Jornal Interno de Saúde

(O Jornal Interno de Saúde é um documento interno do SMS do Engenharia/IETR/IEABAST/CMDS/SMS, desenvolvido com o objetivo de levar aos colegas de trabalho informações úteis sobre o tema da Saúde. Lembramos que as informações aqui contidas não se destinam a prescrever medicamentos e nem induzir os colegas a auto-medicação. Quem deve avaliar o estado clínico e medicar é o Médico Especialista)

Assunto da Semana: Animais peçonhentos ou venenosos
O Brasil tem vários animais venenosos e supomos que você gostaria de conhecê-los. Em geral, estes bichos despertam repulsa, medo e, até, pavor. Existem poucos pesquisadores, naturalistas e alguns malucos, que os admiram e até são fascinados por esses seres perigosos, porém, possivelmente, não há ninguém, ninguém mesmo, que os amem. Por outro lado, não faltam cultos religiosos esotéricos em que as cobras são adoradas. Ler alguma coisa sobre eles é sempre bom: aumentará sua cultura, tornar-lhe-á mais seguro e, finalmente, poderá ser útil à sua saúde. Justamente para discutir este aspecto, saúde, que estamos aqui conversando com você. O perigo que os animais peçonhentos representam deve ser colocado em perspectiva. Visto do ângulo dos filmes de aventura e terror, não somos um cenário de primeira: os nossos bichos não são tão venenosos como aqueles de outras regiões, a África por exemplo (foto: puf adder). No estrangeiro, nosso país, tropical e possuindo a maior floresta do mundo, é tido como mais perigoso do que realmente é em matéria de cobras e aranhas. Na verdade, não há por aqui répteis ou insetos que matassem uma pessoa em poucos minutos. Contudo, não se pode negar que os acidentes causados por animais peçonhentos constituem um problema de saúde no Brasil. Sobretudo nas áreas rurais é que a população está ameaçada pela fauna venenosa que vive nos campos e nas matas. Não se sabe o número de acidentes provocados por animais peçonhentos, pois a grande maioria passa sem notícias, não é comunicada as autoridades. As estatísticas de todo território nacional acusam de 1.500 a 2.000 casos mensais de mordidas de cobra, com menos de 1% de mortalidade, e 400 a 500 acidentes provocados por aranhas e escorpiões, com 1 a 2 mortes por mês causadas exclusivamente por picada de escorpião. Certamente, esses números são muito mais elevados.

Cobras
A classe dos reptis (ou répteis) evoluiu dos anfíbios e deu origem às aves e aos mamíferos. Os primeiros espécimes da classe apareceram há 280 milhões de anos e deram aquele passo espetacular e decisivo de sair dos oceanos. Foram os primeiros vertebrados a explorar a superfície terrestre. Os populares dinossauros pertenceram a classe dos reptis e se extinguiram completamente 60 milhões de anos atrás. As cobras são classificadas na ordem Squamata e na subordem Serpentes, daí o nome serpente em português que se usa como sinônimo de cobra (no vernáculo, a subordem Serpentes é dos Ofídios). As primeiras serpentes provavelmente apareceram há 150 a 100 milhões de anos e diversificaram-se em diversas famílias ao decorrer da evolução. Já eram habitantes antigos da Terra quando o nosso ancestral direto, o Homo sapiens, apareceu no cenário da vida há 400 mil anos atrás. O Brasil é um paraíso para os serpentólogos, mais corretamente chamados de herpetologistas, porque oferece uma rica variedade desses animais. Temos mais de 250 espécies registradas, distribuídas em 9 famílias. A nós interessam apenas 2 destas famílias porque abrigam as cobras venenosas: Elapidae e Viperidae. A classificação dos serpentes é muito complicada e ainda aberta a discussões. Não há acordo entre os especialistas quanto à taxinomia (classificação) desses animais. De qualquer forma, nós não precisamos penetrar neste cipoal de nomes em latim para conversarmos sobre o que nos interessa. NAVARRO/2003

Jamais têm placenta. Ficará se debatendo inutilmente. Portanto. É interessante como a natureza empacotou todos os órgãos em um tubo tão alongado. Talvez fosse esta característica que deu origem à lenda de que as serpentes hipnotizam. não pica) e leva continuamente informações químicas do mundo externo para o órgão de Jacobson. ovários. que está no céu da boca. A língua é bífida (inofensiva. este animal é incapaz de progredir sobre uma tábua lisa. As pupilas são redondas nos ofídios de hábitos diurnos e são em forma de fenda bem fechada nas de hábito noturno (isto na luz do dia. não representam perigo aos banhistas de águas doces ou salgadas. é claro que a noite. A cabeça da cobra é curiosa. coração. mas um mais a frente do que o outro. pulmão (elas só possuem um). Os olhos estão sempre abertos porque não possuem pálpebras e isto lhes dá um ar severo de extrema atenção. Em muitos ofídios venenosos. O serpente macho tem dois pênis (chamado de órgão intrometente. Apesar da ausência de membros. como o famoso silvar ou sibilar dos serpentes. e quando os ovos eclodem dentro do animal e nascem filhotes. rim. e emitir ruídos. são denominadas de ovovivíparas. A fosseta loreal é um órgão termorreceptor vital para a sobrevivência da cobra. por exemplo um camundongo ou um passarinho. fígado. por exemplo. Devido ao formato do corpo. porém nenhuma das cobras venenosas brasileiras têm como habitat a água e. ao contrário da crença popular. Na verdade. Nunca há orelhas ou mesmo ouvido interno. É por meio desta que percebe a presença de animais de sangue quente. em nós. As cobras têm vísceras que cumprem todas as funções que conhecemos nos mamíferos. a íris abre e as pupilas ficam redondas). por conseguinte. Não têm laringe alguma. As serpentes não têm bexiga. os ofídios lembram as aves. e garante sua comida. através da condução do som pelos ossos da cabeça. pois é muito diferente do órgão correspondente dos mamíferos). Nisto. tubo digestivo e órgãos sexuais. Esta parece um orifício de cada lado da cabeça e daí que essas serpentes são popularmente chamados de "cobras-de-quatro-ventas". todas as cobras são capazes de nadar. os ovos chegam a termo dentro dos ovidutos da cobra. Para que a cobra possa rastejar é necessário que esteja sobre uma superfície em que seu corpo possa se agarrar. Este é um espécie de aparelho gustativo incrivelmente apurado. poderíamos dizer que são criaturas surdas e mudas. a locomoção das cobras é ágil e rápida. se não fosse pelo fato de que podem sentir ruídos. muito mais do que o nosso. entre as narinas e os olhos há uma depressão que é a fosseta loreal.Jornal Interno de Saúde Aspectos Morfológicos e Funcionais A anatomia das cobras é caracterizada pela ausência total de pernas e braços e por um corpo extremamente longilíneo. os órgão pares (rins. Quando efetivamente põem ovos. neste caso. NAVARRO/2003 . testículos) não estão em posição simétrica como. Assim. todos as serpentes reproduzem-se por meio de ovos. As cobras têm narinas e sentem odores. como aquelas próprias do cérebro. Que se soubesse. As fêmeas põem ovos ou dão luz a filhotes completamente maduros para enfrentar a existência sozinhos. Portanto. são chamadas de ovíparas. os rins excretam ácido úrico na cloaca que é uma bolsa onde também se esvazia o intestino. Ademais é muito silenciosa e deixa poucos rastos.

A dentição é muito importante e é utilizada para fins de classificação das serpentes. um bezerro. A mobilidade das presas permite que as mesmas fiquem deitadas quando a cobra fecha a boca ou come. O veneno está armazenado em glândulas salivares especializadas (G). De outro modo. com canais. ou um sucuri. Principais Cobras Venenosas do Brasil: Jararacas. Quando o animal necessita engolir algo que é maior do que sua cavidade bucal normal. que têm dentes maiores (pequenas presas) na região maxilar posterior com sulcos mais ou menos esboçados. Serpentes solenóglifas. que apresentam um par de presas com sulcos. sem presas no osso maxilar (parte superior da boca) que só possui dentes pequenos. É desse modo que uma cobra pequena consegue engolir um ovo de galinha. na região anterior da maxila. Serpentes proteróglifas. Serpentes opistóglifas. ele luxa essa articulação e afasta a sua mandíbula da maxila. Assim tem-se: Serpentes áglifas. o tamanho desses dentes atrapalharia a passagem de alimentos. que possuem duas presas grandes e móveis. fixas na região anterior do osso maxilar. Cascavéis e Surucucus NAVARRO/2003 .Jornal Interno de Saúde a seta vermelha aponta para a fosseta loreal Os ossos da mandíbula são ligados entre si e ao crânio por articulações tipo dobradiça que são extremamente flexíveis.

portanto. 2. uma jararaca singular que só tem na Ilha Queimada. com numerosas subespécies. na altura da cidade de Santos. Em vez de ficarem deitadas sobre o corpo. na região anterior da maxila). A cauda das cascavéis termina em um chocalho característico e as surucucus possuem escamas eriçadas nesta região. A espécie é durissus. o animal morreria de fome. A presença da fosseta loreal é constante e são solenóglifas sem exceção (como já foi explicado. visivelmente mais larga do que o corpo. nesta região as escamas estão eriçadas. E assim há muitos outros ofídios do gênero Bothrops cujos representantes são encontráveis em todo território nacional. Sua distribuição geográfica é mais restrita a áreas secas e arenosas das regiões sul. com seu guizo ou chocalho típico. Todas essas cobras da família Viperidae têm uma cabeça grande. que é a jararaca propriamente dita. B. triangular. A espécie encontrada com maior freqüência é a Lachesis muta muta. após a picada os pássaros voariam muito longe. Na fronteira da Amazônia brasileira com outros países existem algumas outras subespécies. O veneno dessa jararaca é muito potente. o maior dos ofídios venenosos do país. B. 3. A particularidade mais chamativa da surucucu é a mudança da posição das escamas na ponta da cauda. A cauda é importante. Crotalus – são as cascavéis. as serpentes solenóglifas possuem presas grandes e móveis canalizadas. ao contrário dos ofídios não peçonhentos nos quais o adelgaçamento da cauda é gradual. também chamada de jararaca ou de combóia. no litoral paulista.Jornal Interno de Saúde A maioria dos ofídios brasileiros pertencem à família Viperidae e estão agrupados em 3 gêneros: 1. tanto se refere a uma espécie. sudeste e centro do país. Bothrops – são as jararacas. Nas jararacas ela afina bruscamente. alternatus. O maior número de acidentes por cascavel ocorre no Estado de São Paulo. a B. B. são mais comuns no norte do Brasil. jararaca. fora da alcance da serpente. É uma serpente cujo habitat é a floresta tropical e. a Bothrops jararaca. insularis. por isso. chamada de cobra-papagaio. que é a urutu ou cruzeira. NAVARRO/2003 . como é o nome coletivo do gênero Bothrops. Se não fosse isto. Jararaca é um nome enganoso porque. Compreende umas 20 espécies: B. pelo menos para pássaros dos quais essa cobra se alimenta quase que exclusivamente. atrox. Lachesis – é a surucucu. que pode alcançar 3 metros ou mais de comprimento. pois. bilineatus que é verde e vive nas árvores e. todas muito parecidas umas com as outras.

São encontráveis em todas as regiões do Brasil. corallinus. Ficam embaixo de folhas. etc. bem brilhantes e muito nítidos. Não há como não reconhecê-los. e é uma serpente áglifa. ou. A boca também é pequena e as presas são do tipo proteróglifo.. Cobras Corais À família Elapidae pertence o gênero Micrurus que é das serpentes corais venenosas. Tem anéis pretos e vermelhos mas menos nítidos que as corais verdadeiras. isto é. porém não são animais de hábitos estritamente noturnos. NAVARRO/2003 . de 15 a 60 cm de comprimento. branca e amarela. todas com características marcantes: são ofídios pequenos. com sulcos e fixas na região anterior do osso maxilar. A cabeça dessas cobras é pequena e estreita. Não procure distinguir as cobras corais verdadeiras das falsas. Esta é de outra família. sem presas. ainda. de tocos podres ou da terra fofa. Estes detalhes são quase que irrelevantes considerando o colorido inconfundível da pele destes ofídios. Temos várias espécies.. Deixe este trabalho para especialistas e não mexa com essas serpentes porque são extremamente venenosas ! As cobras corais têm hábitos noturnos e subterrâneos. excepcionalmente 1 metro. tendo anéis de cor negra e vermelha.Jornal Interno de Saúde Pode-se dizer que todas elas são mais ativas durante a noite. A única confusão possível é com a cobra-coral-falsa. quase da mesma largura que o corpo e não possui fosseta loreal. fisherii. Aniliidae. frontalis.

Hospital "Vital Brasil". etc.500 a 2. retira-se o sangue do cavalo e preparase o soro anti-ofídico para uso em pacientes mordidos por ofídios. NAVARRO/2003 . a eficiência da terapêutica é muito maior com um soro específico do que com soros multivalentes. por exemplo de jararaca e cascavel no cavalo. Nós teremos que recapitular alguns pontos já colocados mas. Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto e alguns outros centros que concentram os casos de ofidismo no país. na mais das vezes. Os acidentes ofídicos ocorrem. cascavel. surucucu ou coral. Quanto a exames laboratoriais para diagnosticar tipos de venenos de cobra. são poucos os profissionais que têm a prática necessária para fazer este diagnóstico.. eles existem e são capazes de identificar o veneno e até a quantidade que foi injetada pelo animal. Entretanto. do que um soro polivalente. a dificuldade técnica e o custo. é importante que a vítima seja capaz de informar a espécie (pelo menos o gênero) de cobra que a mordeu: jararaca. Mas. você esteja formulando duas perguntas: "O médico não é capaz de diagnosticar pelos aspectos clínicos o tipo de cobra que mordeu a pessoa ?" "Será que o hospital não tem algum teste para detectar o tipo de veneno ?" Ambas são excelentes questões e vamos respondê-las. antes. Por exemplo. ( Esquema da produção de soro) Talvez. longe dos hospitais bem equipados e. Vejamos isto: O antídoto contra o veneno é preparado a partir de soro de cavalos que são imunizados contra a peçonha de cobras. e é um mas grande. Essencialmente. Isto é feito e existem soros bivalentes: antibotrópico e anticrotálico (contra jararaca e cascavel). neste momento.Jornal Interno de Saúde Reconhecimento das Cobras Venenosas O reconhecimento de serpentes peçonhentas deveria fazer parte do currículo escolar. que limitam sua utilização aos centros de excelência. antilaquético e antibotrópico (contra surucucu e jararaca). Lembre-se que no início dissemos que mensalmente existem 1. principalmente nas áreas rurais do Brasil. O problema central é o tratamento das vítimas de mordidas de cobra.000 casos de ofidismo ? Isto no Brasil todo. a resposta é de que o médico é capaz de diagnosticar pelos aspectos clínicos o tipo de cobra que mordeu a pessoa. se o acidente for com cascavel é muito melhor injetar no paciente soro especificamente anticrotálico. A prática clínica com vítimas de ofídios peçonhentos leva ao reconhecimento correto do serpente responsável pelo acidente. a lentidão desses testes – os pacientes não podem aguardar horas – segundo. Certamente. tentaremos explicar o porquê da importância do assunto. há dois obstáculos a vencer: primeiro.. isto é feito com a soroterapia que deverá ser a mais específica possível. Depois. Quantos serão os médicos que têm experiência suficiente para reconhecer os quadros clínicos específicos de cada gênero de serpente ? Certamente poucos. a fim de que faça anticorpos contra ambos os serpentes. Assim. Portanto. quando os pacientes chegam aos postos de atendimento. Hospital das Clínicas de Botucatu. Porém. Só aqueles que trabalham nos grandes centros de referência para tratar estes acidentados. Doses crescentes de veneno são injetadas durante um período para que o animal fabrique anticorpos contra o mesmo. É possível injetar mais de um tipo de veneno. até que não haja um meio de diagnosticar o tipo de veneno nos centros médicos e postos de saúde em todo o país. é preciso agir com rapidez e com os meios disponíveis: soros e outros remédios.

Jornal Interno de Saúde Levar o ofídio – vivo ou morto – até o centro médico é uma ótima idéia. dando ao tato uma impressão impressão de liso. dentição. Olhos grandes. escorregadio. Venenosas Não Venenosas Cabeça chata. Ela mostra os pormenores: tipo de cabeça. se tivermos um animal morto ou imobilizado que poderá ser examinado com calma e minuciosamente. Olhos pequenos. Quando perseguida. dando ao tato uma com carena mediana. alongada. aspecto das escamas e cauda. a situação é bem outra. quando ocorrem os acidentes. Tudo poderá ser facilmente verificado. afinada gradualmente. no entanto há algumas observações que geralmente dá para fazer. foge. enrodilhando-se. afinada bruscamente. Escamas do corpo alongadas. toma atitude de ataque. triangular. Quando perseguida. fosseta lacrimal ausente. com pupila em fenda vertical e fosseta loreal entre os olhos e as narinas (quadradinho preto). sem carena. Cabeça estreita. Cabeça com placas em vez de escamas. Examine essa tabela de reconhecimento de serpentes peçonhentas. pontudas. Cabeça com escamas pequenas semelhantes às do corpo. bem destacada. de aspereza. mal destacada. desde que a captura ou matança do animal não resulte em novas mordidas. Na prática. Escamas achatadas. imbricadas. com pupila circular. fosseta loreal. Cauda longa. Cauda curta. NAVARRO/2003 .

livros e histórias de aventuras. nobres selvagens e mocinhos de todos os tipos. poderá servir ao médico para diferenciar a cobra coral verdadeira da falsa: se após pouco tempo você não tem nenhum dos sintomas clínicos de envenenamento ofídico. veja bem a cauda da cobra se tem ou não o chocalho típico da cascavel. estes pedaços de epiderme ressecados formam os guizos que. a experiência nacional é muito grande e sabe-se que todas essas tentativas de cura. Se sentir dor. etc. Por exemplo. Com o correr dos anos. quando o animal vibra a cauda. Se não tiver nenhuma observação sobre a cobra. Chocalho As serpentes crescem rapidamente após o nascimento e alcançam a maturidade após 2 anos (as grandes cobras. mesmo se instituída muitas horas – 6 a 12 horas – depois. As ampolas de soro anti-ofídico devem ser conservadas em geladeira entre 4oC e 6oC positivos. a cascavel balança vigorosamente a cauda para lhe espantar com o ruído. só prejudicam. vamos dizer o que NÃO FAZER. areia. é simples deduzir que a maior dúvida é sempre entre a jararaca e a surucucu. balançam e causam o ruído característico. Tome nota da hora em que você foi picado. 3. seguindo a sabedoria popular. Procure manter a calma: lembre-se que a maioria dos acidentes ofídicos não matam nem mesmo quando não tratados. Nem o torniquete. É uma informação preciosa ao posto de socorro. 2. bosta de vaca e outros remédios heróicos sobre a mordida de cobras.Jornal Interno de Saúde 1. rochas expostas. após 4 ou 5). Lamentamos desapontar você e contradizer todos os filmes. Tampouco aplique pó de café. mantém parte dela enrolada na cauda em forma de um anel cinzento grosseiro. por razões não bem entendidas. O que é que você deverá fazer se for mordido por cobra venenosa? Antes de mais nada. O tempo decorrido entre o acidente e a intensidade dos sintomas também é fundamental para avaliar a gravidade do caso e guiará a terapêutica a ser aplicada. Já as escamas eriçadas da cauda da surucucu é muito mais difícil de ver. heróis do faroeste. É uma ótima chance de evitar o confronto. Você poderá dizer ao médico se foi ou não uma cobra coral. Se não for coral. consagradas ao longo dos tempos.. tome um analgésico. lembre-se que a soroterapia resolve seu caso. Repetimos: não faça intervenção alguma. jibóia e sucuri. ferros incandescentes. pelo menos informe os aspectos do local em que aconteceu o acidente: floresta. Verifique a coloração do corpo do animal que lhe mordeu. Durante suas vidas os ofídios mudam a pele regularmente e é comum encontrar-se cascas de serpentes abandonadas no campo. na temperatura ambiente duram NAVARRO/2003 . "Se tiver ampolas de soro anti-ofídico por perto ?" Primeiro considere as condições de armazenamento.. quando homens-macacos. A confusão com as serpentes corais falsas é irrelevante. 4. ficará algum tempo em observação sem tomar soro. querosene ou teia de aranha. A finalidade é de advertir a sua presença e espantar os animais de grande porte que lhe poderiam fazer mal. em vez de sair completamente de sua pele antiga. Repetimos que o chocalho é muito óbvio e fácil de reconhecer. aplicam torniquetes na perna. O chocalho também se ouve: antes de dar o bote. é melhor. De tudo que foi dito. pois não trará nenhum perigo à sua saúde. Não faça nada disto. fumo. A cascavel. Hoje. cortam os músculos com a faca. Os característicos anéis coloridos das cobras corais são gritantes. chupam o veneno com a boca e aplicam brasas.

A região mordida por cobras dos gêneros Bothrops e Lachesis são os que mais provocam manifestações locais. que fica seriamente comprometida e provoca as paralisias. Depois de certificadas as condições de estocagem e o vencimento das ampolas. sua história será ouvida enquanto a região mordida for lavada. NAVARRO/2003 . A surucucu tem neurotoxicidade maior e. necrose ou insuficiência renal aguda já instalada. lave o local da mordida com água e sabão mas não perca tempo: procure um centro médico. do tubo digestivo e dos rins. Ainda bem que o animal é pequeno e. e a necrose (morte do tecido). bolhas na pele. com ou sem infecção. visto que suas presas são bem desenvolvidas. pois o veneno é miotóxico. dependendo da gravidade do seu caso. a fim de que. Os aspectos sistêmicos variam bastante: As cobras dos gêneros Bothrops e Lachesis causam hemorragias várias. O médico procurará examinar bem as alterações locais. até. em caso de desmaio. enquanto que a segunda. como infecção. Quanto mais intensos forem esses sinais. distúrbios visuais. devida uma forte estimulação vagal (sistema nervoso autônomo). Em caso de acidentes causados por cobra coral ou cascavel. a mais específica possível. em geral. isto é a região em que você foi picado e. nas primeiras 6 horas. Se existirem complicações. aparecem queda de pálpebra. profilaticamente. O que é que o médico poderá fazer ? Ao chegar no posto médico. A vítima também se queixa de dores musculares generalizadas.. a primeiro costuma deixar sinais evidentes da picada. observe a validade dos soros. Se estiver fácil. Seu veneno potente provoca queda de pálpebra. praticamente. A seguir.. também. respectivamente. As primeiras preocupações serão de diagnosticar o tipo de cobra responsável pelo acidente e avaliar a intensidade do envenenamento. elas devem ser aplicadas mas não por você. Você receberá de 4 a 12 ampolas de 10 ml cada. É um remédio para mãos experientes. as suas condições sistêmicas ou gerais. em graus variados. a não ser quando é aplicado garrote. pois é muito comum estarem vencidos há anos. sobretudo se estiver sozinho. Busque socorro e leve as ampolas consigo. Também lhe aplicarão uma injeção de soro antitetânico. Pouco tempo depois. dos movimentos respiratórios. São os sinais típicos da neurotoxicidade do veneno crotálico. portanto. distúrbios visuais e paralisias musculares graves. A soroterapia tem suas dificuldades que colocaremos logo mais. Depois seguirá um exame cuidadoso. Após o medicamento anti-ofídico. Aparecem a dor. o edema (inchaço). intervenção cirúrgica para remover os tecidos necrosados e diálise renal. pode causar choque mais precocemente do que a jararaca. dificuldade de movimentação dos membros e. etc. das gengivas. por via intravenosa. maior dose de soro será lhe administrado. haja alguém para prestar informações ao médico. inocula pouco veneno. antibioticoterapia. incisões a faca. Contudo. O que fazer ? Procure imediatamente chegar ao primeiro centro médico que tiver a seu alcance e transmita suas observações (aquelas quatro observações mencionadas no texto sobre o "reconhecimento das cobras venenosas") à primeira pessoa que lhe socorrer. Em fases avançadas. costuma instalar-se a insuficiência renal. receberá soro glicofisiológico pela veia. Também provocam choque (queda da pressão arterial) e insuficiência renal. Feita a avaliação. as medidas serão. só deixa escoriações. A mordida da cascavel é seguida de náuseas e vômitos. hemorragia.Jornal Interno de Saúde pouco: alguns meses. a equipe do hospital instalará a soroterapia. A coral é basicamente neurotóxica e impede a transmissão do sinal nervoso ao músculo. A cascavel e a cobra coral não costumam dar sinais locais importantes. o médico observará a ação neurotóxica do veneno e tratará de corrigir a situação com medicações que ajudam a neurotransmissão. a fim de evitar a insuficiência renal. principalmente. reação inflamatória.

uma de carbono e uma de nitrogênio. pelo menos sem ser quilométrica para cada espécie! Trata-se de um conjunto muito rico de enzimas. portanto. (figura de necrose) Ação sobre a Coagulação do Sangue. Já os venenos de cobra não podemos expressar por uma fórmula. A cascavel produz uma fração tóxica que é pré-sináptica. não chega nenhum sinal ao músculo que se mantém inerte. o renal por exemplo. ao mesmo tempo. também. tem uma ação pós-sináptica. pelas lesões locais. e que continuam sem cessar por causa da ação anticoagulante dos venenos. e. não apenas com a espécie. que precisam ser controladas. Ação Neurotóxica. Diversas proteínas do veneno são capazes de lesar e mesmo necrosar os tecidos. O sangue flui em nossas veias em delicado estado de equilíbrio: não deve coagular a toa e nem pode ser incoagulável. de tóxicos e outras proteínas e variam. Em outras palavras. Provocam uma reação inflamatória intensa. e venenos complexos como é o caso das serpentes. que é uma proteína fundamental para fazer um coágulo. Como Atuam os Venenos das Cobras Existem venenos quimicamente simples como. ao contrário. imediatamente na hora da administração do antiveneno ou até um dia após a mesma. Veja na figura como funciona (figura). Melhor do que analisar bioquimicamente. O cenário está pronto para as hemorragias. Isto é feito com vários medicamentos simpatomiméticos (adrenalina. Rompem a coesão das paredes vasculares e provocam hemorragias. NAVARRO/2003 . isto é. o médico terá que observar cuidadosamente suas reações durante a soroterapia. o cianeto de potássio. A transmissão dos impulsos nervosos para os músculos fazse através de sinapses. que podem ocorrer nas mais diversas partes do corpo através dos vasos lesados. dentro da espécie. diminuindo sua quantidade e prejudicando sua qualidade. bloqueia o receptor nicotínico da acetilcolina. por exemplo.Jornal Interno de Saúde Finalmente. Em ambas as situações. aparecem reações de hipersensibilidade. mas. Sobretudo a cascavel e a cobra coral possuem neurotoxinas potentes que provocam paralisias musculares. com certa freqüência. e aí está o mortal inibidor da respiração celular. A coral. Com o decorrer do tempo. paralítico. Os venenos dos ofídios perturbam esse equilíbrio e têm poder coagulante e hemorrágico. inibe a liberação de acetilcolina pelos impulsos nervosos. é descrever as suas principais propriedades: Ação Proteolítica. bloqueando o fluxo sangüíneo e dificultando a oxigenação de certos tecidos. É que. Considerando as reações de hipersensibilidade. começam impedir a coagulação do sangue que corre nos vasos do corpo (isto sem desfazer os coágulos que causaram na microcirculação). porém ela não consegue atuar sobre os receptores pós-sinápticos que estão ocupados pelo veneno. como é o caso das jararacas e das surucucus. por exemplo) e anti-histamínicos. A fórmula do famoso cianeto é KCN. principalmente. uma molécula de potássio. com a idade e estado metabólico do animal. Estas propriedades são responsáveis. há liberação de acetilcolina. as enzimas tóxicas dos ofídios atuam sobre a fibrina. é que se desaconselha que a soroterapia seja instalada por leigos. Desencadeiam a coagulação do sangue na microcirculação.