esta que se verifica apenas sobre o plano horizontal, já que em planos descendentes age
uma causa de aceleração e nos planos ascendentes uma causa de retardamento. Deste modo conclui-se que o movimento sobre
plano horizontal é eterno, pois através da sua uniformidade não aumenta, nem diminui, nem cessa

Vejamos se conseguimos entender exactamente no que consistiu o raciocínio revolucionário de Galileu


sobre o movimento.
Aquilo que designamos como princípio da inércia nasceu em experiências com bolas metálicas descendo
por um plano inclinado, passando depois por uma superfície horizontal e finalmente subindo um outro plano
inclinado. Ao diminuir a inclinação deste último, sucessivamente, Galileu notou que a esfera percorria distâncias
cada vez maiores, atingindo quase a mesma altura. Inferiu então que, na ausência de atrito, se a inclinação do último
plano fosse nula, ou seja, ele fosse horizontal, a esfera rolaria indefinidamente.
Dessa forma Galileu mostrou a necessidade de se ir além da experiência, para buscar as leis mais gerais do
movimento. Analisemos um exemplo simples. Um carrinho de rolamentos está em movimento uniforme numa
estrada plana sem qualquer força de atrito (obviamente este é um experimento ideal 3). Se empurrarmos o carrinho
na mesma direcção em que o carrinho se movimenta o que acontecerá? Naturalmente a velocidade do carrinho
aumentará. Do mesmo modo que se o empurrarmos no sentido contrário ao seu movimento a velocidade diminuirá.
Ou seja, a velocidade não é a consequência do empurrar. O empurrar tem como consequência uma variação da
velocidade do carrinho.

É este modo que Newton chega à famosa lei da inércia

um corpo persevera no seu estado de repouso ou de movimento rectilíneo uniforme, a não ser que seja obrigado a mudar esse
estado por forças agentes sobre ele

Concluindo, o que se passou foi que deixou de se considerar a ideia intuitiva e aristotélica de que quanto
maior é a força, maior é a velocidade. Na realidade segundo o sistema mecânico de Galileu-Newton um corpo sem a
acção de qualquer força externa move-se uniformemente ou seja com a mesma velocidade numa recta. Ou seja,
deixou-se de considerar a relação entre força e velocidade para pensar em termos da relação entre força e variação
de velocidade.

Aqui aparece já aquilo que subjaz na delineação do problema do movimento e que é talvez aquilo mais
perturba a mente do homem: a força e a sua origem.

Deixemos agora que o próprio Eistein explique o conceito de força para a física:

O que é força? Intuitivamente sentimos o que designa este termo. O conceito de força surge dos esforços de
empurrar, lançar ou atirar, ou seja, da sensação muscular que acompanha estes diversos actos. Mas a sua
generalização ultrapassa estes exemplos. Podemos falar da força de atracção entre o Sol e a Terra ou entre a Terra e a Lua,
assim como as forças que produzem as marés. Falamos da força através da qual a Terra constringe-nos e a todos os objectos à
volta a manter-se dentro da sua esfera de influência, bem como da força com que o vento levanta as ondas do mar e faz mover
as folhas nas árvores. Onde e quando observamos uma variação de velocidade somos obrigados a reter que em geral a sua causa
é a acção de uma força externa

Aqui é desde já evidente como o nosso conhecimento, mesmo o mais avançado e abrangente parte
inexoravelmente das nossas percepções. Seja uma sensação muscular ou constatação que vemos o movimento ou o
que sentimos ao ser atraídos para a terra – tudo começa no próprio corpo (no que sentimos e percepcionamos com o
corpo). Só depois vem uma tentativa de explicação que utiliza modelos teóricos para relacionar os eventos
percepcionados. Neste caso para acompanhar as próprias percepções criou-se um modelo teórico que parte de uma
experiência indemonstrável.

3
visto que é obviamente impossível a total ausência de forças externas, ou seja, de atrito

66
Algo que é muito interessante é a forma como a física apresenta formas de representação matemática que
permitem iluminar os próprios modelos teóricos. É o caso dos vectores e, de forma mais incisiva, da noção de campo
que surge mais tarde e revoluciona a forma de olhar os fenómenos do mundo físico. Por enquanto analisemos o
evento da representação vectorial.
Depois de se perceber a lei da inércia pôde-se aferir uma segunda generalização: parece que normalmente
quando uma força externa age sobre um corpo não só incide sobre a velocidade como também sobre a sua direcção.

Para passarmos da análise do movimento rectilíneo ao curvilíneo foi necessário imaginar uma forma de
desenhar no espaço precisamente a relação entre a grandeza (da velocidade) e a direcção. A esta relação chama-se
vector e sua representação é:

imagem 18 – vectores

uma seta. Temos logo a direcção indicada pela direcção da seta e o seu cumprimento define a grandeza.
Quanto mais comprida maior a velocidade. Podemos assim facilmente representar o precedente exemplo do
movimento rectilíneo do carrinho de rolamentos e respectivas variações de velocidade:

imagem 19 – vectores e variação de velocidade

O primeiro caso é o empurrão na mesma direcção e o segundo do empurrão em direcção oposta. Em ambos
os desenhos, a seta 1 corresponde à velocidade do carrinho antes do empurrão e a seta à velocidade depois do
empurrão. A seta tracejada representa a variação de velocidade.

A experiência vectorial (já com o movimento curvilíneo) permite chegar à conclusão que

força e variação de velocidade são vectores com a mesma direcção

Através da imagem seguinte é possível intutivamente compreender como é que - depois de termos descrito
a forma do nosso planeta - conseguimos descrever a forma do movimento do nosso planeta integrado num sistema
de corpos celestes em movimento interactivo que designamos de sistema solar a partir da representação vectorial
curvilínea.

imagem 20 – vectores numa trajectória circular a velocidade uniforme

67
Mas que corpos são estes? Os corpos celestes bem como toda a matéria é substância, ou seja, o que para os
físicos compõe a totalidade do mundo. Analisemos essa substância que designamos de matéria. Vimos que uma das
características que nos apercebemos nos objectos materiais é que variam constantemente de movimento de acordo
com as várias interacções com as diferentes forças sendo que a mais importante é do nosso planeta sobre nós e os
restantes objectos materiais - a gravidade. Mas além do movimento existe uma característica desde logo evidente
aos nossos sentidos – a massa.

O que é a massa?
Se nos sentarmos no tal carrinho de rolamentos a sua velocidade será inferior do que vazio. Ou seja, se a
mesma força age sobre dois corpos que se encontravam inicialmente em repouso, a velocidade resultante será diferente em cada
um.
Isto permite-nos afirmar com segurança aferir que existe uma relação entre massa e velocidade exprimível
do seguinte modo:

a velocidade depende da massa do corpo e é tanto menor quanto maior for a massa do corpo

Estamos então perante corpos que se movimentam e têm massa (quantificável no seu peso). A matéria é
para o mecanicismo a primeira substância - composta por partículas materiais que não se criam, nem se destroem -
segundo a lei de conservação.

Como sabemos as relações entre os corpos seguindo estes princípios permitiram prever um conjunto
imenso de fenómenos e, em consequência, criar um conjunto imenso de extensões maquinais do próprio corpo –
surge a tecnologia e uma confiança inabalável na ciência. Em pleno século XIX, Helmotz afirma solenemente:

O problema da ciência física material resume-se à compreensão dos fenómenos naturais em referencia a forças
imutáveis de atracção e repulsão, cuja intensidade depende inteiramente da distância. A resolução deste problema é a
condição para a completa compreensão da natureza

(Depois dessa perseguição sem fim do elemento mínimo que foi o ponto de honra de toda um percurso da
ciência que chegou ao átomo e a um conjunto imenso e complexo de unidades subatómicas, agora, nesta era dos
fugidios quarks, torna-se mais do que difícil acreditar na simplicidade do positivismo de Helmotz - e estranhamente
a mesma cega confiança mantém-se nestas sociedades industriais e tecnocratas do homem moderno)

Ao longo desta história, o conjunto imenso de fenómenos percepcionados pelos humanos que foram
explicados (e os progressos técnicos na construção de máquinas que permitiu) justificavam esta inabalável confiança
na teoria mecanicista e no seu projecto filosófico geral segundo o qual a explicação de todos os fenómenos reduz-se
à interacção entre partículas materiais.

De facto, um corpo pode ser visto como um composto de partículas materiais. A essas partículas foi
primeiramente dado no nome de átomo. Do grego A + tomos, ou seja, sem parte, quer dizer indivisível - claro que
hoje o que era indivisível já se dividiu num grande número de partículas sub-atómicas. A um certo nível, o átomo é
a nossa unidade mínima da matéria.
Um pouco de história: em 1904, Thomson propôs o primeiro modelo atómico conhecido como o modelo
bolo de ameixa. A existência do átomo foi proposta em 1808 por John Dalton, pelo que é sempre engraçado
constatar que há mais de 2300 anos (ainda nesse ponto de partida indelével que é Grécia antiga), Demócrito
escreveu:

Por convenção o doce é doce


por convenção o amargo é amargo,
por convenção o quente é quente,
por convenção o frio é frio,
por convenção a cor é cor.
Mas em verdade só existem átomos e vazio.
As coisas que caem nos sentidos são supostas serem reais e assim as pensamos,
mas só os átomos e o vazio são reais

O homem ocidental retirou-se de pensar o

vazio

68
Mas encontrou o tal átomo.

E o que é um átomo? O átomo mais simples é o do hidrogénio – e é precisamente de hidrogénio que se


compõe a esmagadora parte do Universo.

Um átomo de hidrogénio é como um sistema solar com apenas um planeta em torno do sol. É composto de
um protão (o sol) – o núcleo com massa 1 e carga positiva – e um electrão (o planeta) – massa 0 e carga negativa em
órbita. À escala, o diagrama de um átomo de hidrogénio seria um campo de futebol com um pontinho do tamanho
de uma cabeça de alfinete no centro e algures em torno um ponto bem mais pequeno a girar. Todo o espaço entre
nada mais do que vazio

Uma vez partilhados electricamente os átomos podem possuir entre si uma ligação tão forte que para
separá-los é necessária uma quantidade razoável de energia, portanto, permanecem juntos – e formam as moléculas,
ou seja, etimologicamente - pequeno objecto.

A regra básica das ligações covalentes ensina-nos que os átomos interagem uns com os outros através de
uma tendência simples:
criarem pares de electrões.

Podia-se dizer que é regra do amor – um átomo de hidrogénio contém apenas um electrão e logo vai ligar-
se com outro átomo para fazer um par. Vejamos um dos mais exemplares casos de romance novelesco atómico:

cena 1
um átomo oxigénio viaja com os seus 6 electrões e (desses) 2 electrões estão tristes, pois não têm sem par

cena 2
paralelamente, 2 átomos de hidrogénio (talvez chateados um com o outro) viajam separadamente cada um com o
seu electrão triste

cena 3
o átomo de oxigénio cruza-se com ambos os átomos de hidrogénio e os seus 2 electrões juntam-se imediatamente
com os electrões livres de cada átomo de hidrogénio

cena final
vivem todos felizes como uma molécula de H2O – e eis que temos água que ocupa 70% da superfície do planeta e do
interno do corpo humano

Estas ligações existem porque são a principal forma dos átomos estabilizarem (- a pergunta seria: porque é
que um átomo quer estabilizar?). Mas há outras formas: roubar esses mesmos electrões ou perder electrões próprios.

Então os pequenos objectos ou corpos de elementos apresentam-se segundo as condições de temperatura e


pressão em 3 estados: sólido, gasoso ou líquido. Eis a matéria já como a percepcionamos – pequenos objectos em
estados diferentes que têm massa e interagem uns com os outros em movimentos constantes e infinitamente
variáveis consoante os grupos de forças que actuam sobre eles. Esta parece ser ainda toda a nossa realidade.

do nada ao tudo

Como a matéria foi criada não sabemos. A religião e ciência falam-nos de um momento em que o nada se
abre numa explosão mágica que criou todo o Universo. Para a religião tratou-se de um acto consciente de um ser
superior (o pai fartou-se do nada ou de ser nada), para a ciência apenas aconteceu (o nada fartou-se de ser nada). Ou
seja, a diferença entre religião e ciência nesta questão é simplesmente a da existência ou não de uma consciência
criadora, uma força que se vai estendendo e criando toda a realidade. Como não conceber essa força?

Falávamos obviamente do que em ciência foi designado de Big Bang e um dado curioso é que este termo foi
inventado pelo cientista britânico Sir Fred Hoyle na década de 40. Ora o que é curioso é que Hoyle usou Big Bang
como uma expressão sarcástica contra esta teoria do nascimento do universo (que ele fortemente criticou até à sua
morte em 2001). Ironicamente, o termo ficou colado à teoria e a teoria vingou.

69
A teoria de uma explosão primordial nasce então nos anos 40 na mente de Geroge Gamow, Ralph Alpher e
Robert Herman. O seu modelo consistia na ideia que o universo teria nascido à 10 mil milhões de anos sob a forma
de um globo de fogo incandescente. Esta era de facto uma teoria pois não existiam provas que indicassem a
existência de tal momento, nem as descrições matemático-físicas dos primeiros momentos faziam sentido com o que
encontramos hoje no universo.

Vamos deixar que John Brokman conte a história do aparecimento dos dois pilares essenciais de prova
desta teoria

O primeiro indício desta teoria aconteceu nos anos 20, quando as medições do astrónomo Edwin Hubble
fundamentavam a ideia de que o universo estivesse em expansão. Quando os astrónomos formaram na sua mente uma imagem
desta expansão, conceberam uma visão em retrocesso como um filme projectado ao contrário e o quadro que resultou foi o
de um universo cada vez mais denso e quente. Quando o filme cósmico chega à sua última cena, o universo surge como uma
massa densíssima.
Para muitos cientistas a ideia do big bang era aprazível porque explicava a descoberta de Hubble que a velocidade
com que as galáxias se separam é determinada pela sua distância. Em 1965, chegou um dado ainda mais convincente. Alpher e
Herman tinham predito que o globo de fogo do big bang, no curso da sua expansão e do seu esfriar, teria perdido
resplandecência, mas uma parte da sua radiação deveria de alguma forma ainda permanecer hoje. No ano de 1965 Arno A.
Penzias e Robert W. Wilson da Bell Telephone Laboratories descobriram por acaso que todo o universo é permeado de uma
radiação de fundo de microondas de cerca 3 Kelvin. Eles primeiro consideraram o misterioso rádio-distúrbio de origem
electrostática captado como resultado da acção de uma família de pombos que tinha revolvido fazer o seu ninho em cima dos
seus aparelhos, mas por sorte depois de enxotarem os pombos decidiram ainda continuar a investigar o fenómeno (Brockman, p.
22)

A misteriosa radiação 3 graus abaixo de zero absoluto que permeia todo o universo (e que é parcialmente
responsável pela interferência que se vê nas televisões não sincronizadas) seria então uma espécie de fóssil em
microondas do big bang.

imagem 21 – fotografia de satélite da radiação fóssil 3 K (cizento=270,40ºC | preto=270,45ºC)

O argumento da expansão do universo é reforçado pela análise da luz emitida pelas galáxias e as medidas
das idades das estrelas mais antigas indica um número constante em torno aos 15 mil milhões de anos.

Em 1979, o jovem físico do MIT Alan Guth ouve Steven Weinberg 4 e deixa o estudo do comportamento
das partículas para dedicar-se apaixonadamente à cosmologia. O resultado foi que com apenas 32 anos ele resolveu
os principais problemas que se colocavam à teoria do Big Bang reformulando as primeiras fracções de segundo da
explosão primordial. Mais precisamente ele definiu o que se passava no período de 10-35 e 10-32 segundos 5 depois
do big bang , elaborando deste modo a teoria inflacionária.
Neste pequeno espaço de tempo - de muito menos de um segundo - o universo teria expandido muito mais
rapidamente que durante o restante tempo que engloba toda a história do universo - que seria todo o tempo.

4
físico da Universidade do Texas e autor do livro The first three minutes
5
10-35 = 0, 00000000000000000000000000000000001 segundos (34 zeros e 1).

70
Podemos agora voltar à cronologia da criação, sendo que agora podemos começar mesmo do início 6:

plano 1 – big bang

- 15 mil milhões de anos

a criação do espaço e do tempo:


o Universo

frame 1

tempo 0

bang - o nada cria algo que encerra tudo

frame 1

10 -43 segundos depois

a totalidade do existente está comprimido num espaço (imensamente menor que um átomo 7) de apenas 10 -33
centímetros

frame 2

10 -35 a 10-32 segundos depois

a Era Inflacionária:
a totalidade do existente expande-se muito rapidamente - o universo é agora do tamanho de um melão
(tudo o que existe hoje cabia dentro desta página)

frame 3

10 -31 a 10 – 10 segundos depois

num caldeirão fervilhante alguma da radiação transformava-se em matéria sob a forma de pares subatómicos de
partículas e antipartículas que se reuniam e se autodestruíam

imagem 22 – a dança das partículas e anti-partículas primordiais

6
principalmente com a ajuda de John Gribbin em O universo em expansão (ver capítulo como tudo começou – Gribbin, p. 20-43) e ainda Peter Bryant (chapter 1 e 2)
7
como base de comparação o núcleo de um átomo é de 10 -13 centímetros

71
Esta dança entre matéria e energia vai permitir o aparecimento das primeiras partículas subatómicas diferenciadas.
Isto devido ao facto de ter existido um pequeníssimo desequilíbrio inicial que criou mais partículas que anti-
partículas - o que tornou possível a existência de todo o universo. Assim, temos finalmente quarks, electrões,
fotões e neutrinos comprimidos no espaço de um grande balão

frame 4

10 -11 a 10 -4 segundos depois

nascem as 4 forças fundamentais (eletromagnética, fraca, forte e gravidade) do espaço como as concebemos hoje
os quarks associam-se em protões e neutrões

frame 5

3 minutos depois

a temperatura diminui até mil milhões de graus celcius e alguns dos protões e neutrões passaram a colidir mais
suavemente o que permitiu a formação dos núcleos dos átomos mais simples hidrogénio e hélio (e, mais tarde, lítio)

frame 6

300 000 anos depois

a temperatura baixa para 6000 graus celsius e (como muitos fotões já não tinham energia suficiente para ionizar) os
electrões puderam-se juntar aos núcleos e surgem os primeiros átomos completos de hidrogénio e hélio.
Os componentes primordiais da matéria estão criados, os fotões iniciam pela primeira vez a viajar através do
espaço e o universo tornou-se transparente à luz – acabou o big bang

plano 2 – as estrelas

- 13 mil milhões de anos

surgem os primeiros grandes seres:

nuvens moleculares gigantes contraem-se gravitacionalmente formando um núcleo mais denso. Cada vez mais
pequena e quente vai atingir a temperatura crítica de 15 milhões de graus Célsius que fará que os átomos de
hidrogénio se movam tão velozmente que se unem e formam hélio.

Tal como uma bomba esta radiação exerce uma enorme força para o exterior e esta força é tão poderosa que, á medida que a
radiação se afasta do núcleo, bloqueia a matéria mais distante que é puxada para o centro pela gravidade – é este estado de
equilíbrio perfeito entre a pressão exterior da radiação e a força interior da gravidade que define uma verdadeira
estrela (Gribbin, p. 37)

plano 3 – a Terra

- 4,5 mil milhões de anos

constrói-se um palco:
nasce a estrela Sol com os seus 10 planetas – um chamámos Terra

Os planetas são um resultado natural do nascimento das estrelas. A rotação da matéria torna a nuvem achatada como um
disco. A estrela começa a formar-se no seu centro, onde é mais quente . No resto do disco a matéria acresce gradualmente para
formar corpos sólidos cada vez maiores - os planetas. A ignição da estrela expele o gás e as poeiras excedentes (idem, p. 46)

72
imagem 23 – a formação dos planetas

plano 4 – a Vida

- 4 mil milhões de anos

surgem os primeiros seres unicelulares

plano 5 – a Explosão (início do paleozóico)

- 600 milhões de anos

a explosão câmbrica liberta para o mundo uma imensidão de formas de seres multicelulares

plano 6 – a Evolução (fim do paleozóico)

- 360 milhões de anos

During the Carboniferous the climate was hot and humid, and there were extensive swampy forests dominated by
giant tree ferns and conifers, club mosses, and horsetails. The decomposed remains of these plants gave rise to the
major coal and oil reserves of today. There were no flowering plants and no grasses.

aqui nascem os peixes modernos com ossos e anfíbios e répteis primitivos junto de insectos gigantescos

plano 7 – os Répteis (mesozóico)

- 245 milhões de anos

The major continental land masses were initially fused together into one giant continent named Pangaea during
the Paleozoic era.
In the Mesozoic, Pangaea gradually broke up into the present-day continents, which have been moving
apart from each other, by continental drift, ever since 8.

8
This idea of continental drift was first based on the remarkably close fit between the coastlines of major continents, most notably the west coast of Africa with the east coast of South
America. It is now supported by measurements, which show that the continents on either side of the Atlantic Ocean are still moving apart from one another, at the rate of several
centimeters per year. Continental drift was actually a little more complicated, with the North American plate drifting around in the Pacific Ocean for quite a long time. A large
chunk of the North American plate was recently found in Argentina, left there after the two continents bumped into each other then moved apart

73
The separation of the great land mass into different continents allowed biological evolution to take quite different
paths in different parts of the world. And the formation of oceanic islands, often by volcanic activity, produced
many more isolated areas where evolution could experiment with different forms.
Breakdown of this isolation, either by geological changes or by transport of organisms between the isolated areas,
has often led to extinction of the endemic forms, and so loss of diversity.

depois da maior extinção de sempre (no final do Pérmico) começa o reinado de 150 milhões de anos dos
dinossauros

plano 8 – os Mamíferos (cenozóico)

- 65 milhões de anos

During the Cenozoic era, there was a gradual lowering of temperatures as well as the gradual
establishment of different climatic zones of the earth -the tropics, the temperate zones and the cool climates of the
higher latitudes. The culmination of the cooling trend was the Pleistocene epoch, or Great Ice Age, of the last 1.8
million years 9.

depois da extinção dos dinossauros começa a história dos mamíferos

plano 9 – os Hominídeos

- 5 milhões de anos

na evolução dos mamíferos um tronco comum dos primatas separa-se em três direcções:
gorilas, chimpazés e hominídeos

plano 10 – o Homo

- 1 milhão de anos

surge o homo erectus

Recuemos o filme novamente para trás até ao início – o tal momento 0 sem tempo, sem nada que de repente
explode. Se as religiões monoteístas ocidentais substituem simplesmente o nada por deus, o budismo e
principalmente o taoísmo (porque pensaram o vazio) conciliam-se melhor com a visão da física da criação, mas
mantêm deus como sopro distendido que liga todas as coisas.

Mas o que é que nos diz exactamente a Física deste momento O onde do nada nasce tudo? Nada. Isto
porque antes de 10-43 após o big bang embatemos com o designado tempo de Planck. Planck foi o primeiro a
assinalar que a ciência era incapaz de explicar o comportamento dos átomos, em condições de gravidade extrema.
No universo infinitamente diminuto primordial não existem nem planetas, nem estrelas, nem galáxias, mas
a gravidade já lá existe interferindo com as partículas elementares que dependem das forças electromagnéticas e
nuclear. Para além da barreira de Plank parece que nenhum físico pode passar 10.

9
During this time vast expanses of North America and Eurasia were periodically covered with enormous continental glaciers. These glaciers advanced during the
four ice ages (glacial periods) and retreated during the three interglacials. We are now living in the fourth interglacial stage. During the glacial periods the sea level
became much lower because so much water was converted to ice. Consequently land bridges, especially the Bering land bridge across the Bering Sea joining Asia
with North America, became available for animal migrations.
10
o cientista Igor Bogdanov conta o seguinte episódio: Um dia encontrei um desses físicos. Ele afirmava que, na sua juventude, os seus trabalhos lhe tinham permitido recuar
até à barreira de Planck e deitar um olhar furtivo ao outro lado da barreira. E, por muito que o encorajássemos a falar, ele murmurava que tinha mergulhado num cone
gravitacional de tal modo intenso que o tempo refluía do futuro para o passado para explodir, no fundo do cone, numa miríade de instantes iguais à eternidade (Bogdanov, p. 31)

74
No entanto, aquilo que se supõe hoje como o início do universo permite-me traçar a história em rewind da
chave que acabei de utilizar para abrir a porta da casa de madeira no Capelo onde agora estou a escrever esta tese.

cena 1 – ano 2006

o mestrando Fausto entra na sua casa no meio do Atlântico com alguma dificuldade (é preciso levantar a porta)
usando uma chave

cena 2 – algures no século XX

um homem com uma picareta encontra um bloco de ferro que servirá posteriormente para a construção da chave

cena 3 – 4,5 mil milhões de anos atrás

um bloco de ferro esconde-se como minério bruto dentro de uma rocha presente desde a criação do Sol e da Terra

cena 4 – mais de 4,5 milhões de anos atrás

o ferro (enquanto o elemento mais estável do universo) - do bloco de ferro a partir do qual construíram esta minha
chave - flutuava alegremente no espaço interestrelar, sob a forma de uma nuvem que continha quantidades de
elementos pesados necessários à formação do próprio sistema solar

cena 5 – cerca de 13 mil milhões de anos atrás

uma mega-estrela primária com apenas algumas dezenas de milhões de anos explode projectando no espaço núcleos
de elementos pesados (entre os quais ferro) que depois servirão para construir estrelas de segunda geração, planetas
e os metais que estes contêm

A história da minha chave é longa. E a de todas as chaves de ferro à antiga. E de todas as coisas em ferro
que povoaram este mundo e serviram para mil e uma coisas e ainda estão por aí em tantas mesmas e outras formas.

Mas como vimos no nosso filme da criação a matéria não evoluiu simplesmente no sentido das formas
inertes. No planeta terra os elementos criados pela superforça inicial criaram uma nova forma de existência que
difere do inerte – o tal ser unicelular a que chamámos ser vivo. Mas analisemos agora a questão de outro prisma
sugerido por Gricshka Bogdanov:

Diante de mim, no rebordo daquela janela, está uma borboleta, pousada perto de uma pequena pedra. Uma é um ser
vivo, a outra não o é, mas qual é ao certo a diferença entre as duas?
Se nos colocarmos ao nível nuclear, quer dizer, á escala das partículas elementares, pedra e borboleta são rigorosamente
idênticas. Um patamar acima, ao nível atómico, manifestam-se algumas diferenças, mas apenas dizem respeito á natureza dos
átomos e continuam a ser fracas.
Ultrapassemos ainda esse estádio. Eis-nos no reino das moléculas. Desta vez as diferenças são bastante mais
importantes e dizem respeito ás diferenças de matéria entre o mundo mineral e o mundo orgânico. Mas o salto decisivo é dado
a nível das macromoléculas. Nesse estádio a borboleta parece infinitamente mais estruturada, mais ordenada que a pedra.
Este pequeno exemplo permite-nos compreender a única diferença de fundo entre o inerte e o ser vivo: um é muito simplesmente
mais rico em informação que o outro (Bogdanov e Guitton, p. 39-40)

A complexificação está implícita em todo o percurso desde a explosão primordial. As mega estrelas
primárias funcionam como gigantescos fornos destinados a fabricar os núcleos de elementos pesados necessários à ascensão da
matéria no sentido da complexidade. No fundo, falamos de uma continuidade entre matéria inerte e matéria viva ou,
como tínhamos visto, composto orgânico complexo que tem vontade de subsistir e reproduzir-se (transmitindo
assim a sua informação genética).

75
Mas como supor essa passagem?

O prémio Nobel em química, Ilya Prigogine ficou fascinado com a experiência de Bénard. Se aquecermos
água num recipiente as suas moléculas vão começar gradualmente a agruparem e a organizarem-se de maneira
ordenada para formar células hexagonais, como vitrais. É interessante constatar que esta experiência de tendência
de ordem na matéria inerte era tão assustadora que a comunidade científica designou paradoxalmente este
fenómeno de instabilidade de Bénard.

imagem 24 – 4 fases de evolução da instabilidade de Bénard

Os resultados da experiência de Bénard fazem sem dúvida lembrar as experiências dos bioquímicos da
sintetização química das formas pré-vivas no caldo primordial e o enigma da sua junção e organização evolutiva.
Prigogine também fez esta ligação estabelecendo imediatamente uma analogia entre a formação de estruturas
minerais a partir do caos e a emergência das primeiras células vivas.

Prigogine acredita que a desordem não é um estádio natural da matéria, mas pelo contrário, um estádio
que precede a emergência de uma ordem mais elevada. Há uma tendência para a matéria se organizar a si própria
espontaneamente, para caminhar para estados mais ordenados e complexos (com mais informação) e tal tendência
vai manifestar-se de forma sempre mais veemente nos caso dos seres vivos.

Bogdanov explica-nos a base de raciocínio de Prigogine:

Foi essa a conclusão a que chegou Prigogine: o que é possível na dinâmica dos líquidos deve igualmente sê-lo na
química e na biologia.
Mas para melhor compreendermos o seu raciocínio, temos que reconstituir as suas primeiras etapas. Em primeiro
lugar, somos obrigados a constatar que as coisas que se encontram a nossa volta se comportam como sistemas abertos, quer
dizer, que elas trocam permanentemente matéria, energia, e – o que é mais importante – informação com o seu
ambiente. Por outras palavras, esses sistemas em movimento perpetuo variam regularmente através do tempo e devem ser
considerados como flutuantes. Ora, essas flutuações podem ser tão importantes que a organização onde funcionam se encontra
na incapacidade de as tolerar sem se transformar. A partir desse limiar critico, há duas soluções possíveis descritas
pormenorizadamente por Prigogine: o sistema é destruído pela amplitude das flutuações, ou ele acede a uma nova ordem
interna, caracterizada por um nível superior de organização.
E eis-nos no âmago da descoberta de Prigogine: a vida assenta sobre estruturas dinâmicas, a que ele chama
«estruturas dissipativas», cujo papel consiste, precisamente, em dissipar o influxo de energia, de matéria e de informação
responsável por uma flutuação.

76
A seus olhos, os fenómenos de auto-estruturação trazem á luz uma propriedade radicalmente nova da matéria. Existe
uma espécie de trama contínua que une o inerte, o pré-vivo e o ser vivo, tendendo toda a matéria, por construção, a
estruturar-se para se tornar matéria viva. É ao nível molecular que se opera uma tal estruturação, segundo leis que
permanecem ainda largamente enigmáticas. Constatamos, com efeito, o comportamento estranhamente «inteligente» de tais
moléculas ou agregados moleculares sem todavia estarmos á altura de explicarmos esses fenómenos. Extremamente perturbado
pela omnipresença dessa ordem subjacente ao caos aparente da matéria, Prigogine declarou um dia:«O que é espantoso é que
cada molécula sabe o que farão as outras moléculas ao mesmo tempo que ela e a distâncias macroscópicas. As nossas
experiências mostram como as moléculas comunicam. Toda a gente aceita esta propriedade nos sistemas vivos, mas ela é no
mínimo inesperada nos sistemas inertes (idem, p. 43-44)

caos qualquer coisa sobre a ordem 11

cenário: Departamento de Meteorologia de Boston Tech, actualmente conhecido como MIT (Instituto de
Tecnologia de Massachusetts)

ano: 1955

protagonista: Edward Norton Lorenz, 38 anos, cientista

cena 1 - Lorenz preenche a vaga no departamento deixada por Thomas Malone e herda, desta forma, a direcção de
um projecto de pesquisa cujo estudo se concentrava na previsão estatística do tempo. A previsão estatística do
tempo é muito parecida com a previsão sinóptica, que se caracteriza por se basear mais em observações do passado
do que em princípios físicos 12

cena 2 – uma ano depois, num encontro em Wisconsin Lorenz propõe previsões a partir de sistemas de equações
não lineares - as equações deveriam apresentar soluções não periódicas

cena 3 - aconselhado por um colega de departamento, Robert White, Lorenz começou a efectivamente usar um
computador. Utilizando um Royal McBee LGP-30, Lorenz criou um modelo de previsão que apresentava um
conjunto de apenas 14 variáveis, que foram mais tarde reduzidas até 12 variáveis

cena 4 - certo dia, Lorenz decidiu parar a sua simulação computacional, anotou uma linha de números que havia
sido apresentada tempos antes e digitou-a, fazendo com que o programa rodasse novamente. Foi tomar um café.
Voltando instantes depois, para sua surpresa, notou que os novos números da simulação nada pareciam com os
digitados anteriormente. Inicialmente eram iguais, depois de algum tempo começavam a diferir na última casa
decimal, então na penúltima, na antepenúltima...

cena 5 – a descoberta do caos - Lorenz chega à conclusão que os números digitados não eram exactamente os
mesmos; estavam arredondados e esta pequena diferença, embora irrisória no início, foi de maneira tão incisiva se
avolumando até que mudasse totalmente o resultado final

cena 6 – em 1972 num encontro em Washigton Lorenz apresenta um artigo intitulado Previsibilidade: o bater de
asas de uma borboleta no Brasil desencadeia um tornado no Texas? onde conclui

a) se um simples bater de asas de uma borboleta pode ocasionar um tornado, então todos os bateres anteriores e
posteriores de suas asas, e ainda mais, as actividades de outras inúmeras criaturas também o poderão;

b) se um simples bater de asas de uma borboleta pode ocasionar um tornado que, de outra forma, não teria
acontecido, igualmente pode evitar um tornado que poderia ser formado sem sua influência.

11
este sub-capítulo cruza informações de vários sites de divulgação de matemática e geometria entre os quais:
http://www.educ.fc.ul.pt/icm/icm99/icm43/fractais.htm e www.geocities.com/inthechaos/histo.htm
12
tal forma de previsão era do tipo linear, ou seja, a temperatura de um local poderia ser prevista e calculada como sendo uma constante a, somada com uma
constante b mais uma outra constante c multiplicada pela temperatura de hoje em um outro local... O trabalho do meteorologista se limitava a determinar os valores
destas constantes a, b, c ... e os preditores – elementos climáticos que multiplicam as constantes

77
Um ano antes o físico e matemático belga David Ruelle apresentou na Califórnia uma palestra intitulada
Os atractores estranhos como uma explicação matemática da turbulência baseada no artigo de Ruelle e Takens Sobre a
natureza da turbulência. Este artigo influenciou enormemente os estudiosos da teoria do caos. Eis como seria o
atractor borboleta de Lorenz:

imagem 25 – o atractor de Lorenz

Mas ideia de ordem na aparente desordem 13 viria a tomar novas proporções com o novo e fulgurante
advento – a geometria fractal.

cenário: Alexandria

ano: algures no III a.C.

protagonista: Euclides

Segundo reza a história, Euclides gostava de passear na praia e um dia notou que a areia, vista como um
todo, se assemelhava a uma superfície contínua e uniforme, embora fosse composta por pequenas partes visíveis.
A partir desse momento, empenhou-se em tentar provar, matematicamente, que todas as formas da
natureza podiam ser reduzidas a formas geométricas simples como cubos, esferas ou prismas.

O nosso Newton conjuntamente com Leibniz criou o cálculo diferencial – a ideia era encontrar a tangente
e a curva em qualquer ponto dado. No entanto, algumas funções eram descontínuas e, não tinham tangentes nem
pontos isolados. O final do século XIX, veio pôr em evidência este erro através dos designados casos patológicos,
quase simultaneamente surgem 3 trabalhos matemáticos estranhos:

1.
Weierstrass descreveu uma função que era contínua, mas não era diferenciável, isto é, em nenhum ponto se
podia descrever uma tangente à curva

2.
Georg Cantor criou um método simples de transformar uma linha numa poeira de pontos, que apesar de
não passar de pontos isolados no intervalo [ 0, 1 ], tem mais pontos do que os números racionais, ou seja, tem uma
quantidade não numerável de pontos 14

imagem 26 – a poeira de Cantor

13
a teoria do caos prevê que simultaneamente existe sempre um elemento desordem na ordem (como a velha teoria do yin e yang)
14
a sua construção é simples: trace uma linha; tire o terço médio; tire o terço médio das duas linhas restantes; repita o processo várias vezes

78
3.
Peano, por seu lado, gerou pela primeira vez uma curva ondulada, que tocava em cada ponto do plano 15

imagem 27 – a curva de Peano

Ao mesmo tempo que estas figuras confundiam o cálculo diferencial, Poincaré, ao analisar a estabilidade do
sistema solar, desenvolveu um método qualitativo no qual cada ponto representava uma diferente órbita planetária
(criando, o que hoje podemos chamar topologia), mas não sem notar que enquanto muitos movimentos iniciais
velozmente caíam em curvas familiares, algumas eram deveras estranhas, caóticas cujas órbitas nunca se tornavam
periódicas e previsíveis.

O economista Hendrik Houtahkker tentava de todas as formas encontrar padrões nos preços do algodão
num arco de 8 anos através de análise estatística convencional do gráfico em forma de sino, mas algo nas curvas das
suas figura não faziam sentido 16.
Do outro lado do Oceano, Benoit Mandelbrot, um jovem matemático francês trabalhava intensamente na
análise de formas geométricas seriais complexas a partir da deslocação da dimensão dentro da teoria euclidiana.
Algum tempo depois, Mandelbrot foi convidado para fazer uma palestra no departamento de economia de
Havard, do qual Houtahkker era professor. Mandelbrot apresentou uma figura bastante parecida com o diagrama
de preços de algodão que Houtahkker tinha na sua sala. Os preços de algodão seriam um bom conjunto de dados
que ele poderia utilizar para prosseguir seus estudos. Eles eram numerosos – havia dados de mais de um século – e
não continham interrupções.

Associando-se à International Business Machines Corporation (IBM), Mendelbrot usou os computadores


da empresa para processar os dados dos preços do algodão. Como Houtahkker já havia notado, os números
mostravam aberração quanto à distribuição normal. O que era impressionante é que havia certa ordem oculta, havia
simetria em pequenas e grandes escalas. Isto significava que as sequências de variações era independente à escala.
Analisando as variações diárias e comparando-as com as variações mensais, notava-se que elas correspondiam-se
perfeitamente. Mandelbrot encontrou um padrão onde, pensava-se, só existiria aleatoriedade.
Entretanto a IBM começou a enfrentar problemas em suas linhas telefónicas que eram usadas para a
transmissão de dados. Vez ou outra havia certos ruídos que causavam erro nos dados transmitidos. Quando
Mandelbrot começou a analisar o problema apercebeu-se que os ruídos, apesar de aleatórios, apresentavam
características peculiares: em certos períodos praticamente não havia ruídos, enquanto que em outros, havia vários
erros de transmissão e, mais, dentro de períodos de erro havia períodos de transmissão perfeita. A previsão dos
ruídos era simplesmente impossível.
Mas Mandelbrot foi buscar uma abstracção matemática russa estranha. E concluiu algo de
verdadeiramente interessante: o nosso segundo caso patológico, ou seja, a poeira de Cantor representava
exactamente o ruído nas transmissões.

15
curva de Peano, apresentada em 1890, é um exemplo de um fractal que preenche o plano. Uma curva que preenche o plano passa por todos os pontos de uma
determinada área, acabando por, gradualmente, a ocupar na totalidade. O ponto de partida para a construção da curva de Peano é um segmento. Na 1ª iteração, o
segmento é substituído por 9 segmentos de comprimento igual a um terço do comprimento do segmento inicial, e colocados como indica a primeira imagem da figura
2. Esses 9 segmentos constituem a 1ª iteração da construção recursiva da curva de Peano. Depois, o processo recursivo aplica-se a cada um dos 9 segmentos, até ao
infinito. Observe-se que as curvas obtidas nas diferentes iterações da recursão, a partir da primeira, intersectam-se a si próprias - nos vértices dos pequenos
quadrados que se vão formando em cada iteração. Pode-se demonstrar que no limite, isto é, na curva de Peano, se passa o mesmo, dando-se o preenchimento do plano
16
quando um estatístico estuda certos dados, tais como o preço de certa mercadoria, ele utiliza uma ferramenta indispensável: um gráfico em forma de sino que
representa a distribuição gaussiana ou normal dos dados. Esta curva mostra, neste caso, os preços de certo produto em um certo período de tempo. Desta forma a
maioria dos valores discretos de preços se situa na parte central desta curva, ou seja, a média. Porém, nos lados desta parte central, a curva cai muito rapidamente. No
caso da figura de Houtahkker, a curva alongava-se em vez de cair rapidamente

79
O conceito da poeira de Cantor era totalmente incomum na matemática sob o ângulo de dimensão. E
portanto totalmente na linha da investigação de Mandelbrot sobre a natureza geométrica dos fenómenos do mundo.
Numa visão euclidiana, como sabemos, um cubo tem dimensão 3 porque apresenta largura, comprimento e
altura; uma folha de papel possui dimensão 2 porque tem largura e comprimento; um fio tem dimensão 1 por
apenas ter comprimento e, finalmente, um ponto tem dimensão 0 pois não apresenta nenhuma das qualidades. Mas
quando se pensa nas formas da natureza, como contorno de uma folha, do litoral, de uma montanha, de um
fragmento de rocha, esta geometria é claramente insuficiente. Nas palavras de Mandelbrot: nuvens não são esferas,
montanhas não são cones.

Sobre estas ideias, Mandelbrot escreveu um artigo denominado Que extensão tem o litoral da Grã-Bretanha?
onde analisa o processo de medir uma forma irregular como o litoral. Para descrever as formas da natureza,
Mandelbrot foi além destas dimensões inteiras 0, 1, 2, 3, chegando a dimensões fraccionárias. Foi num um
dicionário de latim do seu que encontrou a palavra que precisava para definir o seu estudo (do adjetivo fractus, do
verbo frangere, quebrar, fraturar): fractal

No seu estudo do litoral, Mandelbrot viu que o grau de irregularidade permanecia constante, qualquer que
fosse a escala utilizada. Isto significa que, seja de perto ou de longe os padrões de forma são os mesmos (da mesma
forma que os preços do algodão). A irregularidade é, paradoxalmente, regular.

Esta é a principal característica dos fractais: a auto-semelhança. Um “pedaço” da poeira de Cantor é


semelhante ao conjunto inteiro.
Tecnicamente, um fractal é um objecto que não perde a sua definição formal à medida que é ampliado,
mantendo-se a sua estrutura idêntica à original. Pelo contrário, uma circunferência parece perder a sua curvatura à
medida que ampliamos uma das suas partes.

Assim, as 3 principais propriedades que caracterizam os fractais são:

1.
auto-semelhança: é a simetria através das escalas - cada pequena porção do fractal poder ser vista como uma
réplica de todo o fractal numa escala menor

2.
complexidade infinita: o processo gerador dos fractais ser recursivo, tendo um número infinito de interacções

3.
dimensão: é uma quantidade fraccionária que representa o grau de ocupação deste no espaço e que se relaciona com
o seu grau de irregularidade

Para se entender melhor o conceito de dimensão de fractal, atente-se no seguinte exemplo. Uma linha
simples, euclidiana, unidimensional não ocupa espaço. Mas o contorno da curva de Koch com comprimento infinito
estendendo-se por uma área finita, ocupa espaço. É mais do que uma linha, mas menos de que um plano. É mais do
que unidimensional, mas não chega a ser bidimensional. A dimensão desta curva é 1,2618.

imagem 28 – o floco de neve de Kloch

80
Para introduzir a ideia de que a dimensão não é necessariamente inteira, Mandelbrot utilizou o seguinte
exemplo: Qual é a dimensão de um novelo de fio? Mandelbrot respondeu que isso depende do ponto de vista. Visto
de grande distância, o novelo não é mais do que um ponto, com dimensão zero. Visto mais de perto, o novelo parece
ocupar um espaço periférico, assumindo assim três dimensões. Visto ainda mais de perto, o fio torna-se visível, e o
objecto torna-se de facto unidimensional, ainda que essa dimensão única se enovele em volta de si mesma de tal
forma que ocupa um espaço tridimensional. A noção de quantos números são necessários para especificar um ponto
continua a ser útil. De muito longe, não é preciso nenhum - o ponto é a única coisa que existe. Mais perto, são
precisos três. Mais perto ainda, um é suficiente - qualquer posição específica ao longo do fio é única, por muito que o
fio esteja enovelado.

Fractais são formas igualmente complexas no detalhe e na forma global. Mas claro o que é de facto depois
mais incrível é como estas formas de organização matemática manifestam-se por todo o lado no real.

Na terra 17:

imagem 29 – o desenho de uma costa em relação com a curva Kloch

Na natureza:

imagem 30 – a composição fractal de um feto

17
segundo Mandelbrot a curva de Kloch é um modelo grosseiro, mas vigoroso de uma linha costeira

81
Em nós:

imagem 31 – os ritmos caóticos do diferentes batimento cardíaco

ainda antes de acabar o milénio descobriu-se que:


um batimento cardíaco quase periódico é um sintoma de insuficiência cardíaca
(um coração saudável bate a um ritmo fractal 18)

O elemento mais importante de toda esta nova formar de abordar o mundo é sem dúvida a presença de
padrões de auto-semelhança. Espelhos reais dentro de espelhos reais ou a ficção da realidade em repetição contínua.

Não se sabe bem quando, mas seguramente há mais de 4000 anos na China, ou seja, mais de 1000 anos
antes do Corpos Hipppocratium que iniciou a medicina ocidental, já haviam sistematizações (a prática ainda é bem
mais antiga) de complexos sistemas de cura que formaram a base da Medicina Tradicional Chinesa 19.
Esta forma de tratamento baseia-se essencialmente na ligação do homem com o meio ambiente e postula
uma forma de manutenção do bem-estar e prevenção da doença - o clássico Nei Jing vai repetindo:

18
see for more backgrounds on fractal heart rate in particular the work of Ary Goldberger, Professor of Medicine at Harvard Medical School The normal heart rate
time series is fractal-like and seems to display the fractal property of self-similarity over different time scales without a characteristic time scale. The power spectra of heart rate time
series have been shown to concur with 1/f behaviour, which is essential for fractal-like behaviour and also characteristic of chaotic behaviour. Normal heart rate time series have been
shown to demonstrate a “strangelike” attractor, which is characteristic of chaotic as opposed to random or periodic signals. Based on this Ary Goldberger has concluded that “the most
compelling clinical example of cardiac chaos is paradoxically found in the dynamics of the normal sinus rhythm”. These chaotic, fractal and nonlinear qualities of heartbeat behaviour
have inspired investigators to develop new analysing methods of heart rate behaviour" (Mandelbrot 1982, Goldberger 1996, Goldberger & West 1987, Yamamoto 1995)
19
Chinese have the longest continuous history of medicine in the world. At least 500,000 years ago, men existed at the Hwang Ho Valley in China, and they have
benn existing continuously to the present day. As soon as there were people, there was medicine. Prehistoric medicine in China was of an amazingly high standard.
Not only did the earliest Chinese estabblished an extensive herb lore, they also accomplished much in surgery and accunpuncture. It is not a comforting thought to
reflect that only in this modern age, many thousand years after its successful application in china, the western world in general appreciates the effectiveness of
accunpuncture. Archaeological findings in China revealed a vast number of expertly made bamboo and stone needles used for accunpuncture, showing its widespread
practice during prehistoric time. Another special and very effective aspect of Chinese medicine practied by prehistoric Chinese was qigong (chi kung) therapy, where
qi (chi) or bio-energy is used to cure illnesses
The begining of the dynastic period of China with the Dynasties of Xia (2205-1765 BC) and Shang (1766-1121 BC) marked the begining of Chinese written history.
By this time, Shang writing had been well developed, and its vocabulary showed the Chinese had such depth of medical knowlegde as there are words during that
period that means micro-organisms in the blood and parasites in the intestines! For example, a Shang word means micro-organism in the blood. At a time thousands
of years before the appearence of microscope, such discoveries were certainly astonishing.
During this time the two earliest and most revered Chinese medical classics appeared. They were Huang Di Nei Jing (the Inner Classic of Medicine of Huang Ti)
and Shen Nong Ben Cao Jing (the Great Herbal Classic of Shen Nong). Actually, they were not written by an individual, but were the results of professional
collections of all previous medical knowledge achieved by countless, nameless people since the beginning of man’s existence in China. In their present revised
editions, these two classics also contain medical achievements made in the later Qin and Han periods. vThe Inner Classic of medicine covers all fields of Chinese
medicine, ranging from medical philosophy and ecology to therapeutics principles and accunpuncture. It is starling that this Inner Classic recorded many medical
facts that were discovered by the west only very much later. One notable example is its description of blood flow in the human body in an never-ending circle – a
discovery at least 2500 years before William Harvey.The Inner classic is even more explicit. It described two different types of blood, the dark-colored yin blood,
and the bright-colored yang blood. Another remarkable precedence over the west is the implication of the role autonomic nerves play in causing ilnesses, and
expressed the need to balance of yin-yang. This principle helped Chinese therapists cure many so-called incurable degenerative diseases. (Kiet, p.18-20)

82
a medicina medíocre cura doenças, a medicina superior previne-as

Aborda-se (não a doença), mas o paciente enquanto indivíduo particular, mas integral, ou seja, uno em si
mesmo e uno com o mundo. Deste modo, foram estabelecidos constantes paralelismos entre humanos e meio
ambiente onde condições atmosféricas, elementos, emoções, pensamento, energia, órgãos, sistemas osso-articular e
muscular tendinoso, etc reflectem-se uns aos outros através de um jogo de relação entre yin e yang.

Este padrões de paralelismo presentes em vários degraus em tudo podiam ser encontrados por auto-
semelhança dentro do próprio homem. Um exemplo:

! na Medicina Tradicional Chinesa as articulações exibem uma forma sagrada designada as 7 estrelas: o homem é
composto por um sistema articular onde encontramos nos membros superiores 3 articulações: pulso, cotovelo e
ombro (ligado à cintura escapular). Os membros inferiores apresentam exactamente o mesmo modelo,
respectivamente, tornozelos, joelhos, coxo-femural (ligada à cintura pélvica). A estas junta-se o pescoço (que se
subdivide em 2 – 7ª e 2ª vértebras cervicais 20).

! a tradição considera que a mão é um modelo auto-semelhante do corpo. Primeiro ponto: a mão organiza-se em
extensão como modelo dos membros divididos em 3, respectivamente, carpo, metacarpo e dedos. Segundo ponto: os
dedos mantém essa lógica através das articulações de falanges, falanginhas e falangetas.

! mais: se os membros estão nas mãos e nos dedos, também o corpo está na mão: a mão é composta por 5 dedos: Se
a virarmos para baixo, o médio e o anular tocam o chão – são as pernas (falanges, falanginhas e falangetas
correspondem respectivamente às articulações dos tornozelos, joelhos e coxo-femural); indicador e mindinho ficam
pelos lados - são os braços (falanges, falanginhas e falangetas correspondem respectivamente às articulações dos
pulso, cotovelo e ombro). O polegar é o pescoço. E a verdade é que o polegar é o único dedo que apresenta duas
articulações - 7ª e 2ª vértebras cervicais.

outras novidades do fim do mil énio

Mas voltemos atrás. Tudo isto é como o homem vê o mundo. Basta pensarmos no novelo e no ponto de
Mandelbrot. Esta formalizações, estas imagens, construções, linguagens sobre linguagens, sistemas foram
evoluindo com o próprio homem e maneira que ele se via a si próprio e a realidade em torno.

Em As palavras e as coisas, Foucault fala-nos de dois momentos epistemológicos fundamentais: a episteme


clássica e a episteme moderna

A instauração do modelo clássico coincidia com a introdução do modelo matemático-experimental


proveniente das descobertas na física dos séculos XVI e XVII. Ou seja, precisamente toda essa nova forma de
relacionar os corpos que analisámos no início deste capítulo e cujos principais responsáveis foram Galileu e Newton
(aos quais se juntariam Copérnico e Kepner e Brum).

Esta foi uma ruptura cultural total. E a mudança é operada justamente ao nível do olhar do mundo. E é por
isso que Foucault começa por nos convidar a olhar para uma imagem pintada, mais concretamente um quadro de
1756 de Velazquez intitulado Las Meninas.

E o que define este momento-chave é:

um pequeno espelho

20
isto porque e são os principais elementos responsáveis pelo movimento da cabeça – a 7ª para a movimentação lateral e a 2ª na movimentação vertical

83
imagem 32 – Las meninas com Velasquez e o espelho evidenciados

No espaço central do quadro, (que já apresentava um jogo de representação em relação à presença do


próprio pintor) apresentam-se dentro de um espelho duas ténues figuras que são, nada mais, nada menos, o rei
Filipe IV e a sua mulher Marianna. De repente, pela primeira vez, estamos no lugar do rei. O quadro é uma espécie
de espelho com um espelho dentro. É a própria visão do rei que vê o espaço à volta (onde está o próprio pintor que
criou o quadro-espelho-olhar) e ainda se vê a si próprio no espelho do centro.

Nesta nova era já não se imita o mundo, cria-se um mundo, com a sua própria sintaxe – organiza-se o
próprio olhar (ao ponto da metamorfose do próprio sujeito que olha – que passa de espectador a rei). Nasce a
representação no seu real estatuto. Assim é a física newtoniana e todas as ciências que a seguiram. Opera-se um
olhar racional, mas que está dentro do quadro e não no externo.

Na era da representação o estatuto da linguagem é o de uma estrutura, a estrutura em que se apresenta o


real – a mesma estrutura para a linguagem e o real

- linguagem e real coincidem

Podemos ver isto na arte com a criação da perspectiva ou com a disseminação do retracto a partir do século
XVII – a importância do indivíduo na sua relação com o social. Na politica com o ideal do rei sol

- o Estado sou eu

Na arquitectura que lhe está subjacente tornando visível a ideia da soberania. A estrutura dos jardins
zoológicos e botânicos, as divisões por patologia dos hospitais modernos

- a divisão taxonómica que invade tudo

Tudo é linguagem e a linguagem é o real. Representação total. As estruturas podem funcionar como
pontos agregadores de poder. Eis o saber.

O século XIX marca o início de uma nova ruptura. Para Foucault a redefinição do saber deveu-se
essencialmente a uma nova mudança do olhar. Se dantes o foco estava colocado na matriz, no enquadramento, na
forma de organização e hierarquização da realidade, agora surgia uma nova tendência – a de focar o próprio homem
dentro desse olhar totalizante da matriz.

Eis os 3 campos discursivos da ruptura em que o homem passa a ser objecto do discurso científico:

História Natural ! Biologia


Análise das Riquezas ! Economia
Gramática Geral ! Filologia (mais tarde, Linguística)

84
Mas um outro factor mais profundo se erguia agora de forma inevitável. Com a ruptura anterior a figura
de Deus era posta em causa pela forma como o uso matricial apresentava com toda a força novos centros de poder:

o Sol (a ciência – física) e o homem-rei (a arte e a politica)ou seja,

a Terra e Deus saiem do centro.

Nesta nova ruptura onde o homem surge contemporaneamente como sujeito e objecto do conhecimento a
ideia de deus torna-se incomportável. O homem ao perguntar-se o que é enquanto objecto científico, objecto dentro
da própria matriz recolhe respostas aterradoras:

o homem nasce por direito próprio da sua evolução enquanto animal (a ciência – biologia)
o homem nasce livre, independente e criador (a política)

e a revolução francesa abre o século XIX

Numa frase: na episteme moderna substitui-se a representação à subjectividade. A ideia de individuo


torna-se cada vez mais forte. Cada indivíduo é o ponto de referimento criador e organizador das linguagens que
criam a realidade à volta. Deus desaparece na nossa limitação de criadores de matrizes linguísticas, ou seja,
organizações de código e um código criado por definição

é totalmente destituído de mistério e por isso é poder para quem o cria ou o


compreende

E assim entramos no século do final do milénio. A questão recoloca-se : não se pode ser humano sem ser
vivo, ser de trabalho e ser de linguagem, mas em si mesmas a vida, o trabalho e a linguagem não são da ordem do
humano. Na Analítica da Finitude de Foucault, o homem nasce duplo, dividido entre o empírico versus o
transcendental, o cogito versus o impensado (eu preciso de ser este corpo, mas não sou este corpo) e o distanciamento versus
o retorno à origem. Neste contexto, o pensamento criado é inevitavelmente reducionista ou culturalista.

No século XX todas as representações caem. Hoje estamos a assistir à procura de algo positivo no meio
dos escombros, sabendo que não é aí que está a resposta.
A história conta-nos sobre a morte dos reis. A ascensão dos facismos e comunismos e a vitória do
capitalismo - esse capitalismo necessário para acabar com as necessidades físicas de alimentação de toda a
humanidade como considerava Agostinho da Silva.
A ciência conta-nos da morte da teoria mecanicista e como com ela descambaram todas as visões
positivistas do mundo, ou seja, descrições do mundo que não incluem o mistério.

(e o mistério parece estar algures entre o caos e o relativo, mas já fora do pensamento)

Nesta altura Einstein dá um passo decisivo neste palco especulativo de tradução da subjectividade. A
grande base de trabalho da relatividade é que qualquer descrição do mundo e a forma das forças actuarem nele
depende do ponto de referimento – o sistema de coordenadas (SC) - utilizado, quer dizer, a partir de que corpo
individual analisamos a realidade.

Para concretizar bem esta ideia vai ser necessário problematizar algo que nos parecia bastante sólido (não
só pela sua força de lei nuclear, mas pela sua aplicabilidade à grande maioria dos fenómenos com os quais nos
confrontamos): a lei da inércia. O próprio Einstein encontrou uma maneira interessante de nos explicar como
devemos voltar a olhar o problema:

cena 1: imaginemos um físico que considera que a lei da inércia provada ou refutada mediante experiências reais.
Empurrará pequenas bolas numa mesa horizontal, tentando eliminar ao máximo o atrito, e constatará que quanto mais a mesa
e as bolas são lisas mais o movimento torna-se uniforme
cena 2: mesmo quando estava prestes a confirmar o princípio da inércia, um burlão pregou-lhe uma partida. O nosso
físico trabalha num quarto sem janelas pelo que não tem qualquer contacto com o mundo externo. O burlão instala um
mecanismo com o qual pode imprimir no quarto um rápido movimento de rotação à volta do eixo do seu centro
cena 3: de repente, o nosso físico constata novos e inesperados factos. As bolas que se moviam uniformemente vão
agora tender a afastar-se do centro do quarto e aproximar-se das paredes. Ele próprio sente uma estranha força que o empurra
contra a parede. Sente-se como se fizesse uma curva rápida dentro de um comboio. Todos os seus anteriores resultados são
agora completamente inúteis.

85
O nosso físico ver-se-ia constringido a abandonar a lei da inércia e com ela todas as leis da mecânica. A lei da
inércia era o seu ponto de partida; se ela se altera, todas as conclusões que implicou se alteram. Um observador constringido a
passar toda a vida num quarto giratório, dos suas experiências irão resultar leis físicas mecânicas diferentes das nossas.

Mas porque devemos interessar-nos tanto por este observador do quarto giratório?
Simplesmente porque nós estamos até certo ponto precisamente na mesma situação aqui na Terra. Se o nosso
observador do quarto giratório não podia confirmar as leis da mecânica, também nós sobre a Terra não o podemos fazer. A
rotação da Terra é, no entanto, relativamente lenta (à nossa escala) pelo que o efeito é para o homem pouco perceptível.
Contudo, existem várias experiências que apresentam uma ligeira discrepância com as leis mecânicas e a coerência destas pode
ser considerada como uma prova da rotação da Terra.
Infelizmente não podemos colocar-nos entre o Sol e a Terra para provar a validade rigorosa das leis da
inércia para observar o movimento terrestre. Não podemos fazê-lo a não ser com o pensamento. Todo os nosso
experimentos devem realizar-se na Terra, onde estamos constrigidos a viver. Este facto pode ser exprimido da seguinte forma
mais científica:

a Terra é o nosso sistema de coordenadas.

Todos as experiências mecânicas, de qualquer género sejam, tratam sempre de determinar a posição de pontos
materiais num dado instante no tempo, como no caso da queda de uma pedra. Mas a posição deve ser sempre determinada em
relação a qualquer coisa, como por exemplo de uma torre de atira a pedra. Para poder determinar a posição dos corpo é
necessário estabelecer o que chamamos sistema de coordenadas.
Ou seja, até agora todas as nossas afirmações sobre os fenómenos físicos apresentavam uma lacuna. Não tinham em
conta o facto que todas as observações devem fazer-se a partir de um determinado SC (sistema de coordenadas). Em vez de
fornecer uma descrição de tal SC, desconheciam a sua existência. Quando por exemplo escrevíamos: “um corpo move-se
uniformemente” teríamos na realidade de escrever: “um corpo move-se uniformemente relativamente a um determinado SC”.
Na realidade se dois SC efectuam um movimento de rotação um relação ao outro as leis da mecânica não podem ser
válidas para ambos 21 (Einstein e Infield, p. 165-167)

Não podemos deixar de nos lembrar neste momento da questão do ponto de vista na percepção de cada ser
vivo como constituição dos seus mundos-próprios de Uexkull.
Mas um dado também interessante é o facto de Einstein considerar que a única forma de rigorosamente
aferir da veracidade das leis mecânicas nos espaço seria com as meras percepções do nosso corpo num local
improvável no meio do espaço - Infelizmente não podemos colocar-nos entre o Sol e a Terra para provar a validade
rigorosa das leis da inércia para observar o movimento terrestre. Não podemos fazê-lo a não ser com o pensamento)

Paralelamente, o estudo da linguagem em si também faz as suas baixas no início do século. Aquilo que era
uma magnífica síntese da compreensão do signo (enquanto significante in absentia) – a teoria peirciana da tríade
objecto | representante | interpretante parecia intocável. Mas,

no seu Curso de linguística geral, 1916, Saussure observa que seria ilusório acreditar que o signo linguístico
associa uma coisa e um nome: a ligação que o signo estabelece é entre um conceito e uma imagem acústica. A imagem
acústica não é o som em si mesmo, mas “a marca psíquica desse som, a representação que dele nos é dada pelo testemunho dos
nossos sentidos”. Estas duas faces inseparáveis so signo chamam-se significado (o conceito) e significante (a imagem
acústica). Para Saussure, o signo linguístico é definido pela relação significante-significado, da qual é excluído o objecto
(Kristeva p. 25-26)

Assim se assina o falecimento do objecto do processo semiótico. Ficam representante e interpretante. Ou


seja, signo – algo abstracto que nomeia de forma arbitrária uma ideia geral de um conjunto de propriedades que
constituem um corpo físico – e o ponto de referimento que interpreta da sua própria maneira esses signos.
Imaginemos então um homem que é um SC imerso no seu mundo-próprio perceptivo e que vai construindo
a sua realidade através dos vários portadores de significado que efectivamente não são objectos.

Desse modo talvez seja possível chegar às mesmas conclusões que Ludwig Wittgenstein em 1927 -
curiosamente o mesmo ano da derradeira tentativa da ontologia de Ser e Tempo - e que constituíram o que podemos
designar como ponto final do pensamento filosófico e científico ocidental (o oriental teve a vantagem de acabar
quando começou) – a técnica lógica do pensamento subjacente a toda a ciência, mas também a toda a filosofia acaba
por fazer um magnífico círculo de retorno que leva à sua auto-destruição formal.
21
Um exemplo claro: O grande mérito da descoberta de Copérnico só pode ser verdadeiramente apreciado do ponto de vista da física. Esse mérito consiste nas notáveis vantagens
oferecidas por um SC rigidamente ligado ao Sol para a descrição do movimento dos planetas (Einstein e Infield, p. 221)

86
a) filosofia

4.0031
toda a filosofia é “crítica da linguagem” - o mérito de Russell é ter mostrado que a forma lógica aparente da proposição não
tem que ser a sua forma real

b) ciência

6.371
a concepção moderna do mundo fundamenta-se na ilusão de que as chamadas leis da natureza são a explicação dos fenómenos
da natureza

Como justificar este vazio? A linguagem enganou-nos desde o início. É que na realidade:

1.1
o mundo é a totalidade dos factos, não das coisas

2
o que é o caso, o facto, é a existência dos estados de coisas

2.01
o estado das coisas é uma conexão entre objectos (coisas)

2.1
fazemo-nos imagens dos factos

O mundo são as imagens que fazemos dele com as formas que dispomos. E a física é a primeira grande
ficção. Como nos diz Brockman:

O homem cria instrumentos e depois plasma-se a si próprio nas imagens produzidas por esses instrumentos. A
realidade é artificial. O universo é uma invenção, uma metáfora.
O coração é uma máquina de bombear sangue é uma afirmação que aceitamos sem reservas. O cérebro é um
computador é uma afirmação que muitos têm nos últimos tempos aceite. Isaac Newton criou uma metodologia mecanicista e
nós inventámo-nos a nós mesmos nos termos estipulados de uma linguagem mecanicista. A metodologia de Newton influí na
concepção reducionista que levou a medicina ortodoxa a ver o coração, os pulmões e fígado, em suma, o corpo humano
primariamente no que concerne as suas partes. Hoje, em consequência das técnicas através do computador, um médico retira um
extracto de sangue e imediatamente o entrega a uma análise computorizada que emite um output com um conjunto de centenas
de elementos de informação numérica diagnóstica. Assim como as máquinas, hoje consideramos nós mesmos como um invólucro
de um processo de informação. A metáfora muda continuamente.
Qualquer linguagem descritivo que utilizemos para compreender a realidade, acaba por tornar-se a própria
realidade. Nós não dizemos que o coração é como uma máquina de bombear sangue, nós dizemos o coração é uma máquina de
bombear sangue.
Einstein representou a revolução na física do XX século que culminou num universo onde a realidade é teoria, onde
espaço e tempo não existem a não ser em relação a um observador, onde todas as imagens da natureza são imagens
matemáticas, onde a consciência física tem com confim último os limites da nossa percepção. A ideia de um espaço encurvado,
um espaço que não pode na realidade ser percebido pelos nossos sentidos, é talvez o exemplo mais óbvio de como o universo
cessou de ser algo que é percepcionado para ser de forma clara, um acto mental. O universo não existe. Ele simplesmente é.
(Brockman, p. 9 e 13)

87
A única verdade é a existência e não porque é pensada ou vivida, nem pela junção de ambos. Mas por causa
de tudo o que a compõe para cada um de nós e por causa de tudo aquilo que imaginamos e não imaginamos que está
para além disso. E porque tudo se espelha em tudo.

Para perceber como acabar com o silêncio que Wittgenstein impôs à cultura ocidental é preciso (também
através do silêncio) reverter a sua sentença:

6.44
o que é místico é que o mundo exista, não como o mundo é

elemen to impo nderável

Tentemos perceber melhor o que é o mundo. Como vimos a lei da inércia tinha esta característica inóspita
de se fundar numa experiência irrealizável que é a de um objecto em movimento uniforme infinito num espaço sem
forças externas. Mas a verdade é que dentro do quadro mental da nossa realidade material perceptiva esta tese
funcionou até ao ponto de, por exemplo, levarmos a Voyager II chegar a Urano apenas um segundo depois do
previsto segundo leis de balística totalmente newtonianas.
Isto quer dizer que é preciso perceber as relações entre as metáforas da realidade que criamos e aquilo que
pretendemos como futuro da realidade. Aqui surge de novo o paralelismo com a religião – nesta o futuro é fixado
segundo o horizonte de um destino profético longínquo, na ciência esse horizonte não existe, pelo que pequenas
profecias lançam-se de todos os lados e vai se trazendo a realidade até ao ponto de partida. Ou seja, a religião está
em parte presa ao ponto de chegada e a ciência aos seus pontos de partida.

A física é sem dúvida um local privilegiado de ficções. Primeiro imagina-se e depois encontra-se.
Relembremos o caso do átomo:

plano1
Demócrito sonha o átomo e escreve sobre ele

plano 2
mais de 2000 anos depois, em 1808, John Dalton imagina a existência concreta do atómo

plano 3
100 anos depois, em 1904, Thomson desenha o primeiro modelo atómico

plano 4
80 anos depois, em 1981, um microscópio de varredura por tunelamento, desenvolvido por Binnig e Roher
dos laboratórios da IBM de Zurique vê um átomo

Mais recentemente deu-se o estranho caso da descoberta dos quarks.

cena 1
nos anos 50, vários teóricos começaram a suspeitar que algo estava mal - perante tanta complexidade da natureza
tornar-se necessário imaginar um novo nível de partículas sub-atómicas

cena 2
em 1963, Murray Gell-Mann formulou um modelo teórico matemático para os novos componentes mínimos do
universo, de um outro livro – Finnegans Wake de James Joyce – retirou o seu nome – como fórmula abstracta
simples nascem os quarks

cena 3
durante os anos 60, os cientistas convencidos pela simplicidade e elegância da fórmula quark – hipótese que previa a
existência de 3 tipos de quarks (mais 3 antiquarks 22).

22
com cargas (cor) iguais, mas opostas

88
Começaram a procurar quarks em experiências de laboratório – em raios cósmicos e outros lugares – mas ninguém
conseguia encontrá-los. Como o modelo de Gell-Mann parecia tão plausível, os físicos demonstraram relutância me abandoná-
lo e concluíram que os quarks existiam só que por uma razão desconhecida não podiam ser extraídas das partículas das quais
eram componentes. Em 1968, um grupo de investigadores da Universidade de Stanford usaram um acelerador linear de
electrões com o comprimento de 3,2 km para enfim demonstrarem que a carga eléctrica de um protão está efectivamente
concentrada em estruturas punteíformes – e hoje, apesar da maior parte dos físicos considerara que nunca se conseguirá obsrvar
um quark livre, os quarks já são uma «realidade» (Brockman, p. 108-109)

cena 4
nos anos 70, novas teorias de interacção de quarks baseadas em perfeitas simetrias matemáticas indicavam que
existiriam mais quarks. Como no caso do conceito originário de Gell-Man, as teorias pareciam tão indiscutivelmente justas
que era diícil ignorá-las. O único problema é que não funcionavam na experimentação a menos que se considerasse um quarto
quark. Em 1976, Sam Ting do Brookhaven National Laboratory e, simultaneamente, Burton Richter em Stanford
descobriramo quato quark. E assim, nas palavras de Heinz Pagels 23, «a grande caça aos quarks acabou» (idem, p. 109)

cena 5
mas eis que, nos anos 80, físicos da Universidade de Cornell anunciam 24 a existência de um quinto quark. Mais
tarde surgiu um sexto...

Mas ainda mais incrível e revelador - dentro desta confusão especulativa da mente inerte - é que
analisando o comportamento dos quarks chegou-se a uma propriedade específica a que se chamou cor. A cor do quark
é uma carga similar à carga eléctrica. Só que cada quark não tem um tipo de carga, mas três - vermelha, amarela e
azul – e cada uma com um estado positivo e um negativo. Os quarks são portadores de cores positivas, enquanto que
os antiquarks (os seus equivalentes na antimatéria) são portadores de anticores negativas ou complementares. Como
acontece com as cargas eléctricas, cores diferentes atraiem-se entre si. Assim, em vez de encontrar um elemento
para facilitar a descrição das partículas subatómicas eles encontraram uma grande família extremamente complexa.

Por causa da natureza tripla da sua carga, os quarks podem ligar-se de maneiras sem analogia no
electromagnetismo. Fredriksson e Jandl, dois investigadores do Instituto Real de Tecnologia de Estocolmo
avançaram a possibilidade da constituição de um novo tipo de matéria –os núcleos demoníacos – mas isso já vai
além dos propósitos desta nossa investigação. O que é relevante é extrairmos a seguinte conclusão:

Uma lição interessante dos quarks é a sua natureza intrinsecamente paradoxal como conceito. Os quarks são aceites
como realidade, mas ao mesmo tempo a ciência admite que nunca será possível separá-los das partículas que se diz que estes
constituem. Talvez nenhum outro caso exemplifica melhor a proeminência da teoria sobre a realidade, o ser universo na sua
raiz uma invenção linguística (idem, p. 114)

Se voltarmos a alargar a escala e retomarmos a ideia de matéria em geral na física vamos desembocar no
conceito de substância. Da teoria mecanicista herdáramos dois tipos de substância. A primeira analisámos no início
deste capítulo e chama-se massa. Os seus princípios basilares são as 3 leis de Newton:

1.a lei da inérica


2.F=ma (a relação proporcional entre força e aceleração (proporcional) e massa (inversamente
proporcional)
3. a acção equilibra a reacção (força num sentido produz força igual no sentido inverso)

Mas o que é interessante é que a mecânica não nos esclarece o que a massa é, mas na realidade ela descreve
como a massa se comporta em relação à força, à velocidade, à aceleração e às distâncias - lei da gravitação geral. E
não sabemos o que é força, pois só a percebemos por causa do movimento. Tudo é apontado segundo um diferencial,
espelhos perceptivos que nos indicam algo dentro de um quadro de raciocínio, neste caso, o da física mecanicista
clássica (como vimos, noutro quadro – aquele mais real onde tudo depende do sistema de coordenadas – o da
relatividade geral já estas leis não produzem os efeitos desejados e induzem em erro).

Se alguém objectar com o facto de podermos medir a massa do corpos. Einstein responderia assim: a
velocidade depende da massa do corpo e que é tanto menor quanto maior for a massa do corpo - sabemos então como
determinar a massa de um corpo ou, mais exactamente apenas sabemos, quantas vezes uma massa é maior que outra.
Assim, podemos determinar a massa inerte dos objectos e relacioná-los da forma que temos relacionado até aqui na
mecânica clássica.

23
Brockman refere-se o anúncio foi feito no seu livro The cosmic code
24
num artigo para a Science (nº 209, Setembro de 1980) de Arthur Robinson intitulado Cornell evidence for fifth quark

89
Qual é o elemento em falta? A outra misteriosa substância? A resposta é uma palavra com tantos
significados quanto as formas com que se apresenta ou é apresentada:

energia

A sua história 25 começa com a análise de um fenómeno tão perto de nós e tão caro há nossa história – o
calor.

primeiro capítulo
calórico – vida e mor te d e uma substância

O nosso sentido do tacto permite-nos percepcionar distintamente que um corpo é quente e um outro é frio. Contudo,
este critério é apenas qualitativo o que o torna insuficiente para uma análise quantitativa e, por vezes, também ambíguo. Um
esquimó e um aborígene de terras equatoriais ao encontrarem-se num dia de Primavera em Milão, manifestariam opiniões
assaz diversas ao comentarem o grau de calor sentido. Todas as questões deste tipo podem ser resolvidas com um termómetro,
instrumento inventado em forma primitiva por Galileu.
Na terminologia moderna a palavra calor é substituída pela palavra temperatura.
Um médico que tira o termómetro da boca do seu paciente poderia pensar algo deste género: “O termómetro mostra a
própria temperatura através do comprimento da coluna de mercúrio. O comprimento da coluna aumenta proporcionalmente ao
aumentar da temperatura. O termómetro esteve alguns minutos em contacto com o doente pelo que ambos, paciente e
termómetro, têm a mesma temperatura. Assim concluo que a temperatura do meu paciente é a que está assinalada no
termómetro”.
Mas o termómetro contém talvez a mesma quantidade de calor que o corpo do paciente. Certamente que não. Supor
que dois corpos contém quantidades iguais de calor porque ambos têm a mesma temperatura seria, como dizia Black, confundir
a quantidade de calor em corpos diferentes cada qual com a sua força geral e intensidade.
Esta distinção torna-se mais clara através de um exemplo simples. Um quilo de água ao lume precisa de algum tempo
para a partir da temperatura ambiente chegar ao estado de ebulição. Um tempo muito mais longo é necessário para ferver da
mesma maneira 10 quilos de água no mesmo recipiente e com o mesmo altura do lume. Este facto é interpretado como indicação
queno segundo caso é necessária uma maior quantidade de uma qualquer coisa e a este qualquer coisa chamamos calor

(este qualquer coisa faz-nos lembrar as substâncias segundas de Aristóteles. Talvez os corpos com a sua
massa possa ser pensados como a substância primeira - homem-animal | nome-pronome. )

Assim, surge uma nova substância que não é um algo determinado pela massa (a nossa primeira substância),
mas que um novo algo que actua como uma força. É uma substância, mas sem peso, nem mesmo corpo, é a primeira
de toda uma família de substâncias imponderáveis (Einstein). A este algo imponderável deu-se o nome de calórico. A
verdade é que a ideia do calor como substância produziu alguns resultados na explicação dos fenómenos térmicos.

Mas os físicos perceberam que havia algo no fenómeno do calor que não era do domínio da substância.
Para a física uma substância não pode ser criada, nem destruída. Mas já o homem primitivo criava por fricção calor
suficiente para acender a lenha. A teoria de uma substância calor pode explicar como aparente a criação de calor: seria possível
que a fricção modificasse apenas o calor específico da lenha e não a quantidade total de calor.
Mas agora imaginemos que dois pedaços de lenha idênticos e suponhamos que em ambos se produza alterações
idênticas de temperatura com métodos diferentes: um por meio da fricção e o outro por meio de um radiador qualquer. Se
apesar da nova temperatura ainda apresentarão o mesmo calor específico, então toda a teoria do calor substancial cairá por
terra. Foi o que fez o experimento crucial de Rumford.

segundo capítulo
nasce o conceito d e en ergia

No ponto mais alto da montanha russa um vagão tem uma velocidade zero e está a trinta metros do solo. No ponto
mais baixo a distância do solo é zero e a velocidade atinge o seu máximo. Este facto pode-se exprimir da seguinte forma: no
ponto mais alto o vagão tem energia potencial mas carece de energia cinética ou de movimento.

25
seguimos mais uma vez o caminho com citações dos capítulos 1. a ascenção da teoria mecanicista, 2. a decadência de teoria mecanicista e 3. campo, relatividade de A
evolução da física (Einstein e Infield p. 49 - 207)

90
A energia potencial aumenta com a altura e a energia cinética cresce com o aumento da velocidade. Os princípios da
mecânica são suficientes para explicar o movimento em causa. Na correspondente formulação matemática são consideradas
duas expressões para energia, variáveis entre elas, mas cuja soma não varia.
As duas denominações , entenda-se, são convencionais e justificadas apenas pela sua utilidade prática. A soma das
duas quantidades não varia e é designada de constante do movimento

Ou seja, com o intuito prático de continuar a resolver os problemas do movimento chegava-se a um novo
estranho conceito – a tal energia. Aqui energia é simplesmente um elemento qualitativo para restabelecer as
relações entre força, distância, velocidade e massa. E mais uma vez estamos perante um algo que age como uma
força em suspenso 26 (potencial) e concretizável (cinética).

O passo seguinte é o de imaginar que o calor provocado pelo atrito no movimento relaciona-se com a
energia mecânica (potencial+cinética) do movimento. E dessa forma é o valor entre estes três factores que se
mantém sempre constante num circuito fechado. Foi isso que Joule (um cervejeiro com o hobby da física) há 150
anos provou 27 ao determinar a taxa de câmbio entre energia mecânica e calor (através de um mecanismo similar a
um relógio que o permitia medir o calor dissipado).

O importante resultado a que chegou é o seguinte:

sendo que 1 caloria é a quantidade de calor para aquecer 1 g de água (em pressão atmosférica normal)
de 14,5 º C a 15,5 ºC

1 caloria = à energia potencial de 0,427 Kg elevados um metro do solo

Assim, nasce a primeira ideia de energia mais vasta.

Depois de se ter chegado a este importantíssimo resultado, os progressos que se seguirão foram rápidos.
Imediatamente reconheceu-se que energia mecânica e calorífica são apenas duas das muitas formas que a energia pode assumir.
Qualquer coisa que possa ser convertida uma na outra é também ela uma forma de energia. A radiação emitida pelo Sol é
energia, pois parte dela transforma-se em calor na Terra. A corrente eléctrica possui energia, pois aquece um fio ou faz girar a
roda de um motor. O carbono representa energia química que se liberta como calor ao ser queimado.
Todos os acontecimentos naturais comporta transformações de uma forma de energia à outra e sempre seguindo uma
taxa de interacção bem definida. Isto quer dizer que num sistema isolado de influências externas, a energia conserva-se
portanto comporta-se como uma substância. Nesse sistema fechado a soma de todas as formas possíveis de energia é constante.
Concluindo, os nossos dois conceitos de substância são: matéria e energia. Só que a matéria tem peso, enquanto que a
energia não tem peso

Desta forma, o século XIX vê nascer o conceito primordial da Física – a energia – que logo se afirma como
substância por direito próprio.

Do grego !"#$s (ergos) que significa trabalho, energia significa para o pensamento ocidental essa qualquer
coisa que é usada para produzir trabalho 28.

Qualquer coisa que esteja a trabalhar - por exemplo, a mover outro objecto, a aquecê-lo ou a fazê-lo ser atravessado
por uma corrente eléctrica - está a gastar energia (na verdade ocorre uma transferência, pois nenhuma energia é perdida, e sim
transformada ou transferida a outro corpo). Portanto, qualquer coisa que esteja pronta a trabalhar possui energia. Enquanto o
trabalho é realizado, ocorre uma transferência de energia, parecendo que o sujeito energizado está a perder energia. Na
verdade, a energia está a ser transferida para outro objecto, sobre o qual o trabalho é realizado (Wikipédia).

(e vem a pergunta: se nem matéria, nem energia são destruídas, exactamente o que é que é destruído? 29)

26
em certa medida ficcional (se deixar de haver tempo ou simplesmente se algo atingir o vagão)
27
Einstein nota o seguinte facto curioso: É uma estranha coincidência que a quase totalidade do trabalho fundamental sobre a natureza do calor tenha sido executado não por
profissionais, mas por diletantes, amadores da física. Como o versátil escocês Black, o médico alemão Mayer e o grande aventureiro americano conde Rumford, que viveu muitos anos
na Europa e que entre as múltiplas actividades que desenvolveu conta-se a de ministro da guerra da Baviera (Einstein e Infield, p. 60)
28
é preciso que se estabeleça a relação entre trabalho e consumo – a importância dada à energia passou pelo desenvolvimento de máquinas que permitissem consumir
maiores quantidades de energia (como alimentação de humanos ou outras máquinas) e informação
29
a resposta teria de ser: as formas no tempo

91
terceiro capítulo
a energia como movimen to de partículas

No início do movimentado século XX, surge mais uma novidade que desta vez coube a um botânico de
nome Brown. Nos seus estudos com o pólen de algumas plantas, Brown apercebeu-se ao microscópio de uma
constante agitação dos grânulos suspensos na água. Experimentou imediatamente observar grânulos de uma
grande variedade de plantas e até partículas de substâncias inorgânicas em água e encontrou sempre o mesmo
movimento constante e irregular.

Como explicar este movimento? Ele parece estar em contradição com toda a experiência anterior. A coisa mais
estupefaciente é o carácter manifestamente eterno do movimento. Um pêndulo oscilante, imerso na água pára rapidamente
caso não seja auxiliado por uma força externa. A existência de um movimento que não acaba, parece contrariar qualquer
experiência. Este enigma vai ser brilhantemente clarificado pela teoria cinética de matéria.
Ao observarmos a água, mesmo com o mais potentes microscópios, não conseguimos distinguir nem as moléculas, nem
o seu movimento tal como previsto na teoria cinética da matéria. Temos então que inferir que se a teoria que considera a água
como um agregado de partículas é correcta, as dimensões das partículas devem ser inferiores ao limite de visibilidade dos
melhores microscópios. Mas continuemos a apoiar-nos na teoria cinética acreditando que pode oferecer-nos uma representação
coerente da realidade.
As partículas brownianas, visíveis ao microscópio serão bombardeadas por partículas muito mais pequenas que
compõe a água. O movimento produz-se porque o bombardeamento não é uniforme por todos os lados e não pode ser
compensado pelo seu carácter irregular e casual 30. O comportamento das partículas imersas espelha, até certo ponto, o das
moléculas de água constituindo-se como uma ampliação passível de ser observada ao microscópio.
É claro que o movimento browniano visível depende das dimensões das moléculas bombardeadas. O movimento
browniano não existiria se as moléculas não possuíssem uma certa dose de energia ou, noutras palavras, se não possuíssem
massa e velocidade. Deste modo, não é de admirar que o estudo do movimento browniano tivesse conduzido à determinação da
massa de uma molécula

A teoria cinética sobre a qual foram organizados os fundamentos da física e química modernas pressupõe
que existe uma relação entre o calor e a energia mecânica mais forte do que se pensara precedentemente. Na teoria
mecanicista tudo é reduzido a um problema mecânico. Neste caso, esse movimento permite-nos chegar à conclusão
que calor é na realidade energia cinética produzida pelo movimento das partículas. Chegar esta conclusão
possibilitou perceber que o número de moléculas num determinado volume e determinada temperatura e pressão
constitui uma característica de todos os gases – o princípio basilar da química.

Juntando este princípio à análise dos movimentos brownianos foi possível calcular a massa de uma
molécula, por exemplo, de hidrogénio – o mais ligeiro dos elementos. Primeiro chegamos ao número de moléculas
presentes em 1 g de hidrogénio:

1g H = 303.000.000.000.000.000.000.000 moléculas H

o que quer dizer que a massa de 1 molécula de hidrogénio é:

0,000.000.000.000.000.000.000.0033 gramas

Estamos no ponto alto da física clássica mecanicista onde de facto parece que, como Helmotz acreditava, a
explicação de todos os fenómenos residia na interacção mecânica de atracção e repulsão entre partículas materiais.

quarto capítulo
a energia coloca prob lemas

Foi ainda no final do século XVIII que surgiu um novo conceito: a electricidade. O inglês Benjamin
Franklin e o francês Coulomb formalizaram a ideia de dois fluidos eléctricos cada um correspondente a um dos dois
tipos de carga: negativo e positivo. Coulomb ao analisar as relações da electricidade com a distância chegou a
(ainda) Newton.

30
mais à frente discutir-se-á modelos assentes sobre possíveis padrões de regularidade nestes fenómenos aparentemente irregulares e causais

92
As experiências de Coulomb mostram que tal teoria é efectivamente válida. Um século depois da descoberta da lei da
gravidade de Newton, Coulomb veio descobrir uma dependência análoga entre as forças eléctricas e a distância. As principais
diferenças entre a lei de Coulomb e a lei de Newton são as que se seguem:

1. a atracção da gravidade é presente por toda a parte, enquanto que as forças eléctricas existem apenas se os corpos possuem
cargas eléctricas

2. na gravitação apenas existe a atracção enquanto que as forças eléctricas podem atrair-se ou repelir-se

Aqui surge novamente o problema que colocáramos perante a descoberta do calor. Os fluidos eléctricos são substâncias
imponderáveis ou não? O peso de um metal é o mesmo com carga ou neutro. A balança não regista qualquer diferença de peso.
Deduzimos que também os fluidos eléctricos fazem parte da família das substâncias imponderáveis

E a família das substâncias imponderáveis aumentaria logo a seguir com um novo elemento: o dipolo
magnético.

De novo, voltamos ao início, os gregos de à 2 milénios atrás. Na Ásia menor encontraram certa rochas
metálicas de magnésia que estranhamente atraíam o ferro e repeliam outras rochas – foram baptizados de magnetes
ou ímans.
A teoria mecanicista ao aproximar-se de um magnete encontrou imediatamente a sua explicação numa
extensão dos resultados recolhidos da experiência eléctrica. As extremidades de um magnete, os seus pólos, se
diferentes atraem-se, se iguais repelem-se. Pode-se deduzir que um magnete funciona então como um dipolo
eléctrico.
Mas se partirmos um magnete a meio o que acontece é que em vez de ficarmos com um fragmento pólo
note e um fragmento sul cada parte apresenta novamente dois pólos como se se desmultiplicasse. Assim, o problema
torna-se um pouco mais subtil. Podemos imaginar que na realidade o magnete constitui uma ordem magnética de
pequenos dipolos magnéticos orientados no mesmo sentido.

imagem 33 – movimento do fluido magnético num magnete

Desta forma, o funcionamento do magnetismo é, em certa medida análogo, ao da electricidade. Essa


analogia é profunda até ao ponto das leis de Coulomb descreverem igualmente de forma precisa as interacções do
magnetismo.

Talvez o facto mais incrível do magnetismo consista descoberta que o nosso mundo,

a Terra funciona como um gigantesco magnete

93
imagem 34 – movimento dos fluidos magnéticos na Terra

Para este facto a nossa ciência ainda não encontrou nenhuma explicação consistente.

Apesar da família dos elementos imponderáveis crescer, os físicos podiam descansar com um conjunto de
regras precisas válidas contemporaneamente para a gravidade, a electricidade e o magnetismo. Até que:

cena 1
a rã de Galvani fritou e um outro italiano chamado Alessandro Volta criou a pilha. E, desse modo, criou
também a corrente.
Basta um copo com água e ácido sulfúrico e uma placa de zinco e outra de rama, para do ponto de vista da
teoria clássica sermos surpreendidos. O que surpreende é nesta experiência é que a diferença de potencial entre placa de
rama e placa de zinco não se extingue como sucede com dois condutores com carga unidos por um fio. A diferença permanece e
desse modo com base na teoria dos fluidos, ela deve dar origem a um fluxo permanente do fluído eléctrico de nível potencial
superior (placa de rama) e o de nível inferior (placa de zinco). Para salvar a teoria dos fluidos podíamos recorrer à suposição
que alguma força constante aja de modo a regenerar a diferença de potencial e assim mantenha o fluxo do fluído eléctrico. De
qualquer forma, o fenómeno apresenta-se como bastante surpreendente do ponto de vista energético. Uma considerável
quantidade de calor surge no fio condutor da corrente ao ponto de fundi-lo. Portanto, assistimos à criação de energia no fio sob
a forma de calor. E, no entanto, esta pilha voltaica constitui um sistema fechado, já que não há troca de energia externa.

cena 2
26 anos mais tarde (já em 1820) o dinamarquês Hans Oersted utilizou a corrente eléctrica para deflectir a
agulha magnética de uma bússola e percebeu-se então que electricidade e magnetismo tinha uma relação real -
afectavam-se uma à outra. Mas o interesse deriva ainda de uma outra circunstância. A força agente é perpendicular às linhas
de conjunção. Pela primeira vez estamos na presença de uma força efectivamente diferente da qual era pretendido reconduzir
todas as acções do mundo externo segundo o ponto de vista do mecanicismo. Não podemos esquecer que as forças de
electrostática e magnetismo obedecem às leis de Newton e Coulomb e agem seguindo a linha de conjunção de dois corpos que se
atraem ou repelem.

cena 3
no final do século XIX, o americano Rowland realizou uma experiência que pôs ainda mais em evidência
este problema e que pode ser descrita do seguinte modo: imaginemos uma pequena esfera com carga. Imaginemos
também que ela se mova ao longo de um círculo cujo centro é ocupado por um magnete. A experiência é baseada no mesmo
princípio da experiência de Oersted e a única diferença consiste na substituição de corrente eléctrica ordinária por uma carga
eléctrica movida mecanicamente. Rowland constatou que o resultado é similar: o magnete é deflectido por uma força
perpendicular.
Mas experimentemos agora a imprimir maior velocidade à carga. O resultado é um aumento da força agente sobre o
pólo magnético: a deflexão do magnete é agora maior. Esta constatação implica uma ulterior complicação: não só a força não
age sobre a linha de conjunção entre carga e magnete, como a intensidade da própria força depende da velocidade da carga.
O inteiro ponto de vista mecanicista baseava-se na convicção que todos os fenómenos se podem explicar mediante
forças dependentes unicamente da distância e não da velocidade.

94
cena 4
e o inglês Michael Faraday fez o experimento que levou à descoberta da corrente induzida e que ao mesmo tempo
provou que a variação de um campo magnético é acompanhada de uma variação do campo eléctrico (tal como a experiência
de Oersted provava que a variação de um campo eléctrico é acompanhada de uma variação do campo magnético) – estavam
lançadas as bases sólidas para uma revolução do pensamento ocidental

capítulo final
a energia pen etra tudo

O físico escocês James Clerk Maxwell apresentou formalmente em 1873, 4 pequenas equações matemáticas
que estabeleceram finalmente a íntima correlação entre electricidade e magnetismo (criando assim a ideia de força
electromagnética) e mudaram a física abrindo as portas à teoria da relatividade.


lei de Gauss – as linhas do campo eléctrico divergem das cargas positivas e convergem para as cargas
negativas


lei de Faraday – as linhas de campo eléctrico circulam à volta de campos magnéticos, ou seja, as variações
dos campos magnéticos induzem campos eléctricos


os campos magnéticos nunca divergem nem convergem – forma sempre curvas fechadas


existem linhas de campos magnéticos que circulam em torno dos campos eléctricos variáveis

Um facto interessante é que as equações de Maxwell só foram possíveis através de uma nova forma de
representação.
Se a mecânica clássica evoluiu pela análise dos fenómenos através dessas abstracções em forma de setas –
os vectores -, todo o novo universo físico se apresentava agora devido a uma outra forma de representar as forças –
o campo. O campo junta em si representações da direcção da força agente sobre um corpo e a variação da força com
a distância

imagem 35 – representações em campo do magnete e de uma corrente

Ora, este tipo de representação permitiu perceber através dele que na realidade apenas as propriedades de
campo são essenciais na descrição dos fenómenos – a diversidade das fontes é irrelevante.
Ou seja, nos fenómenos eléctricos e magnéticos

aquilo que importa não são as cargas nem as partículas, mas o espaço entre as cargas e as partículas

95
Assim, não é difícil perceber como unindo às experiências de Faraday e Oesterd esta nova representação
possa facilmente demonstrar a relação entre campos eléctricos e magnéticos. E mais:

O mesmo processo pode ser considerado de um outro ponto de vista, o da energia. Um campo magnético desaparece e
faz um cintila. Uma cintila representa energia, portanto também o campo magnético deve representar energia. De modo a
utilizar coerentemente o conceito de campo e a sua linguagem torna-se necessário considerar o campo magnético como uma
reserva de energia.
O campo era usado no início apenas como um modelo útil, mas foi gradualmente assumindo-se como um aspecto do
real. Ajudou-nos a compreender factos conhecidos, mas também demonstrou-nos novos factos. Atribuir energia ao campo
significa dar um passo ulterior em direcção ao caminho que dá sempre maior consistência ao conceito de campo e permite
concretizar o abandono do conceito de substância

As equações de Maxwell vieram definir a estrutura de campo e a partir daí uma nova realidade formou-se.
É que entretanto a teoria ondulatória já tinha surgido para explicar determinados estranhos fenómenos ópticos como
a cor e a defracção da luz e o que as equações de Maxwell faziam era inferir através do campo uma onda de campos
que emerge de uma carga a vibrar – a onda electromagnética.
Mais: esse movimento de uma estado, ou seja, transferimento de energia em forma de onda atravessa o
espaço com uma determinada velocidade – esta velocidade Maxwell deduziu ser igual à velocidade da luz.

Mais tarde Hertz põe vozes a viajar pelo espaço.


A rádio confirma o que a teoria tinha predito. A existência das ondas electromagnéticas e a sua velocidade
igual à luz ficavam provadas experimentalmente.

Daí a se perceber que a luz é uma onda electromagnética é um pequeno passo. Depois vieram, as
microondas, os infravermelhos, os ultravioletas, os raios x e as radiações gama. Tudo ondas electromagnéticas
dentro de um espectro imenso, onde aquilo que vemos, com as suas formas e cores – e donde toda a reflexão partira
- fica num pequenino espaço no meio.

imagem 36 – o espectro electromagnético

Como vimos Netwon não considerou um aspecto fundamental – o sistema de coordenadas. Ou seja, o ponto
no espaço partir do qual é organizada a construção do real. Do ponto de vista da lei da força gravitacional de
Newton, a força de atracção depende apenas da distância. Mas isto implica que a força teria de passar de um corpo
ao outro em tempo 0.
O que está aqui em causa é que ambas esta lacunas partem dum mesmo esquecimento

o tempo

96
Ao observar um relógio distante através de uma televisão por exemplo temos de lembrar-nos sempre que aquilo que se
vê no instante, na realidade ocorreu anteriormente, assim como vemos o pôr do sol oito minutos depois de ter acontecido

Einstein constatou que o tempo não é absoluto e difere de observador para observador e de sistema de
coordenadas para sistema de coordenadas. Determinados fenómenos, mais subtis, só podem ser explicados tendo em
conta este diferencial de tempo que ocorre na distância. Para a interpretação do movimento de um carrinho de
rolamentos as leis de Newton chegam perfeitamente. Mas para compreendermos o infinitamente pequeno (as
partículas), o invisível (as ondas electromagnéticas) e o infinitamente grande (as estrelas e o universo), só um ponto
de partida relativista torna tais empreendimentos mais possíveis ao homem.
A importância do tempo torna-se imediatamente apreensível quando a velocidade aumenta. Principalmente
quando chega à velocidade da onda electromagnética – 300 000 km/h – a chamada velocidade da luz 31.

A teoria da relatividade parte então de duas premissas:

1.
a velocidade da luz, no vazio, é a mesma em todos os SC em movimento uniforme uns em relação aos outros

2.
todas as leis da natureza são as mesmas em todos os SC em movimento uniforme uns em relação aos outros

E como se comportam matéria e energia neste quadro de relatividade? É necessário retermo-nos


cautelosamente nas palavras de Einstein para podermos entrar neste momento decisivo da história da compreensão
humana do mundo

Como vimos a mecânica ensina que a força é proporcional à variação de velocidade ou aceleração. Mais
concretamente: num segundo, a velocidade de um corpo pode passar indiferente de 100 a 101 m/s, de 100 Km/s a 101 km/s
ou ainda de 280 000 Km/s a 280 000 Km e 1 m/s. Isto porque a força necessária para produzir a mesma aceleração dentro
do mesmo intervalo de tempo é suposta ser sempre a mesma, independentemente da velocidade.
A lei em causa é somente válida para pequenas velocidades. Não é de facto a mesma coisa acrescentar 1 m/s a uma
velocidade de 100 m/s ou a uma velocidade perto à velocidade da luz. Quanto mais uma velocidade se aproxima da velocidade
da luz mais difícil torna-se de aumentá-la.

A mecânica ensina que qualquer corpo opõe resistência a uma mudança do seu movimento. Quanto maior é a massa,
mais forte é a resistência. Mas a teoria da relatividade diz-nos algo mais. A resistência que os corpos opõem à mudança é
tanto mais forte (não apenas quanto maior é a sua massa de repouso, mas) quanto maior fôr a sua velocidade. Corpos dotados
de velocidade perto da luz oporiam uma resistência imensa a forças externas.

O nosso mundo material, os elementos conhecidos – do hidrogénio, o mais ligeiro ao urânio, o mais pesado – são todos
construídos com as mesma espécies de “tijolos”, quer dizer com as mesmas espécie de partículas elementares.
Os elementos mais pesados - que correspondem aos “edifícios” mais complexos – são instáveis e desintegram-se, ou
como se diz, são radioactivos. Alguns “tijolos” (as partículas elementares) dos elementos radioactivos podem num momento ser
expulsos com grandes velocidades, nomeadamente velocidades perto da velocidade da luz.

Um corpo em repouso possui massa, mas não possui energia cinética, ou seja, de movimento. Um corpo em movimento
possui ambas as coisas: massa e energia cinética. Assim ele resiste mais fortemente às variações de velocidade ou aceleração. É
como se a energia cinética de um corpo acrescesse a sua resistência. A energia ou pelo menos a energia cinética resiste ao
movimento como as massas ponderáveis. Será isto verdadeiro para todas as formas de energia. A esta pergunta a teoria da
relatividade dá uma resposta clara e contundente:
a energia sob todas as suas formas comporta-se como a matéria

Um pedaço de ferro pesa mais quando está quente do que quando está frio; a radiação emitida pelo Sol através do
espaço, possui energia e, como tal, massa; o Sol e todas as estrelas perdem massa ao emitirem radiação. Esta conclusão de
carácter quantitativo geral constitui uma importante conquista da teoria da relatividade e está de acordo com todos factos que
a testaram

31
um facto curioso quanto é que já Galileu conseguira colocar o problema da medição da velocidade da luz de forma correcta (ver Einstein e Infield, p. 101-103)

97
A física clássica tinha introduzido duas substâncias: matéria e energia. A primeira dotada de peso e a segunda
imponderável. Segundo a teoria da relatividade não há diferença essencial entre massa e energia. A energia possui massa
e a massa representa energia

Esta relação na fórmula mais simples e clara que a física nos seus limites ficcionais alcançou:

E=mc2 32

vazio e qi

Siddhartha Gautama nasceu no século VI a.C. em Kapilavastu ao que hoje chamamos Nepal. Seu pai era
Gautama, rei da grande tribo dos Shakyas. Como tal, Siddhartha nasceu príncipe.

Reza a história que Siddhartha era um príncipe perfeito que viveu toda a sua juventude na tranquilidade do
palácio de Kapilavastu. Sem preocupações e sem defeitos vivia rodeado da beleza da sua corte e da prima Yasodhara
da tribo do outro lado do rio que esposara e com quem teve o seu filho Rahula. Parece que um dia durante um passeio
fora dos limites do seu palácio terá presenciado a doença e velhice que se abatia sobre dois homens. Com o seu
escudeiro Chana como guia iniciador para a miséria do mundo, Siddhartha terá ainda presenciado a lenta queima de
um cadáver.

Pouco tempo depois, Siddhartha deixou o palácio. Terá sido em Rajagriha onde já se via os Himalaias, que
Siddhartha aprendeu a abster-se do sexo, o yoga, a meditar e a realizar os ritos bramânicos tão antigos da tradição
oral védica. Terá um dia replicado a um brâmane da seguinte forma:

A nossa miséria não provém da escravidão da alma serva, como dizeis, das paixões, mas sim dos aspectos da
personalidade que não nos libertámos, ou seja, do eu. Dizeis que podeis separar o eu dos seus actos, mas enganai-vos. O homem
é um composto das suas faculdades, não existe este ser estranho que, oculto por detrás de um pano, percebe o que se passa diante
de si. Não existem coisas sem qualidades – são as qualidades que formam as coisas. Não existe a alma sem faculdades, são as
faculdades que formam o eu. Quanta confusão vem do interesses em nós próprios e na nossa própria perfeição. O simples facto
de se pensar que se pensa, e que pensa bem, desperta a sua vaidade

Mais tarde, envolto em dúvida metafísica terá encontrado a certeza de um caminho que passaria então por
viver na total privação entre os samanas. Terá sido na floresta de Uruvela que Siddhartha aprendeu a jejuar, a
esperar, a pensar. Na total abstenção, o corpo e a mente de Siddhartha aprendiam a viver sem nada. Perante tão dura
penitência alguns samanas juntaram-se a Siddhartha na sua procura e alguns camponeses vinham até ele para pedir
a sua bênção. Terão passado 6 anos assim.

Um dia, junto ao rio Siddhartha encontrou um novo caminho. Qualquer coisa entre a recusa do prazer dos
sentidos e a recusa da mortificação do corpo com práticas penosas. Encontrou o que chamou caminho do meio num
pequeno prato de arroz finalmente aceite oferecido pela filha de um pastor.

32
È usual exprimir a equivalência entre massa e energia(embora de forma algo inexacta) através da formula E= mc2, em que c representa a velocidade da luz, cerca de 300.000
quilómetros por segundo; E representa a energia contida num corpo estacionário e m é a sua massa. A energia que pertence á massa m é igual a esta massa, multiplicada pelo
quadrado da gigantesca velocidade da luz – o que significa uma enorme quantidade de energia por cada unidade de massa. Mas se cada grama de matéria contem esta tremenda
quantidade de energia, porque permaneceu este facto oculto durante tanto tempo? A resposta é bastante simples: a energia só pode ser observada quando algo dela é emitido para o
exterior. È como se um homem fabulosamente rico nunca tivesse gasto ou oferecido um único cêntimo; ninguém poderia saber quão rico ele era.
Agora podemos inverter a relação e dizer que um momento de E na quantidade de energia deve ser acompanhado por um aumento de E/c2 na massa. Podemos facilmente fornecer
energia à massa – por exemplo, se fizermos subir 10 graus á sua temperatura. Então, porque não medir o aumento da massa, ou de peso, que esta associado a esta alteração? O
problema aqui é que no aumento da massa o gigante factor c2 ocorre no denominador da fracção. Em tais casos o aumento é demasiado pequeno para poder ser medido directamente,
mesmo usando a balança mais sensível. Para que um aumento da massa possa ser medido, a mudança de energia por unidade de massa tem de ser imensa. Conhecemos apenas uma
esfera onde tais quantidades de energia por unidade de massa são libertadas: na desintegração radioactiva.
O que aqui se passa pode ser ilustrado com o exemplo do milionário acima referido. O átomo m é um rico avarento que, durante a sua vida, não despende nenhum dinheiro (energia).
No seu testamento lega toda a sua fortuna aos seus filhos m e m, na condição de que eles doem á comunidade uma pequena soma, menos de que uma milésima parte de toda a herança
(energia ou massa). Os filhos, em conjunto, possuem algo menos do que aquilo que o pai possuía ( a soma da massa m+m é algo menor do que a massa M do átomo radioactivo). Mas
a parte oferecida á comunidade, embora relativamente pequena, é ainda assim tão vasta (considerada como energia cinética ) que traz consigo a ameaça de um grande mal. Afastar
esta ameaça tornou-se o problema mais urgente do nosso tempo (Eisntein 2, p. 177-178)

98
Abandonado pelos seus admiradores e perseguido, segundo a lenda, pelos seus espíritos malignos, que o tentavam
continuamente, foi sentar-se junto de uma árvore que cresce na Índia, uma figueira silvestre (ficus religiosa) chamada Bo.
Era cedo, de manhã, quando começou a meditar à sombra da figueira e, antes de cair o dia, recebeu a grande iniciação. A
partir daquele momento seria Buddha, que significa o iluminado. Hoje quase metade da raça humana segue a doutrina do
príncipe iluminado à sombra da figueira (Enciclopédia História Universal – as origens das grandes religiões, p. 180-181)

Já em Benares, Siddhartha| Buddha falou do que compreendeu, e então falou da origem da angústia, da
dor:

Existe um caminho intermédio, oh eremitas, um caminho que nos faz abrir os olhos do entendimento e que nos traz a
paz, levando-nos à sabedoria, à verdade, ao nirvana.

Qual é este caminho? Em verdade vos digo que é o dos oito preceitos:
visão justa, livre de superstições e ilusões;
desejos justos, altos e dignos de uma homem inteligente;
palavra justa, sincera e verdadeira;
conduta justa, em paz, honestidade e pureza;
acção justa, sem causar qualquer dano a qualquer ser vivo;
esforço justo, educando-se para se dominar;
mente justa, activa, atenta e desperta;
contemplação justa, meditando cuidadosamente sobre a realidade da vida.

Respeito pela dor, oh eremitas, cinco causas nos produzam a dor:


o nascimento,
a doença,
a morte,
a união com as coisas desagradáveis
e a separação das coisas desagradáveis.

Esta é a origem da dor. Procuramos a renovação daquilo que está sempre a mudar, já com uma vida futura, já com
uma maior intensidade da vida presente (idem, p. 183-184)

Num universo paralelo 33 Siddhartha| Buddha olhava à sua volta na casa de um pescador que lhe ensinou a
revelação do mundo e dizia a Govinda seu amigo

Tudo isto são coisas, coisas que nós podemos amar. Mas não posso amar palavras. É por isso que não aprecio as
doutrinas, não têm dureza ou moleza, não têm cores, não têm arestas, não têm cheiro, não têm gosto, não têm senão palavras.
Talvez seja isto que impede de encontrares a paz, talvez sejam as palavras em excesso. Porque também libertação e virtude,
também Samsara e Nirvana são meras palavras. Nada existe que seja o Nirvana, apenas existe a palavra Nirvana

33
aquele co-criado com Herman Hesse

99
Por volta da altura do nascimento de Cristo, o budismo (já dividido em duas principais tradições a
Theravada e a Mahayana) apresentou talvez o seu texto mais influente - o Lankavatara Sutra de origem mahavanista.
Este é o sutra da descida de Buda ao Sri Lanka onde se fala com grande subtileza filosófica dos processos de
revelação através de um dialogo com o Bodhisattva chamado Mahamati. O nosso Siddhartha| Buddha 34 ensina que

1.
tudo o que é visto neste mundo está omisso de esforço e acção porque todas as coisas neste mundo são como um sonho
ou como uma imagem milagrosamente projectada

2.
isto não é compreendido pelos filósofos nem pelos ignorantes – quem não vê isto caminha pela discriminação e, como
dependem da discriminação, caem inevitavelmente no dualismo

3.
o mundo visto através da discriminação é como ver a própria imagem reflectida num espelho, ou a sua sombra, ou a
lua reflectida na água, ou um eco perdido num vale

4.
o homem preso nas suas próprias sombras da discriminação fica apegado a esta coisa e aquela coisa e, incapaz de
abandonar o dualismo, continua eternamente a discriminar as coisas umas das outras, pelo que é incapaz de
encontrar a tranquilidade

5.
por tranquilidade entendo Unidade e da Unidade nasce o mais alto samadhi 35 obtido com a entrada na realidade
da Nobre Sapiência que é realizada unicamente na mais íntima consciência de cada um

Então Mahamati perguntou ao abençoado: Porque é o que os ignorantes perdem-se na discriminação?

a.
porque os ignorantes apegam-se aos nomes, aos signos e às ideias

b.
a mente ao usar esses canais alimenta-se na multiplicidade de objectos e caiem na âmbito de uma alma egóica que quer possuir
objectos

c.
a mente egóica faz discriminações entre o bom e o mau em volta dessas aparências e tende para acordar sobre tais assuntos

d.
a mente egóica presa nos acordos cristalizados entre bem e mal entra numa reversão para a ignorância e nascimentos karmicos
de ganância, raiva e loucura que se acumulam

e.
os ignorantes não se apercebem que as coisas nada tem a ver com o qualificado e o qualificar, nem com o curso do nascimento,
crescimento e destruição, por pensarem que sim fazem asserções erróneas como terem nascido através de um criador, do tempo,
dos átomos, ou de algum espírito celestial

O problema encontra-se na forma como a mente percepciona a realidade e como cria a separação uma
distância espacial e temporal entre tudo através da discriminação. Neste subtil sutra é explicada de forma exemplar
esse processo de correlação entre os limites da mente e os limites da percepção sensorial:

34
num universo paralelo co-criado por Ashvagosha ou talvez Asanga e Vasubandu – as citações são traduções a partir da tradução inglesa do académico Dwight
Godard (que segue em geral a tradução de Teitaro Suzuki) e da tradução francesa do monge zen Jacques Brosse (ver bibliografia)
35
estado de recolhimento e pacificação da mente que permite a meditação (dhyana)

101
a consciência mental juntamente com as cinco consciências [ sensoriais] forja um mundo visível e constitui a cena do
teatro. a consciência dança como uma bailarina, o pensamento (manas) age como um prestidigitador.

quatro elementos estão na origem do funcionamento das [seis] consciências sensoriais:


1. o desconhecimento da natureza do mundo visível, não o considerando como saído da nossa própria consciência
2. o vinculo à agitação provocada pelo desdobramento da mente e das impregnações acumuladas desde tempos
imemoriais
3. a convicção de que a natureza apropriada pertence originalmente à consciência [mental]
4. a curiosidade ardente em relação á infinita diversidade dos seres

Este desconhecimento da real natureza do mundo visível - só alcançável na Revelação - é simultaneamente


o problema de base de todas as filosofias segundo Buddha.

a filosofia não reconhece que o mundo objectivo surge da mente e que a própria totalidade do sistema mental surge da
própria mente. Ao depender destas manifestações da mente e considerando-as como reais imediatamente entram em fórmulas de
discriminação, assim na vão alimentando cadeias de dualismo, de ser e não-ser

alguns estudiosos ao assumirem que algo nasce do nada, inferem que existe uma substância ligada à causalidade que
se prolonga tempo. E assim pensam que os elementos que constituem a personalidade e o ambiente têm a sua origem e
prorrogação num movimento causal até que, ao deixarem de existir, acabam

depois existem estudiosos que têm uma visão destrutiva e niilista em relação a tudo o que concerne continuação,
actividade, existência, nirvana, Caminho, karma, fruição e Verdade. Porquê? Porque não alcançaram uma compreensão
intuitiva da Verdade em si e, como tal, não têm um claro entendimento interior dos fundamentos das coisas

são como um jarro partido em pedaços que já não pode ser usado como um jarro. São como uma semente queimada
que já não pode florescer

Como síntese, podemos considerar que o dualismo da mente que precisa de discriminar funda-se na ideia de
ser e não-ser (comum e incomum, eu e outro, existência e não-existência, eternidade e não-eternidade, amor e ódio,
enfim, sim e não 36, ser e não-ser).

Para Buddha o desconhecimento da verdadeira realidade una do universo está na génese de um círculo
vicioso onde a descriminação, simultaneamente como causa e consequência, apoia-se na presunção da natureza
própria e o prazer na multiplicidade das formas (que se fundam em ideias e palavras) na sua íntima relação com os
três perigos do desejo, ganância e ódio.

Estas produções da mente engendra-se numa espiral contínua que produz mais discriminação e mais desejo
pelas formas que é perpetuada pela energia do hábito.

Resultado: mais ganância, mais raiva, mais loucura

ou seja, o caminho da autodestruição e das destruição dos outros

Estas são as principais considerações presentes nos primeiros 2 capítulos da versão de 13 capítulos em 884
versos que chegou até nós (a versão original teria muito provavelmente pelo menos 36 000 versos). Mas ainda antes
de acabar esta secção dedicada à discriminação, falsa imaginação e conhecimento da aparências o Buddha vai
discorrer sobre as formas da discriminação 37 e deste modo introduzir um novo método de conhecer o mundo.

36
para Buddha provavelmente só existiria sim
37
os vários tipos de falsa imaginação podem ser distinguidos como concernentes a: palavras, sentido, marcas individuais, propriedade, natureza do si, causa, visões filosóficas,
raciocínio, nascimento, não-nascimento, dependência, emprisionamento e emancipação

102
a via de instrução apresentada pelos Tathagatas 38 não é baseada em asserções e refutações fundadas em palavras e
lógica. existem quatro formas de asserção que podem ser feitas no que concerne coisas em não-existência:

a asserção sobre marcas individuais que realmente não têm existência concerne as marcas distintivas percepcionadas
pelo olho, ouvido, nariz, etc, enquanto indicadores de individualidade e generalidade nos elementos que constituem a
personalidade e o mundo exterior. depois, ao tomar essas marcas individuais por algo real e apegando-se a elas, forma-se o
hábito de afirmar que as coisas são só de uma determinada forma e não de outra

a asserção sobre objectos que são não-existentes é uma asserção que nasce do apegamento às marcas de
individualidade e generalidade.

os objectos em si não estão nem em existência, nem em não-existência. eles desviam-se da alternativa de ser e não-ser e
deviam ser pensados como quando se pensa nos cornos de um cavalo que nunca existiram

a asserção de uma causa não-existente assume o nascimento sem causa do primeiro elemento do sistema-mente que
mais tarde vem a ter apenas uma não-existência tipo maya. isto quer dizer que existem filósofos que produzem uma asserção de
um sistema-mente originalmente sem nascimento que começa a funcionar segundo as condições do olho, da forma, da luz e da
memória e que este funcionamento continua durante algo tempo até cessar. este é um exemplo de uma causa não-existente

a asserção de visões filosóficas, que concernem elementos que constituem a personalidade e o seu mundo envolvente que
são não-existentes, assumem a existência de um ego, um ser, uma alma, um ser vivo ou um espírito. isto é um exemplo de visões
filosóficas que não são verdadeiras. é, no fundo, a combinação da discriminação de marcas individuais imaginadas que se
agrupam e dá-se um nome e depois apega-se a elas como a objectos. estas visões erróneas baseadas em falsa imaginação deve-se
a uma energia do hábito que foi acumulando desde o início dos tempos. por esta razão os Bodhisattvas 39 devem evitar todas
discussões relacionadas com asserções ou negações baseadas em palavras e lógica

e finaliza este capítulo assim

oh, mahamati, tu e todos os Bodhisattvas devem auto-disciplinar-se no entendimento e paciente aceitação das
verdades do vazio, do sem nascimento, do sem natureza do si, do sem dualidade de todas as coisas

estes ensinamentos são só o dedo que aponta para a Nobre Sapiência, eles são como uma miragem com os seus
movimentos de água que o veado toma por reais e assim persegue

assim são, os ensinamentos de todos os sutras, a sua intenção é pôr em consideração e guiar as mentes envoltas em
discriminação de todas as pessoas,
mas não são a Verdade em si

Quando o monge budista Boddhidharma chegou a Cantão (vindo do Ceilão) a 21 de Setembro no ano 527
da nossa era provavelmente trazia consigo apenas a sua cópia do Lankavatara. Foi este texto que Damo (como era
conhecido na China), segundo a Narrativa da transmissão da lei de 712, terá dado ao seu discípulo sucessor no
dharma Houei Ko dizendo:

Que seja o vosso ponto de partida para o futuro (citado em Brosse, p. 30)

E assim começava a história do dhyana fora da Índia, que por adaptação homofónica veria a chamar-se chan
na China e, muito mais tarde (já no século XIII), zen no Japão. Antes de acabar o milénio chegou até nós já como
zen, chan, dhyana.

38
literalmente, aquele que alcançou
39
literalmente, ser da revelação

103
Existem várias histórias em torno de Boddhidharma. Uma das mais importantes refere-se à sua estadia no
famoso mosteiro de Shaolin onde desenvolveu duas formas de exercício para lidar com a falta de força interior e
exterior que diagnosticou nos monges que lá encontrou.
As 18 mãos de Lohan era um conjunto de movimentos que formaram a base daquilo que mais tarde viria
desenvolver-se como o famoso Kung Fu Shaolin (xiaolin gong fu), matriz de quase a totalidade das artes marciais
orientais. Mas mais importante que isso foi a sistematização do Yi Jin Jing um clássico sistema Chi Kung (qi gong)
de trabalho da energia interna que parte de um conceito bem antigo na civilização chinesa


qi

ou chi ou ki (em japonês)

Este conceito de qi (que tinha estreitas relações com a ideia de prana indiano) era na realidade já
fundamento da milenar Medicina Tradicional Chinesa, para a qual o corpo humano apresenta dentro de si canais
por onde passa uma energia invisível fundamental que permeia toda a realidade - os chamados meridianos que são a
base de mapeamento para a desconcertante terapia da acupunctura.

No já citado Huang Di Nei Jing lemos:

O homem nasce da terra, a sua vida é-lhe dada do céu,


céu e terra unem-se para produzir energia,
a vida que daí resulta é o homem.

O lugar do homem é na superfície da terra,


aí depende de muitas coisas e também de comida.
Mas o que lhe dá a terra não é suficiente,
ele ainda precisa de energia para os processos da vida
Esta energia do cosmos reage com a energia da terra para produzir energia vital
essencial a todas as actividades internas e externas da vida do homem (citado em Kit, p. 64-65)

Mas este conceito vai mais longe na original cultura chinesa. Um antigo investigador chinês dos
fenómenos físicos chamado Fang Yi Zhi escreveu

Quando a energia integra torna-se forma.


Quando a energia radia torna-se luz.
Quando a energia vibra torna-se som.
Tudo isto são várias formas de energia.
A maioria da energia existe em estados de pré-integração e pré-vibração (idem, p. 64)

O neo-confucionista Zhang Dai sintetiza bem a ideia que atravessou toda a antiguidade chinesa quando
afirma que

os cosmos é um corpo de energia


a energia tem yin e yang
quando dispersa permeia todas as coisas
quando se une torna-se nebulosa
quando se organiza numa forma torna-se matéria
quando se desintegra volta ao seu estado original
(idem, p. 63)

104
Ou seja, tudo aquilo que existe enquanto fenómenos que percepcionamos originou-se a partir de energia, é
uma forma de energia que em auto-conservação desmultiplica-se e transfere-se continuamente através das formas.

Planeta vem da ideia de vagabundo. Mas mundo vem da ideia de limpo.

Enquanto ainda Siddhartha | Buddha pisava este planeta, o mais famoso vagabundo chinês Lao Zi
pensando nestas coisas e outras terá dito estas primeiras palavras a alguém que anotou o famoso Dao De Jing 40

道可道, 非恆道。dao ke dao, fei chang dao;


名可名, 非恆名。ming ke ming, fei chang ming.

無名, 天地之始; wu ming, tian di zhi shi;


!有名, 萬物之母。 you ming, wan wu zhi mu.

故常無欲, gu chang wu yu,


以觀其妙;! yi guan qi miao,
常有欲, chang you yu,
以觀其徼。 yi guan qi jiao.

此兩者同出而異名, ci liang zhe, tong chu er yi ming.


同謂之玄。 tong wei zhi xuan,
玄之又玄, xuan zhi you xuan,
眾妙之門。 zhong miao zhi men.

道可道, 非常道。 Via (Dao) que se possa indicar não é a Via Permanente.
名 可名, 非常名。 Nome que se possa chamar não é o Nome Permanente.

無名, 天地之始; Sem nome, é origem do Céu e da Terra.


有名, 萬物之母。 Com nome, é mãe dos Dez Mil Seres.

故常無欲, 以觀其妙 ;Assim, permanecendo sem desejos vê-se o seu Prodígio,


常有欲, 以觀其徼。 Permanecendo com desejos vê-se o seu resultado.

此兩者同出而異名, 同謂之玄。 Estes dois brotam do mesmo, mas tomam nomes diferentes. Ambos são
chamadas Mistério.

玄之又玄, 眾妙之門。 Mistério e mais Mistério

- a porta de todo o Prodígio

40
ainda fazendo uso da tradução de Cláudia Ribeiro (Publicações Europa-América, 2004)

105
colectivo

aqui se conta como o homem efectivamente foi criando formas de organização do real e do social através
de histórias morais-religiosas
big bang
- 15 mil milhões de anos

nascimento do palco da matéria, do espaço e do tempo:


o Universo

as estrelas
- 13 mil milhões de anos

nascem os primeiros seres da matéria

a Terra
- 4,5 mil milhões de anos

nascimento do palco da vida:


faz-se o sistema Solar e, como tal a Terra

a Vida
- 4 mil milhões de anos

surgem os primeiros seres unicelulares

a Explosão
- 600 milhões de anos

a explosão câmbrica liberta para o mundo uma imensidão de formas de seres multicelulares

a Evolução
- 360 milhões de anos

aqui nascem os peixes modernos com ossos e os anfíbios e répteis primitivos acompanhados de insectos
gigantescos

os Répteis
- 245 milhões de anos

depois da maior extinção de sempre (no final do Pérmico) começa o reinado de 150 milhões de anos dos
dinossauros

os Mamíferos
- 65 milhões de anos

depois da extinção dos dinossauros começa a história do reinado dos mamíferos

os Hominídeos
- 5 milhões de anos

na evolução dos mamíferos um tronco comum dos primatas separa-se em três direcções:
gorilas, chimpazés e hominídeos

110
o Homo
- 1 milhão de anos

surge o homo erectus

No segundo capítulo descrevemos este homo erectus como aquele que aprendera a jogar com a mimesis e
como tal organizara-se em grupo de forma mais eficiente que qualquer outro ser vivo das suas dimensões.
Mas ainda estava para surgir um novo e inesperado salto evolutivo - há cerca de 150 mil anos atrás nasce o
que designamos por homem moderno.

princípios de criação do humano e do inuman o

O mistério do primeiro homem fisiologicamente moderno é uma história que parece começar em África –
esta teoria de um ancestral comum para todos os humanos modernos é designada de Eva africana e baseia-se em
estudos alargados do ADN mitocondrial.

Desta Eva terão nascido várias variações anatómicas de humanos modernos. Mas os dados arqueológicos
são confusos e contraditórios (ainda o espectro do sprachloser Urmensch de Haeckel). Existem no entanto duas
formas principais com bons dados no caminho até ao homo sapiens sapiens: Neanderthal e Cro-Magnon.

Durante o período do Paleolítico Médio, há aproximadamente 40 000 a 150 000 anos atrás, a cultura das
ferramentas mousterianas apareceu nos dados arqueológicos num padrão que estava em consonância com a cultura da Ásia
Central e do Próximo Oriente até à França e também à Espanha. A cultura das ferramentas mousterianas incluía diferentes
técnicas novas e também incluía ferramentas mais pequenas, mais cuidadas e pontiagudas e também moldes.
Os restos dos homens de Neanderthal existem ao mesmo tempo que os sítios onde estão as ferramentas mousterianas.
Os homens de Neanderthal também usavam vestuário, decoravam o corpo, tinham sítios onde enterrar os mortos e rituais
religiosos. Culturalmente parecem semelhantes aos humanos antigos e ainda não modificados do Paleolítico Superior
(Hadingham, 1979). Viviam em cavernas, caçavam e construíam abrigos quentes com peles de animais.
Uma comparação entre os homens de Neanderthal e os seus antepassados não deixa nenhuma duvida de que estavam
avançados nas capacidades cognitivas. No entanto, aparentemente, eram menos adaptáveis que os humanos modernos que
coexistiram com eles durante 5000 a 7000 anos em alguns locais competindo pelas mesmas fontes de sobrevivência. Locais de
acampamento na Europa de homens de Neanderthal e Cro-Magnon contemporâneos mostram que enquanto a cultura Cro-
Magnon evoluía com velocidade constante, os homens de Neanderthal não estavam a mudar. Dentro de um tempo
relativamente curto, depois do aparecimento dos humanos modernos, os homens de Neanderthal extinguiram-se.
Restos de humanos modernos classificados como Homo sapiens têm sido reportados em África desde há
aproximadamente 125 000 anos e são evidentes nos registos arqueológicos da Europa, Ásia e Austrália de há cerca de 45 000
anos. Os mais antigos restos norte americanos parecem ter 25 000 anos mas há quem reivindique achados mais antigos; a
América do Sul parece ter sido ocupada por volta do mesmo período (Donald, p. 252)

O que acontece então neste período para além do faber? Antecipando já a resposta argumentaremos que:

nasce o símbolo, nascem as imagens como formas de moldar o humano

As imagens rupestres são o rasto, o índice de algo que começara com o enterro, com a sepultura. Esta
grande revolução da vida é o início da vida como relação mediatizada através da problematização da ideia de morte.

Fustel de Coulanges: «Foi talvez ao olhar a morte que surgiu no homem a ideia de sobrenatural juntamente com a
esperança de algo além do que via. A morte foi o primeiro mistério que lançou o homem para os outros mistério. Elevou o seu
pensamento do visível ao invisível, do efémero ao eterno, do humano ao divino. Foi talvez perante um morto que o faber, um
dia se transformou em sapiens. Quando um primata se apercebe que um companheiro está morto já não se move deixa-o para
trás como se tratasse de uma coisa. Parece que o esqueceu imediatamente. Nós não tratamos assim um morto. Não é um ser
vivo, mas também não é uma coisa.
Talvez é este o verdadeiro estádio do espelho antrópico: contemplar-se como um duplo num alter ego e ver no visível
que à nossa frente está o outro do invisível (Coulanges citado em Debray 1, p. 27-28)

111
O australopithecus e o erectus formaram o homo faber capaz de construir ferramentas e utilizar formas de
comunicação miméticas para formar tribos de organização complexa de indivíduos comunicantes que permitem o
surgir do núcleo familiar e da caça alargada. Mas agora este ser, este primeiro homem, encontra um novo elemento
sobre o qual organiza a sua existência:

o mistério, o invisível, o transcendental

Estes novos animais tinham sítios onde enterrar os mortos e rituais religiosos.

O primeiro homem foi aquele que desafiou a morte, aquele disse a morte não é a morte. O homem que
nasceu da Eva africana à 150 mil anos atrás traz dentro de si o fundamento da existência de deus. E traz consigo o
símbolo. Vestuário, decorações corporais, imagens rupestres. Estas imagens são extensões das novas imagens que
traz dentro de si sobre si próprio, os seus pares, a Natureza, os animais, o mundo e o céu. Estamos no centro da
experiência ritual e religiosa livre.

Claro que não existe arte pré-histórica (como o compreendeu Debray). Esta não é uma experiência estética,
mas uma experiência de criação do real nas fronteiras da vida e da morte. É o mesmo género da experiência que
Lévi-Strauss encontrou nas várias tribos da costa norte-oriental americana

o vaso, a caixa, o muro não são objectos independentes e pré-existentes que depois num certo momento vão decorar.
Eles obtém a sua existência definitiva só com a integração da decoração com a função utilitária. Assim, não são recipientes
adornados com a imagem de um animal. São o próprio animal... (Lévi-Stauss citado em Debray 1, p. 56)

A imagem é o próprio animal, é o animal em si. Isto quer dizer que a imagem surge como ente transformador
do não-nomeado em imagem, o invisível em imagem para dar-lhe vida. O homem pré-histórico crê na própria
imagem que produz. É com o seu sangue que escreve, pois está em causa a sua própria vida. Os objectos, as pinturas
que produz são marcas de algo muito concreto que o ultrapassa - uma força cuja existência é indissociável da
essência do representado.
Esta força é uma força que o envolve por todos os lados – está dentro do homem, no mundo, na carne, na
terra, nos símbolos e nas ideias.

Continuemos a nossa viagem para além da mente mimética através dos passos de Merlin Donald 1. O
Neanderthal é a espécie que mais informação temos deste período inicial do homem moderno associado ao ritual
religioso e funerário 2. Esta espécie apresentava uma principal diferença em relação ao Cro-Magnon – a base do
crânio não tinha a tal base de flexão 3 do homo sapiens.

- ou seja, a possibilidade anatómica da tal articulação entre indivíduo e o discurso.

Uma comparação entre os homens de Neanderthal e os seus antepassados não deixa nenhuma dúvida de que estavam
avançados nas capacidades cognitivas. No entanto, aparentemente, eram menos adaptáveis que os humanos modernos que
coexistiram com eles durante 5000 a 7000 anos em alguns locais competindo pelas mesmas fontes de sobrevivência. Locais de
acompanhamento na Europa de homens de Neanderthal e Cro-Magnon contemporâneos mostram que enquanto a cultura Cro-
Magnon evoluía com velocidade constante, os homens de Neanderthal não estavam a mudar. Dentro de um tempo
relativamente curto, depois do aparecimento dos humanos modernos, os homens de Neanderthal extinguiram-se 4.

1
as citações que se seguem são retiradas do capítulo VII – A segunda transição da cultura mimética à cultura mítica (Donald, 252-264)
2
A exploração das cavernas dos Neanderthal em Shanidar, no Iraque, mostrou um local de sepultura no qual o túmulo estava decorado com diferentes flores da Primavera, como se
as flores tivessem um significado emocional. Todavia isto não é muito claro, porque flores semelhantes foram encontradas em outros sítios da caverna. Em Le Moustier, França, um
rapaz foi enterrado numa posição de dormir tendo a seu lado um machado lindamente trabalhado, bem como os ossos de uma vaca selvagem, como se a carne tivesse sido incluída na
sua viagem para o sustentar. Este lugar sugere testemunhos dos seus rituais e da importância simbólica que lhes era atribuída. Outros sítios de enterramento dos Neanderthal
mostraram que houve diferenças para os rituais fúnebres. Num local de França um corpo de criança decapitado foi enterrado a grande profundidade e a cabeça colocada em cima do
corpo, debaixo de uma lage de mármore. Alguns enterramentos mostram sinais de canibalismo sobre os restos; por exemplo, o crânio foi aberto como se fosse para retirar o cérebro, ou
um fémur foi partido para retirar o tutano (Donald, p. 251-252)
3
ver a análise de Lieberman referida no 2º capítulo desta tese (ver indivíduo – do grito à voz)
4
É difícil saber por que razão os homens de Neanderthal forma substituídos tão rapidamente pelos humanos modernos, mas no período de 7000 anos, desde o aparecimento dos
humanos modernos, os Neanderthalers desapareceram do registo arqueológico. Alguns autores, nomeadamente Lieberman, concluíram que a fala constituiu a principal vantagem dos
humanos modernos sobre os homens de Neanderthal. É possível que sim; porém, como ele próprio admite, é difícil negar completamente a existência de algumas capacidades
linguísticas na sociedade Neanderthal. Parece mais que o longo período de transição durante o qual ocorreu a especialização dos humanos sapiens tenha produzido variantes de homo
sapiens, incluindo Neanderthalers, que possuíam uma adaptação cognitiva fundamental, do tipo sapiens, que levou à linguagem com diferentes graus de realização. Donald
demonstra de forma eloquente como o argumento de uma pressão de selecção provocada pela última glaciação é bem menos relevante do que tem sido apontado: Uma
hipótese comum acerca da pressão de selecção que produziu Homo sapiens sapiesns baseia-se nas pressões introduzidas pela quarta glaciação. O começo da ultima idade do gelo (de 75
000 e 10 000 anos atrás) produziu grandes pressões na populações hominídeas e talvez tenha existido exigido uma nova adaptação. A última grande glaciação cobriu extensas áreas
dos hemisférios Norte e sul mas também abriu novos caminhos de migração, absorvendo grandes quantidades de agua do mar e expondo a terra.
As condições de vida eram extremamente difíceis quer no norte quer no sul. A sobrevivência neste clima, debaixo das condições árduas de uma existência nómada que dependia da
caça de animais de grande porte, requeria uma melhor coordenação social e um melhor planeamento. E aqui entra a linguagem.
A questão que se coloca com esta ideia é que algumas das migrações antecedentes de erectus também tiveram lugar de baixo de condições árduas e, evidentemente, não resultaram
numa pressão selectiva para a linguagem. A pressões podem conduzir ao uma nova adaptação ; mas também podem extinguir uma espécie. Neste caso, não há nenhuma boa razão
para esperar que os homenideos que se extinguiram, como os homens de Neanderthal, não estivessem tão bem adaptados ao clima frio como os que lhes sobreviveram. De facto, os

112
Restos de humanos modernos classificados como Homo sapiens têm sido reportados em África desde há
aproximadamente 125 000 anos e são evidentes nos registos arqueológicos da Europa, Ásia e Austrália de há cerca de 45 000
anos. Os mais antigos restos norte americanos parecem ter 25 000 anos mas há quem reivindique achados mais antigos; a
América do Sul parece ter sido ocupada por volta do mesmo período. Considerando quão devagar mudou a face e a forma
craniana dos humanos desde os primeiros erectus, 1,5 milhões de anos antes, até aos homens de Neanderthal, os humanos
modernos aparecem como um choque.
A sua forma craniana é muito diferente dos outros hominídeos incluindo os homens de Neanderthal: a cúpula do
crânio é alta elevando-se directamente desde as órbitas dos olhos, e o occipital é plano produzindo uma cabeça em forma
quadrada e um crânio pouco espesso. Ao mesmo tempo a mandíbula é encurtada, com um queixo pontiagudo, produzindo um
perfil facial mais plano. A linha basocraniana é altamente encurvada reflectindo a mudança da forma da mandíbula, da naso-
faringe e da cavidade bucal superior. Todos os humanos existentes tem esta característica, desde os aborígenes australianos e
pigmeus ate aos modernos europeus, asiáticos e africanos.
Todos os humanos modernos possuem também a fala e as capacidades semióticas muito desenvolvidas. Estas últimas
podem definir-se, na generalidade, como a capacidade de inventar e de usar sinais para comunicar o pensamento. A fala pode
ser vista como um subsistema especializado desta capacidade, o que permite um uso semiótico mais rápido e mais extenso. Não é
claro quão rapidamente é que a fala e as outras capacidades semióticas começaram a ser usadas durante o período entre 200
000 a 50 000 anos atrás; mas o seu emprego continuo através da era moderna, isto é, durante os últimos 50 000 anos, parece
incontestável

O resultado de toda esta história é a cultura humana aborígene do Paleolítico Superior. E como se colocava
esta perante a anterior cultura mimética do erectus ?

Os contrastes entre a cultura mimética e as culturas humanas iniciais são consideráveis. As características gerais da
cultura do Paleolítico Superior são bem conhecidas e parecem equivalentes às culturas da Idade da Pedra inicial. Desenharam
vestimentas cuja complexidade e número dependiam do clima; fabricaram tecidos e coseram roupa e afins feitos de pele.
Desenvolveram métodos de transportar objectos pesados, construíram várias formas de abrigo e fabricaram uma vasta gama de
ferramentas e armas.
Compreenderam muito a respeito do crescimento, selecção e preparação de comida; eram navegadores notáveis; e
provavelmente usaram instrumentos gráficos para a decoração de si próprios. Estas mesmas culturas humanas iniciais tinham
uma vida religiosa e social rica, marcada pelo uso da dança, dos cânticos, das máscaras e das vestimentas para diferentes
actuações rituais. E, acima de tudo, tinham memórias verbais extensas, capazes de trocas verbais altamente formalizadas e
longas. Tinham uma estrutura política, embora não tão desenvolvida como a dos seus primos do Mesolítico posterior. Usavam
diferentes sinais semióticos para indicar a tribo, o estatuto e a identificação totémica

É bastante claro o papel fundamental da linguagem neste período – a pintura e a fala de alta velocidade
provocam uma nova forma de coesão social. Numa altura em que o mundo determina que a competição já não seria
entre as estratégias de sobrevivência dos indivíduos, mas sobretudo entre estratégias de sobrevivência dos grupos e testaria a sua
capacidade de actuar como uma sociedade coesa (Donald, p. 257).
Contudo verdadeiramente revelador não é esta nova tecnologia, mas porquê e como permite precisamente a
formação dos primeiros e únicos verdadeiros colectivos conhecidos até hoje

– as tribos

Mas o que é a linguagem? O que é a fala? Que tipos de estruturas teriam de ser adicionadas a um espírito|cultura
mimético para permitir que a linguagem se desenvolvesse e florescesse? As palavras e as gramáticas são sucessos misteriosos sem
precedente na evolução. Não sabemos bem o que elas são. São primariamente mecanismos de acesso à memória? Mapeiam-se
directamente nas representações miméticas? Ou são novos sistemas de representação por si próprios? É uma afirmação vazia
dizer simplesmente que a linguagem é a adaptação crucial que conduzia às primeiras culturas semióticas.
A maneira de examinar como é que a linguagem evolui é olhar para os usos que teve nas sociedades primitivas.
As culturas da idade da pedra demonstram até que ponto o desenvolvimento da linguagem ultrapassou inicialmente a
tecnologia. A tecnologia nestas sociedades é primitiva, enquanto linguagem em contextos sociais sobe até grandes alturas. A
linguagem é o último árbitro social. É usada para observar as actividades do outros, manter registos das relações interpessoais,
para regular as interacções, para partilhar conhecimento prático de coisas como as fontes de alimentação e as tribos vizinhas, e
para fazer planos colectivos e tomar decisões. O uso da linguagem na tecnologia das ferramentas por contraste, é limitado;
muitos ofícios e capacidades são transmitidos por aprendizagem, isto é, por modulação mimética. Muitos costumes e
maneirismos (incluindo sotaques e gesticulação linguística) são passados mimética. Habilidade com as armas, com a cozinha,
etc, têm uma componente verbal mínima.

homens de Neanderthal eram muito mais fortes e mais robustos que os humanos modernos e parece que se davam bem nos climas europeus frios ate ao seu rápido desaparecimento há
cerca de 35 000 anos atrás. Alem disso, pensa-se usualmente que os humanos modernos vieram de África, onde a quarta glaciação teve um efeito positivo no clima, pelo menos em
algumas regiões. Finalmente, se os humanos modernos emergiram muito mais cedo, como sugere o testemunho genético, a quarta glaciação não pode ter sido a fonte inicial da pressão
de selecção que conduziu ao avanço cognitivo. Nenhuma das condições geográficas ou climáticas nos convencem de terem produzido suficientes pressões selectivas que expliquem a
emergência dos humanos modernos (Donald, p. 255 - 257)

113
O mais avançado uso da linguagem em sociedades tribais é o da área de invenção de mitos – nas
construção de “modelos” conceptuais do universo humano. Mesmo nas sociedades humanas mais primitivas onde a
tecnologia se manteve essencialmente sem mudanças por dezenas de milhares de anos, existem sempre mitos da criação e da
morte e histórias que servem para encapsular as ideias que a tribo tem sobre a origem e estrutura do mundo. Tentativas de
construir uma imagem coerente da tribo e da sua relação com o mundo

Ou seja, a linguagem não apoia tanto a criação de novas tecnologias. Há algo aqui que contradiz a essência
do homo faber.

A linguagem aqui tem um propósito claro, só surge enquanto potência de organizar a realidade em torno
do invisível, do mistério do mundo. Estes primeiros homens descobriram deus e trataram logo de começar a
representá-lo. E o mais incrível é que é precisamente em torno desse imaginário e da sua partilha ritual que vão
conseguir a organização de uma coesão consciente que permitiu a sobrevivência e a evolução do homem. Eis deus
como salvação.

Nós concordamos com Donald quando defende que o pensamento simbólico é primário, é a força dirigente por
detrás do uso das palavras (Donald, p. 310).
E o simbólico surgiu da imagem do mistério, do invisível, do que mais tarde designaríamos por deus. Estas
imagens encontraram um cérebro que podia organizar situações (mente episódica) e representá-las (mente
mimética) e assim criou uma forma de tentar ligar os factos e as representações no tempo. Assim surge a história e
com ela a mente mítica do homem moderno.

Mesmo os grupos humanos modernos mais isolados, alguns dos quais ainda a viver na Idade da Pedra quando foram
“descobertos” pelos Europeus, tinham sistemas altamente elaborados de religião, mito e relações de parentesco ao tempo da sua
descoberta.
Por exemplo, os tasmanianos originais, que foram levados à extinção em 1876 e cujos artefactos culturais não tinham
mudado desde há 35 000 anos, produziram pelo menos cinco dialectos linguísticos distintos, uma estrutura tribal rígida com
territórios claramente definidos, rituais religiosos e várias artes decorativas incluindo declarações elaboradas do corpo e
gravações nas rochas. Os tasaday das Filipinas, os pigmeus das florestas pluviosas da África e os bosquímanes do sul da África,
quando primeiro contactados pelos europeus, ainda tinham o mesmo tipo de ferramentas que se associa aos mais antigos restos
humanos. Mas todos tinham linguagens faladas elaboradas e estruturas tribais altamente desenvolvidas, rituais,
mitos e religião.
Todas as sociedades de caçadores-recolectores parecem ter um sistema mítico elaborado que é semelhante em principio.
O mito permeia e regula a actividade diária, canaliza as percepções, determina o significado de cada objecto e de cada
acontecimento da vida. O vestuário, a comida, o abrigo, a família – todos recebem a sua “significação” do mito. Como
resultado os mitos são tomados com uma seriedade de morte: uma pessoa que viole um tabu tribal pode morrer de medo ou de
um susto dentro de alguns dias, ou ser ostracizado ou morto.
Portanto, embora a linguagem fosse primeiro e para além de tudo o mais um mecanismo social, a sua utilidade inicial
não foi tanto o permitir um novo nível de tecnologia colectiva ou de organização social, o que eventualmente fez, ou em
transmitir habilidade ou em atingir organizações politicas mais vastas, o que eventualmente fez. Inicialmente foi usada para
construir modelos conceptuais do universo humano. A sua função estava evidentemente ligada ao desenvolvimento do
pensamento integrador – à grande síntese unificadora de informações parcelares e ligadas ao tempo que estavam desconectadas
ao principio. Enquanto a representação mimética estava limitada a episódios concretos, o pensamento metafórico podia
comparar através dos episódios, derivando princípios gerais e extraindo conteúdos temáticos.
O mito é a ferramenta protótipo, fundamental, integradora da mente. Tenta integrar uma variedade de
acontecimentos num contexto temporal e causal

A primeira pergunta do homem:


como ligar o antes - a criação - e o depois - a morte ?

Ou seja, como fazer uma história que ligue toda a verdade – a visível e a invisível. O vazio antes da história
(o nada e a criação), a história conhecida (o passado, o presente e o futuro) e o vazio depois da história (a morte e o
nada).
Saber lidar com os símbolos construindo narrativas permite ligar à voz e ao ser faculdades de comunhão do
mito – falar.
O colectivo é a verdade de todos, é a voz comum.

Todas as tribos cantam em conjunto

114
a escrita e a história: do d eus-natureza -polimórfico ao d eus-papá-lei 5

Mas este não é o humano do homem moderno ocidental. Essa história começa apenas há alguns milhares
de anos. O que designamos de História é a inscrição material das formas no tempo da narrativa humana nos
materiais visuográficos. Histórias que passaram a ser registadas. A nossa mente individual e teórica (e, como tal
anti-mítica) gosta de definir o humano a partir deste momento, que é também o ponto de partida dos grandes
impérios – o colectivo segundo a lógica do poder do indivíduo separado do mundo.

A escrita teve as suas origens na mais mundana das ocupações diárias: o comercio. A grande maioria dos documentos
escritos iniciais são registos de transacções. Os primeiros artefactos documentados são mais de 100 000 tábuas cuneiformes
encontradas nas ruínas da velha Mesopotâmia, sendo as mais antigas de Uruk, que datam de há cerca de 5 000 anos atrás. A
escrita cuneiforme, assim chamada pelos seus caracteres formados por arestas vincadas, foi um sistema muito bem sucedido,
usado durante 3 000 anos até ao primeiro período Romano. Os mais antigos artefactos cuneiformes são tábuas de argila nas
quais aparecem normalmente usados três tipos de marcas: pinturas dos itens transaccionados, números e selos pessoais de
identidade. Os itens trocados em quantidade incluíam animais (galinhas, vacas, etc) e itens de comida (óleo, trigo, centeio).
Alguns destes primeiros símbolos eram pictóricos por derivação. Por exemplo, as vacas eram indicadas por um desenho de
tamanho completo que gradualmente se tornou estandardizado aparecendo apenas a cabeça de uma vaca. Estes sinais
estandardizados foram eventualmente postos nas tábuas usando um tipo de escrita que era feito de impressões vincadas
pressionadas na argila; alguns dos primeiros cuneiformes são parecidos com os seus predecessores pictóricos

A História e o humano de que tanto nos orgulhamos nasceu com a Economia. Na realidade são a mesma
coisa. Plasmam-se. Têm vido sempre a fundir-se cada vez mais até ao ser humano depressivo, descorporalizado e
sem rumo que é o primeiro exemplo de homem contemporâneo que vem à mente. Mas é importante perceber que o
problema vem desde o que designamos de início.

A escrita surge essencialmente como traição da memória biológica. O homem diz que a sua mente e o seu
colectivo - nas suas trocas orais - já é insuficiente para conter informação que para ele mais é determinante. E não
deixa de ser interessante que essa informação tão importante que está na génese de toda a forma de pensar do
homem é a contabilização das cabeças de vacas e porcos – o animal, a carne, a morte, o dinheiro, a posse.

A criação daquilo que Donald identifica como campo externo de memória - que juntamente com a construção
de teorias definem este novo homem histórico - permitiu passar de forma sistematizada listas de coisas
essencialmente organizadas segundo transacções. Começa o império dos números. E da Economia muito
rapidamente se passou à lei, ao mesmo tempo que se caminhava no sentido do fonetismo – para que estas inscrições
visuográficas e o pensamento que o subjaz pudessem ser inseridos de forma eficaz na nova mente que se formava.
Benefício dos detentores do poder económico (que é também o poder político) – os impérios.

Depois de cerca de mil anos de uso a escrita cuneiforme evolui para uma escrita silábica; os usos silábicos dos
cuneiformes tornaram-se evidentes em Ur cerca de 2800 a. C.. Os primeiros inventários silábicos eram colecções de símbolos
construídas de forma bastante débil, o que testemunha a sua invenção ad hoc. Os mais pequenos elementos de som eram
geralmente palavras monossilábicas, e estas sílabas visuais podiam ser combinadas para formar outras palavras.
Os cuneiformes adquiriram convenções gramaticais na mesma altura em que se tornaram parcialmente fonéticos.
Também se tornaram lineares: enquanto os primeiros escritos eram lidos em caixas mais ou menos agrupadas ou em
rectângulos, os cuneiformes posteriores rodaram 90º e escreviam-se da esquerda para a direita em linhas recta começando criar
a ordem falada das palavras.
O sumário foi eventualmente substituído pela linguagem Akkadian, uma língua semítica, e por volta de 1800 a. C. o
principal uso dos cuneiformes era em Akkadian. Por esta altura existiam seiscentos sinais cuneiformes distintos em uso, e a lista
das convenções gramaticais, dos indicadores de categorias e das possíveis interpretações relevantes para decifrar um texto teria
confundido um leitor moderno. A possibilidade de ler e escrever era confinada às elites na velha Mesopotâmia, e as razões são
óbvias quando de toma em consideração a complexidade do sistema. Apesar (ou talvez por causa) da complexidade do sistema,
os cuneiformes foram eventualmente usados para registar textos legais e históricos de uma certa sofisticação gramatical, tal
como o Código Hammurabi

Através do novo médium da escrita, as elites detêm facilmente o poder da informação, que é também o
poder económico e político. Obviamente não é por acaso que é nesta altura e nesta área geográfica que surgem as
primeira cidades-estado.

5
as citações sem referência que se seguem são ainda retiradas de As origens do pensamento modernos de Merlin Donald, mas agora do capítulo VIII – A terceira transição
a armazenagem simbólica externa e a cultura teórica (Donald, 345-410)

115
O cuneiforme é o primeiro passo decisivo dentro da representação visuográfica – passa-se de
representações pictóricas a duas ou três dimensões - decoração do corpo e campas, arranjo de objectos e pinturas
rupestres - para um sistema formalizado de significações através de símbolos que tentavam sintetizar visualmente
um objecto e formular quantidades.

A principal lição a retirar do estudo da escrita cuneiforme é a de que foi uma invenção simbólica habilidosa e
conquistada pelo esforço, cuja função cognitiva fundamental mudou em vários milénios. Os primeiros cuneiformes eram
principalmente pictóricos no estilo e não tinham estrutura sintáctica. Os cuneiformes posteriores eram principalmente fonéticos e
continham alguns marcadores gramaticais. Os exemplos mais tardios da escrita cuneiforme, datando da era romana, eram
essencialmente fonéticos e gramaticalmente mais sofisticados.
Outra conclusão é de que muitas das convenções usadas na escrita inicial eram unicamente visuais: não tinham
nenhum equivalente auditivo fixo. Os arranjos visuais das frases e das listas não tem equivalências no som; o som não esta
contido em paginas, colunas, tábuas, ou em linhas ou caixas; as palavras faladas não estão separadas. Há evidentemente pausas
no discurso oral, mas não correspondem necessariamente às separações espaciais usadas na escrita, e não podem comunicar a
informação de grupo, comum nos artigos escritos. Para alem disso, a informação prosódica que envolve as emissões fonéticas
ficava geralmente ausente em todos os sistemas simbólicos-visuais

imagem 37 – evolução do signo mulher do pictograma ao signo abstracto

Mais tarde este forma de pensamento começa a querer invadir a fala. Para tal a escrita vai-se
abstractizando mais, deixando de ser imagem de algo para ser traço sem relação com o objecto, mas apenas com um
código convencional que remete para a fala. Começa com o escrever em linha recta para ser lido e com os primeiros
indicadores silábicos para chegar à forma final do hoje global sistema alfabético.

Mas antes de chegarmos a esse segundo e final marco do início da civilização humana. Convém ficar a ideia
de que na mesma altura, ainda por volta de 3000 a. C. dois outros tipos de escrita surgiram bem mais conciliadores
de imagem-som e objecto-coisa principalmente devido à suas características de ambiguidade, sintetismo e
polimorfismo de construção sintático-semântica e no próprio traço. Uma delas já não é falada por um povo, a outra
é falada pelo maior povo.

1
A escrita hieroglífica egípcia foi provavelmente o primeiro sistema de escrita que podia conter virtualmente qualquer
mensagem linguística. Os hieróglifos egípcios eram fonéticos muito antes dos cuneiformes se terem tornado fonogramas, e
enquanto os cuneiformes posteriores adoptaram uma estratégica fonética silábica, cada sílaba contendo consoantes e vogais, os
hieróglifos eram somente consoantes, as vogais não eram representadas (Davies, 1987). A relação entre os símbolos hieroglíficos
escritos e a linguagem falada era muito complexa. Havia marcadores de função, regras de ordem, convenções de género e outros
aspectos gramaticais dos hieróglifos que os tornaram um puzzle para qualquer pessoa que esteja apenas acostumada à moderna
linguagem escrita. Muitas das relações das regras estavam codificadas num modo estritamente visual ou gráfico e não se
mapeavam na corrente do som. O mesmo principio de independência visual aplica-se aqui tal como na leitura dos cuneiformes,
embora os aspectos específicos sejam diferentes.
Para o leitor que aprenda a ler hieróglifos alto, a ligação fonética segue muitas vezes o principio de retro-informação:
do sinal visual ao sentido e daí ao som. Deste modo o sol (“ra”)é desenhado como um círculo pequeno dentro de um círculo
grande; para pronunciar o som correspondente ao símbolo não há nenhuma correspondência directa grafema-fonema, e o
fonema, neste caso, só pode ser conhecido de pois de se ter compreendido o significado do símbolo. E ainda neste exemplo
particular a imagem pareça ter relação metafórica com o sol real e físico, isto é ilusório; um circulo pode representar quase tudo,
mesmo dentro da gama das chamadas possibilidades miméticas: por exemplo, uma boca, um olho, um buraco, ou o próprio.
Portanto, mesmo no caso imaginável mais simples, as convenções dos hieróglifos eram arbitrarias; as suas regras
eram complexas; e, mais importante ainda, o seu sentido muitas vezes precedia a descodificação fonética, em vez de partir dela

116
2
O funcionamento da língua chinesa esta tão estreitamente ligado à escrita chinesa, e ao mesmo tempo a fala vocal é
tão distinta dela, que, embora a linguística moderna pretenda separar o falado do escrito, dificilmente se pode se pode
compreender um sem o outro. Trata-se com efeito de um exemplo único na historia, em que o fonetismo e escrita formam dois
registos geralmente independentes, emergindo a língua no cruzamento dos dois.
O sistema fónico chinês é de uma complexidade particular. No chinês actual, cada sílaba pode ser pronunciada em
quatro tons (8 na língua arcaica)que modificam o seu valor. A língua é monossilábica e abundante em homófonos: assim shi
pronunciado no 2º tom pode significar dez, tempo, alimentação, eclipse, tirar, pedra, etc. Além disso é isoladora, isto é, não é
aglutinativa. Esta polivalência fonética também se encontra a nível morfológico e sintáctica, a palavra chinesa pode ser
utilizada como nome, verbo, adjectivo, sem que a sua forma se altere. È apenas o contexto – a ffunção dessa palavra no
conjunto do discurso – que atribui um valor preciso na ocorrência precisa da palavra concreta.
Na língua chinesa, as relações habitualmente estabelecidas entre referente-significante-significado encontram-se
modificadas. Como se, sem se hierarquizarem, estes três termos se confundissem, sentido-som-coisa fundidos num traçado num
ideograma – dispõem-se como os actores funcionais de um teatro espacial. (Kristeva, p. 93-95)

mulher


filho


bom


imagem 38 – evolução do signo mulher e filho e o signo bom

(Um outro sistema fonético-ideográfico nasceu mais tardiamente (nos primeiros séculos da nossa era) no
seio da civilização maia clássica cujas origens são tão antiga como o início da História.
A língua dos maias tem sido um enigma para investigadores de todo o mundo precisamente no
poliformismo das relações entre fonética e símbolos visuais complexos 6. A área em que mais se debruçou este
enigmático povo foi numa concepção cíclica do tempo associada a uma precisão astronómica desconcertante (que
permitia calcular eventos estrelares milhões de anos para trás e para a frente no tempo). É interessante constatar
que segundo os maias a história do universo era longa, mas a história do ser humano civilizado começara
precisamente (na transposição para o nosso impreciso calendário gregoriano) em 3113 a.C 7)

Entretanto começaram os experimentos na base do alfabeto.

Fiéis a uma atitude evolucionista e eurocentrista, alguns linguistas consideravam que a escrita alfabética de que se
servem hoje em dia todos os países, à excepção dos do Extremo Oriente, é o resultado do “desenvolvimento intelectual”ou de
uma evolução indispensável que os não alfabéticos não conseguiram realizar. Esta concepção, que toma como ponto de partida a
consciência linguística que os Gregos nos legaram, esta pressa a uma abordagem bastante tardia da linguagem, estabelecida
como norma e excluindo assim qualquer outra apreensão do funcionamento significante. Parece-nos mais rigoroso, sem
falarmos de uma evolução da escrita e/ou da concepção da linguagem, estabelecermos um principio de diferença entre os tipos
de concepções da linguagem marcados tanto nos tipos de escrita como nas próprias teorias explícitas.

6
A escrita dos Mayas tinha menos estandardização de invenções gráficas, eo artista tinha uma considerável liberdade para juntar os ideogramas e os marcadores fonéticos de uma
dada mensagem, que eram muitas vezes incorporados numa representação pictórica mais vasta (Stuart e Houston, 1989). Nos seus hieróglifos, podemos ver como os primeiros
inventores das tradições gráficas devem ter lutado com o problema da representação visual de acontecimentos e de ideias complexas. Os antigos Mayas empregavam logogramas e
sinais silábicos segundo o que parece ser uma ordem estruturada de uma forma menos rígida do que a dos Egípcios, deixando ao escriba uma grande liberdade e ao leitor,
presumivelmente, uma grande ambiguidade, embora esta ultima fosse sem duvida minimizada por extenso treino (Donald,p. 355) A escrita maia – um dos monumentos mais
interessantes e mais secretos das antigas civilizações – esta ainda por decifrar. As investigações são conduzidas em duas direcções; postulando que os signos maias são fonéticos, ou
imaginando que são pictogramas e ideogramas. È cada vez mais evidente que se trata de uma combinação destes dois tipos, mas a decifração ainda está longe de ser realizada. Os
textos maias representam geralmente crónicas históricas constituídas por datas e por números. Supõe-se que reflectem uma concepção cíclica do tempo segundo a qual os
acontecimentos se repetem, e por conseguinte o registo da sua sucessão permitira a previsão do futuro. O ritmo do tempo, a “sinfonia do tempo”, eis o que Thompson vê na escrita maia
- Maya Hieroglyphic Writing, Washigton, 1950 (Kristeva,p. 79)
7
e acabaria precisamente em 2012 d. C.

117
Com efeito, é evidente que uma escrita ideográfica traduz uma concepção da linguagem para a qual e na qual a coisa,
a noção e o vocábulo formam um conjunto unido pela marca do carácter. Mas nesse sistema, o fonema constitui um registo à
parte, deixando aos grafemas a liberdade de reconstruírem uma sistematização lógico-semântica em que se reflecte toda uma
cosmogonia. Como se, através dessa língua-escrita, se estabelecesse uma comunhão entre o exterior e a distância da linguagem,
um sacer – um sacramento do homem/escrita e do real/cosmos (idem, p. 114)

É interessante constatar que o fundamento-base da cultura humana como a concebemos hoje tenha nascido
em duas sub-fases em 2 locais-chave no início e no fim desta história - onde reina a guerra e os prenúncios do fim
anunciado desta civilização:

escrita
Babilónia, onde é hoje o Iraque

alfabeto
Fenícia, onde é hoje a Palestina

A alfabetização da escrita pressupõe o alargamento da possibilidade de uso do pensamento abstracto-


economicista-racional-judicial a toda a sociedade. A ligação exclusiva à fala permite que este sistema seja fácil de se
tornar o principal interface do pensamento humano. A nova tecnologia de memória externa invade o corpo do
homem.

A invenção do alfabeto fonético reduziu a carga na memória imposta pela carga de leitura [do cuneiforme] e
permitiu uma maior difusão da leitura e escrita. Em vez de ter que se lembrar de seis ou sete centenas de hieróglifos ou
cuneiformes ou vários milhares de ideogramas, o leitor do alfabeto grego inicial podia atingir capacidade de ler e escrever com
cerca de duas dezenas de fonogramas ou letras. A principal vantagem do alfabeto era a economia e a precisão com a qual era
permitido ao leitor mapear símbolos visuais na linguagem falada. O complexo caminho visual ideográfico podia assim ser
(supostamente) curto-circuitado.
O alfabeto foi o produto de vários milhares de anos de experimentação com a escrita no Médio oriente e na bacia
mediterrânica. Muitos dos símbolos do alfabeto ocidental tem uma historia complexa mas identificável; por exemplo, a letra
grega alfa foi identificada como o primeiro símbolo do silabário do Hebreu antigo, aleph, que veio da palavra do Norte semita
para cabeça de ovelha e, por ultimo, do hieróglifo egípcio para uma cabeça de ovelha deitada de lado (Diringer, 1948). Várias
escritas semíticas desenvolveram silabários de uma só consoante no segundo milénio a,C.; não continham nenhuns sons de
vogais mas nos outros aspectos eram semelhantes em principio ao alfabeto (Gelb, 1963, Diringer, 1962). Entre 1600 e 1300
a.C. vários silabários com consoantes continuaram a evoluir no Médio Oriente diferenciando-se nas primeiras formas dos
alfabetos arábico, hebreu, aramaico e fenício.
Foi o alfabeto fenício, contendo 22 caracteres de consoantes, que foi transmitido aos gregos através de contactos
comerciais algures entre 1100 e 700 a.C. Uma vez na posse dos Gregos, o alfabeto foi aplicado pela primeira vez a uma
linguagem indo-europeia. Dado que as línguas indo-europeias atribuem uma grande importância à distinção precisa dos sons
das vogais, os Gregos consideraram necessário especificar um numero de sons de vogais no seu alfabeto; combinaram estes novos
símbolos de vogais com as consoantes fenícias e mais três novas consoantes: teta, phi, psi (Gelb, 1963) O resultado providenciou
a base para todos os alfabetos indo-europeus posteriores e foi na opinião da maior parte dos escritores, a primeira escrita
verdadeiramente fonética.
Avaliando o sucesso mensurável dos sistemas da escrita - facilidade de uso, velocidade e popularidade – o alfabeto é
de longe o método de escrita mais bem sucedido inventado desde sempre

Dentro de um quadro regido pela procura do poder é compreensível este sucesso. E, de repente, eis-nos
novamente no berço da civilização ocidental. Mais uma vez se percebe como a cultura helénica é a chave para
compreender a nossa cultura.
Segundo a proposta de Donald a Grécia do século VII a.C. é o palco onde se opera definitivamente a
passagem da mente mítica para a mente teórica preparada pelo advento da escrita.

A Grécia antiga, a partir de 700 a. C. foi sem dúvida o local de nascimento da civilização teórica. Na Grécia, o
pensamento humano apareceu simultaneamente num numero de campos. Filosofia, matemática, geometria, biologia e geografia
para nomear alguns. Desde então houve uma progressão estável do desenvolvimento teórico, que tem sido bem documentada
pelos historiadores e pelos filósofos.
A nossa preocupação aqui não é tanto com a historia da ciência ou da filosofia, mas com o contexto que permitiu tal
mudança acelerada. Como é que mudou a estrutura do processo de pensamento humano? A resposta parece ser, pelo
parcialmente, que entre os gregos antigos, todas as invenções simbólicas essenciais estavam presentes pela primeira vez. A
evolução da escrita estava completa; os gregos tinham o primeiro sistema fonético de escrita, verdadeiramente eficaz e tão bem
sucedido que não foi melhorado desde então. Tinham também sistemas avançados de numeração e de gráficos geométricos.

118
A astronomia tinha avançado consideravelmente com os babilónios, e os gregos estavam conscientes deste corpo de conhecimento,
como o estavam da matemática dos egípcios. Para além disso a sua sociedade era aberta, internamente competitiva e
suficientemente rica para a educação ultrapassar o pragmatismo imediato.
A descoberta chave que os gregos fizeram parece ter sido uma estratégia combinatória, um acesso especifico ao
pensamento que pode chamar-se a atitude teórica. Os gregos colectivamente, como uma sociedade, foram para alem da ciência
pragmática ou oportunística e tinham respeito pela filosofia especulativa, isto é pela reflexão em si própria

A Grécia antiga foi o ponto de união entre a cultura antiga e a cultura emergente e, como tal, produziu
tudo o que demais relevante se pensou. Os pré-socráticos e o próprio Sócrates estão nessa charneira – e temos os
átomos, temos o sincretismo, temos o panteísmo, temos as ideias, temos a noção de indivíduo, de liberdade e
comunidade. Disto talvez não haja nada escrito e de Sócrates ficou só mesmo a sua palavra falada ainda no tempo.
Platão é a ponte e Aristóteles concretiza e a atitude teórica como única forma de aceder ao conhecimento.
Se o dualismo pitagórico é claramente ambíguo e fusional, o dualismo aristotélico é lógico e formal - separa para
chegar a uma qualquer verdade bem precisa.

Separámos a memória e comunicação do nosso corpo e as contradições da verdade. Estranhamente a razão


trouxe o abstracto e o poder e novos medos.
As culturas míticas tendem a lidar com o seu medo com a humildade de uma inserção num meio ambiente
que é maior do que eles. A fonte do seu medo é contemporaneamente a fonte da sua salvação – a natureza, o mundo
com as suas forças – deuses mágicos e polimórficos.

Todas as sociedades primitivas vêem os seus deuses na Natureza.

Na Grécia inicia-se a antropomorfização dos deuses. E através de um mito: Zeus mata Tífon (a Natureza)
com a ajuda de Atenas (a Razão). Os gregos iniciam a condição psicológica essencial do ocidente: deus(es) à imagem
do homem, o deus masculino comandante, criador, fundador (Zeus) e fecundador e a razão fundada na máquina dual
que define o poder da moral patriarcal.
Daí que na sociedade grega democrática a maior parte da população era escrava e as mulheres eram
totalmente excluídas da ordem social. A própria sexualidade dos gregos é reveladora sobre este ponto.

(Depois viria o império romano – o arquétipo que subjaz à teoria e prática geopolítica até hoje )

Não por acaso, nesta mesma altura, no seio da outra civilização alfabética nasce um Zeus maior, aquele que
prescinde de todos os outros deuses – Yahweh.

E o Senhor quando acabou de falar com Moisés no monte Sinai, deu-lhe duas tábuas do testemunho, tábuas de pedra,
escritas [duas vezes para marcar a sua importância]pelo dedo Deus (Êxodo, 31, 16):

1º mandamento

Não adorarás outro deus para além de mim

(E ainda nesta mesma altura Lao Zi, Buddha e Confúcio caminhavam por esta terra ensinando apenas com
a própria voz)

O monoteísmo como sabemos colou-se como uma luva à palavra escrita e à lei, embora todo o texto que
constitui a Torah faça constantes referências à palavra não como palavra escrita, mas como sopro, como energia,
como voz, como som.

De repente, surge a traição pelo nome de Yeshua. Estamos no ano 0 do calendário do tempo espacial
gregoriano. A prenda do seu deus é a sua primeira aparição na Terra - de forma perceptível a este novo pensamento.
O tempo começa talvez a andar para trás.

Jesus caminha pela terra a falar-nos de deus e, pela primeira vez, falou de amor.

119
o novo mundo de um só deus

Tal como sábio oriental a sua força era a sua presença, a sua voz e a sua comunhão com o mundo. O saber
estar com as forças envolventes. Nunca escreveu nada – excepto uma vez na areia como um tuaregue (Debray 2, p. 90).

Claro está que Jesus instalou uma grande confusão nesta nova forma de pensamento que emergia com a
escrita, o monoteísmo, a razão e o poder económico-político. Aquilo a que chamamos cristianismo primitivo
(principalmente os revolucionários zelotas e os místicos essenos 8) demonstram que a aparição do filho de deus era
na sua génese era algo de bem mais complexo, amplo e profundo do que o que foi professado pela máquina da Igreja
Católica. Confrontemo-nos com o filme resumido da sua formação 9:

cena 1 – a peregrinação

Mediterrânea, século I

O apóstolo foi palavra e caminho ao mesmo tempo. Eles caminham aos pares. Aos quatro pontos cardinais do mundo
ecuménico: a Nínive, à Índia e ao Oriente (Tomás e Bartolomeu). À Anatólia (André e Filipe). À Babilónia (Judas e Simão).
A Antioquia (Mateus). Às cidades jónicas (João, o irmão de Tiago). A fé ajuda a criar a ligação e a ligação produz a fé (o
destinatário da palavra transforma-se espontaneamente em emissor). Os missionários ligam-se oralmente a Jesus assim como
ele se ligara à Torah. “Não é apenas através das cidades, mas também nas vilas e aldeias, que se propaga o contágio desta
superstição” constatará Plínio no ano 112 (idem, 172-173)

cena 2 – a bí blia

Jamnia (Yibna), Palestina, passagem do século I ao século II

Após a morte dos apóstolos,12 sapientes reúnem-se (ekklesia 10) para juntar à Torah, e surge então em
grego biblia – Os Livros - que por um erro de tradução para latim passou para o feminino singular – a Bíblia

cena 3 – os bispos

séculos II a III

A máquina eclesiástica forma-se em torno da ideia de universalidade (katholikos quer dizer universal) – a
Igreja Cristã Católica nasce quando os apóstolos são substituídos por bispos – figuras jurídicas, homens fixados em
locais precisos, eleitos para gerir o poder da religião.

As long as the Apostles lived, there existed a living authoritative voice to which appeal could be made. But once they
all had died, there was an acute question regarding the locus of authority. The earliest documents of the 3rd and 4th Christian
generations are mainly concerned with this issue: what is the authority of the ministerial hierarchy? The apostolic
congregations had normally been served by elders (Greek presbyteroi, “priests”) or overseers (episkopoi, “bishops”), assisted by
attendants (diakonoi, “deacons”). The clergy were responsible forpreaching, for administering baptism and Eucharist, and for
distributing aid to the poor. In each city the president or senior member of the college (assembly) of presbyters naturally had
some special authority; he corresponded with other churches and, when they were ordaining a new president, would go as the
representative of his own community and as a symbol of the catholicity—the universality and unity—of the church of Christ
(EB,1)

Iraneus, bispo de Lugdunum (Lyon) liderou esta primeira linha da acção de estabelecimento da Igreja
Católica como instituição política e legislativa. Os principais objectivos eram:

a) conter a profusão cultural oral (principalmente apocalíptica)


b) abafar as inúmeras correntes de cristianismo primitivo, principalmente os gnósticos
c) estabelecer poderes locais de estratégia político-económica da profusão da fé

8
relembremos que os manuscritos do mar morto encontrados nas grutas essenas de Qumran são ao mesmo tempo reservatório de uma miríade de textos iniciáticos,
ritualistas e exotéricos sincretistas de visões judaicas, muçulmanas e helenísticas de deus na sua relação com o mundo e com o homem, bem como a maior prova da
fidedignidade do Antigo Testamento com fragmentos de cópias que datam do séc. I a.C.
9
as seguintes citações em inglês que se seguem são retiradas da Encyclopeadia Britannica Deluxe 2004 [ entradas: 1 - The internal development of the early
Christian Church (from Christianity); 2 - The emergence of Catholic Christianity (from Roman Catholicism, history of) 3 - Bishop during the Decian persecution. (from
Cyprian, Saint); 4 - Council of Nicaea; 5 – Nicene Creed ]
10
termo grego que era utilizado para reunião oficial entre judeus e que depois foi adoptado para designar Igreja

120
The schema of apostolic authority formulated by the bishop of Lyon, Irenaeus (c. 130–c. 200), may serve to set forth
systematically the three main lines of authority for catholic Christianity: the Scriptures of the New Testament (alongside the
Christianized “Old Testament”) as the writings of the Apostles of Christ; the episcopal centres established by the Apostles as the
seats of their identifiable successors in the governance of the church;and the apostolic tradition of normative doctrine as the
“rule of faith”and the standard of Christian conduct. Each of the three depended on the other two for validation; one could
determine which purportedly scriptural writings were genuinely apostolic by appealing to their conformity with acknowledged
apostolic tradition and to the usage of the apostolic churches, and so on. This was not a circular argument but an appeal to a
single catholic authority of apostolicity, in which the three elements were inseparable. Inevitably, however, there arose
conflicts—of doctrine and jurisdiction, of worship and pastoral practice, and of social and political strategy—among the three
sources of authority, as well as between equally “apostolic” bishops (EB, 2)

cena 4 – o santo Cipriano

Cartago e Roma, século III

plano 1
Cyprian was born of wealthy pagan parents and was educated in law. He practiced as a lawyer in Carthage before he was
converted to Christianity about 246. In baptism he found complete release from the sinful and useless life he believed he had led
hitherto. Within two years he was elected bishop of Carthage and a few months later, early in 250, was confronted by the
Decian persecution. He went into hide

plano 2
Cyprian returned to Carthage (early 251) and at a council of bishops in May 251 was able to regain his authority. Three
important principles of church discipline were thus established:
1 - the right and power to remit deadly sins, even that of apostasy, lay in the hands of the church
2 -the final authority in disciplinary matters rested with the bishops in council as repositories of the Holy Spirit; 3 - unworthy
members among the laity must be accepted in the New Israel of Christianity just as in the Old Israel of Judaism

plano 3
in the summer of 254 his position was tested again by a dispute with Stephen, bishop of Rome (254–257). Until then relations
between the churches of Carthage and Rome had been cordial. In 251 Cyprian had supported Bishop Cornelius against his
rival, Novatian, and had written on his behalf the treatise On the Unity of the Catholic Church, which stressed the centrality of
the see of Peter (Rome) as the source of the episcopacy

plano 4
for a few years the supporters of Novatian had been active in Africa, asserting against Cyprian that no forgiveness for lapsed
Christians was possible. With the recovery of Cyprian's prestige, however, their threat began to fade. Many of those whom they
had baptized clamoured to be admitted to the church. Was their baptism valid or not? In Rome, Stephen, confronted by the
same problem, decided that all baptism in the name of the Trinity was valid. The Africans at first were of two minds. Cyprian
held three councils between the autumn of 255 and September 256. The last, at which 87 bishops were present, decided
unanimously that there could be no baptism outside the church, just as there could not be faith, hope, or salvation for those
outside it (EB,3)

cena 5 – o imperador Constantino e os concelhos ecuménicos – fusão de impérios

Turquia e Constantinopla, século IV

No início do século IV, Constantino sobe ao poder e interessa-se pelo cristianismo. Império romano e
Igreja Católica juntam-se de forma a estender e manterem a sua influência centralizada numa área geográfica
enorme. Os primeiros concelhos ecuménicos – Nicae e Constatinopola – no meio de acesas disputas teológicas e
eclesiásticas trataram de forjar esta ligação

plano 1
by 313 he had already donated to the Bishop of Rome the imperial property of the Lateran, where a new cathedral, the Basilica
Constantiniana (now S. Giovanni in Laterano), soon rose. The Church of St. Sebastian was also probably begun at this time,
and it was in these early years of his reign that Constantine began issuing laws conveying upon the church and its clergy fiscal
and legal privileges and immunities from civic burdens. As he said in a letter of 313 to the proconsul of Africa, the Christian
clergy should not be distracted by secular offices from their religious duties “for when they are free to render supreme
service to the Divinity, it is evident that they confer great benefit upon the affairs of state.”

121
plano 2
(325), the first ecumenical council of the Christian church, meeting in ancient Nicaea (now Iznik, Turkey). It was called by the
emperor Constantine I, an unbaptized catechumen, or neophyte, who presided over the opening session and took part in the
discussions. He hoped a general councilof the church would solve the problem created in the Eastern church by Arianism, a
heresy first proposed by Arius of Alexandria that affirmed that Christ is not divine but a created being. Pope Sylvester I did
not attend the council but was represented by legates. The council condemned Arius and, with reluctance on the part of some,
incorporated the nonscriptural homoousios to patri (“of one substance”) into a creed (the Nicene Creed) to signify the absolute
equality of the Son with the Father

plano 3
(381), the second ecumenical council of the Christian church, summoned by the emperor Theodosius I and meeting in
Constantinople. Doctrinally, it promulgated what became known to the church as the Nicene Creed; it also declared finally the
Trinitarian doctrine of the equality of the Holy Spirit with the Father and the Son. Among the council's canons was one
giving the bishop of Constantinople precedence of honour over all other bishops except the bishop of Rome, “because
Constantinople is the New Rome.” (EB, 4)

current english Nicene Creed text (EB, 5)

We believe in one God,


the Father, the Almighty,
maker of heaven and earth,
of all that is seen and unseen.
We believe in one Lord, Jesus Christ,
the only Son of God,
eternally begotten of the Father,
God from God, Light from Light,
true God from true God,
begotten, not made, one in Being with the
Father.
Through him all things were made.
For us men and for our salvation
he came down from heaven:
by the power of the Holy Spirit
he was born of the Virgin Mary, and
became man.
For our sake he was crucified under Pontius
Pilate;
he suffered, died, and was buried.
On the third day he rose again
in fulfillment of the Scriptures;
he ascended into heaven
and is seated on the right hand of the
Father.
He will come again in glory
to judge the living and the dead,
and his kingdom will have no end.
We believe in the Holy Spirit, the Lord, the
giver of life,
who proceeds from the Father and the Son.
With the Father and the Son he is worshipped
and glorified.
He has spoken through the Prophets.
We believe in one holy catholic and apostolic
Church.
We acknowledge one baptism for the
forgiveness of sins.
We look for the resurrection of the dead,
and the life of the world to come.
Amen.

122
Assim começa a história moral-religiosa mais influente na época da mente teórica.

Entretanto o império romano caiu perante os tais bárbaros, mas o império da igreja católica não. No meio
dos escombros da destruição do primeiro grande império surge a organização feudal cristã. O saque a Roma de
Alaric, o Visigodo, foi um golpe profundo na psicologia deste grupo de humanos da bacia mediterrânea. Toda a
Europa estava em choque. Ficou a nu a sua fragmentação.

Many of the improvements in the quality of life introduced during the Roman Empire, such as a relatively efficient
agriculture, extensive road networks, water-supply systems, and shipping routes, decayed substantially, as did artistic and
scholarly endeavours. This decline persisted throughout the period of time sometimes called the Dark Ages (also called Late
Antiquity, or the Early Middle Ages), from the fall of Rome to about the year 1000, with a brief hiatus during the flowering of
the Carolingian court established by Charlemagne. Apart from that interlude, no large kingdom or other political structure
arose in Europe to provide stability. The only force capable of providing a basis for social unity was the Roman Catholic
church. The Middle Ages therefore present the confusing and often contradictory pictureof a society attempting to structure
itself politically on a spiritual basis (Encyclopaedia Britannica – entrada: Middle Ages).

A época do meio vai protagonizar gradualmente uma Europa que se organiza em Estados - reinos como
resquício fragmentado da ideia de Christendom - em forte ligação com a Igreja, substituindo o feudalismo no meio de
um frenesim geo-político-religioso.

Quando no século XV eclode o Renascimento, a Igreja Católica estava no auge do seu poder e da sua
influência. Talvez a forma mais interessante de perceber a influência desta história moral-religiosa – que é
essencialmente a da culpa – será analisar como mudou a forma de pensar o corpo.
Se argumentámos que o primeiro homem definia-se no estabelecimento da relação auto-reflexiva com a
morte do seu corpo e dos seus pares, nada será mais revelador do que as formas de manutenção da vida e prestação
dos cuidados nesta nova era do homem - sendo que quem esteve desde sempre mais nessa posição foi a mulher.
Deixemos que o quadro da enfermeira e investigadora Marie-Françoise Colière nos esclareça sobre este ponto
(Colière, p. 71-83):

RAIZES CULTURAIS QUE GERARAM AS CONCEPÇÕES E A ABORDAGEM DOS CUIDADOS


A evolução ao longo do tempo a partir das praticas de cuidados de mulheres
Sociedades rurais, antes da hegemonia do Cristianismo A partir do século XIV

Os actores Os actores

A “velha”, “a mulher de ajuda”, a matrona, a saga, a As mulheres consagradas religiosas que se


parteira, condenadas pela Inquisição a partir do tornaram, a partir do século XIII, o modelo social das
século XIV, desapossadas dos partos, depois da mulheres prestadoras de cuidados, modelo que
obstetrícia a partir do século XVIII e XIX domina ate à segunda guerra mundial
• Concepção e finalidade social dos • Concepção e finalidade social dos
cuidados: cuidados
Centrados na fecundidade: dar, manter, desenvolver a A salvação da alma, a vida no outro mundo.
vida Em torno de:
Em torno de: - do sofrimento, da doença
- do nascimento – manutenção, estimulação, - da miséria, da pobreza
desenvolvimento da vida - da morte – como termo de uma vida maculada pelo
- da incarnação como inserção no mundo pecado, gera ao mesmo tempo o medo da morte por
- da morte – enquanto outro nascimento, nascimento culpabilidade, o medo da condenação eterna.
para o além… como o outro fim do nascimento, não
existindo separação entre a vida e a morte
• Concepção do corpo • Concepção do corpo
- o corpo é o templo do espírito ligado a cosmogonia e - o corpo é vil, perverso, maléfico, viciado, perigoso. Ele
influenciado por ela ameaça a pureza da alma.
É inserção no mundo - o mundo esta corrompido: o corpo deve ser protegido
É microcosmo do mundo, desprezo do mundo, desprezo da vida.
- os cuidados ao corpo serão prestados pelo “pessoal
subalterno” oriundo dos pobres, dos doentes e dos
deserdados.
• O tempo • O tempo
- passado, presente e futuro não estão dissociados - centrado no além, na eternidade
- inscrito no ciclo das estações, dos ritmos ritualizados - ritmado por jejuns, as festas religiosas instauradas pela
herdados dos cultos pagãos (do pais, local) tradição judaico-cristã condenam ou substituem-se às
- marcado do nascimento ate à morte pela travessia de festas pagãs
etapas, de crises de passagens – ritos de passagens - transformação do simbolismo dos ritos de passagem.
- inserido na duração que liga a vida presente ao além,
prolongada pelos cultos dos antepassados.

123
• O local • O local
- em casa - primeiro, numa instituição fechada: o hospital do Grand
- em redor de si, junto dos vizinhos, dos próximos, num Enfermement onde se encontra a clausura das mulheres
ambiente conhecido, familiar consagradas, que vivem em congregação
- depois no domicilio dos pobres, vivendo em confrarias,
sem clausura, que é substituída pela regra: Filhas da
Caridade, Irmãs das Ordens locais, regionais.
• Os cuidados são: • Os cuidados são:
Praticados por mulheres, após terem passado e Praticados por mulheres que têm que renunciar a si
conhecido diferentes experiências nos seus próprios próprias, ao seu corpo, à sua vida – para a gloria de
corpos, desde a puberdade à menopausa: Deus e a salvação do mundo:
- que aprendem a partir das suas experiências tornando- - que não são mais “nada” no mundo
se experimentadas - que têm de aprender a “não ser nada”
- que desenvolvem uma curiosidade de espírito, - que são submetidas às regras pensadas e
questionam, aprendem a discernir, a construir saberes promulgadas pelos homens; abades, bispos, superiores
- que ousam experimentar, estão sujeitas ao erro, mas - que têm de obedecer, sem pôr nada em questão
aprendem a partir do erro - cuja função pode ser alterada, mas mantendo o “papel”
- cujo papel se modifica à medida que ultrapassam as inalterável.
diferentes etapas da vida.
• Principal utensílio (veiculo) dos cuidados • Principal utensílio (veiculo) dos cuidados
O próprio corpo - o discurso, a exortação, o conselho, a prescrição moral
- os cuidados são prodigalizados pelo corpo, passam - a oração
pelo sentir do corpo - os sentimentos são condenados como “portas da
- grande utilização dos sentidos: do olfacto, do tacto, morte”, “portas do inferno”
particularmente das mãos - o ensino do que é bom, do que é mau, do que é
- a palavra como “via”, como prova da existência, necessário saber, do que não se deve saber, é
escutando antes de falar, aprendendo com a pessoa dispensado em termos de regras de conduta.
cuidada antes de aconselhar
• Os sentimentos • Os sentimentos
Exprimem-se pelo riso, pelo choro - não se exprimem, são abafados, condenados
- expressão e manifestação das emoções: de carinho, - devem estar escondidos, mascarados por detrás de
de cólera, de alegria, de amor, de medo, de ódio, de condutas
vergonha… São a excluir como vergonhosos
- as sensações, as emoções, as percepções psico- - são substituídos pelo “sentido do dever”, a satisfação
afectivas constroem os sentimentos, as representações do bem fazer
– o pensamento - pobreza, destruição da imagem de si próprio
- constroem a imagem do corpo…em relação aos outros - desenvolvimento de sentimentos de inferiorização, de
- desenvolvem a auto-estima culpabilidade, sublimados pelo sentimento de salvar o
mundo, de utilidade pelo bem fazer, da remissão do
pecado
• Saberes – Conhecimentos • Conhecimentos
- habilidade para observar, para aprender a partir das - aprender opera-se pela graça de Deus, pela
situações submissão às regras, pela imitação de procedimentos
- desenvolvimento das aptidões para «sentir», discernir, de rotina, por conformismo com um modelo sublimado
elaborar um julgamento critico - insistência sobre a conduta, sobre o comportamento de
- mobilização de um grande conjunto de saberes – de acordo com a regra
conhecimento das praticas do corpo, das praticas - utilização da escrita para ler as regras, alguns livros
alimentares, dos seus efeitos para os cuidados e para a santos
terapêutica - o leque de saberes limita-se
- saberes por experiências que não utilizam a escrita as regras, às exortações, às ordens dos superiores. As
- saberes empíricos que constroem um património de zonas de iniciativa dizem respeito às preparações
conhecimentos moveis, dinâmicos, variáveis segundo os oficinais, à intendência.
climas, o relevo, os recursos do solo e subsolo, o meio
ambiente.
• A investigação • A investigação
- é baseada numa observação muito fina, na - substituição da pratica da observância à da
experiência, no questionar observação
- integra a tentativa, o ensaio eo erro como fontes de - qualquer questionamento, qualquer curiosidade é
saberes interdita como «impura»
- suscita interpretações que integram o real e o - a submissão não permite a investigação, salvo
imaginário, elaborando significações simbólicas excepções – nada de investigação no domínio dos
- depende das modificações dos utensílios da vida cuidados ( a excepção tolerada diz respeito às
quotidiana que dá origem a tecnologias artesanais. preparações oficinais)
- por outro lado a intendência e a gestão são fontes de
questionamento
• Dinâmica de acção • Dinâmica de acção
- os cuidados são prodigalizados num sistema de troca, - obedecer – servir
de serviços, de reciprocidade - devoção, humildade, sacrifício
- solidariedade, inter ajuda - propõe uma ajuda
- tanto a pessoa cuidada como o prestador de cuidados - desenvolve a ideia de beneficência em relação aos
são actores sociais, aprendem uns com os outros e assistidos obrigados à gratidão, à dependência
enriquecem-se mutuamente - mantem a despersonalização: ninguém mais se
- não há sentimento de diminuição, nem redução da assemelha a um pobre que outro pobre
auto estima ou sentimentos de divida - sentimento de utilidade ligado à salvação do mundo, à
remissão, ao dever, ao mérito.

124
• Economia • Economia
- os cuidados inscrevem-se num sistema de economia - a economia do lucro instaura o sistema de
de subsistência, num sistema de permuta beneficiencia.
- o serviço é reconhecido, estimado, mas sem circulação - as mulheres consagradas que prestam cuidados são o
de dinheiro. Dá lugar à troca de bens e géneros, ou de eixo de um sistema económico comercial: por causa do
reciprocidade de serviços. seu trabalho, os dons, legados, fundações, bens de toda
a espécie são oferecidos às instituições que
enriquecem. Proporcionar cuidados aos indigentes
torna-se fonte de lucro, sem que o trabalho das
religiosas seja valorizado, nem avaliado em termos de
tempo, de penosidade, da eficácia, «não tem preço» ( a
sua recompensa está no além)

imagem 39 – tabela comparativa da abordagem dos cuidados prestados antes e depois dos tempos da Inquisição

(Enquanto nós perdíamos o próprio corpo, o oriente desenvolvia sempre formas de desenvolvimento
corporal mais avançadas - tanto associadas ao religioso, como ao formal social e espacial, bem como à artes
marciais).

O corpo é sem dúvida o eixo fundamental de toda esta questão. O problema que se coloca com Jesus para a
civilização ocidental é o do seu corpo flagelado – daí ser Jesus Cristo, na cruz .
O outro problema é o da própria encarnação de Deus. É que Jesus já não é totalmente da ordem do
transcendente – enquanto corpo aproxima irremediavelmente deus do homem, não obstante o homoousios to patri
implícito na polémica trindade.

Tudo isto se revolta contra a instituição através daquilo que tinha sido o seu instrumento privilegiado - a
palavra escrita inacessível de deus. De dentro e fora surge a crítica anunciada (que pressupõe todo o modelo teórico
sem excepção): respectivamente, o Protestantismo e a Ciência.

São 3 livros que fazem cair a bomba na Igreja Católica Romana:

1 | As noventa e cinco teses (1517)


reza a história que no dia 31 de Outubro, Lutero terá deixado à porta do Castelo Clerical de Wittenberg a
primeira cópia das suas noventa e cinco teses (as outras circularam entre os seus amigos) que criticavam
essencialmente a ligação entre o dinheiro e a Igreja Romana. Scripture was declared the only basis of authority

2 | Christianae Religionis Institutio (1536)


mostra a história que Calvino desde a primeira cópia foi aumentado e aumentando as suas considerações
sobre deus até ao quádruplo na versão final do seu livro editada em 1559

3 | De revolutionibus orbium coelestium libri VI (1543)


conta a história que a primeira cópia chegou às mãos de Copérnico pouco antes de falecer

Agora o Livro autoreproduz-se. A massificação do documento escrito através da tipografia marca uma
nova era - entrámos na galáxia Gutenberg. É revelador saber que os primeiros livros foram um compêndio de
gramática latina (1455) – a linguagem, um calendário astronómico – o tempo (1447-48) e, é claro, a Bíblia.

“As cerca de 27 000 edições publicadas antes do final do século XV que chegaram até nós” escreve Henri-Jean
Martin “representam certamente mais de 10 milhões de exemplares difundidos em menos de duas gerações numa Europa que
contava com menos de 100 milhões d e habitantes.” Assim como a pressão demográfica levou a melhor sobre a força das armas,
do mesmo modo a pressão tipográfica levou a melhor sobre as forças do hábito e do Santo Ofício. Ela provoca imediatamente o
imprimatur (permissão de publicação), superando em velocidade as censuras ordinárias. “A Bíblia, agora mais bem conhecida,
foi a principal causa da reforma religiosa do século XVI” (Baroni, 1943). Contam-se 438 edições escritas em latim. E, entre
1517 e 1520, o número de edições de escritos de Lutero é calculado em 300 000 exemplares. Até então, os simples apenas
conheceram a Palavra de Deus através das imagens e dos sermões na igreja. Algumas centenas de milhar de leitores – clérigos,
universitários e burgueses - podiam finalmente confrontar-se com o documento fundamental (Debray 2 p. 256)

O humanismo instaura definitivamente a condição da cultura teórica. O Protestantismo mais do que


reformar a Igreja vai criar as condições para questionar as relações da religião com o poder económico e permitir o
aparecimento da democracia como novo sistema vigente. O texto escrito permite a lei, mas também a constante
crítica da lei.

125
Por outro lado, deus é arredado do centro das discussões. A exploração da mecânica do mundo é agora o
centro das preocupações – o próprio mundo podia tornar-se o grande livro no qual Deus tinha transcrito o próprio
pensamento; “escrito em língua matemática” segundo Galileu (idem, p. 253)

O Sol está no centro. O Homem está no centro. O Estado está no centro. Algumas mulheres - as feiticeiras
- são queimadas em público pela inquisição.

Deus como tinha sido reiterado não explicava todos os fenómenos nem criava as condições de existência
consideradas já nesta altura como indispensáveis. Esta altura do antropocentrismo coincide com as expansões
marítimas e a criação do modelo capitalista que poderia permitir tais condições.

A ciência abarca tudo a partir de Descartes. Constrói-se e analisa-se desenfreadamente a matriz sem deus. O
século XVII nasce sobre a égide de uma concepção espacial 11 do tempo concretizado no calendário gregoriano e no
relógio 12, enquanto que os escritos, a cultura e os corpos dos povos indígenas da América do Sul são destruídos - é
durante esta colonização que nasce o recurso a armas biológicas em larga escala.

Uma nova história moral-religiosa impõe-se

o realismo

um caminho chamado ethos

Façamos novamente o ponto da situação. Numa história de um universo com 15 mil milhões de anos,
existe paralelamente uma história com 4,5 mil milhões de anos que é a história do sol e dos seus planetas acólitos.
Desde o início dessa história que surgiu a história da vida (num ser unicelular com ADN) num desses planetas: a
Terra. Essa história pode ser vista como uma evolução em 3 blocos principais de centenas de milhões de anos
geridos por determinadas formas viventes: multicelular, répteis e mamíferos.
Concentremo-nos neste pequeníssimo último momento da história da vida – que é o dos cinco milhões de
anos finais em que surge um mamífero que gradualmente elimina todos os outros mamíferos e ocupa todo o globo
terrestre provocando, pela primeira vez, uma destruição incisiva do seu habitat natural à escala planetária.

os Hominídeos
- 5 milhões de anos

na evolução dos mamíferos um tronco comum dos primatas separa-se em três direcções:
gorilas, chimpazés e hominídeos

a consciência de si une-se à mente episódica

o Homo
- 1 milhão de anos

surge o homo erectus

a mente mimética intersecciona a mente episódica

11
a divisão em 12 meses é a divisão de uma circunferência em 12 partes iguais de 30 º - fórmula adoptada primeiramente pelos babilónios e pelos egípcios
precisamente por volta de 3000 a.C. quando começa a escrita e a história da civilização humana – e portanto também as primeiras formas de medição do tempo
12
uma história diz-nos que Harun Ar-Rashid [fifth caliph of the Abbasid dynasty (786–809), who ruled Islam at the zenith of its empire with a luxury in Baghdad
memorialized in TheThousand and One Nights (The Arabian Nights Entertainment) - Encyclopaedia Britannica] ouviu que Carlos Magno tinha sido coroado
imperador romano do ocidente e para honrá-lo enviou um carregamento de presentes. No meio deles um brinquedo insignificante criado pelos sábios iranianos – o
relógio

126
o homem
- 100 mil anos

surge o homo sapiens

a consciência da morte e de deus une-se à mente mimética para formar a


cultura oral-mítica

o humano
3113 a.C.

surge o homo ethos

a crítica da consciência do mundo e de deus cria a cultura gráfico-teórica

Ao confrontarmo-nos com este último período a coisa que salta mais à vista é que o animal homo agora
altera-se a partir de algo que está fora do seu próprio corpo e da sua mente. A imagem de deus e a história na qual
ele coloca a humanidade altera-se porque essa imagem é agora reflectida por uma memória externa. Ou seja, depois
da consciência de si através da reflexão no outro e na própria voz veio a consciência da matriz do mundo através da
reflexão dos processos da linguagem na escrita.

É por isso que o primeiro único deus é tão violento no início (judaísmo) e universal no final (cristianismo).
E o que traz consigo é essencialmente uma moral rígida na mesma medida da fixidez da escrita.

Este novo homem na era do humano procura essencialmente uma comunidade global e sabe que precisa de
estabelecer uma matriz harmónica de co-existência entre todos os componentes dessa comunidade – os gregos
sabiam-no e até os romanos. A cultura, o conhecimento, a comunicação e a cooperação são irremediavelmente a
chave da história da evolução do homem. O ser humano aspira à condição de homo comunitas mas para isso tem de
estabelecer uma ética de acção para o individuo que permite tal comunidade acontecer – todas as religiões foram
uma tentativa de estabelecer pela lei esta ética de conduta das massas –, ou seja, a moral.

Então retomemos agora a história onde a tínhamos deixado: o realismo.

A civilização ocidental parece suspender a ideia de deus e mistério para procurar de forma incisiva a ideia
de indivíduo. E também como vimos para tentar descobrir as leis da matriz do mundo (discutidas no capítulo
anterior). O realismo é simultaneamente a história da ciência e da produção que chega a cada homem como
ocupação e subsistência. Outro problema é a questão de uma maior liberdade dos corpos individuais - a democracia
e os direitos humanos são obviamente o ponto sobre o qual parte tal empresa.

A questão evolutiva que se coloca aqui foi desde logo apresentada por Aristóteles:

A sociedade humana distingue-se das sociedades dos outros seres vivos a partir do momento em que se funda, através
auto-crítica ligada à linguagem, numa comunidade de bem e mal, e não simplesmente do agradável e doloroso (Aristóteles
citado em Agamben 3, p. 10-11)

Portanto, a moral.
A moral cristã entregue ao mundo pela Igreja Católica Romana era agora recusada. A moral do realismo
caminha para o relativismo que permita uma moral para além da moral – qualquer coisa que tentamos agora fazer
(ainda de forma brusca e quase sempre moralizante) com o conceito de ética.

Claro que neste caminho o espectro do vazio abateu-se sobre a forma do niilismo. Órfã de deus a
humanidade cristã ocidental estabelece-se confortavelmente num materialismo burguês, mas quase imediatamente
surge um desconforto brutal, uma desesperante depressão generalizada.

127
É interessante que Theodore Kaczynski (mais conhecido como unabomber) no seu manifesto A sociedade
industrial e o seu futuro 13, curiosamente entre duríssimas críticas ao pensamento de esquerda, foi talvez o mais lúcido
analista desta situação:

64.
Um tema recorrente dos críticos sociais da segunda metade do século é o sentimento de inutilidade que
aflige grande parte das pessoas da sociedade moderna (esta ausência de objectivos é muitas vezes designada com
outros nomes, como anomia 14). Nós propomos que a dita crise de identidade é, na realidade, uma procura de intenção
e empenhamento no sentido de uma actividade substitutiva [usamos o termo actividade substitutiva para designar
um empenhamento directo num objectivo artificial que as pessoas prefiguram para terem um objectivo em que
trabalhar, ou melhor, para sentirem uma satisfação de alcançá-lo (Kaczynski, p. 39) - exemplo: o interesse por biologia
marinha do imperador Hirohito]

Na sociedade moderna está muito difundida a ideia de procura da realização. Mas pensamos que para a
maior parte das pessoas uma actividade cujo principal objectivo é uma realização (isto é, uma actividade
substitutiva) não é uma satisfação totalmente satisfatória. Por outras palavras, não satisfaz totalmente a necessidade
pelo processo de poder. Esta necessidade pode ser completamente satisfeita através de actividades que têm algum
objectivo externo, como as necessidades físicas, o sexo, o amor, o status, a vingança, etc

61.
Nas sociedades primitivas, as necessidades físicas geralmente podem ser satisfeitas, mas só à custa de um
grande esforço. Mas a sociedade moderna tende a garantir as necessidades físicas a todos em troca de um mínimo
esforço – em trabalhos de nível baixo-médio o único esforço requerido é o da obediência (Tu sentas-te ou estás onde
te disseram para estar, e fazes o que te disseram para fazer, no modo em que te disseram para fazê-lo)

66.
Hoje vive-se mais em virtude o que o sistema faz por nós ou nos faz a nós do que pelo que conseguimos
fazer por nós próprios

67.
Assim o processo de poder é destruído através de uma ausência de objectivos reais e uma ausência de
autonomia na procura de objectivos.

Depois ainda existe um grande impulso no sentido da necessidade da segurança que não podemos
satisfazer. As nossas vidas dependem de decisões de outras pessoas – não exercitamos um controlo sobre essas
decisões e a esmagadora das vezes nem conhecemos aqueles que decidem. As nossas vidas dependem do facto que os
padrões de segurança nos estabelecimentos nucleares sejam mantidos adequadamente; ou de quanto pesticida é
colocado na nossa comida; ou de quanta poluição é expelida para o ar; da competência (ou incompetência) do nosso
doutor

68.
Poderia objectar-se que o homem primitivo é fisicamente menos seguro do homem moderno, como o
demonstra a sua menor esperança de vida; portanto, o ser moderno sofre menos do que o grau de insegurança
normal para um ser humano. Mas a sensação de segurança não depende totalmente da segurança física. O que nos
faz sentir hoje mais seguros não é um nível maior de segurança objectiva, mas uma confiança na capacidade do
homem moderno cuidar de si mesmo.

O homem primitivo, ameaçado por um animal feroz ou pela fome, pode combater em defesa de si mesmo ou
deslocar-se para procurar alimento. Ele não tem certeza do sucesso dos seus esforços, mas não se encontra indefeso
perante os aspectos da vida que o ameaçam. O homem moderno é constantemente ameaçado por aspectos contra os
quais é inerme: incidentes nucleares, substâncias nocivas nos alimentos, poluição, guerras, aumento dos impostos,
invasão da privacidade por parte das grandes organizações, fenómenos económicos ou sociais de ordem nacional
que podem destruir a sua vida ou forma de viver

70.
O homem primitivo, na maior parte da sua vida, tem a sua própria segurança nas suas mãos - seja
como indivíduo e membro de um pequeno grupo

13
este manifesto de 232 parágrafos (sem tradução portuguesa) foi publicado a 19 de Setembro de 1995 num insert especial (com 7 páginas) do Washington Post depois
de um acordo com o FBI (foi este manifesto que permitiu identificar e capturar Theodore depois de David Kaczynski ter reconhecido neste manifesto as ideias do
irmão mais velho)
14
uma condição da sociedade caracterizada por uma ausência de normas e valores sociais (nota do tradutor italiano)

128
72.
A sociedade moderna é, em certos aspectos, extremamente permissiva. Nas matérias que são irrelevantes
para o funcionamento do sistema nós podemos fazer o que quisermos. Podemos escolher a religião que mais nos
agrada (desde que não encoraje comportamentos perigosos para o sistema). Podemos ter relações sexuais com quem
quisermos (desde que seja sexo seguro). Podemos fazer tudo o que nos agrade desde que não seja importante. Em todas
as matérias importantes o sistema tende a regular sempre mais o nosso comportamento

73.
O comportamento é regulado não só por regras explícitas do governo. O controlo é exercitado muitas
vezes através de uma pressão ou manipulação implícita psicológica produzida por organizações ou pela matriz como
um todo. A propaganda não é limitada aos spots comerciais e à publicidade e muitas vezes não é sequer entendida
conscientemente como propaganda por quem a produz. Por exemplo, o conteúdo de um programa de
entretenimento é uma forma potente de propaganda.

Um exemplo de coerção indirecta:


Não existe nenhuma lei que diga que devemos trabalhar todos os dias e seguir as ordens de um
empregador. Legalmente não existe nenhuma proibição que nos impeça de ir viver para um lugar selvagem
como o homem primitivo ou de exercer uma actividade totalmente independente. Mas na prática a parte
selvagem é extremamente exígua e em economia não existe lugar para um grande número de actividades
independentes. Assim, a maior parte de nós sobrevive apenas como empregado de um outro

74.
Nós cremos que obsessão do homem moderno pela longevidade, por manter o vigor físico e a atractiva
sexual numa idade avançada, é um sintoma do sentimento de incompletude derivado de um falhado processo pelo
poder

(Kaczynski p. 33-38)

diagrama dos sintomas que derivam da insuficiência causada pelo sistema de poder

falta de objectivos falhanço na


cuja realização realização dos
necessita esforço objectivos

frustração
tédio
cólera
tendência à
depressão
abusos
procura incessante baixa
do prazer auto-estima

hedonismo perversão bulimia problemas insónia sentimentos ânsia


insaciável sexual alimentares de culpa

imagem 40 – diagrama da frustração inerente ao processo de poder

Através deste diagrama podemos constatar como de facto a depressão colectiva das sociedades ocidentais é
sobretudo fruto de falhados processo de realização individual através do poder. Todas as disfunções estão na ordem
da domesticação do corpo e da sua revolta perversa: de novo a alimentação e o sexo – onde o poder faz mais sentido.

129
A industrialização – como produto da era da ciência e da produção - ligou técnica e capitalismo de forma
irremediável – e os frutos da pesquisa científica vão muito mais além do que conhecer o mundo. Os corpos sofrem
na dureza das minas, das cidades e das primeiras máquinas e, mais tarde, no laxismo e paralisia dessas mesmas
cidades e das máquinas de última geração.

Actualmente

o nosso corpo está tão domesticado que torna-se dispensável para algumas mentes
(da ciência e da política e outros realistas afins)

O último século do milénio demonstrou como este desprezo rapidamente se transforma em algo inédito em
qualquer das histórias - a destruição de massa.
Auschwitz e Hiroshima na sua ligação à morte, à ciência, ao racionalismo, à máquina, à autoindulgência
têm de ser pensados, exorcizados e relegados de forma veemente. Muito além do estado de apatia e condescendência
generalizada que hoje se sente por todo o lado perante sinais evidentes de estados de coisas claramente
participantes deste espírito de morte que levou a humanidade ao seu extremo de horror.

(Enquanto isso Marx profetizava o homo comunitas, mas a pensar ainda nos trâmites de uma visão de
organização politica do humano e, principalmente, apoiando a sua teoria numa divisão – a das classes – quando o
importante para a humanidade era - e ainda é - abolir essas diferenças pacificamente.
E, na realidade, esse trabalho foi iniciado e ao nível das duas maiores divisões entre os homo:

a raça e o género)

O corpo envolto na tecnologia e nos processos de poder da sociedade do espectáculo perde-se. A tendência
actual para a dispensa do corpo na procriação (inseminação), na criação (clone) e na própria vida (cyborg) é uma
extremização deste processo numa época de facto com muito de apocalíptico.
O inseminado (sem pai), o criado (sem mãe) e construído (sem corpo) são homens-máquinas no sentido da
tristeza, da doença e da morte. E isto está ser criado – veja-se o movimento trans-humanista de Nick Bostrom e a
sua influência real no meio científico e militar norte-americano 15.

De facto, chegámos a um ponto evolutivo sui generis em que a vida encontrou num organismo uma forma
não-directa de intervir na matéria. Com o homem acabou o corpo-a-corpo entre todos os elementos (base que
parecia estabelecer um equilíbrio biológico provavelmente perfeito). Daí o fascínio pela questão da técnica – esse
demónio indomável que consegui ganhar espaço à própria vida como forma de moldar os seres. Obviamente ela
molda o ser que a utiliza – o homem (e a análise de Heidegger neste campo é absolutamente exemplar).

Nesta tempo preliminar da pós-história Heidegger (seguindo o raciocínio de Agamben) vai apontar apenas
dois cenários possíveis:

a) l'uomo poststorico non custodisce più la propria animalità in quanto indisciudibile, ma cerca di governarla e
prenderla in carico attraverso la tecnica;
b) l'uomo, il pastore dell'essere, sia apropria della sua stessa latenza, della sua stessa animalità, che non resta nascosta
né è fatta oggetto di dominio, ma è pensata come tale, come puro abbandono (Agamben 5, p. 82)

15
O filósofo francês Jean-Pierre Dupuy falou deste caso na sua apresentação intitulada A tentação do orgulho no âmbito da conferência Que valores para este tempo?
organizado pela Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa | 25, 26 e 27 outubro 2006):
Poucas pessoas sabem quem é Nick Bostrom. Filósofo de origem sueca, não se poderia ser mais sério e brilhante, o professor Nick Bostrom é o intelectual que
encabeça um movimento internacional denominado «trans-humanista». Foi ele quem redigiu a sua carta de constituição bem como os estatutos. Os trans-humanistas
se dão como tarefa acelerar a passagem para a próxima etapa da evolução biológica, a qual verá este ser radicalmente imperfeito que é o homem ser substituído por
uma «pós-humanidade», graças à convergência entre as nanotecnologias, as biotecnologias, as tecnologias da informação e as ciências cognitivas. O projecto nano-
bio-tecnológico parte da constatação de que a evolução é um engenheiro incompetente que fez seu trabalho de concepção mais ou menos ao acaso, apoiando-se no que
estava mais perto para erigir novas construções mais ou menos instáveis – em resumo, fazendo bricolage.
O espírito humano, expandido pelas tecnologias da informação e da computação que o ultrapassarão muito em breve em capacidade de inteligência e de imaginação,
alcançará bem melhores resultados, chegando a transcender-se a si próprio. Numa perspectiva de estudos culturais comparados, observo o quão fascinante é ver a
ciência americana, que deve se bater fortemente para afastar do ensino público qualquer traço de criacionismo, inclusive nas suas versões mais recentes, como a do
intelligent design, reencontrar, pelo viés do programa nanotecnológico, a problemática do design, simplesmente agora com idade em que se produzam, como
calamidades e problemas a resolver.» Não deveríamos sorrir destas divagações. Agir assim seria, para começar, ignorar que os trans- humanistas conseguiram ocupar
eminentes posições de poder no aparelho científico e militar- industrial estadunidense. Um dos seus principais responsáveis, William S. Bainbridge, dirige a
«Iniciativa» americana, lançada pela National Science Foundation, em matéria de nanotecnologias e, nessa condição, comanda um orçamento federal de mais de um
bilhão de dólares anuais

130
Ou seja, a humanidade – carregada pelo modelo invasivo e dominante ocidental – está agora perante uma
encruzilhada extremamente concreta e que (actualmente as provas são mais do que evidentes) segue no sentido da
auto-destruição, sendo que parece possível ainda optar por uma regeneração que obrigaria a uma mudança de facto
muito profunda e bem além dos actuais modelos vigentes da biopolítica dominante.

Estas décadas de passagem de milénio parecem ser uma espécie de purgatório, de limbo da pós-história
onde o homem enquanto ser total – animal, humano, arauto de deus – talvez possa concretizar o seu verdadeiro
objectivo na Terra e com a Terra. Uma bio-política além da bio-política - onde Holocausto ou destruição nuclear
serão evitados.

Tentemos perceber o que está em causa. Foucault explicou-nos que a partir de um determinado momento
passámos de um Estado de territorialização a um Estado de população – a vida natural é integrada dentro dos
mecanismos de poder do Estado (passagem da política à bio-política).

Il en résulte une sorte d’animalisation de l’homme effectuée par les techniques politiques les plus sophistiquées. Alors
apparaissent dan’s l’histoire aussi bien la multiplication des possibilités des sciences humaines et sociales, que la possibilité
simultanée de protéger la vie et d’en authoriser l’holocauste (Foucault citado em Agamben 3, p. 11)

Assim em vez de bio-política deveria-se talvez falar de z!"-política. Pois, para os gregos, a z!" correspondia
à existência pura, à vida nua, o simples facto de viver, enquanto que bios já implicava uma forma de vida individual
ou comunitária. Portanto a passagem de estado de territorialização a estado de população - a biopolítica - é um
movimento de politização da z!" . Problemas como o da eutanásia (Agamben) ou da sexualidade (Foucault) passam
por esta apropriação dos mecanismos do estado através do seu aparato jurídico-moral, sempre envoltos numa
confusão em relação à ideia de vida.
Analisando esses dois extremos que Foucault enuncia embatemos em perplexidades preocupantes. Por
uma lado, a protecção da vida é assegurada por uma ciência pautada pelos problemas do tal rigor, rigidez e
brutalidade da inteligência de que nos falava Bergson e um corpo que perde a sua univocidade parece entrar em
colapso por vias inesperadas. Para além disso, a relação económico-política forma tendências cada vez mais
visivelmente perigosas - a história da medicina está cheia de exemplos.

O holocausto enquanto figura extrema do colapso da z!"-política deixa-nos um legado de horror que
obriga-nos precisamente a repensar os limites do humano e do inumano. Agamben (recolhendo e montando
testemunhos em Quel che resta di Auschwitz) fala-nos dessa figura extrema que se coloca precisamente no centro de
indeterminação entre humano e inumano – o muçulmano. O muçulmano era uma designação do campo para aqueles
que tinham renunciado à vida:

colui che há abdicado al margine irrinunciabile di libertá e ha conseguentemente smarrito ogni tracci di vita
affettiva e di umanitá [Bettelheim]), un uomo scarno, dalla fronte china e dalle spalle curve, sul cui volto e nei cui
occhi non si possa leggere traccia di pensiero [Lévi], un cadavere umano, un fascio di funzioni fische ormai in
agonia [Améry] (citados em Agamben 4, p. 37-41).

Estes cadáveres humanos eram um espelho de horror para os restantes prisioneiros no campo e
eram os primeiros a sucumbir. O seu olhar vazio expressava a consumação do inumano produzido no
humano enquanto z!".
Esta morte em vida para Foucault seria a conclusão óbvia da bio-política cuja máxima é fazer
viver e deixar morrer (a morte transforma-se em vergonha privada) o que implica a diluição daquilo que
seria o princípio ético último de Heidegger – o ser-para-a-morte - que já não faz sentido num lugar em que
é impossível experienciar a morte como possibilidade mais própria e insuperável (Heidegger, § 50 , p. 306) e a
prova disso é o muçulmano e a morte como fabricação de cadáveres - os alemães não utilizavam a palavra
morte e o morto, os cadáveres eram denominados Figuren

(E depois há a história do operador de câmara que filmou os cadáveres que se acumulavam em Auschwitz
aquando da chegada dos aliados. Imensos cadáveres (que, no fundo, consistiam a prova final, máxima das
atrocidades do III Reich) acumulados são filmados meticulosamente. A câmara faz um panorâmica e
inadvertidamente capta um conjunto de muçulmanos. A câmara para de filmar. O operador viu algo mais terrível
que a própria morte)

131
Pensemos de novo a voz que comunica verdades e emoções. O muçulmano era aquele que deixara de falar.
Primo Lévi testemunhava que la lingua ti si secca in pochi giorni, e con la lingua, il pensiero (idem, p. 58).
Agamben fala-nos de uma doutrina ética que tinha como condição transcendental, a própria comunicação.
Todo ser falante deve falar – não falar implica a negação de si mesmo. Os homens, enquanto dotados de linguagem,
estavam condenados a comunicarem como forma de estabelecer os critérios do sentido e validade do seu agir.
No seu início de ensaísta, ele escreveu a seguinte formulação (precisamente quando pensou a Voz):

Caminhamos no bosque: de repente sentimos o bater de asas ou um movimento da erva. Não o encontro, mas, sim, esta
fuga de animais invisíveis, é o pensamento. Não, não era a nossa voz. Aproximámo-nos o quanto podemos à linguagem, quase
a tocámos, quase a mantivemos em suspenso: mas o nosso encontro não aconteceu e agora voltamos sem pensar para casa

A linguagem é a nossa voz, a nossa linguagem.


Como falas neste momento, isso é a ética

(Agamben 1, p. 139)

Ele acreditava então numa morada in-fantil do homem na linguagem. Ou seja, uma voz que em comum pode
libertar-se da negatividade da voz metafísica e poder ainda assim ser ética.
Voz e linguagem são faces respectivas da z!" e da bios. Instinto e inteligência parecem retornar noutras
formas. Conciliação (onde está o humano?). Arriscamos a possibilidade que o ponto de conciliação de instinto e
inteligência, z!" e bios seja a fala. Não a voz como puro querer-dizer que animou toda a metafísica., mas uma voz
que é já alteridade, um querer-dizer que só se concretiza no ter-sido comunicado, ter-sido comunicado como ter sido
tocado – uma canção - relação de afectos comunicantes, comuns.

E como pensar a questão do afecto? é a questão central dentro de um conceito de ética verdadeiramente
abragente e com a possibilidade de ir além do bem e do mal. Spinoza obviamente compreendeu isso muito bem.

Para Deleuze a questão dos afectos manifestava-se através do que designou por devires. Ele deixa o deus de
Spinoza de parte e vai buscar a ideia de corpo e movimento (Bergson)

Un corps ne définit pas par la forme qu’il detérmine, ni comme une substance ou un sujet déterminés, ni par les
organes qui’il possède ou les fonctions q’il exerce. Sur le plan de concistance, un corps se définit seulemet par un longitude et un
e latitud: c’est –à-dire l’ensemble des éléments matériel qui lui appartiennent sous tels rapports de mouvement et repos, de vitesse
et lenteur (longitude); l’ensembledes affects intensifs dont il est capable, sous tel pouvoir ou degré de puissance (latitude). Rien
que des affects et des mouvements locaux, des vitesse différentielles (Deleuze, p. 318)

Se o afecto é um poder impessoal e incaracterizável que faz erguer e vacilar o eu, pode tornar-se ponto de
partida para a assunção dos vários devires que potencialmente coexistem no homem, como o devir-animal. O que
importa para Deleuze é: como um corpo pode ou não compôr-se com outros afectos.

O devir-animal é uma identificação (enquanto participação contra-natura) entre homem e animal em que
composições afectivas diluem os sujeitos por contágio. Como o rato em agonia cuja alma mostra os dentes ao destino
monstruoso perante um fascinado lorde Chandos – c’est une composition de vitesses et d’affects entre individus tout à fait
différents, symbiose, et qui fait que le rat devient une pensée dans l’homme, une pensée fiévreuse, en même temps que l’homme
devient rat, rat qui grince et agonise. Le rat et l’homme ne sont pas du tout la même chose, mais l’Etre se dit des deux en un
seul et même sens dans une langue qui n’est plus celle des mots, dans un matière qui n’est plus celle des formes, dans une
affectibilité qui n’est plus celle des sujets (idem, p. 315)

O esforço de Deleuze é, sem dúvida, a fórmula mais elegante de ligação do animal ao homem. Já não faz
sentido falar em antropogénese, mas em relações de movimentos de consciência. As relações aqui em causa não são
predicados da coisa, mas dimensões de multiplicidades, são composições que se estabelecem num plano de
imanência e univocidade.
Do que foi dito é possível imaginar que não existe simplesmente um devir-animal, mas uma infinitude de
devires todos eles consubstanciados numa alteridade – como um devir-criança, etc. Se não existe um devir-homem é
porque ele é maioridade e os devires são minoridades. Isto quer dizer apenas e só que o homem é sempre sujeito dos
devires o que não implica maior ou menor potência

- na verdade, quanto mais tendem ao molecular, mais potentes são os devires

132
Os devires na sua dupla tensão de ser e não ser provocam sempre transformações, são um jogo constante
de forças que já não se reconhecem, n’importe quoit peut faire l’affaire, mais l’affaire se révèle politique. Devenir-
minoritaire est un affaire politique, et fait appel à tout un travail de puissance, à un micro-politique active (idem, p. 315)

Claro que esta micro-política é impraticável no quadro de uma sociedade cujos corpos estão absolutamente
domesticados e as mentes adormecidas pelas imagens sem força e sem afecto que convertem tudo em mercadoria – o
realismo começa a ser um problema, a história já não satisfaz.

Os senhores do poder e da guerra agarram-se ao realismo agora como forma de controlo de todos os
homens e mulheres do planeta. E a ilusão do espectáculo já não é a única forma enfeitiçar.
A criação constante de ficções da política internacional chegou ao seu nível de absurdo máximo e agora só
conta com o consentimento de uma sociedade paralisada pelo entretenimento, pela burocracia, pela falta de
esperança, pela procura do pequeno poder, pelo hedonismo e por uma critica intelectual que serve apenas para
alimentar os egos de alguns burgueses urbanos inconsequentes.

O caso mais incrível do estado de mentira generalizada em que vivemos é sem dúvida a história do 11 de
Setembro e essa dança de encenações com dois jokers dos tempos modernos – Bin Laden e George Bush.

Mas a ética – e os antigos sabiam-no – está longe destas morais do realismo político. A moral é antes
demais algo do indivíduo como presença. E a acção ética é a acção de um individuo perante o espaço e as pessoas
que o rodeiam na sua vida diária - não como o activista que vai a todas essas manifestações contra a guerra e depois
bate na mulher quando chega a casa)

– nem moral, nem ética estão em qualquer meio de comunicação de massa.

Todo este percurso para encontrar uma comunidade planetária humana livre de perigos imediatos foi
alcançada - a fome e as tiranias sobre o corpo. Agora a história tem de voltar para trás para que a ética que a
pressupunha possa ser efectivamente alcançada.

A Ethos é o desembocar do caminho da moral, do homem que procura leis e formas de viver em
comunidade. Mas Ethos é uso, é o espaço da própria acção que se adapta a cada momento para afirmar ou suspender
toda a moral – uma verdadeiro acto de humanidade contínuo em que todos são iguais e todos são um.

A ética pressupõe um individuo que foi ao fundo da sua existência enquanto ser moral

e que retorna confiante em si mesmo,

na ligeireza do seu corpo


e na clareza da sua mente

para com humildade

apresentar-se como um defensor da Verdade, do Bem e do Belo

133
as histórias

reunindo o todo
A.
I
O Homem só consegue percepcionar através dos seus órgãos naturais ou corporais.
II
Por meio da razão o Homem só consegue comparar e julgar aquilo que já percepcionou.
III
Da percepção de 3 sentidos ou 3 elementos ninguém consegue deduzir um quarto ou um quinto.
IV
Ninguém conseguiria ter mais do que pensamentos naturais ou orgânicos se apenas tivesse percepções orgânicas.
V
Os desejos dos homens estão limitados pelas suas percepções, ninguém pode desejar o que não percepcionou.
VI
Os desejos e percepções do homem, apreendidos apenas pelos órgãos dos sentidos, estão limitados a objectos dos
sentidos.

B.
I
As Percepções do Homem não estão limitadas aos órgãos da percepção, ele apreende mais do que os sentidos (ainda
que muito agudos) são capazes de descobrir.
II
A Razão, ou o rácio de tudo o que conhecemos, não é a mesma que há de ser quando conhecermos mais.
III
(omisso)
IV
O que é limitado é desprezado pelo seu possuidor. A fastidiosa volta, até mesmo de um universo, depressa se
tornaria num mero moinho com rodas engenhosas.
V
Se muitos ficam iguais ao que eram poucos, quando possuído – Mais! Mais! é o grito da alma enganada; menos que
tudo não satisfaz o Homem.
VI
Se alguém desejar o que é incapaz de possuir, o desespero há de ser o seu eterno destino.
VII
Sendo o desejo do Homem Infinito, Infinita é a posse & ele próprio é Infinito.

conclusão
Se não fosse pelo carácter Poético ou Profético, o Filosófico & o Experimental seriam em breve o rácio de todas as
coisas, & ver-se-iam paralisados, incapazes de fazer fosse o que fosse,
a não ser repetir a mesma volta fastidiosa uma e outra vez.

Há 150 mil anos atrás nasceu o primeiro homem. Uma criação depurada ao longo de 550 milhões de anos
de experimentação biológica do multicelular. Esta nova forma de consciência define-se através da ideia do surgir de
uma consciência além do si. Que coincide com a consciência do todo – que é mais harmoniosa e simétrica
intersecção entre aquilo que percepcionamos e aquilo que está para além de nós – o mistério. A esta projecção de
harmonia de todas as coisas demos a palavra Deus.

Simultaneamente, esta nova consciência define-se através de novo instrumento que permita precisamente
estabelecer os laços entre os acontecimentos (as percepções de vários) e as intuições (os vários mistérios) de forma
justa, bela e harmoniosa A esta projecção de harmonia de todas as coisas demos a palavra mito.

138
Relembremos Donald:

Todas as sociedades de caçadores-recolectores parecem ter um sistema mítico elaborado que é semelhante em principio.
O mito permeia e regula a actividade diária, canaliza as percepções, determina o significado de cada objecto e de cada
acontecimento da vida. O vestuário, a comida, o abrigo, a família – todos recebem a sua “significação” do mito.
Portanto, embora a linguagem fosse primeiro e para além de tudo o mais um mecanismo social, a sua utilidade inicial
não foi tanto o permitir um novo nível de tecnologia colectiva ou de organização social, o que eventualmente fez, ou em
transmitir habilidade ou em atingir organizações politicas mais vastas, o que eventualmente fez. Inicialmente foi usada para
construir modelos conceptuais do universo humano. A sua função estava evidentemente ligada ao desenvolvimento do
pensamento integrador – à grande síntese unificadora de informações parcelares e ligadas ao tempo que estavam desconectadas
ao principio. Enquanto a representação mimética estava limitada a episódios concretos, o pensamento metafórico podia
comparar através dos episódios, derivando princípios gerais e extraindo conteúdos temáticos.
O mito é a ferramenta protótipo, fundamental, integradora da mente. Tenta integrar uma variedade de
acontecimentos num contexto temporal e causal (Donald, p. 263-264)

Os mitos foram e são as histórias por excelência. Olhando hoje para elas vemos como são extremamente
completas e ambiciosas ligando passado, presente e futuro (ou seja, fenómenos naturais percepção/intuição e
profecia) e são dominadas pelo desconhecido e o transcendental.

As histórias que se seguiram quiseram eliminar o mistério – são as histórias da ciência –a História, a
Biologia e a Física (ou seja, o passado, o presente e o futuro).

No entanto, ambas – o mito e a ciência – são histórias, ficções que procuram encontrar a melhor maneira
de dar à Humanidade um visão integradora e harmoniosa de toda a realidade que têm em conta.

Poder-se-ia argumentar que há um fosso intransponível entre a atitude científica adoptada no mundo moderno com
vista à dominação da natureza e a atitude mística tida como característica das sociedades pré-letradas. Mas esta será uma
diferença assim tão radical? Robin Horton a quem devemos o mais inteligente estudo do pensamento tradicional africano e da
sua relação com a ciência ocidental crê que não. As análises recentes das cosmologias africanas tornam claro que “os deuses de
determinada cultura formam um esquema que interpreta a grande diversidade da experiência quotidiana em termos da acção
de um número relativamente pequeno de tipos de força” (1967:52). Os deuses não são caprichosos; as potências espirituais estão
em acção por detrás dos acontecimentos observados e há uma regularidade mínima, mas fundamental, no seu comportamento.
Como “átomos, moléculas e ondas, os deuses servem então para introduzir a unidade na diversidade e simplicidade na
complexidade, ordem na desordem, regularidade na anomalia” (Goody, p. 48)

A diferença fundamental entre o mito e ciência é que o primeiro consegue ligar o que compreende com
todos os aspectos da vida e forma homens éticos e bem vivos, enquanto que a primeira é desligada da própria vida e
forma homens conscientes de inúmeros processos mecânicos, mas sem corpo.

Há aqui uma escolha subjacente ao verdadeiro homem (um ser humano masculino):

entre o homem e a máquina

Mas para percebermos melhor o que está em causa torna-se necessário concluir a história da ciência e
perceber até onde chegou o espírito crítico-experimental omisso de deus e do mistério – que é o mesmo que dizer
baseado apenas nas percepções que temos dos nossos sentidos e na forma de organizá-las mentalmente.

Do que tinha sido visto desta história (capítulos animal e mundo) chegou-se a duas conclusões cruciais para
uma realidade coerente com os factos observáveis:

1.
cada ser vive fechado no seu mundo-próprio perceptivo (Umwelt) cuja realidade nada mais é que o conjunto de
formulações possíveis a partir das informações que consegue captar dos portadores de significados específicos da
sua realidade

2.
as leis mecânicas do mundo dependem do sistema de coordenadas que se adopta – ou seja, o ponto no espaço e no
tempo em que cada objecto está define a forma das ocorrências à sua volta (e este ponto na verdade é indefinível)

É compreensível que estas duas asserções são, no fundo , a mesma em escalas diferentes.

139
Para que sejam retiradas todas as consequências da teoria dos mundos-próprios vale a pena concentrarmo-
nos seriamente nas palavras finais do próprio Uexküll:

a partitura d a naturez a

Para pôr em paralelo o que se passa com os animais e o que se passa com os instrumentos musicais, bastará considerar
o sistema nervoso central como um carrilhão. Chamaremos então «sons perceptivos» aos sinais perceptivos das suas células
vivas que são projectadas no exterior como notas características e designaremos por «sons efectores» os impulsos que provocam
a execução de movimentos.
Cada animal é capaz, como qualquer instrumento, dum determinado número de sons, que entram em relação contra-
pontual com os sons de outros animais.
Não basta, como os mecanistas faziam, tratar os instrumentos de música como simples produtores de ondas de ar.
Com essas ondas, ninguém pode criar uma melodia ou uma harmonia, nem compor com elas uma partitura. Só a relação das
ondas do ar com o órgão auditivo do homem, onde estas se transformam em sons, pode tornar possível a produção
de melodias e harmonias e a composição de partituras.

Se agora atentarmos numa orquestra, veremos, em cada um dos papéis que se encontram nas estantes individuais, em
escrita musical, as partes dos diferentes naipes, enquanto a partitura total repousa na estante do regente. Mas vemos também os
próprios instrumentos e perguntamo-nos se estes, porventura, não se ajustarão uns com os outros, não só pelo som que cada um
produz, mas também por toda a sua estrutura, isto é, se não constituirão uma unidade, não só musical como tecnicamente.
Como a maior parte dos instrumentos da orquestra são, por si próprios, capazes de produções musicais, não se pode responder
afirmativamente a essa pergunta sem hesitações.

Mas quem já tenha ouvido palhaços-músicos, que se servem dos instrumentos para, com eles, produzirem ruídos
(pentes, chocalhos, etc) convencer-se-á de que é possível, sim, com tal orquestra, executar uma cacofonia, mas nunca uma
sinfonia.Os instrumentos de uma verdadeira orquestra, se os observarmos com mais rigor, apresentam, logo na sua estrutura,
uma relação em contraponto.

Isto revela-se-nos ainda com mais clareza numa orquestra natural, como um prado no-la apresenta. Basta que
pensemos na flor integrada nos quatro mundos-próprios. Essa relação revela-se-nos ainda mais flagrantemente entre a
estrutura da flor e a da abelha e dela se pode dizer:

Se na flor não houvesse qualquer coisa de abelha


E na abelha não houvesse qualquer coisa de flor
Nunca o acorde seria possível

Nestes versos se exprime o princípio fundamental de toda a técnica da natureza. Nele reconhecemos, mais uma vez, a sabedoria
de Goethe:

Se nos olhos não houvesse qualquer coisa de Sol,


Nunca eles poderiam vê-lo

Mas nós podemos agora completar a sentença de Goethe, dizendo:

Se no Sol não houvesse qualquer coisa de olho,


Em nenhum céu ele emitiria raios

(O exemplo dos tortricídeos mostra-nos eloquentemente quantos enigmas ainda nos guardará a técnica da Natureza.
Situam-se frente a frente dois concorrentes constituídos em contraponto: o pequeno rinóptero, provido de uma serra, que utiliza
como ferrão e a folha grande da bétula, que há-de ser serrada. O percurso seguido pela serra deve ser tal que, em seguida, o
coleóptero possa enrolar, sem dificuldade, a parte inferior da folha, em forma de funil alongado, onde põe os ovos.
Este percurso, que apresenta uma curvatura característica, tem extensão constante para todos os tortricídeos, embora não exista
na folha da bétula qualquer vestígio de um traçado indicativo do caminho a percorrer. Será o próprio «percurso constante» a
causa determinante do seu estabelecimento?)

Isto faz parte dos segredos de composição natural que nós, no estudo da técnica da Natureza, encontramos a cada
passo. O primeiro investigador que se ocupou dos problemas da técnica da Natureza parece ter sido Lamarck. De qualquer
modo, a tentativa que empreendeu para harmonizar o desenvolvimento do longo pescoço da girafa com o alto tronco das
acácias, constitui a primeira indicação dum comportamento contra-pontual

140
Perdeu-se, mais tarde, completamente, o interesse pela técnica da natureza, que foi substituído por especulações sobre a
influência dos antepassados, principalmente por iniciativa de Haeckel. Ninguém poderá reconhecer uma actividade técnica na
afirmação de que os anfíbios derivaram dos peixes. Particularmente as concepções acerca dos chamados órgãos «rudimentares»
encarregam-se de desviar as atenções dos verdadeiros problemas técnicos.

Só a demonstração ,feita por Driesch, de que, dum germe de ouriço-do-mar cortado ao meio resultam, não duas
metades do ouriço mas dois ouriços inteiros, com metade do tamanho do primitivo, veio abrir caminho para uma compreensão
mais profunda da técnica da Natureza. Tudo que é material se deixa cortar com uma faca. Mas uma melodia é diferente.
A melodia duma canção, que é executada por um carrilhão autónomo de sinos vivos, permanecerá invariável, mesmo que ela
dirija apenas metade do número inicial de sinos.

evolução e matéria

È certo que os mundos-próprios foram, no princípio do drama universal, mais simples do que haviam de ser mais
tarde; mas sempre neles se opunha um receptor de significado ao objecto significante. Tudo estava submetido ao
significado e este adoptava órgãos diferentes ao habitat variável. O significado ligava o alimento e aquele que o devora, o
inimigo e a presa, e principalmente o macho e a fêmea em assombrosa dificuldade. Em todos os casos se nota uma progressão
mas nunca um progresso, no sentido da sobrevivência do adaptado, nunca uma selecção do mais dotado, por meio de uma
furiosa luta pela existência, desprovida de um plano. Em vez disso, reinava uma melodia em que vida e morte se
entrelaçavam.

Decidi apresentar ao nosso maior historiador esta questão: poderá falar-se dum progresso na história da
humanidade? Leopoldo von Ranke, nas suas Épocas da História Moderna, escreve:

«Se admitíssemos que este progresso consistia apenas em que a vida da humanidades se elevar, em cada época, a um
nível mais alto, em que, portanto, cada geração ultrapassa inteiramente a anterior e a última é sempre a preferida, em prejuízo
das outras, que se limitam a trazer, em si, a geração seguinte, admitiríamos, implicitamente, uma injustiça da divindade. Uma
tal geração, esporádica, descontínua, não teria significado nem em si nem por si, pois só significaria alguma coisa na medida
em que fosse degrau de acesso para a geração seguinte e não estaria em relação directa com a divindade. Todavia, eu afirmo:
cada época está imediatamente em Deus e o seu valor não reside, de modo algum, naquilo que produz mas a sua própria
existência, no seu próprio ser»

Ranke rejeita o progresso na história da humanidade, porque todas as épocas remontam directamente a Deus e,
consequentemente, nenhuma pode ser mais perfeita que a outra. Que podemos nós entender por uma época, no sentido que Ranke
lhe atribuiu, senão um grupo homogéneo de mundos-próprios do homem dentro dum limitado espaço de tempo? Daí se conclui
que cada mundo-próprio deste grupo remonta directamente a Deus, visto que todos eles pertencem à mesma composição, cujo
autor é Deus, na expressão de Ranke.

Ora a palavra Deus é exactamente aquilo com que investe todo o materialista, o qual admitiria uma composição ao
acaso, no decurso de larguíssimos espaços de tempo, se lhe quiséssemos conceder que a força e a matéria se mantiveram as
mesmas desde o princípio do mundo e que a lei da conservação da energia tem valor eterno e universal.
No princípio da minha discussão, mostrei que o estudo dos mundos-próprios prova, em primeiro lugar, a inconstância
dos objectos, que dentro de cada mundo-próprio, mudam também de conformação, sempre que mudam de significado. O mesmo
pedúnculo da flor passou a ser, nos quatro mundos-próprios, quatro objectos diferentes.

Só resta agora mostrar, com auxílio dos exemplos já mencionados, que também a constância da matéria é
uma ilusão. As propriedades da substância dum objecto dependem das escalas sensoriais do sujeito, cujo mundo-próprio
estamos a analisar. Se observarmos a cor, aos nossos olhos amarela, duma flor em que certa abelha poisou, podemos dizer
afoitamente que, no mundo-próprio da abelha, a flor não é amarela (é talvez o que nós achamos vermelho) pois a escala das
cores nos olhos da abelha corresponde a uma escala de ondas de éter que é diferente da dos nossos olhos. Sabemos, também, que a
escala de sons na borboleta nocturna, a escala de odores numa carraça, a escala de gostos duma minhoca e as escalas de forma
da maior parte dos invertebrados são completamente diferentes das do homem. A própria escala de dureza deve ser totalmente
diferente para os icnêumones que perfuram, como se fosse manteiga, a mais rija madeira de pinho.

Nem uma única propriedade da matéria se conserva a mesma quando percorremos a série de mundos-próprios das
diferentes espécies. De mundo para mundo, em cada um dos objectos que observamos muda, não só o teor significante mas
também o arranjo de todas as suas propriedades, tanto materiais como formais.
A matéria é, no mundo-próprio do homem, o rocher de bronze sobre o qual parece assentar todo o universo quando,
afinal, ele se volatiliza de um mundo para o outro.

141
Não! A imutabilidade da matéria, em que os materialistas se entrincheiram não constitui base sólida para uma
concepção geral do mundo.

Muito mais bem fundamentada que a imutabilidade da matéria é uma imutabilidade dos sujeitos.
Mas os sujeitos também se compõem de matéria – objectarão os materialistas. É certo. Mas a matéria dos corpos, que é própria
dos sujeitos, tem de ser reconstituída em cada geração.
Aquilo que cada indivíduo, em particular, recebe de seus pais sob a forma de matéria, é extremamente insignificante;
reduz-se a uma célula germinal divisível e a um «teclado« de corpúsculos estimulantes chamados genes que, no acto de divisão
da célula é recebido para cada uma das células filhas. Com efeito, esse «teclado» torna possível às melodias morfogenéticas
fazê-lo soar, como nas teclas de um piano e deste modo realizar a estruturação das formas. Cada corpúsculo estimulante que é
posto em acção insinua-se, como impulso diferenciado, no protoplasma da sua célula, para promover a estrutura corresponde.

As melodias morfogenéticas que, deste modo, se estruturam, vão buscar os seus motivos às melodias morfogenéticas de
outros sujeitos que elas encontrarão nos seus cenários de vida:

Se na flor não houvesse qualquer coisa de abelha


Se na abelha não houvesse qualquer coisa de flor,
Nunca o acorde seria possível.

Os motivos são tirados, ora do ciclo de nutrição ora do ciclo da defesa, ora do ciclo do sexo. È do ciclo do habitat que a melodia
morfogenética tira a maior parte dos seus motivos e por isso a estrutura dos nossos olhos é ajustada à luz do sol, e a folha do
bordo, com as suas goteiras, é ajustada à chuva.
O sol, das alturas do céu, emite os seus raios sobre mim, simplesmente porque ele, o nosso mais importante componente
da natureza, entra, como motivo principal, na estruturação dos meus olhos. O sol parece tanto maior e mais radiante no céu do
mundo-próprio dum olho, quanto maior é a sua influência na estruturação deste; e parece tanto menor e mais insignificante
quanto menor e mais insignificante é a parte que tomou nessa estruturação (como na toupeira)

a harmonia

Só o reconhecimento de que tudo, na Natureza é criado segundo o seu significado e que todos os mundos-próprios são
inseridos, como vozes, na partitura do mundo nos abre o caminho para a evasão da estreiteza do nosso mundo-próprio. Não é a
dilatação do espaço do nosso mundo-próprio em milhões de anos de luz que nos eleva acima de nós próprios mas o reconhecer,
além do nosso mundo pessoal, também os mundos-próprios dos nossos irmãos humanos e irracionais estão contidos
num plano que tudo abrange.

Para terminar, procuremos agora observar, de fora, a nossa própria casa corpórea, como o seu jardim. Sabemos já
que o nosso sol, o nosso céu, juntamente com o jardim cheio de plantas, animais e pessoas, são apenas símbolos duma composição
natural que tudo abrange e tudo ordena, segundo a categoria e o significado.
Com esta noção, nós adquirimos também o conhecimento dos limites do nosso mundo. Podemos, com efeito,
aproximar-nos de todas as coisas ou penetrar nelas, com o auxílio de aparelhos cada vez mais perfeitos, mas nem por isso
passamos a ter algum novo órgão sensorial e, por muito que desdobremos as propriedades das coisas nos seus últimos
elementos – em átomos, em electrões – elas nunca mais deixarão de ser simples notas particulares dos nossos sentidos
e das nossas representações.

Sabemos que este Sol, este Céu e esta Terra desaparecerão com a nossa morte; continuarão, porém, a existir, em
formas semelhantes, nos mundos próprios das gerações futuras. Não existem só as multiplicidades de espaço e tempo, em que as
coisas podem alargar-se, existe também a multiplicidade dos mundos-próprios, em que as coisas subsistem sob formas sempre
novas. Nesta terceira multiplicidade, todos os mundos-próprios oferecem o «teclado» em que a Natureza executa a sua super-
temporal e super-espacial sinfonia de significados.
A nós, durante toda a nossa vida, cabe-nos a missão de, com o nosso mundo-próprio, constituir uma tecla, no
gigantesco teclado que mão invisível percorre (Uexküll, p. 166-179)

A história maior que o mito tenta captar (na efemeridade subtil da oralidade) é precisamente este plano que
tudo abrange da Natureza. Para ajudar a que cada um encontre a sua tecla correspondente na maravilhosa harmonia
que nos espera o futuro.

Esta é a profunda razão que precede à evolução do ser vivo através da consciência e que chegou nos nossos
tempos à formulação do conceito de subjectividade, ao mesmo tempo que ficam evidentes os perigos e a violência da
estrutura de poder baseada no indivíduo separado e com medo imerso num mundo onde tudo é relativo.

142
E agora tentemos perceber exactamente onde a Física chegou foi além da relatividade. Se o conceito de
sistema de coordenadas de Einstein pressupunha que a realidade percepcionada é subjectiva, as posteriores
investigações sobre a realidade sub-atómica vêm apontar a realidade existente é subjectiva.

(Claro que a grande questão é que aquilo que é percepcionado e compreendido é e não é aquilo que está
efectivamente em existência - os objectos em si não estão nem em existência, nem em não-existência)

Como nos diz Paul Davies:

A física quântica restitui à mente uma posição central na natureza. O acto da observação na física quântica não
é só um elemento acidental, um meio para aceder a informação já existente no mundo esterno - o observador entra na realidade
subatómica como ente fundamental e a descrição das equações da física quântica codifica o próprio acto de observação (citado
em Brockman, p. 83)

O problema começa no início do século XX quando os físicos Werner Heisenberg e Niels Bohr
estabelecem os princípios da teoria quântica – segundo Bohr e Heisenberg o reino subatómico é uma paisagem onde as
noções comuns de distância e tempo, e uma rígida divisão entre consciência e realidade cessam de existir (Brockman, p. 85).

António Nunes dos Santos numa nota biográfica sobre Einstein (Einstein 2, p. 376) conta-nos que

Em 1924, Stayadra Nath Rose, um físico indiano, mostrou num artigo que os fotões obedecem a uma estatística
particular em que não se atribui individualidade às partículas que estão num determinado estado quântico. O estado destas
partículas é descrito por funções de onda simétricas e, portanto não seguem o princípio de exclusão de Pauli. Einstein não só
traduziu em alemão o artigo como o aperfeiçoou e aplicou a teoria subjacente a um gás monoatómico ideal (Quantentheorie des
einatomigen idealen Gases).
Anos mais tarde, em 1927, participa no 5º Congresso Solvay, famoso pelas vivas discussões que teve sobre a teoria
quântica com Bohr, Heisenberg e Pauli, e em que Einstein não se cansava de afirmar a sua famosa frase:

Gott würfet nicht - Deus não joga aos dados


Gott würfet nicht - Deus não joga aos dados
Gott würfet nicht - Deus não joga aos dados

Vejamos como é que a teoria quântica permite-se a si mesma de chegar a este ponto – onde, mais e menos
do que chegar ao mistério, faz colapsar toda a realidade física:

A história parte de uma asserção da teoria quântica inicial que postulava a ideia que um determinado
processo atómico produzia um par de fotões que continuavam estranhamente a comportar-se como se fossem
juntas, independentemente da distância entra elas. Por exemplo, se se permitir a um dos dois fotões de distanciar-se e
seguir para um lado da galáxia à velocidade da luz, e o outro fotão de fazer o mesmo na direcção oposta, quando os dois fotões
forem recebidos por observadores que se encontram nos dois lados opostos da galáxia determinadas medições sobre os fotões
demonstrarão ser correlacionadas (Brockman, p. 86).
Einstein, enquanto pai da relatividade, era incapaz de conceber esta ideia e inclusive publicou, em 1935, um
artigo 1 que considerava a mecânica quântica errada ou incompleta precisamente devido às correlações destas
partículas gémeas. Pois tais correlações implicavam a existência de um processo de transmissão de sinal instantâneo
e, como tal, maior do que a velocidade da luz e isso punha em causa a relatividade. A história não lhe daria razão.

cena 1
Em 1964, John Bell, físico do CERN, a Organização Europeia para a Investigação Nuclear, apercebeu-se deste erro
e formulou uma demonstração matemática elegante e brilhante conhecida como teoria da desigualdade de Bell. Estas
correlações podiam ser explicadas pressupondo que a realidade sub-atómica fosse não-local.
Bell demonstrou que existiam apenas dois cenários - ou a teoria quântica estava incorrecta ou então só subsistiam
duas possibilidades

a nível sub-atómico a realidade não existe ou todas as partes do universo estão infinitamente interconectadas

1
Can Quantum-Mechanical Description of Physical Reality Be considered Complete? (1935) em co-autoria com Borys Podolsky e Nathan Rosen

143
cena 2
John Clauser e Stuart Freedman dos Laboratórios Lawrence Berkeley estiveram entre os primeiros investigadores a
pôr à prova a formulação de Bell. Em 1972, imaginaram o seguinte experimento: foram instaladas fontes de produção de pares
de fotões gémeos. Depois da sua emissão, os fotões eram enviados em direcções diferentes, cada um no sentido de um filtro
polarizador, por detrás do qual estava um fotomultiplicador predisposto para captar o impacto dos fotões.
Depois desta experiência, Clauser e Freedman descobrirão que o comportamento das partículas corroborava as
previsões da teoria quântica.
Como tinha sublinhado Bell, Se a teoria quântica estava correcta o universo não era objectivo ou a realidade
sub-atómica era não –local. Os críticos argumentaram que os fotomultiplicadores não eram eficazes a 100 por cento e que os
filtros polarizadores não deixavam passar correctamente os fotões

cena 3
Só em 1982, Alain Aspect, co-ajudado por Crangier e Freedman, imaginou um experimento que satisfez as
exigências colocadas pelos críticos. Antes de mais os analisadores usados forma colocados à distância de 13 metros um do outro
pelo que não existia nenhuma possibilidade que os fotões interagissem entre si através de algum processo físico conhecido.
Foram ainda usadas máquinas muito refinadas – dispositivos de comutação tão rápidos e precisos que podiam corrigir o
ângulo dos filtros polarizadores depois dos fotões seriam disparados, mas antes de terem a possibilidade de atravessar o inteiro
comprimento da sala. Como tal, qualquer sinal que fosse propagado entre um analizador e outro com informação da direcção
de comutação teria que viajar à velocidade da luz para poder influir sobre qualquer medição. A experiência foi realizada e as
previsões da teoria quântica revelaram-se correctas. Hoje não existe qualquer dúvida.

“A teoria das variáveis locais escondidas morreu” anunciou o físico da Syracuse University na revista Nature de 23
de Setembro de 1983. A teoria das varáveis escondidas era a noção que um outro fenómeno – uma qualquer variável escondida
– podia explicar a aparente comunicação não-local entre partículas prevista pela teoria quântica. Durante décadas
permanecera como um possível deus ex machina até ser desconsiderada definitivamente pelo experimento de Aspect.
A teoria quântica tornou-se adulta e este facto repropõe-nos obviamente a sentença de Bell. A teoria quântica, a
convicção que a realidade seja local e todos os pontos no espaço e no tempo estejam separados, e a assunção que a realidade seja
objectiva não podem estar a três correctas. Se hoje podemos afirmar com convicção que a teoria quântica deve ser aceite como
uma concepção correcta da realidade, a qual das outras duas devemos renunciar, sem com alguma amargura?
Alguns, como o físico David Bohm, pensam que a nossa convicção que todos os pontos estejam separados no espaço e
no tempo deve ser revista. Ele afirma que para compreender o mundo dos quantos, devemos postular a existência de um terreno
multidimensional superior em que todos os pontos estão infinitamente interconectados (idem, p. 87 - 91)

Ou a realidade não existe ou todas as partes do existente estão ligadas entre si. Parece algo estranho, mas
em alguns séculos a Física chegou à mesma conclusão (mas provando-o experimentalmente) que Buddha (com mais
convicção e ligando ambas) em algumas semanas debaixo de uma figueira 2.

Com estes dados – sobre o micro - do espírito científico decorrente da Biologia (bioquímica) e da Física
(subatómico) podemos enfim responder em parte ao que é um homem:

um homem é:

1. um ser vivo que vive fechado num mundo perceptivo que se relaciona em contraponto harmónico com uma
miríade multifacetada de outros seres vivos todos estes fruto de um mesmo código de construção orgânica - o ADN

2. um composto de matéria complexo fruto de ligações entre partículas, energia e vazio que funciona como um
sistema de coordenadas para a formação de uma realidade subjectiva que é essencialmente uma possibilidade
retirada de uma realidade maior multidimensional

Tentemos analisar cada um destes pontos de forma a retirarmos todas as consequências para o pensamento
e para a acção – pois, o conhecimento só tem um real sentido que é aplicá-lo na conduta individual

2
talvez porque esse homem foi aquele que reuniu toda a tradição védica – uma tradição de origem milenar e transmissão oral – e os seus ensinamentos míticos sobre
multidimensionalidade, deus, corpo e holismo com a sua procura incessante pelo esvaziamento e clareza da mente

144
1.

a) a análise de Uexküll diz-nos que:

1)a constância da matéria é uma ilusão

2)cada ambiente perceptivo é uma unidade fechada em si mesma

Não existe uma floresta enquanto ambiente objectivamente determinado: existe uma floresta-para-o-guarda-florestal,
uma floresta-para-o-caçador, uma floresta-para-o-botânico, uma floresta-para-o-viajante, uma floresta-para-o-amigo-da-
natureza, uma floresta-para-o-lenhador e ainda uma floresta onde se perde o capuchinho vermelho

é uma história

e assim como a formiga que não sabe dos átomos e caminha na mão de um homem como se fosse uma
pradaria, também um homem não sabe do tempo e da energia unos e caminha na mão de um outro
gigante como se fosse um planeta

b) a descoberta do ADN diz-nos que:

1)existe um sistema simples de linguagem dentro de nós que serve para criar as formas complexas de todos os seres vivos – toda
a vida está ligada

2)este código de escrita surge à 4 mil milhões de anos depois do último bombardeamento pesado na Terra e manteve-se
inalterável durante esses 4 mil milhões de anos como forma perfeita de construção de tudo o que é vivo, inclusive todas e
qualquer parte constituinte do homem

Watson recusara os primeiros modelos do ADN porque não era belos e, como afirmou,
o que for verdade terá de ser belo 3

é uma história

e assim como o homem utiliza os seus códigos imperfeitos para criar seres inertes, também o tempo e a
energia criaram a matéria que vibra e finalmente um código perfeito de criação de seres vivos

é uma história, uma história para além de nós

É preciso compreender a limitação do mundo-próprio (e não viver na ilusão de um ambiente objectivo) e


depois humildade para reconhecer que estamos perante algo com inteligência e beleza bem maior que nós – e basta
olhar para a subtileza desses seres leves que povoam os céus a voar ou desses seres magnéticos que vagueiam pelas
profundezas do mar

3
citado por Clara Pinto Correia em Ler (1988) – verso de Crick, Francis, Vida – o mistério da sua origem e natureza, Gradiva, Lisboa, 2000

145
2.

a) o cálculo de Eistein diz-nos que:

1)a energia é matéria a uma grande velocidade e matéria é energia a pequena velocidade

2)a nossa concepção do mundo depende do sistema de coordenadas adoptado

e cada um de nós é um sistema de coordenadas

é uma história

e assim como a formiga que não sabe dos átomos e caminha na mão de um homem como se fosse uma
pradaria, também um homem não sabe do tempo e da energia unos e caminha na mão de um outro
gigante como se fosse um planeta

b) a descobertas da física quântica dizem-nos que:

1)um terreno multidimensional superior em que todos os pontos estão infinitamente interconectados – toda a matéria está
ligada

2)a realidade é uma escolha dentro de inúmeras possibilidades

a nossa mente é incapaz de compreender o resultado experimental do chamado two-slit experiment –


onde o mesmo objecto existe em dois sítios ao mesmo tempo
o mesmo objecto existe em dois sítios ao mesmo tempo
- o físico Feynman só conseguiu dizer It’s all quite mysterious. And the more you look at it more mysterious it seems 4

é uma história

e assim como o tempo e a energia criaram a matéria vibrante, também o homem apresenta-se como um
todo para completar a sua história além do espaço

é uma história, uma história em nós

É preciso compreender a limitação do mundo externo objectivo (e não viver na ilusão do realismo) e depois
a afirmação no próprio corpo do homem da subtileza desses seres leves que povoam os céus a voar ou desses seres
magnéticos que vagueiam pelas profundezas do mar

4
citado por Maria della Chiara na folha de apresentação da já referida conferência Que valores para este tempo organizada pela Fundação Calouste Gulbenkian

146
Benjamin encontrou Bloch um dia e contou-lhe uma história (citado em Agamben 2, p. 45 5):

um rabino, um verdadeiro cabalista, disse-me uma vez:

para instaurar o reino da paz não é necessário destruir tudo e dar início a um mundo completamente novo – basta mover
apenas um pouco esta taça ou este arbusto ou aquela pedra, e assim todas as coisas.
Mas este pouco é tão difícil de encontrar que, nos termos do mundo, os homens não o podem alcançar e é necessário que venha
até nós o messias

E Americo de Bene - nas palavras de Agamben diz-nos (idem, p. 16-17) que

Divino é o ser-verme do verme,


o ser-pedra da pedra.
Que o mundo exista, que qualquer coisa possa aparecer e ter um rosto,
que existam exterioridade e latência como a determinação e o limite de cada coisa – isto é o bem.
Pelo contrário o mal é a redução do ter-sido das coisas a um facto como qualquer outro

A única transcendência é as coisas serem as próprias coisas (assim era o Deus é tudo em tudo de Amerilco 6).
Não há nenhuma razão para estar vivo, mas é óptimo não ser nem esse quase infinito de mortes do passado, nem
esse infinito de mortos do futuro. Estar aqui e poder afirmar qualquer coisa a alguém.

Reentrar na história.

Numa carta a Schlosser 7, Goethe faz a seguinte formulação:

a. Na natureza há tudo o que no sujeito há


y. e ainda mais alguma coisa mais.

b. No sujeito há tudo o que há na natureza


z. e ainda alguma coisa mais.

b. pode conhecer a., mas y. só pode ser pressentido através de z.


Daqui procede o equilíbrio entre o mundo e o círculo da vida a que estamos votados

Partindo deste princípio – completamente em consonância com as conclusões precedentes e com a ideia de
auto-semelhança fractal – vamos aproveitar o percurso pela Ética proposto por Damásio (Damásio 2, p. 238-239):

Espinoza diz “a mente não tem a capacidade de perceber (...) excepto no que diz respeito a perceber ideias das afecções
do corpo”. Devemos também considerar as seguintes passagens, todas elas da Parte II da Ética:

a) (...) o objecto da ideia que constitui a mente humana é o corpo, o corpo tal como actualmente existe (...) E daí que o objecto da
nossa mente seja o corpo tal como existe e nada mais
b) compreendemos, assim, não só que a mente humana está unida ao corpo, mas também a natureza da união entre corpo e
mente
c) (...) de forma a determinar de que modo a mente humana difere de outras coisas e de forma a mostrar como as ultrapassa, é
necessário conhecermos a natureza do seu objecto, ou seja, o corpo humano. O que essa natureza verdadeiramente é não sou
capaz de explicar aqui, mas não é necessário fazê-lo para provar aquilo que proponho. Devo apenas dizer de forma geral
que na proporção em que qualquer corpo está mais adaptado do que outros para fazer certas acções ou receber certas
impressões ao mesmo tempo, também a mente, da qual é o objecto, está mais adaptada do que outras para formar
muitas percepções simultâneas

5
Scholen contou a Benjamin que contou a Bloch que escreveu em Spuren
6
para Spinoza, o demónio era a mais remota das criaturas, era essencialmente impotência e como tal não podia fazer mal – era ele quem mais precisava das nossas
preces
7
carta de Goethe a Schlosser de 19 de Maio de 1815 [p. 2 (Ha/B3, p. 304)]

147
Mais à frente Espinoza (idem, p. 241), na proposição 22, fala-nos da outra parte da questão

A mente humana percebe não só as modificações do corpo, mas também as ideias de tais modificações

Ou seja, para entrar na história é preciso alimentar o corpo e as ideias.

Carta vigorosa dum comerciante


do Senhor Ethan Amos Boyd a Maura, sua mulher.
Boston Massachussetts

5 de Julho de 1910

Penso em ti, a centenas de milhas de distância, e no nosso querido Vermont tão puro e verdejante,
reconciliando-me penosamente com estas ruas tórridas. Se não fosse a Fé, e a minha Crença sincera em que o
Espírito é tudo e que TODAS AS COISAS REAIS dele procedem, julgo que acharia insuportável o Negócio. Estou
só, meu amor, entre os Saduceus!
É para perseverar neste Egipto os meus ideais que decidi fazer de Moisés e gravei uma série de Tábuas que,
minha querida esposa, estou desejoso de partilhar contigo para melhor ficares a conhecer o modo de vida simples que
levo.

Evitar: Esforçar-se por :

Deitar tarde Deitar cedo (nunca depois das nove da noite)


Quartos mal ventilados Exercícios diários
Pão branco Pão escuro
Alimentos de origem animal (carnes e aves) Vegetais crus
Álcool Uma camchibada ocasional (para mim)
Mexeriquices Filosofia
Romances Clemência
Despesas Banhos

Alegra-me poder dizer-te que tenho conseguido manter este regime, sentindo-me bastante melhor, só por ter
comido vegetais durante toda esta semana

(citada 8 em Goody, p. 63)

Nesta carta vemos alguém no século XX a colher os frutos de uma forma de individual que se assemelha
(até na camchibada) a um componente de uma tribo primitiva de indígenas. E é a sua relação com deus que lhe dá a
força de ver claramente.

E agora imagine a força dos corpos que se levantam cedo, que se movem soltos no espaço, exercitando
músculos e nervos, que comem pão escuro e vegetais crus, que fumam do cachimbo em roda. E envolvidos pela mais
pura Natureza. Rodeados pela beleza e pelo aquele algo mais de Goethe.

Imagine a força dos corpos enquanto dançam, cantam e exortam os deuses.

Imagine a força de um pensamento livre recebido do céu.

Imagine ideias, emoção e corpos num só.

Entremos na história.

8
retirada das Correspondences (1973) de Anne Stevenson

148
Imagine que na realidade ainda estamos no tempo oral-mítico e que este apêndice de 5 000 anos do
humano só serviu para percebermos a nossa própria ficção. As histórias estão aí à espera. Os arquétipos erguem-se
unidos na sincronicidade. O actor é aquele que esvaziou corpo e mente. Para voltar a abrir os olhos iluminados. Ele
age. Encontra a verdade da sua acção no sentir. Não existe, nem pensamento, nem linguagem, só som e gesto. O
lugar onde destino e liberdade se encontram.
Entremos na história 9.

Os membros de uma tribo existem enquanto presença.

Com os corpos limpos, as emoções limpas, a mente limpa.

São mulheres, Mulheres

e homens e crianças que dançam e jogam.

Sem medo.

Afirmam-se com a sua memória, a memória que é todo o seu corpo e toda a sua vida.

Estão livres da especulação, dos dramas parentais e sociais,

estão livres no espaço.

Observam atentos, invisíveis, silenciosos a magia presente em todas as coisas da Natureza.

Cantam e dançam.

sinto que um Homem pode ser feliz Neste Mundo.


e sei que Este Mundo É um mundo de imaginação & Visão.
Vejo tudo o que pinto Neste Mundo, mas nem toda a gente vê da mesma maneira.
A árvore que comove alguns até às lágrimas de alegria, é aos Olhos de outros uma Coisa verde no meio do caminho.
Alguns Vêem na Natureza apenas Ridículo & Deformidade & não é por esses que regulo as minhas proporções.
Outros Nem sequer vêem a Natureza.
Mas aos Olhos do Homem de Imaginação, a Natureza é a própria Imaginação.
Tal como o homem é, Assim ele Vê.
Tal como é formado o Olho, assim são os seu poderes.
Estais por certo Enganado quando dizeis que as Visões da Fantasia não se encontram Neste Mundo.

William Blake

Sem medo.

Vêem mais além.

Humildemente encurvam-se perante a Natureza.

E sentem o tempo.

cada coisa, ao mover-se, num momento ou outro, aqui e ali marca um tempo de paragem
a ave que voa para um lugar onde fazer o seu ninho, num outro para repousar
o homem em marcha para quando quer
assim, o deus parou

9
citações que se seguem: Blake - carta de 16 de Agosto de 1799 dirigida ao reverendo Trusler (Blake, p. 21); Sioux - retirado de A study of Siouan cults (1894) de J.
Dorsey (citado em Strauss, Lévi, O totetismo hoje, Edições 70, Lisboa, 2003, p. 125); Holderlin - carta ao seu irmão citada em Heidegger, Martin, Hinos de Hölderlin,
Instituto Piaget, Lisboa, 2004, p. 41; Artaud – Artaud, p. 73

149
o sol, tão brilhante e magnífico, foi um lugar onde ele parou
a lua, as estrelas, o vento, são lugares onde esteve
as árvores, os animais, todos são pontos seus de paragem
e o Índio pensa nestes lugares e dirige-lhes as suas preces
para que atinjam o local em que deus parou

índios Sioux

Os seus corpos esvaziados recebem energia de todos os lados – do seu movimento e da Natureza.

As mentes esvaziadas recebem ideias.

Os membros de uma tribo afirmam-se na sua presença.

Na sua voz.

Estão atentos.

Vivos.

Estão prontos.

Temos que nos manter unidos em toda a nossa penúria e no nosso espírito. Sobretudo queremos interiorizar com
todo o amor e toda a seriedade o grande dito que é homo sum, nihil humani a me alienum puto; ele não nos deve tomar
levianos, só verdadeiros como nós próprios e clarividentes e tolerantes em relação ao mundo, mas, depois, também
não queremos ser impelidos, por nenhuma conversa fiada de afectação, exagero, ambição, estranheza etc, de lutar
com toda as forças, e de ver com toda a acuidade e ternura como colocar tudo que há de humano em nós e nos
outros num contexto cada vez mais livre e mais íntimo, seja na representação alegórica ou no mundo real, e, se o
reino das trevas quiser irromper com violência, atiramos a pena para debaixo da mesa e vamos, em nome de Deus,
para onde a necessidade for mais premente e onde formos mais precisos. Adeus!

Friedrich Hölderlin

Sem medo.

Os guerreiros entram na floresta mental com rombos de medo;


um imenso arrepio, uma volumosa rotação como que magnética apodera-se deles, em que sentimos que se
precipitam meteoros animais ou minerais.

É mais do que uma tempestade física, é um triturar do espírito significado pelo tremor esparso dos seus membros e
dos seus olhos que se reviram.

A frequência sonora da sua cabeça eriçada, por vezes, é atroz;


e a música por trás deles oscila e ao mesmo tempo alimenta não se sabe muito bem que espaço
onde pedregulhos físicos acabam de rolar.

E atrás do Guerreiro, eriçado pela formidável tempestade cósmica,


aparece o Duplo que se empertiga, entregue à puerilidade dos seus sarcasmos de escolar
e que, erguido pelo contra golpe da ruidosa tormenta,
passa inconsciente em meio de encantamentos dos quais nada entendeu

Antonin Artaud

150
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we are back to the stone age, but now the stone is other
inscrição numa mesa do Parque Silva Porto, cidade de Lisboa
tudo acontece porque tem de acontecer
se nada acontecesse
nada saberíamos
nada entenderíamos
inscrição grafitti num beco em Xabregas, cidade de Lisboa
de não saber o que me espera
tirei à sorte a minha guerra
recolhi sombras onde vira
luzes de orvalho ao meio-dia

vítima de só haver vaga


entre uma mó e uma espada
mas que maneira bicuda
de ir à guerra sem ajuda

viemos pelo sol nascente


vingámos a madrugada
mas não encontrámos nada
sol e água sol e água

de linhas tortas havia


um pouco de maresia
mas quem vencer esta meta
que diga se a linha é recta
texto de uma canção de Zeca Afonso
eu acredito no ser
inscrição numa casa em ruínas junto ao Vulcão dos Capelinhos, ilha do Faial
prelúdio:
no mundo
1999
I

Diário de bordo:
o Nome não é estranho
também a lua se mede aos palmos
todas essas mentiras não passam
de pequenas verdades escondidas
e a tecnologia é tudo isto a ficção
o poeta que escreve no computador
mas quer prezar a sua identidade
quer manter a sua identidade
e esquecer
um mundo lá fora porquê o dentro
um mundo lá fora

II

Às vezes penso em árvores


e em como seria bom tocar-lhes.
Um dia, encontrei uma a árvore
como nos livros bela
uma resistência irracional
não consgui tocar apeteceu-me chorar
corri para casa o abrigo finalmente.
Durante doze dias não pude sair de casa.

III

Nada faz aquele sentido que previ


a empresa o carro a casa.
Dizem-me constantemente que deveria ser feliz
eu até sou feliz
julgo que sou poeta e escrevo
quase consigo vislumbrar a razão,
ao longe.

IV

Estas coisas que escrevo não passam


de mentiras é o meu desporto de sedentário…
mas algo agita-me quando falo em mentira
e isso transtorna-me profundamente
como um sonho
em que estou tão perto tão perto
Do quê?
Sim, da verdade.
Mentiras, mentiras, mentira…
V

Que tempestade é esta que se levanta no meu ser?


( e eu vos falaria da tempestade se conhecesse o mar )
a metáfora que sentido faz
para quem não conhece a verdade?

VI

Falei com deus ontem


E percebi, tal como os meus colegas,
que ele não existe
e que o cristianismo é como o comunismo.

De entre as invenções humanas


a de deus é a que eu mais gosto
porque falo com ele e sei que posso contar com ele
é um amigo
um amigo inexistente, mas um amigo
como não existe sei que posso confiar nele
sei que posso amá-lo.

VII

Nunca conheci uma mulher,


ou melhor,
nunca encontrei uma mulher que me conhecesse
mas eu não perciso disso.

Contudo, inexplicavelmente,
continuo à procura à procura
e sei que não é só isso que procuro
tudo começa a ficar mais claro
a fantasia.

VIII

o candeeiro de tão baixo


segue a curva das minhas costas
um reflexo o espanto
sei agora que tornei-me n’algo horrendo
sempre o fui e, no entanto, pressinto
numa sensação milenar
já ter sido algo melhor uma promessa de perfeição.
O que terá acontecido?
IX

Já consigo ouvir a tempestade que chama por mim


a luz lá fora prende os sentidos
sentes o poder, meu amigo
a força que abala os fundamentos de tudo e do nada.

o candeeiro abana sem vento o vento lá fora


há um mundo lá fora a terra treme
todos aqueles objectos agora com vida a dança das sombras
a terra treme chama por mim.

Abro a porta a porta fica aberta


batendo contra a parede enfim casa de ninguém
a dor tão antiga tão real
sei agora que sempre estiveram à minha espera
o destino será então meu
a imortalidade é apenas um promenor
só espero que alguém leia isto
talvez assim talvez assim
tantas mentiras para uma só verdade
como é assustador o simples ainda sinto
o círculo vai-se fechando enquanto caminho
quase não sei para onde vou tenho medo
é tão forte isto dentro de mim
o círculo fecha-se cada vez mais
o vento a chuva entram violentamente dentro de mim
tudo faz sentido tudo faz sentido está tudo certo
já consigo ver a árvore
e também ela estava dentro de mim
todos os elementos num único ponto do mundo
a terra treme a Hora chegou.