CONSELHO BRASILEIRO DE PSICANÁLISE ( I. N.N.G.

)

A VERDADEIRA E Á FALSA PSICANÁLISE

Autor: Dr. Gastão Pereira da Silva

1— A prática
Estamos acompanhando, neste resumo de indicações, que antecedem a prática da Psicanálise, o próprio pensamento de Freud, resumindo, portanto, tudo aquilo que ele teve ocasião de dizer, quando tratou da técnica de seu método. Assim, nada mais estamos fazendo que sintetizar a essência de suas lições magistrais, que devem ser seguidas por todos aqueles que desejam realizar "psicanálise verdadeira" e ortodoxa. Ê claro que os ecléticos podem modificar o método, mas estes, como já tivemos ocasião de mencionar, em outro lugar, não são psicanalistas puros. Quando não fazem Psicanálise selvagem, misturam-na com tantos outros processos psicoterápicos, nos quais não deixam de entrar em modernas aquisições da eletroterapia.

2— Como reagem os pacientes
Como ficou esclarecido, nossa terapêutica fundamenta-se no conhecimento da natureza inconsciente de certos e determinados processos anímicos, causa de todos os sintomas patológicos. Já vimos, também, que a descoberta e a tradução do inconsciente só é possível vencendo-se a resistência do paciente. Para isso, no entanto, isento de preconceitos e emancipado, há de intervir o psicanalista, natural e sincero. E quais as regras que podemos apontar ao psicanalista para que ele leve a cabo um tratamento coroado do êxito esperado? Freud faz a esse respeito uma comparação oportuna. Diz ele que, se intentarmos aprender nos livros o jogo de xadrez, desde logo chegaremos à conclusão de que só as aberturas e os finais das partidas podem ser objeto de uma exposição sistemática exaustiva, na qual fica subtraída, totalmente, a infinita variedade das jogadas seguintes à abertura, ilustradas pelos tratados dos xadrezistas. Assim, as regras que podemos assinalar para a prática dos tratamentos analíticos estão sujeitas a idêntica limitação. A extraordinária diversidade das constelações psíquicas, a plasticidade de seus processos, a riqueza dos fatores que estes determinam, opõem-se, na realidade, a uma mecanização da técnica. Contudo, isto não impede o registro de algumas normas gerais de conduta. Desse modo inicialmente devemos deixar que o paciente fale o mais possível, só intervindo com explicações estritamente necessárias para a continuação daquilo que ele nos está relatando. Esta norma não só tem a vantagem de nos fornecer o chamado período de prova, que deve durar algumas semanas, como também o de motivar a possibilidade de um

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diagnóstico. Este período de prova é na maioria dos casos imprescindível, pois nunca podemos assegurar se curamos um doente sem o ouvirmos por largo espaço de tempo. Não raras vezes, encontramo-nos diante de certas formas de neuroses que nos confundem com o início de uma psicose. Assim o prelúdio de uma esquizofrenia com certos e determinados estados neuróticos, accessíveis ao tratamento analítico. No caso de um enfermo não ser um histérico, ou não sofrer de uma neurose obsessiva, mas sim de esquizofrenia, nada poderá esperar do psicanalista que, em tais casos, falha por completo, incorrendo, desse modo, numa falta e desacreditando-se perante o paciente. O tratamento de ensaio, prolongado por algumas semanas, refletirá, forçosamente, as manifestações negativas, dando ao analista a faculdade de não levar mais adiante a tentativa de tratamento.

3 — Significado das palestras
Não devemos prolongar muito as nossas palestras com os clientes. Relação de amizade entre o analista e o analisado é desfavorável ao tratamento.(Freud) Essa asserção de Freud não pode hoje ser levada a rigor, pois há casos de psicoses nos quais a Psicanálise, se não cura, pelo menos melhora, ou atenua os sintomas.

4 — Quando devemos desconfiar
Cabe ao psicanalista desconfiar sempre daqueles pacientes que lhe pedem prazo para iniciar o tratamento. A experiência ensina que é inútil conceder esse prazo, pois isto significa apenas o propósito de iludir o tratamento.

5 - O desfecho previsto
O psicanalista que se encarrega de tratar da mulher ou do filho de um amigo pode preparar-se para perder essa amizade, qualquer que seja o resultado da análise. Contudo, se for forçado a isso, pela ausência de um substituto, deve sacrificar-se e resignar-se ao desfecho previsto.

6 — As resistências
A crença ou a descrença de um paciente no valor terapêutico da Psicanálise nada ou pouco significam, comparadas com as resistências internas que mantêm a neurose. Em nenhum dos casos, o paciente estará em condições de formar um juízo seguro sobre a nossa doutrina.

7 — O tempo e o dinheiro
Outra questão de suma importância é a que se refere às condições de tempo e de dinheiro. No que se refere ao tempo (durabilidade das sessões), Freud segue rigorosamente e sem exceção alguma o princípio de reservar para cada paciente uma determinada hora. Esta hora lhe pertence por completo. É da sua exclusiva propriedade e a ela terá, portanto, de responder financeiramente, ainda que não a utilize.

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Este é o critério que também adotamos e que não constitui novidade na nossa especialidade, pois do mesmo modo procedem os dentistas de classe e os médicos, na sua maioria. Na Psicanálise, porém, essa medida tem menos um sentido material, que psicológico: obriga o cliente a ser pontual às sessões, as quais, espaçadas ou interrompidas, perdem em eficácia. Em geral, são suficientes três sessões, de 40 a 45 minutos, por semana. Freud, no entanto, aconselha uma sessão diária, excluindo os dias feriados e domingos, reservando os dias intercalados para os casos mais leves. No que se refere ao tempo que pode levar um tratamento havemos de nos lembrar daquela resposta que deu Esopo a caminhante que lhe perguntou quanto tempo levaria para chegar ao ponto final da sua viagem: "Depende do passo", disse-lhe Mas essa comparação nos serve apenas para vencer as primeiras dificuldades, pois a caminhada não depende, aqui, nem do analista, nem do analisado, porque o médico não pode correr, deixando o cliente atrás e este último troca o passo a todo instante Assim, torna-se impossível fixarmos de antemão a durabilidade do tratamento. Aqui está, sem dúvida alguma, um dos pontos vulneráveis da Psicanálise, senão talvez o maior empecilho para ser uma terapêutica ideal. Em geral, as pessoas que nos procuram estranham e desanimam diante do prazo longo a que sempre somos obrigados a nos referir quando desejamos iniciar um tratamento. A ignorância, principalmente de indivíduos mal-intencionados, leva-os a pensar em uma suposta exploração financeira por parte do analista, mormente quando não é o próprio paciente que vai custear o tratamento e sim aquele ou aqueles que respondem por ele. Ora, quando não bastasse a natureza do processo analítico que, como vimos, só pode ser moroso, pois ninguém é capaz de desfiar sentimentos inconfessáveis, como quer extirpa um pequeno quisto -- quando isto não bastasse, repetimos, seria suficiente meditar um pouco sobre o tempo em que um cliente se debate com a sua neurose, para se concluir que, por mais longo que seja um tratamento, muito pouco ele representa, em relação ao tempo em que, em geral, se encontra enfermo, o paciente. Mesmo que assim não fosse, por mais que seja prolongado um tratamento, é sempre um pequeno parêntese, um hiato, no curso de uma existência humana.

8 — Os obstáculos
Desse modo a Psicanálise precisa sempre de longos períodos para que os resultados sejam coroados de êxito. Assim, nunca devemos iludir-nos, nem iludir os nossos clientes. Ao contrario cabe-nos adverti-los de que a terapêutica analítica apresenta inúmeros obstáculos a serem vencidos e sacrifícios que exigem nítida compreensão. Freud chama a atenção para aqueles que, diante das perspectivas demoradas de um tratamento, renunciam a ele. Acrescenta que essa categoria de cliente não é, desde logo, adequada à análise. Com isso, realizamos, de início, uma seleção bastante proveitosa. A abreviação de um tratamento, diz Freud, é uma aspiração perfeitamente justificada da Psicanálise. Contudo, as modificações anímicas mais profundas vão de encontro a esse ideal. O analista pode, não raras vezes, alcançar resultados positivos importantes, num espaço de 3

tempo relativamente curto, mas nunca pode determinar precisamente quais sejam esses resultados. A solução, ou melhor, a libertação das repressões (ou recalques) existentes obedecem a uma trajetória por assim dizer imprevisível. De maneira geral, os processos psíquicos, uma vez iniciados, seguem o seu caminho próprio, sem marcar uma determinada direção e muito menos a sucessão das idéias que vão sendo atacadas. Como vemos, trata-se de urdidura extremamente complicada, determinada por acontecimentos psíquicos remotos.

9 — A remoção de um sintoma
Toda neurose possui caracteres semelhantes a um organismo. Seus fenômenos parciais não são independentes entre si. Ao contrário. Condicionam-se e se apoiam uns nos outros. Às vezes, a remoção de um sintoma, intolerável pelo enfermo, se substitui por outro, mais intolerável ainda, que parecia benigno até aquele momento.

10 — A valorização sexual do dinheiro
Uma outra questão ou aspecto de grande relevância em todo tratamento é, sem dúvida alguma, a que se refere aos honorários do psicanalista. Na valorização do dinheiro, participam poderosos fatores sexuais. Em apoio a esta asserção, "pode-se dizer que o homem civilizado atual observa, nas questões de dinheiro, a mesma conduta observada por ele nas questões sexuais, isto é, o mesmo falso pudor e a mesma hipocrisia" (Freud). Ao psicanalista, no entanto, não cabe à mesma atitude. Deve tratar os problemas financeiros com sinceridade, renunciando assim ao falso pudor e comunicando ao seu cliente, com a máxima espontaneidade, em quanto estima o seu tempo de trabalho. Aprendemos com Freud que os tratamentos baratos não contribuem, de modo algum, para sermos mais estimados pelos clientes e que também evitaremos muitos aborrecimentos, se não deixarmos que se acumulem somas nas mãos do analisado. Por outro lado, aprendemos também que é indubitavelmente mais digno, e mais moral até, declararmos, com toda nossa franqueza as nossas necessidades e as nossas aspirações aos nossos clientes, do que fingir de filantropos ou desinteressados com a nossa situação econômica, como hoje ainda é habitual entre alguns médicos. Freud, sendo judeu, foi muito atacado por falar com essa sinceridade, mas só quem pratica a Psicanálise sabe quanto ele tem razão. Basta dizer que por mais que um psicanalista trabalhe, jamais conseguirá ganhar mais que outro qualquer especialista. Enquanto um médico qualquer examina e receita para cinco ou seis clientes, o psicanalista só poderá atender a um paciente. Além disso, a energia despendida é notoriamente muito maior. Outro fator desfavorável à exigência monetária do psicanalista é a que se refere ao próprio processo simples e sem exibições de uma análise. Nós não temos aparelhagens custosas, não dispomos de instrumentos, de aparelhos elétricos, nem mesmo de receituário... A falta de tudo isso, diante do preço que pedimos ao paciente, parecerá sempre exagerado, quando mesmo não o decepciona. A vida se valoriza pela

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aparência. E quanto mais é complicado um consultório, maior será a sugestão provocada no espírito de quem o frequenta. Freud mantinha o seu consultório num bairro modesto de Viena, em cima de um armazém. O seu ambiente era por de mais singelo e inúmeras foram as pessoas que, abalando-se do estrangeiro para procurar o sábio famoso, se esqueciam até mesmo de fechar a porta de entrada, mostrando, com esse lapso a desilusão que tiveram de entrar num gabinete tão pobre. E isto na Europa. . . Imaginem no Brasil.

11 — O problema econômico-financeiro
O problema econômico-financeiro do tratamento analítico ainda hoje apresenta muitos outros aspectos que nos levariam longe. Acreditamos que a Psicanálise só será uma realidade, no Brasil, quando chegar a hora de a Medicina ser socializada, pois existem em grande número indivíduos que não podem manter tratamento, por mais barato que ele seja, e assim veem-se privados dos proveitos de nossa terapêutica, de vez que a sua gratuidade é inteiramente impossível, dada a sua extensão, que nos rouba meses e até mesmo anos. Mas, ainda que o psicanalista fosse rico e pudesse realizar tratamentos gratuitos, teria ele alguma vantagem nisso? Vamos dar a resposta com as próprias palavras de Freud: "Pessoalmente estou autorizado a formular juízo sobre a questão. Durante dez anos dediquei uma hora diária a tratamentos gratuitos, guiado pela ideia de iludir todas as fontes de resistência possíveis, para que isso me facilitasse a tarefa de penetrar na essência da neurose. Essa conduta, entretanto, não me proporcionou, em nenhum caso, o objetivo visado." E acrescenta: "O tratamento gratuito intensifica acentuadamente algumas das resistências do neurótico." Os clientes se sentem como que diminuídos perante o médico e se rebelam contra o dever de gratidão. A questão do dinheiro em Psicanálise é, como dissemos, de complexa explicação, ficando, desse modo, ainda muita coisa a dizer. Contudo, os que se dedicam profissionalmente à Psicanálise entenderão melhor o problema que o comentário que fizemos neste sentido.

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