You are on page 1of 30

ÍNDICE

 

0 Introdução

2

1 Transformadores

2

1.1

Transformador monofásico

2

1.1.2 Ensaio em curto-circuito

13

1.1.3 Ensaio em vazio

14

1.1.4 Agrupamento de transformadores monofásicos

15

1.1.5 Aspectos de carácter construtivo

17

1.2

Transformador trifásico

18

1.2.1 Disposição dos enrolamentos

21

1.2.2 Componente homopolar

23

1.2.3 Harmónico de 3ª ordem

26

Máquinas Eléctricas II

MÁQUINAS ELÉCTRICAS II

0 INTRODUÇÃO

A ideia da teoria unificada das máquinas eléctricas (Charles Jones, Un. Liverpool) é a seguinte: há dois processos de abordar a análise duma máquina: a teoria dos circuitos e a teoria dos campos. Nesta estudamos as reacções de uns elementos sobre os outros, através dos fluxos magnéticos encadeados para chegar a equações onde estes são substituídos por correntes, f.e.m. e coeficientes de indução. Na primeira ignoram-se esses encadeamentos de fluxos e procura-se olhar a máquina de fora para dentro i.e. tentar representar os circuitos da máquina e escrever directamente as equações que traduzem os acidentes deles (R, L, E). A teoria unificada apoia-se neste segundo método e então há uma afirmação feita que é: é possível conhecer com muita aproximação o comportamento de qualquer máquina eléctrica unicamente a partir de raciocínios que se façam sobre circuitos determinados exclusivamente por medidas feitas sobre a máquina com ela parada. O processo de medir e representar o circuito é o mesmo para todas as máquinas, só o circuito vem diferente conforme o processo de fazer as medidas. Isto baseia-se no seguinte: todas as máquinas eléctricas que aproveitam os fenómenos electro-magnéticos são constituídas por órgãos de funções semelhantes. As grandezas postas em presença são sempre as mesmas:

circuitos eléctricos com impedâncias, circuitos magnéticos com relutâncias, saturação e histerése; movimentos eventualmente, rectilíneos ou de rotação; f.e.m. e tensões, e consequentemente intensidades de corrente; campos magnéticos e fluxos. As leis que regem estas grandezas são sempre as mesmas: leis de Maxwell, leis de Ohm e leis de Kirchoff.

Para cada tipo de máquina esses elementos estão arrumados de modos particulares típicos da transformação de energia que se pretenda realizar.

Há máquinas que, com os mesmos órgãos, são capazes de realizar diferentes transformações de energia, como a máquina de corrente contínua, motor ou gerador, e a comutatriz, que é semelhante à máquina de corrente contínua, mas em que o induzido tem um colector de lâminas e um de anéis: 3 anéis ligados a 3 pontos do induzido. As f.e.m. que captam constituem um sistema trifásico de f.e.m. simétrico. Pode funcionar como motor de c.c. ou gerador, ou alimentando com c.a. pode funcionar como motor de c.a., ou alimentando com c.a. tirar c.c. (rectificador).

Então não será possível arranjar uma máquina com um número de órgãos suficientes para ter uma máquina generalizada? i.e. uma máquina capaz de realizar todas as transformações de energia (máquina integral)? É possível!

Então estudando a máquina integral, consegue-se estabelecer um raciocínio que conduza às equações gerais das máquinas eléctricas e depois bastará delas aproveitar a parte correspondente aos orgãos da máquina particular.

1 TRANSFORMADORES

1.1 TRANSFORMADOR MONOFÁSICO

Num transformador existe um núcleo com o aspecto seguinte:

— 2 —

Máquinas Eléctricas II

que representamos por:

Primário Secundário φ 0 I n I 2 1 n 1 2 U 1 U
Primário
Secundário
φ
0
I
n
I 2
1
n 1
2
U 1
U 2

O primeiro esquema diminui as fugas de fluxo entre os dois enrolamentos. Procuremos relações entre as

grandezas. O primário recebe a energia e o secundário fornece a energia.

Vê-se que um transformador monofásico pode ser considerado como um quadripolo, logo hão--de existir equações que relacionem as tensões e as intensidades. São as equações dos quadripolos. Basta-nos então definir

os parâmetros que hão-de aparecer nelas.

Vamos pela teoria dos fluxos. Suponhamos que o transformador não tem perdas nem fugas — transformador ideal — , i.e. a resistência dos enrolamentos é nula e no núcleo não há perdas magnéticas, logo o ciclo histerético não tem área e a resistência do material é infinita. Se além disso o secundário estiver em circuito aberto, no ferro circula um fluxo φ o resultante da passagem da corrente I o no primário, valor particular de I 1 quando I 2 é nula. Então

U 1

I o = jX

de I 1 quando I 2 é nula. Então U 1 I o = j X

= -j

U 1

X

O fluxo φ o é alternado provocado por I o . Sabe-se da lei de Hopkins que

φ o = n 1 I o R
φ o = n 1 I o
R

como n 1 e R são constantes, a lei é aplicável a valores simbólicos. Logo

φ o = -j n 1 U 1 R X
φ o = -j n 1 U 1
R
X

— 3 —

Máquinas Eléctricas II

O

fluxo φ o vai atravessar as n 1 espiras do primário, desenvolvendo uma f.e.m. dada por - dφ dt

ωn 1 2

n 1 , ou

E 1 = -j ω φ o n 1 = - U 1 RX Mas
E 1 = -j ω φ o n 1 = -
U 1
RX
Mas por definição de coeficiente de auto-indução,
n 1 2
X
L =
R = R

E 1 = - U 1

Como o fluxo passa através das n 2 espiras do secundário, nele vai-se desenvolver uma f.e.m. dada por:

n 1 n 2

E 2 = -j ω φ o n 2 = - ω

U 1 RX
U 1
RX

E 2 = -

n 2 U 1 n 1
n 2
U 1
n 1

Vejamos o diagrama vectorial destas grandezas:

-U 1 O cociente E 1 E 2 = - n 2 n 1 U
-U 1
O cociente E 1
E 2
=
- n 2
n 1 U 1
U 1 E 1 E 2 φ 0 I 0 n 2 E 1 =
U 1
E 1
E 2
φ 0
I
0
n 2
E 1
=
=
é real.
n 1
E 2

A n n 2 2 = m chama-se razão de transformação do transformador.

Vejamos agora como introduzir a carga no secundário, i.e.

— 4 —

Máquinas Eléctricas II

U 1

φ I 0 1 I I 2 n 0 n 1 2 E 1 E
φ
I
0
1
I
I 2
n
0 n 1
2
E 1
E 2
U 2
Z

Se fecharmos o secundário sobre uma impedância dado ângulo de esfasamento:

Z = R + jX

aparecerá uma corrente I 2 que faz com E 2 um

φ 2 I 2 U 1 φ 0 E 1 E 2 φ 1 I
φ 2
I 2
U 1
φ 0
E 1
E 2
φ 1
I 0
I 1

Mas I 2 cria um fluxo φ 2 no núcleo que irá sobrepor-se ao φ 0 . φ 2 estará em fase com I 2 , visto que φ 2 =

n2.I 2

R

.

O aparecimento de φ 2 com φ 0 dará lugar a um fluxo resultante que irá dar lugar à alteração das f.e.m. pois estas

Mas E 2 não pode modificar-se, pois

se o primário não tem impedância, E 1 tem de ser igual e oposta à tensão aplicada. Isto é: aconteça o que acontecer, o fluxo resultante tem de ser φ 0 . Isto quer dizer que, ao aparecimento de φ 1 , terá de corresponder o de um fluxo φ 1 criado pelo primário que, somado a φ 2 φ 0 . Por outras palavras: o aparecimento de I 2 obriga ao aparecimento duma corrente diferente no primário, I 1 em vez de I 0 , capaz de criar φ 1 .

são da forma -jωn 1 φ (ou n 2 ). Tudo se irá alterar com a variação das f.e.m

Diz-se que fechando o secundário cria-se uma corrente secundária que vai desmagnetizar o núcleo, tendo o primário de reagir por forma a dar de novo ao núcleo a magnetização primitiva. Qualquer potência tirada do secundário terá de ser fornecida ao primário.

Do diagrama vectorial tira-se que

φ 1 + φ 2 = φ 0 .

mas como

e

e

φ 1 = n 1 I 1 R n 2 I 2 φ 2 =
φ 1 = n 1 I 1
R
n 2 I 2
φ 2 =
R
n 1 I 0
φ 0 =
R

— 5 —

Máquinas Eléctricas II

vem que

que

transformador.

é

uma

segunda

equação

n 1 I 1 + n 2 I 2 = n 1 I 0

(

a

primeira

sendo

n 1 n 2 = E 1 E 2
n 1
n 2
= E 1
E 2

= m )

que

caracteriza

o

funcionamento

do

Mas esta pode tomar um aspecto particular quando o transformador funciona a uma fracção elevada de carga:

n 1 ( I 1 - I 0 ) + n 2 I 2 = 0

então, próximo das correntes nominais, verifica-se que I 0 <<I 1 (I 0 0,05.I 1 ); então não se comete erro apreciável se se escrever

Se assim é pode-se escrever que

n 1 I 1 + n 2 I 2 0

I

I

1

2

= - n 2

1

n

= - 1

m

e nesta altura podemos escrever esta expressão com os módulos ou quaisquer outros valores, eficazes, máximos etc.

Destas equações pode-se afirmar certas regras de construção do transformador. Se as correntes no primário e no secundário têm esta relação, devemos dimensionar os dois enrolamentos de modo que as correntes nominais se atinjam simultaneamente nos dois, donde:

I 1

n

= 1

m

I 2n

Pela mesma razão, as tensões nominais, cuja ordem de grandeza é a das f.e.m. correspondentes, também deverão estar relacionadas por:

então pode-se escrever que

U 1n U 2n = m

U 1n . I 1n = U 2n . I 2n

estes produtos sendo a capacidade da máquina, e então a capacidade quer vista do primário quer do secundário deve ser a mesma.

Consideraremos agora as perdas que se produzem no transformador.

As perdas são apenas as perdas Joule nos enrolamentos da forma R 1 I 1 2 e R 2 I 2 2 , as perdas magnéticas que se produzem no núcleo, por histerese e correntes de Foucault, que dependem da intensidade máxima do campo.

Ora o fluxo é sempre φ 0 e como a secção é determinada, então o campo magnético é constante em valor eficaz, donde as perdas no ferro serem constantes.

P f = const.

— 6 —

Máquinas Eléctricas II

P cu

R

 R 

R

1 I 1 2

2 I 2 2

variáveis.

Podem existir outras perdas, de ventilação, mas como o transformador é estático, não as podemos juntar às perdas da máquina. Teremos de ter ventiladores independentes. Consomem potência eléctrica e é tão medível que não vale a pena entrar com ela. interessam só para estudar o rendimento total.

Além das perdas do transformador real há outro fenómeno, dito de fugas [fugas perdas!] magnéticas. Quer

dizer que o fluxo produzido pelo enrolamento primário não atravessa todo o secundário, porque o ar não tem permeabilidade nula e o núcleo não tem permeabilidade infinita. Há parte do fluxo que se fechará através do ar.

É este o fluxo de fugas. Haverá fugas do primário e fugas do secundário. Vamos ver o efeito destes fenómenos

sobre o diagrama.

As resistências e reactâncias criarão a desigualdade entre as f.e.m. e as tensões. As perdas magnéticas provocarão

a destruição da perpendicularidade entre o φ 0 e o E 1 .

A presença do ferro faz com que haja um ligeiro atraso do φ 0 com respeito ao E 1 . As correntes de Foucault têm

comportamento análogo a pequenos secundários do transformador e então dão lugar ao aparecimento de pequenas correntes em fase com E 2 , donde haverá logo reacção do lado da corrente primária para manter o fluxo.

É mais um aumento da potência.

Correntes de Foucault E 1 E 2 Tr. ideal φ 0 c/ histerese c/ corr
Correntes de Foucault
E 1
E 2
Tr. ideal
φ 0
c/ histerese
c/ corr Foucault
I 0
I 0

Vamos deixar isto e prosseguir na obtenção do diagrama considerando só as perdas no cobre e as fugas de fluxo,

e depois introduzir estas perdas no ferro.

Então I 1 vai provocar dois fluxos que compostos darão o primário, que são o fluxo encadeado com o secundário

e o de fugas. Este último, desde que atravessa o ar, podemos supor que atravessa um circuito caracterizado por

uma dada reactância constante. Então dará lugar ao aparecimento de uma f.e.m. de auto-indução da forma j ω l 1

I 1 .

O resto do fluxo, que atravessa um circuito de permeabilidade variável, dará lugar ao aparecimento de uma f.e.m.

j ω n 1 φ.

Tudo isto é alimentado por U 1 :

U 1 = R 1 I 1 + j ω l 1 I 1 + j ω n 1 φ

chamando f ao fluxo encadeado pelos dois enrolamentos.

Do mesmo modo:

— 7 —

Máquinas Eléctricas II

j ω n 2 φ = R 2 I 2 + j ω l 2 I 2 + U 2 = ( R 2 + R)I 2 + j (ω l 2 + X) I 2

Uma terceira equação é:

com U 2 = (R + jX)I 2

n 1 I 0 = n 1 I 1 + n 2 I 2

Com estas três equações podemos traçar um diagrama vectorial mais completo.

Tomemos I 2 para origem das fases:

j ω

l 1 I

1

E = -j ω n φ 2 2 φ U 2 R I2 2 n1
E
= -j ω
n φ
2
2
φ
U 2
R I2
2
n1 I 0
jX I2
n
I
1
1
n
I
R I 2
2
2
E
= -mE
1
2
R I
1
1
U 1

jω

l

2

I 2

Pode simplificar-se este diagrama se se pegar na metade esquerda e aumentarmos a escala de m vezes. Então E 1 = E 2 . Se depois se rodar de 180°, virá:

— 8 —

Máquinas Eléctricas II

n 2 U 1 n 1 n 2 n jω l I 2 2 1
n
2
U
1
n
1
n
2
n
l
I
2 2
1
1
= j ωl
1 I
2 (
n 1
n
)
1
n2
E
=E
1
2
n 1
2
n
2
n2
R I
1
1
= R I
(
)
1 2
n
1
n
1
I
l 2
2
U 2
R I2
2
jX I2
R
I 2
n
desprezando I 0 como vimos. Mas como I 1 = I 2 n 1 2 , vem mais simples:
n
2 U
1
n
1
2
n2
[
l 2 +l
(
n
)
1
I
]
1
2
U 2
2
n
[
R
2 + R
1 (
)
I
2
n
2
1 ]
jX I2
R I 2

Estamos a fixar uma resistência e uma reactância que se chamam resistência combinada do transformador referida ao secundário como sendo a soma da resistência do secundário com a do primário referida ao secundário.

2

R c2 = R 2 + R 1 ( ) 2 = R 2 + R 1 m -2

1

n

n

X c2 = X 2 + X 1 ( n 2 ) 2 = X 2 + X 1 m -2

n

1

Poderíamos também referir estas grandezas ao primário. Apareceria então outro diagrama. Viria:

R c1 = R 1 + R 2 ( 2 ) 2 = R 1 + R 2 m 2


n

1

n

1

X c1 = X 1 + X 2 ( n 2 ) 2 = X 1 + X 2 m 2

n

— 9 —

Máquinas Eléctricas II

Se tivessemos o circuito

R c2 X c2 U 1 n2 n 1 U 2
R c2
X c2
U 1 n2
n
1
U 2

o diagrama vectorial do seu funcionamento seria o seguinte:

n 2 U 1 n 1 C B A U 2 R c2 I 2
n
2 U
1
n 1
C
B
A
U 2
R c2
I 2
jX I2
R I 2

j

X c2

I 2

então este circuito é equivalente ao transformador, nas condições propostas, sob o ponto de vista do diagrama de funcionamento.

Este diagrama assim simplificado é o diagrama de Kapp. Ao triângulo ABC chama-se triângulo de Kapp.

Tendo este esquema equivalente, temos simplificado o tratamento de problemas relativos ao funcionamento do transformador. Por exemplo:

Conhecemos a razão do transformador, a resistência combinada referida ao secundário e a reactância X c2 , e afirmamos que o transformador é alimentado à tensão U 1 . Admitamos que queríamos saber qual a queda de tensão produzida quando o transformador alimentasse um conjunto de receptores que absorvessem I 2 com esfasamento φ 2 .

— 10 —

Máquinas Eléctricas II

n 2 U 1 n 1 j X I 2 c2 φ R I 2
n
2 U
1
n 1
j X
I 2
c2
φ R
I 2
c2
U 2
O
δU 2
(Queda de tensão)
O

Vamos melhorar o rigor dado pelo circuito equivalente. Vamos ver como proceder para introduzir as perdas constantes, o efeito da corrente de magnetização, portanto.

Essa I 0 existe quer o transformador esteja em vazio quer à plena carga. Se estiver à plena carga, a influência da corrente de magnetização sobre os outros valores é pequena, mas em vazio o esquema equivalente dir-nos-ia que I 0 =0 o que não é verdade. O modo usual de introduzir I 0 é derivarmos uma admitância com dois ramos em paralelo, R' é ohmica e X' reactância. Escolhendo R' e X' convenientemente podemos reproduzir o efeito de I 0 .

n n 2 2 2 2 R 1 ( ) X 1 ( ) R
n
n
2 2
2 2
R 1 (
)
X 1 (
)
R 2
X 2
I 2
mI 1
n
1
n
1
n
2
U 2
U 1
2
n 1
n
2
n
R'
(
2 )
1
2
X'
(
n
)
1
U'
n

Como I 0 é uma corrente no primário, vamos considerar R' e X' como grandezas ligadas ao primário. Como o esquema está referido ao secundário, referimo-las também.

Sabemos que se no primário há E 1 , o fluxo φ 0 não está em quadratura atraso com E 1 por causa das perdas magnéticas e I 0 está ainda mais avançado pelas correntes de Foucault.

— 11 —

Máquinas Eléctricas II

R'

n

2

(

n

1

2

)

U 1 n2

n 1

ψ
ψ

I

0

n

1

n

2

II R' n 2 ( n 1 2 ) U 1 n 2 n 1 ψ

X' (

n

1

n

2

2

)

Vamos colocar o transformador em vazio, I 2 = 0

Podemos supor que U' U 1 n 1 2

n

por I 0 ser muito pequena. Será então:

I o I oR' I oX' R' ( n 2 n 1
I o
I oR'
I oX'
R' ( n 2
n
1

I oR'

ψ I o
ψ
I o

) 2 =

U 1

n 2

n 1

I 0

n n 2 1 cos ψ

e do mesmo modo

Substituindo encontramos:

R' =

U 1

I 0 cos ψ

X' =

1

I 0

sen ψ

I

1

n

n

1

2

= I 0 n 2 1

n

+ I 2

— 12 —

I oX'

Máquinas Eléctricas II

ou

(I 2 - I 0 ) n 1 = I 2 n 2 .

Nos cálculos de funcionamento entramos com a admitância derivada se a fracção de carga for pequena, senão utilizamos apenas o esquema inicial.

Para o traçado do esquema equivalente precisamos de conhecer:

R 1

X 1

R 2

X 2

n 1

n 2

R'

X'

As reactâncias são apenas as reactâncias correspondentes ao fluxo de fugas porque a outra parte está associada às f.e.m., pois diz respeito à transformação de energia.

Como medir estas grandezas? As resistências seriam fáceis de medir mas é preciso não esquecer que, pelo menos no lado da mais baixa tensão, ela tem um valor muito baixo e daí a dificuldade de uma medida rigorosa. Mas a resistência do enrolamento depende da temperatura de funcionamento da máquina, É na zona de plena carga que

as resistências vão ter um significado mais importante.

A técnica de medida designa-se por ensaios para obtenção dos valores característicos.

No transformador são dois os ensaios que chegam para todos esses valores: são o ensaio em vazio e o ensaio em curto-circuito.

1.1.2 Ensaio em curto-circuito

I 1n n 1 W U cc
I
1n
n 1
W
U cc
n I 2n 2 A
n
I 2n
2
A

A

tensão U cc é reduzida (tensão de curto-circuito) para que as correntes não venham de curto-circuito mas sim

as

nominais: em geral U cc = 0,05 U n .

No curto-circuito o diagrama fica reduzido ao triângulo de Kapp:

de onde se pode escrever:

n 2 U j X c2 I 2n cc n 1 R c2 I 2n
n
2
U
j X
c2
I 2n
cc n 1
R
c2
I 2n
n 2
U cc n 1
= Z c2 . I 2n

— 13 —

Máquinas Eléctricas II

n 1 podemos obter Z c2 . Se medirmos R 1 e R 2

tiraremos R c2 . Conhecido R c2 e Z c2 ficamos com X c2 . Com uma ponte podemos medir R 1 e R 2 e tirar R c2 se não forem muito pequenas. Um processo de medir a resistência consiste em montar um wattímetro do lado do primário. A potência lida é de perdas pois o transformador não fornece qualquer potência útil.

em módulos, onde se conhecem U cc e I 2n; . determinando n 2

As perdas medidas são perdas Joule

R 1 .I 1n 2

+ R 2 .I 2 2n

e as perdas magnéticas, mas se U cc ≅ 0,05 ou 0,1 U n então E cc ≅ 0,1 E n quando muito.

Então o fluxo φ cc ≅ 0,1 φ n e também a intensidade do campo, admitindo a proporcionalidade. Como as perdas magnéticas dependem do quadrado do campo, serão 100 vezes inferiores, logo desprezáveis. Então o wattímetro mede só as perdas Joule.

P = R 1 .I 2 1n + R 2 .I 2 2n

= R 1 .I 2 2n ( n 2 ) 2 + R 2 .I 2 2n

n

1

=

= [R 1 ( n 2 ) 2

n

1

+ R 2] I 2n 2 = R c2 I 2 2n

R c2 determina-se dividindo a leitura do wattímetro por I 2 2n :

R c2 =

P

2

I 2n

Como, pelo menos de um lado a resistência tem valor apreciável, facilmente se determinam as resistências R 1 e

R 2 separadamente.

A tensão U cc não costuma ser indicada em volts mas em percentagem. Então define-se a tensão de curto-circuito como sendo:

ε cc =

n

2

U cc .

n

1

U 2n

. 100 %

Esta tensão permite comparar transformadores de dimensões diferentes, e determinar rapidamente se dois

transformadores podem funcionar bem em paralelo, do ponto de vista da repartição da carga. ε cc traduz uma queda de tensão percentual.

1.1.3 Ensaio em vazio

I 1n n 1 A U 1n
I 1n
n 1
A
U 1n

n 2

V
V

— 14 —

U 2n

Máquinas Eléctricas II

Este ensaio permite determinar a razão de transformação, pois, aplicando U 1n ao primário e tendo o secundário uma resistência quase infinita, mede-se U 2n

U 2n U 2n = m

Os números de espiras dos enrolamentos não são obtidos, apenas a sua razão. O amperímetro permite medir |I 0 |. Com um wattímetro no primário medimos praticamente as perdas no ferro. Conhecidas estas, sabemos o esfasamento de I 0 relativamente à tensão U 1 , o ψ , que dá o valor da admitância derivada que terá de entrar no esquema equivalente completo do transformador.

Reconsiderando os resultados obtidos com os dois ensaios mais uma medida de resistência, vê-se que se podem conhecer todos os valores de que necessitamos par ao traçado do esquema equivalente do transformador.

Sobre a tensão de curto-circuito: essa tensão está, quando muito, entre 2 e 10%, e nos casos mais vulgares entre 3 e 6%; 4 a 5% são os casos mais frequentes. Esta tensão de curto-circuito é do maior interesse para o paralelo de transformadores; mas para isso apenas se sabe que os transformadores que se ligam em paralelo devem ter tensões de curto-circuito próximas e da mesma ordem de grandeza, altas ou baixas.

Vejamos

U n . 100% ) e portanto a

unidade transformador não vai acarretar grandes problemas de queda, logo necessidade de regulação de tensão. Mas em contrapartida mais severos se tornam os problemas das sobre-intensidades. Nessa situação os diferentes elementos que constituem o circuito vão oferecer uma certa dificuldade à passagem da corrente de curto-circuito (impedância). Quando um transformador faz parte desses circuitos é a impedância combinada do transformador que ajuda a limitar essa corrente.

Uma tensão de curto-circuito baixa significa uma pequena queda de tensão ( Z c I n

o

significado

da

tensão

de

curto-circuito

elevada

ou

baixa:

Para atenuar esse problema convém que essa impedância combinada não seja demasiado baixa. São dois interesses antagónicos. Entre essas duas necessidades antagónicas escolhe-se um compromisso que anda na zona dos 4 a 6%.

Há uma expressão que pode ter interesse; é a expressão da queda de tensão em percentagem. Do diagrama de Kapp (ver pág. 11):

ε =

R c I 2n . cos φ + X c I 2n . sen φ

U 2o

em que U 2o é o módulo da tensão U 2 em vazio: U 2o = U 1

n

2

n

1

. 100%

O numerador é praticamente igual às diferenças dos vectores. A aproximação é tanto mais legítima quanto mais a experiência mostra que numa escala mais realista o zero estaria muito mais longe para baixo.

Fixando o factor de potência podemos logo prever qual a queda de tensão sem traçar o diagrama.

1.1.4 Agrupamento de transformadores monofásicos

Como trabalham em sistemas de tensão constante, destinam-se a ser agrupados em paralelo, i. e.:

— 15 —

Máquinas Eléctricas II

U' 1n U" 1n E' E" U' 2n U" 2n V
U' 1n
U" 1n
E'
E"
U' 2n
U" 2n
V

Vamos ver as condições necessárias para poder estabelecer o paralelo sem qualquer inconveniente.

É preciso que eles sejam próprios para as mesmas tensões, do lado do primário e do secundário, i. e.

Então deverá ser m' = m".

' "

U

' "

U 2n = U 2n

1n = U 1n

e

Se as tensões nominais são iguais em módulo, as tensões aplicadas são as mesmas; então as tensões do secundário são iguais. O problema que se põe é se

'

U 2n

= ± U

"

2n

i. e. se aparecem em fase ou em oposição de fase. Depende da ordem por que se tomam os dois terminais. A maneira de resolver o problema é: liga-se um dos condutores e no segundo, com ele aberto, instala-se um voltímetro para ler a tensão. Se for nula está certa a ligação; se der o dobro, estão trocadas as ligações.

Não há problemas de estabilidade de funcionamento pois a f.e.m. está garantida pela tensão primária.

Podemos traçar a característica externa do transformador, como numa máquina de corrente contínua.

U cc

U 2 ' φ 2 φ 2
U 2
'
φ
2
φ 2

— 16 —

I 2n

I 2

Máquinas Eléctricas II

São sempre características do tipo descendente que darão lugar a uma queda de tensão entre o funcionamento em vazio e à plena carga, que nos está dada pela tensão de curto-circuito.

No segundo transformador, se tiver a mesma Ucc, será a curva a traço interrompido. Isto corresponde à exigência dos geradores terem iguais quedas de tensão para a repartição das cargas ser automática. O problema no transformador é mais importante porque aqui não temos o recurso de mexer em nenhum equivalente para a excitação. Ou a repartição se faz certa ou não há nada a fazer.

1.1.5 Aspectos de carácter construtivo

Há em geral a preocupação de montar um enrolamento sobre o outro para diminuir fugas.

Com respeito aos núcleos há duas disposições mais vulgares:

Há o transformador de núcleos com o circuito magnético do tipo seguinte:

Travessas

n

2

2

n

2

1

Enrolamentos n n 1 2 2 2
Enrolamentos
n
n
1
2
2
2

Colunas do núcleo

Em cada área tracejada está metade de cada enrolamento primário e secundário.

A maneira de montagem é que difere um pouco. Designam-se por bobinas separadas, bobinas concentricas e bobinas alternadas. Estas últimas são as que dão lugar a fugas menores.

— 17 —

Máquinas Eléctricas II

n 1 2 n 2 2
n
1
2
n
2
2
n n 1
n
n
1

2

2

2

Máquinas Eléctricas II n 1 2 n 2 2 n n 1 2 2 2 Bobinas

Bobinas separadas

Bobinas coaxiais

concentricas

Bobinas alternadas

A utilização de uma ou de outra depende da do transformador. Em pequenos transformadores podemos usar a primeira que é a mais simples. A segunda é a vulgar nos transformadores de potência, onde os problemas de isolamento são diferentes; põe-se junto ao núcleo o enrolamento de isolamento menos importante, logo a baixa tensão. A última é a que se usará para muito baixas impedâncias combinadas.

Um outro tipo de circuito magnético para transformador monofásico é o seguinte:

magnético para transformador monofásico é o seguinte: Este tipo é chamado núcleo couraçado ou tipo shell

Este tipo é chamado núcleo couraçado ou tipo shell. Os enrolamentos aqui podem ser arrumados por qualquer daqueles processos.

Para a mesma potência, o núcleo do tipo rectangular precisa de menos ferro e gasta mais cobre, e o couraçado exige mais ferro e menos cobre.

Para tensões elevadas e potências pequenas precisamos de dimensionar mais generosamente o ferro e vamos para o primeiro sistema. Para potências muito elevadas, como há correntes elevadas e temos de ter mais cobre, vamos para o segundo tipo. Em cada caso é necessário fazer o estudo económico do problema.

1.2 TRANSFORMADOR TRIFÁSICO

Tendo um sistema trifásico de tensões, se o quisermos transformar noutro sistemas de tensões diferentes, poderíamos usar três transformadores, como se indica:

— 18 —

Máquinas Eléctricas II

1

2

3

n

1

2

3

n

Máquinas Eléctricas II 1 2 3 n 1 2 3 n Estes três transformadores monofásicos assim

Estes três transformadores monofásicos assim ligados constituem um banco de transformadores. Os 3 enrolamentos primários estão ligados em estrela, assim como os secundários. Não é obrigatória esta ligação; pode-se ligar em triângulo-estrela ou vice-versa.

Os três núcleos magnéticos podem ser ligados uns aos outros, como é evidente:

1 φ 2 φ 3 φ o o o
1
φ 2
φ 3
φ o
o
o
uns aos outros, como é evidente: 1 φ 2 φ 3 φ o o o Cada

Cada um dos pares de enrolamentos funciona como um transformador monofásico. O núcleo deverá ser atravessado pelo fluxo de magnetização correspondente φ o . Tomando os sentidos positivos para cima, os fluxos hão-de somar-se dando lugar a um fluxo φ t :

φ 1

o + φ

2

o

+ φ 3 o = φ t

que se poderá fechar pelas colunas laterais. Se não houver saturação em nenhum ponto, estes fluxos não interferem uns sobre os outros visto que cada um é livre de se fechar pelas colunas laterais. Estamos na presença

de uma unidade trifásica de fluxos livres. No entanto, se o sistema for trifásico simétrico, os três diagramas dos três transformadores monofásicos são exactamente iguais, apenas rodados de 120° uns em relação aos outros. Se

e φ 3 o são vectorialmente representados por três vectores

assim for, estes três fluxos de magnetização φ o , φ

1 2

o

iguais esfasados de 120°. Então o fluxo total resulta constantemente nulo, φ t =0. Então o fluxo que se fecha pelas

colunas laterais é nulo e estas não são precisas. Fica então, para o transformador de núcleos):

— 19 —

Máquinas Eléctricas II

Máquinas Eléctricas II É a constituição mais frequente do transformador trifásico. Este transformador é trifásico

É a constituição mais frequente do transformador trifásico. Este transformador é trifásico mas de fluxos ligados,

porque φ t deixa de poder ser qualquer. Mesmo que a simetria seja destruída, agora eles têm de estar ligados pela

relação

1

φ o

+ φ

2

o

+ φ 3 o = 0.

Evidentemente que esta obrigatoriedade cede um pouco pela possibilidade do fluxo se fechar fora do núcleo, como fluxo de fugas.

Quando temos o transformador de fluxos livres é costume não usar a disposição dada mas outra ligeiramente diferente (para o transformador tipo shell (couraçado)):

diferente (para o transformador tipo shell (couraçado)): Neste transformador de núcleos é introduzida uma pequena

Neste transformador de núcleos é introduzida uma pequena assimetria. Os enrolamentos da coluna central têm um circuito magnético com duas colunas em paralelo, ao passo que para os enrolamentos das colunas laterais a relutância é maior. A fase da coluna do meio tem uma relutância ligeiramente inferior à das outras, o que influi ligeiramente na reactância dos enrolamentos respectivos.

Houve construtores que fizeram o núcleo arrumado de modo diferente: núcleos simétricos:

núcleo arrumado de modo diferente: núcleos simétricos : Como vantagem vinha ainda a cuba cilíndrica. Foi

Como vantagem vinha ainda a cuba cilíndrica. Foi posto de parte.

Razões que podem levar a preferir o banco ou o transformador trifásico:

— 20 —

Máquinas Eléctricas II

Do ponto e vista do diagrama, é análogo. São as razões de natureza económica e de transporte. Os bancos só se usam nas muito grandes unidades, como à saída das grandes centrais. Para estas potências elevadas as dimensões são muito grandes e o preço é muito elevado. Como os locais das centrais hidroeléctricas estão em terrenos acidentados, uma unidade trifásica pode exigir um sistema de transporte difícil para as vias disponíveis. Passando a três unidades monofásicas reduz-se ao problema do transporte. Os seus pesos somados são superiores, mas cada uma delas é mais pequena.

Razão económica: qualquer máquina é sujeita a avaria. Não podemos deixar uma central fora de serviço porque um transformador teve uma avaria. Deverá pois haver uma unidade de reserva. Num transformador trifásico é outro (100%) enquanto que para um banco de transformadores monofásicos será só outro monofásico (33,3%).

1.2.1 Disposição dos enrolamentos

Representamos já a ligação em estrela:

2 0 3 1
2
0
3
1

A representação da ligação em triângulo será:

3

2

1 A representação da ligação em triângulo será: 3 2 1 Daqui se tira que o

1

Daqui se tira que o mesmo enrolamento não pode ser ligado das duas maneiras. Deve estar dimensionado ou para suportar a tensão simples ou para a tensão composta. As ligações possíveis são:

— 21 —

Máquinas Eléctricas II

Máquinas Eléctricas II ou ou Y Y em escrita corrente Y D em escrita corrente D

ou

ou

Y Y em escrita corrente

Y D em escrita corrente

D Y em escrita corrente D Y em escrita corrente

Y D em escrita corrente D Y em escrita corrente ou ou D D em escrita

ou

ou D D em escrita corrente D D em escrita corrente

em escrita corrente ou ou D D em escrita corrente Surgiu a ideia de ligar os

Surgiu a ideia de ligar os enrolamentos do transformador de modo diferente, em zig-zag ou Z. Representando apenas um dos enrolamentos, será:

1 2 3 n
1
2
3
n

ou Z em escrita corrente Z em escrita corrente

Há então outras combinações possíveis:

escrita corrente Há então outras combinações possíveis: Só têm aplicação prática três delas. A prática mostra
escrita corrente Há então outras combinações possíveis: Só têm aplicação prática três delas. A prática mostra

Só têm aplicação prática três delas. A prática mostra que de todas as ligações a mais barata é em estrela, pois temos a tensão mais baixa (simples) e cada enrolamento é atravessado pela corrente em linha. No enrolamento

em triângulo correspondente tem uma tensão

resulta da diminuição da secção pela corrente ser menor está provado que não compensa o aumento do número

3 inferior. A economia que

3 vezes superior, e uma correntecompensa o aumento do número 3 inferior. A economia que de espiras necessário para uma tensão

3 inferior. A economia que 3 vezes superior, e uma corrente de espiras necessário para uma
3 inferior. A economia que 3 vezes superior, e uma corrente de espiras necessário para uma

de espiras necessário para uma tensão superior (comprimento do condutor 3 vezes superior) e o isolamento tem de ser previsto para uma tensão mais elevada. O enrolamento em estrela é portanto mais barato que o enrolamento em triângulo correspondente. Em relação ao zig-zag, nas três colunas vão aparecer 3 fluxos em sistema simétrico que provocam o aparecimento de f.e.m. nos outros meios enrolamentos. A soma total das f.e.m. induzidas nos dois meios enrolamentos de cada fase será inferior à soma dos módulos, ou seja à f.e.m. que seria induzida no enrolamento se estivesse todo na mesma coluna.

— 22 —

Máquinas Eléctricas II

2 0
2
0
φ
φ

φ 0

1

φ 3 0
φ 3
0
Máquinas Eléctricas II 2 0 φ φ 0 1 φ 3 0 Soma das f.e.m. de
Máquinas Eléctricas II 2 0 φ φ 0 1 φ 3 0 Soma das f.e.m. de
Máquinas Eléctricas II 2 0 φ φ 0 1 φ 3 0 Soma das f.e.m. de

Soma das f.e.m. de uma fase

É evidente que para a mesma tensão, o enrolamento em zig-zag resulta mais caro que o enrolamento em estrela

correspondente. Logo parece que seria evidente que o único tipo de ligação usado fosse o estrela-estrela. Na verdade este é o mais barato e que se procura usar sempre que é possível, o que não sucede na maior parte dos casos.

Há dois problemas que nos obrigam à escolha de outros tipos de ligações: o das assimetrias das cargas e o do 3º harmónico.

O primeiro motivo era a questão do preço. As razões que levam usar pelo menos de um dos lados outro tipo de

ligação são os dois papéis complementares que o transformador é chamado a desempenhar. O transformador deve contribuir para o equilíbrio das cargas e para a filtragem dos harmónicos de 3ª ordem e de ordens múltiplas de 3.

1.2.2 Componente homopolar

O papel do transformador como equilibrador de cargas limita-se à sua possibilidade de eliminar a componente

homopolar de um sistema desequilibrado de cargas.

Imaginemos que o lado secundário está ligado em estrela e tem neutro. Se o sistema a que se encontra ligado absorver um sistema desequilibrado de correntes, se for

I 1 = I 1

I 2 = I 3 = 0

será o caso extremo de sistema desequilibrado. Então só a coluna 1 irá ser desmagnetizada pela passagem da corrente I 1 . Para se garantir a igualdade dos fluxos, é evidente que naquele enrolamento que está na mesma coluna deverá passar uma corrente primária para tornar a magnetizar essa parte do circuito magnético de modo que o fluxo seja o fluxo magnetizante. Em contrapartida nas outras não deverá passar corrente nenhuma.

Imaginemos vários casos:

1) Supomos que o primário também está em estrela e tem neutro. Então irá aparecer uma corrente primária I' 1 que se fechará pelo neutro (I' n ). Então o transformador transmite integralmente para montante o desequilíbrio de cargas i.e., não opõe qualquer obstáculo a esse desequilíbrio.

— 23 —

Máquinas Eléctricas II

Se as cargas desequilibradas chegam até à máquina geradora acontece que a capacidade da mesma não é convenientemente aproveitada porque apenas uma das fases será carregada. É por isso que se pretende sempre que possível repartir a carga igualmente pelas três fases. Então existe sempre a preocupação de derivar receptores em igualdade de potência entre as fases e o neutro de modo que as cargas venham tanto quanto possível equilibradas.

Mas nos transformadores dos postos de transformação, por grande que seja essa intenção, pode sempre acontecer que uma das fases esteja mais carregada que as outras. O sistema de correntes é então assimétrico, podendo ser substituído por três sistemas, directo, inverso e homopolar. O transformador que aí possa estar metido não tem possibilidade de atenuar a componente inversa mas pode atenuar a homopolar dando uma contribuição apreciável no sentido do equilíbrio das cargas o que tem de ser aproveitado. Vejamos como:

2) Imaginemos que o enrolamento primário é ligado em triângulo.

que o enrolamento primário é ligado em triângulo. Pode mostrar-se que um sistema de correntes que

Pode mostrar-se que um sistema de correntes que tenha componente homopolar no secundário é substituda no primário por um sistema que não tem componente homopolar. A demonstração faz-se na cadeira de Aplicações

I.

Se existe ainda só I 1 , então o enrolamento montado na mesma coluna há-de ser percorrido por uma corrente que

se vai fechar pelo circuito indicado a traço misto. Portanto, pelo menos noutra fase passa agora corrente.

É este o motivo pelo qual se diz que um enrolamento em triângulo contribui para o equilíbrio das cargas. Não as

torna equilibradas, porque se mantêm as componentes inversas.

O mesmo efeito pode ser obtido se do lado de jusante estiver um enrolamento em zig-zag.

Poder-se-ia objectar agora o seguinte: aparentemente temos um modo de resolver a questão:

em zig-zag. Poder-se-ia objectar agora o seguinte: aparentemente temos um modo de resolver a questão: —
em zig-zag. Poder-se-ia objectar agora o seguinte: aparentemente temos um modo de resolver a questão: —
em zig-zag. Poder-se-ia objectar agora o seguinte: aparentemente temos um modo de resolver a questão: —

— 24 —

Máquinas Eléctricas II

A componente homopolar é:

3 I o = I 1 + I 2 + I 3 = I n

logo existe se houver corrente no neutro e não existe se não houver corrente no neutro. Se se tirasse o neutro eliminava-se essa corrente mas para isso vai-se provocar uma situação que não convém de todo: se só passar I 1 vai aparecer uma corrente que se vai distribuir pelos outros dois enrolamentos do primário e então os outros dois núcleos vão ser magnetizados acima da magnetização dada por φ o . Tendo esta magnetização suplementar as f.e.m. nestas fases vão subir em relação àquilo que deveria ser. Por outro lado a magnetização da primeira coluna vai ser baixada porque a reactância dos três circuitos não vai permitir que passe no primário uma corrente que compense exactamente os efeitos magnéticos desta, onde a f.e.m. baixa portanto.

Resultado: o potencial do neutro do lado do secundário é alterado; vamos ter três f.e.m. assimétricas,

E 2

E 3 E 1
E 3
E 1

e os receptores alimentados na fase 1 ficam com tensão mais baixa e os outros com tensão mais alta.

Esta situação pode tomar dois aspectos, dependendo dos fluxos serem do tipo livre ou ligado o grau das consequências.

Se forem do tipo livre esta magnetizações e desmagnetizações nas três fases são relativamente independentes e este fenómeno manifesta-se permanentemente. Se o transformador for de fluxos ligados o fenómeno é um pouco menos sensível mas o fluxo tem de poder produzir-se de qualquer forma e vai fechar-se exteriormente pelo ferro da máquina.

Tudo isto conduz à conclusão de que os transformadores que se podem usar se resumem a três:

que será usado sempre que haja a garantia de que as cargas são bastante equilibradas, particularmente nas unidades de muito alta tensão.

YnYn (1) se há a eventualidade das cargas serem desequilibradas põe-se neutro nos dois lados e desiste-se de por o transformador a desempenhar o papel de equilibrador de cargas

YY

DYn

elimina a componente homopolar do lado do primário.

YZn

também elimina a componente homopolar do lado do primário. Este transformador é ligeiramente mais caro que o anterior em igualdade de capacidade e tensões, mas tem a vantagem de s e poder ter neutro no lado do primário, e a vantagem de eliminar o harmónico de 3ª ordem do fluxo do ferro do próprio transformador. Por vezes há interesse em ir para este.

A grande maioria são DY.

Os YY aparecem à saída das grandes centrais.

(1) "n" indica a presença de neutro acessível

— 25 —

Máquinas Eléctricas II

1.2.3 Harmónico de 3ª ordem

Nos sistemas trifásicos os harmónicos de 3ª ordem gozam da propriedade de estarem em fase nas três fases, e em todos os sistemas de potência que envolvem máquinas eléctricas o harmónico de 3ª ordem é o mais de temer, visto que pode nascer do fenómeno da magnetização dos materiais ferro-magnéticos ao atingir a saturação (ver Electrotecnia Teórica).

Os harmónicos aparecem só na corrente, logo do ponto de vista da potência transformada, o harmónico não tem qualquer contribuição útil, pelo contrário, vai agravar as perdas Joule em todos os circuitos. Se a um sistema de uma dada potência sobrepusermos um harmónico de 3ª ordem, agravamos as perdas sem tirar benefício.

O harmónico de 3ª ordem é tanto mais chato quanto maiores forem as intensidades. Se deixarmos o harmónico ir até aos alternadores estamos a provocar um aquecimento exagerado destes, baixando o rendimento e a capacidade. Há todo o empenho em não o deixar ir até lá. Do mesmo modo para as linhas.

Os harmónicos podem vir dos consumidores e podem produzir-se no próprio transformador se funcionar com fluxo de magnetização demasiado elevado.

Vamos ver como se comporta um transformador perante os harmónicos de 3ª ordem que possam vir de jusante.

Dado um sistema de correntes

i 1 =

jusante. Dado um sistema de correntes   i 1 = 2I 1 cos ω t

2I 1 cos ωt +

de correntes   i 1 = 2I 1 cos ω t + 2I 3 cos

2I 3 cos 3ωt

2I 1 cos (ωt- 2π ) +

i 2 =

cos 3 ω t  2I 1 cos ( ω t- 2 π ) + i

  2 I 1 cos (ωt- 4π ) +

i 3 =

=   2 I 1 cos ( ω t- 4 π ) + i 3
3
3
3
3

2 I 3 cos (3ωt- 3.2π )

3

2 I 3 cos (3ωt- 3.4π )

3

i 1 =

3 cos (3 ω t- 3 . 4 π ) 3   i 1 =

2I 1 cos ωt +

. 4 π ) 3   i 1 = 2I 1 cos ω t +

2I 3 cos 3ωt

2I 1 cos (ωt- 2π ) +

i 2 =

cos 3 ω t  2I 1 cos ( ω t- 2 π ) + i

  2 I 1 cos (ωt- 4π ) +

i 3 =

=   2 I 1 cos ( ω t- 4 π ) + i 3
3
3
3
3

2 I 3 cos 3ωt

2 I 3 cos 3ωt

Estando em fase ao chegarem ao transformador vão criar uma situação especial.

Vejamos:

Em primeiro lugar, se não houver neutro no secundário não podia circular o 3º harmónico porque o circuito teria impedância infinita para esse harmónico, o que é absurdo por hipótese.

Se existir neutro no secundário, [Y ou Z], seja em estrela:

— 26 —

Máquinas Eléctricas II

I’ 3 I’ 3 I’ 3 I’ 3 3
I’ 3
I’ 3
I’ 3
I’ 3
3

I

3

I

3

I 3 I 3

I

3

I 3 I 3
II I’ 3 I’ 3 I’ 3 I’ 3 3 I 3 I 3 I 3

II I’ 3 I’ 3 I’ 3 I’ 3 3 I 3 I 3 I 3

3 I 3

Aparecerão então as correntes I' 3 . Se existir neutro, este 3º harmónico transmite-se integralmente a montante do transformador. Como não o queremos, temos de alterar as ligações. Eliminando o neutro do lado do primário conseguimos que as correntes não circulem, mas o fluxo φ o vai ser alterado pelo aparecimento dos fluxos criados pelas correntes I 3 e as f.e.m. em ambos os lados vão aparecer com uma variação de frequência tripla.

E’ 2 E’’ 1 E’ 1 φ o E’ 3
E’ 2
E’’ 1
E’ 1
φ o
E’ 3

Estamos a introduzir um harmónico de tripla frequência nas f.e.m. logo nas tensões. Transferimos o problema das intensidades para as tensões.

Temos de escolher outro tipo de ligação. Ligando em triângulo-estrela, as correntes fecham-se na malha e nenhuma influência iria para montante.

para estarem em fase.

J1 = I' 3 - I' 3 = 0

Vamos examinar um caso em que o harmónico de 3ª ordem não passa para montante, que é o caso do enrolamento em zig-zag. Aqui o harmónico de 3ª ordem nem chega a afectar o fluxo no ferro do transformador.

inserir figura

São duas magnetizações em oposição em cada núcleo porque as três tensões estão em fase. Logo nem sequer agrava as perdas magnéticas.

Assim, desde que o secundário seja em zig-zag, já o primário pode ser em qualquer tipo, sem que daí passe o harmónico 3 para montante.

Resumindo:

— 27 —

Máquinas Eléctricas II

a) Pode eliminar-se o 3º harmónico antes dele percorrer os enrolamentos do secundário se não se lhe fornecer neutro.

b) Se tivermos neutro do lado do secundário podemos eliminar o harmónico de 3ª ordem antes dele afectar o fluxo desde que o secundário seja em zig-zag.

c) Pode eliminar-se o harmónico de 3ª ordem no enrolamento primário se este for em triângulo.

Como o próprio transformador tem um circuito magnético em ferro, se ele trabalhar com uma certa saturação, o harmónico de 3ª ordem pode desenvolver-se no próprio transformador. Se queremos evitar que ele se transmita para montante temos de empregar um enrolamento em triângulo no primário.

Mas se no primário precisamos de neutro, ainda temos um último recurso que é a utilização de um terciário, ligado em triângulo. Para eliminarmos o efeito do harmónico para montante, não precisa de ser o próprio enrolamento. Basta um enrolamento em triângulo capaz de se deixar atravessar por uma corrente de circulação capaz de compensar os efeitos, e as correntes estão em fase entre si – sistema sinfásico de tensões e correntes - . Temos então só de estudar o funcionamento dos transformadores em regime simétrico e perante um regime homopolar.

Regime simétrico

Num transformador, a ordem de sucessão das fases é indiferente, porque não tem peças em movimento. Vamos ver como se põe o funcionamento em regime simétrico directo.

No caso de um transformador YY o resultado é imediato e evidente:

1

0

3

2

I 1 I 2 1 U 1 n 1 n 2 U 2 0 3
I 1
I 2
1
U 1
n 1
n 2
U 2
0
3
2

Podemos estudar apenas o que se passa para uma fase porque nas outras é igual, a menos de um esfasamento de

. 3
.
3

2π

É pois como estudar um transformador monofásico. O esquema equivalente de um transformador trifásico será então

— 28 —

Máquinas Eléctricas II

n R 1 ( 2 X 1 n 2 2 ) ( 2 ) R
n
R 1
(
2
X 1
n
2
2
)
(
2
)
R 2
X 2
mI 1
n1
n1
I 2
n
2
U 2
U 1
n1
n
2
)
n
R'
(
2
X'
(
2
2
)
n1
n1

e mais dois esquemas idênticos a este, com todas as grandezas multiplicadas por α e α 2 .

O que se altera é que a potência transformada no transformador monofásico será U 1 I 1 cosφ, e aqui temos de as multiplicar por 3.

Se o transformador tiver alguns enrolamentos com outro tipo de ligação ( D ou Z ) o circuito equivalente correspondente não pode ser assim derivado do monofásico. Mas se formos à teoria dos circuitos e seus teoremas, podemos facilmente admitir a existência de enrolamentos equivalentes. Se tivermos um enrolamento em triângulo caracterizado pelas impedâncias Z 1 , Z 2 e Z 3 , há um teorema de Kenely-Rose que permite substituir por uma estrela de impedâncias que dão lugar à absorção das mesmas correntes., etc. Para o zig-zag é possível deduzir a estrela equivalente. Então, feita a substituição, caímos naquela situação e passamos para o circuito equivalente.

Ao fazer estas substituições, sacrificamos o mesmo em rigor de tratamento, no enrolamento em Y que no

monofásico. Se não for em Y, sacrificamos a razão de transformação que deixa de ser

n

n 1 e será preciso ter o

2

cuidado de não confundir a razão de transformação num caso desses.

No caso DY: 1 n 2 E 2 1 U 2 U 1 0 E
No caso DY:
1
n 2
E 2
1
U 2
U 1
0
E 1
0
n 1
α
2 U 1
3
3
αU 1
2
2
d φ
Temos que
n 1
dará uma f.e.m. que se oponha à tensão composta.
dt

U c1 E 1

U s2 E 2

— 29 —

Máquinas Eléctricas II

mas

E

1 =

E

2

n

1

n

2

donde

U

c1

E

1

n

1

=

=

U

s2

E

2

n

2

;

como

3 n 1 U s1 = n 2 U s2
3
n 1
U s1
=
n
2
U s2

é

U n s1 = 1 = m U s2 3 n 2
U
n
s1
=
1 = m
U
s2
3 n
2

Outro sacrifício que temos que fazer ao utilizar o esquema equivalente quando um dos enrolamentos não é em estrela é o da noção do esfasamento entre as grandezas primárias e secundárias.

Vimos que as f.e.m. estavam em fase, e no transformador monofásico sabíamos que U 1 e U 2 eram dois vectores em oposição, que se poderiam supor em fase se se considerasse a ordem dos terminais trocados.

U 1
U 1
U 2 U 2
U 2
U 2

O mesmo se passa no transformador trifásico com dois enrolamentos em estrela:

U 2

αU 1 α 2 U2 U 1 αU2 α 2 U 1
αU 1
α 2 U2
U 1
αU2
α 2 U 1

Num transformador DY o que está em fase é E 2 e E 1 (ver figura da pág. anterior), e as tensões simples não estão em oposição de fase com as da estrela porque a tensão do lado do primário, α 2 U 1 – U 1 é que há-de estar em oposição de fase com U s2 , se montarmos assim os enrolamentos. Então:

— 30 —