Aula 01- O conceito de Direito

Introdução Estudar o direito é algo que pode levar a vida inteira. Trata-se de tarefa tão complexa, e que envolve um número tão grande de discussões e de polêmicas, que os cientistas do direito ± os juristas ± não estão de acordo nem mesmo quanto ao seu conceito. Na verdade, existem várias definições para o termo ³direito´, uma vez que os modos de entendê-lo são muito diversificados. Um dos mais prestigiosos juristas contemporâneos ± o inglês H. L. A. Hart ± dedicou um livro inteiro ao problema e ainda assim não conseguiu chegar a uma conclusão plenamente satisfatória. Isso porque o direito vem sendo constantemente definido e redefinido das mais variadas maneiras durante seus milhares de anos de evolução. É claro que o objetivo do presente curso não é formar juristas, advogados ou bacharéis em Direito, de modo que a maior parte das teorias que envolvem a conceituação do Direito e outros aspectos particulares não serão abordados. O Direito é um dos mais vastos, ricos e fascinantes continentes que formam o mundo do conhecimento e, obviamente, não é possível conhecê-lo profundamente em um curso introdutório como este. O que se pretende é oferecer uma visão panorâmica, extensiva e geral do mundo jurídico, de maneira que você possa nele se localizar e compreender seu funcionamento básico. VOCABULÁRIO JURÍDICO: Adjetivo derivado da palavra latina jus ± que significa direito ± cuja função é qualificar realidades que guardem alguma relação com o direito. Por exemplo: norma jurídica, isto é, norma de direito; obras jurídicas, ou seja, obras a respeito do direito. Imagine que o Direito é uma grande cidade como Paris, São Paulo ou Barcelona e que esta disciplina é um guia de viagem. O viajante que quiser conhecer detalhadamente qualquer uma dessas cidades não pode se limitar ao seu guia; ao contrário, deve nelas viver e conhecer os seus mínimos segredos. Contudo, se não quiser ou não puder fazer isso, o guia lhe fornecerá as informações básicas, sem as quais seria impossível até mesmo se localizar e começar a conviver em universos tão ricos. Esta disciplina é assim: muito mais um início do que um fim. Após apresentarmos as principais significações do vocábulo ³direito´ no próximo tópico, estaremos prontos para iniciar a nossa viagem ao mundo jurídico. Nossa missão será conhecer algumas das mais importantes instituições jurídicas. Mas o que significa ³instituição´ para o Direito? A disciplina Fundamentos do Direito Público e Privado é um guia básico para aqueles que pretendem e precisam lidar com o Direito, mas que não vão ³morar´ nele, ou seja, não vão fazer um curso de graduação em Direito. Nesse sentido, apresentaremos as noções, conceitos e estruturas teóricas fundamentais do Direito para que você tenha dele uma idéia que, embora introdutória, seja correta, rigorosa e clara. Pode-se entender as instituições do Direito como estruturas téorico-conceituais que se desenvolveram historicamente e que representam os principais ³assuntos´ ou ³matérias´ das diferentes disciplinas jurídicas. Assim, por exemplo, o casamento e o contrato de compra e venda são instituições de Direito Civil e, por conseguinte, do Direito como um todo. O que faremos neste curso é estudar as principais instituições do Direito, ou seja, seus temas e estruturas teóricas fundamentais. Com as informações disponibilizadas no presente curso você irá compreender melhor certos aspectos que envolvem sua futura profissão, bem como algumas situações jurídicas que ocorrem em seu cotidiano. Ainda

que não saibamos, a todo momento de nossas vidas estamos utilizando o direito, de modo que me parece impossível imaginar uma sociedade humana na qual inexista uma ordem jurídica qualquer, ainda que primitiva. Conscientes dessa verdade tão evidente, os antigos romanos costumavam dizer: ³Ubi societas, ibi jus´, ou seja, ³onde está a sociedade, está o direito´. VOCABULÁRIO ORDEM OU ORDENAMENTO JURÍDICO: conjunto unitário, coerente e completo de normas jurídicas que regulam a vida social em determinado Estado. Falamos, portanto, em ordenamento jurídico brasileiro para nos referir ao conjunto sistemático de normas jurídicas que formam o direito brasileiro. A expressão ³ordenamento jurídico´ passou a ser utilizada com freqüência pelos juristas a partir da obra fundamental de Bobbio, Teoria do ordenamento jurídico. Norberto Bobbio (1909 - 2004) Famoso cientista político italiano e autor de obras fundamentais de Direito e de Política, foi uma das mentes mais poderosas do século XX, tendo ocupado o cargo de senador vitalício da Itália. Atividade O estudo do Direito é importante para a sua formação profissional? Fundamente a sua resposta. As várias significações do vocábulo ³Direito´ A palavra ³direito´ tem vários sentidos. Nesta aula, estudaremos os principais. Direito como conjunto jurídico-normativo O primeiro e mais importante significado do termo ³direito´ remete à noção de conjunto jurídico-normativo. Nesse sentido, a expressão designa uma reunião sistemática de normas jurídicas que regulam a vida social em dado Estado. Quando alguém se refere, por exemplo, ao direito brasileiro ou ao direito francês, está querendo aludir às normas jurídicas que vigoram nesses Estados. Esta é a mais comum e conhecida significação da palavra. Quando dizemos ³direito´, quase todos pensam de forma imediata nas normas jurídicas existentes no Brasil e que nos obrigam a fazer ou a deixar de fazer algo, por exemplo: pagar imposto de renda e não matar outras pessoas. Pensa-se nas ³leis´, segundo a expressão popular, embora os conceitos de ³norma jurídica´ e de ³lei´ não sejam idênticos, como veremos na Aula 2. A partir da próxima aula, ao utilizarmos o vocábulo ³direito´, estaremos sempre nos referindo a esse primeiro sentido. No decorrer de nossas aulas, quando quisermos aludir aos outros sentidos da palavra ³direito´, indicaremos a mudança de significação. No seu primeiro sentido, o vocábulo ³direito´ refere-se ao somatório de todas as normas jurídicas que vigoram em determinado Estado. Assim podemos dizer que, ao adotarmos tal significação para o termo ³direito", estamos compreendendo-o como sinônimo de ³ordenamento jurídico´. Atividade Descreva algumas situações de sua rotina diária nas quais é possível notar a presença do direito. Direito como ciência A ciência é um tipo de conhecimento que estuda realidades humanas e naturais, tentando explicá-las e compreendê-las. Pode-se construir conhecimentos científicos em relação a muitos objetos, sejam eles naturais ou humanos. Assim, por exemplo, a ciência que estuda a constituição da matéria e as leis que a rege

é a química. Por outro lado, a sociologia estuda a sociedade e os fenômenos sociais. As normas jurídicas também são estudadas por uma ciência específica, a chamada ³ciência do direito´ ou simplesmente ³Direito´. Eis o segundo sentido do vocábulo: Direito é sinônimo de ciência jurídica, ou seja, de um tipo de conhecimento racional que pretende descrever as normas jurídicas, visando a compreendê-las, classificá-las, analisá-las e esclarecer-lhes o sentido. NOTE BEM: A ciência do direito, como todas as ciências, não cria seu objeto de estudo, que são as normas jurídicas; ela simplesmente descreve as normas jurídicas já existentes. Quem cria as normas jurídicas não é o cientista do direito, mas sim o Estado, por meio de suas estruturas de poder, notadamente o Poder Legislativo. Foi Kelsen quem fez essa importante diferenciação entre função de criação do direito ± que pertence ao Estado ± e função de conhecimento do direito ± que está cometida à ciência jurídica. Nas faculdades de Direito os estudantes passam cinco anos estudando normas jurídicas, isto é, tomando contato com o conjunto jurídico-normativo pátrio por meio da ciência jurídica. As várias disciplinas que compõem a grade curricular de tais alunos são, em sua maioria, ramos, isto é, subdivisões da ciência do direito: Direito Constitucional, Direito Civil, Direito Empresarial, Direito Administrativo, Direito Tributário, Direito Processual, Direito Penal, Direito do Trabalho etc. Hans Kelsen (1881±1973) Teórico do Direito e da Política nascido em Praga, é por muitos considerado o mais importante jurista do século XX. Sua Teoria pura do direito, de matriz normativista, modificou a forma como se pensa o Direito na atualidade. CURIOSIDADE: Com a finalidade de se evitarem confusões, e tendo em vista que a mesma palavra ± qual seja, ³direito´ ± serve para designar o nome da ciência jurídica e também o seu objeto de estudo, convencionou-se que quando a palavra ³direito´ designar a ciência jurídica deve-se grafá-la com inicial maiúscula: Direito. Nos outros casos, especialmente quando se pretende aludir ao conjunto de regras jurídicas válidas em certo Estado, usa-se inicial minúscula: direito. Assim, não é correto escrever ³faculdade de direito´ ou ³curso de direito´. As formas corretas são: ³faculdade de Direito´ e ³curso de Direito´. Atividade Explique o sentido da seguinte afirmação: o Direito estuda o direito. Direito como atributo pessoal Um terceiro sentido para o vocábulo ³direito´ é o de atributo pessoal. Quando afirmamos que temos direito a algo estamos nos referindo ao direito como se fosse um bem que nos pertence. Trata-se de um dos sentidos mais utilizados e conhecidos da palavra. Quem nunca afirmou, em uma situação conflitiva, que ³tem seus direitos´? Quem nunca exigiu que fossem respeitados os seus direitos? Quando observamos o direito do ponto de vista do sujeito a quem ele pertence, estamos tratando-o como um atributo pessoal. Uma coisa é observar o direito de forma objetiva e entendê-lo como um conjunto de normas jurídicas válidas em dado Estado; outra coisa, bem diferente, é compreender subjetivamente o direito como algo que nos pertence. Essas duas maneiras diferentes de se enxergar o mesmo objeto deram origem a uma das grandes divisões do mundo jurídico, que inclusive iremos estudar em aulas futuras: de um lado, o direito objetivo, que é o conjunto de normas jurídicas válidas existentes em determinado Estado. De outro, o direito subjetivo, que são essas mesmas normas entendidas por meio da óptica dos sujeitos para quem elas criam situações juridicamente relevantes,

uma vez que se trata de valor extremamente complexo que sempre preocupou os pensadores.] Assim. a francesa droit. ou seja. O direito de ir e vir garantido na Constituição brasileira é um direito subjetivo. posso dizer que tenho um direito ou. uma faculdade pessoal pertencente a todos os brasileiros e aos estrangeiros residentes no Brasil. conforme bem se expressou Ihering. 5º. Nesse célebre livro.´ Direito como justiça Outra forma de se entender o direito é identificá-lo com a justiça. e não uma dádiva dos governantes para os governados. que. a provençal drech e a catalã dret ± vem do vocábulo latino directus. obviamente. ou seja. Rudolph von Ihering (1818 ±1892) Famoso jurista alemão cujas teorias sobre posse e propriedade são fundamentais para o Direito Civil atual. Escreveu A luta pelo direito. inciso XV: é livre a locomoção no território nacional em tempos de paz. ³que segue em linha reta uma ordem predeterminada´. como no caso de um criminoso condenado. um direito subjetivo. Assim como a beleza e o bem. Desse modo. deve ser preso. filósofos e juristas. o direito de ir e vir.. igualitário e quase divino ± a justiça ±. está querendo se referir a um valor ideal. a não ser em situações específicas. injusto etc. torto. se utilizarmos o termo técnico adequado. Contudo. [. isto é. Assim. em verdade. a italiana diritto. Muitas vezes confundimos ± inadvertida e erroneamente ± esses dois conceitos.protegendo-lhes certos interesses. nos termos da lei. quando tenho um interesse protegido pela ordem jurídica. ³que não é torto´ etc. podendo qualquer pessoa. art. Atividade Explique o sentido das seguintes palavras de Ihering. DIREITO SUBJETIVO: INTERESSE JURIDICAMENTE PROTEGIDO Por exemplo: a Constituição da República Federativa do Brasil ± o mais importante subconjunto jurídiconormativo do nosso ordenamento jurídico ± assegura a todos nós o livre direito de locomoção. a palavra portuguesa ³direito´ ± bem como a castelhana derecho. uma das obras jurídicas mais conhecidas e apreciadas de todos os tempos. são bem diversos. Por isso. o contrário de errado.. direito seria aquilo que é correto. LEGISLAÇÃO CONSTITUCIONAL Constituição da República Federativa do Brasil. que. esclarecendo em que sentido ele está empregando a palavra ³direito´: ³A luta pelo direito constitui um dever do indivíduo para consigo mesmo. um atributo. permanecer ou dele sair com seus bens. uma definição preliminar poderia ser a seguinte: . Quando algum indivíduo diz que ³isto não é direito´ ou que ³o direito irá prevalecer sobre a injustiça´. Não é fácil conceituar a justiça. nele entrar. recebendo definições históricas muito diferentes entre si. que significa ³correto´. CURIOSIDADE: Etimologicamente. incorreto. o indivíduo apenas cumpre um dever de autodefesa moral. ao reagir diante de uma violação de seu direito. e não propriamente a um conjunto de normas jurídicas. Ihering sustenta que o direito é resultado de lutas populares e de reivindicações históricas. a justiça é um valor superior. uma ofensa deliberada ao direito representa uma agressão contra a pessoa. Tal significa que ninguém pode cercear ou negar esse direito.

torto. Atividade Descreva algumas normas jurídicas injustas que você conhece e sugira mudanças que. é jurídico. Resumo O Direito é uma das disciplinas mais complexas e ricas dentre as muitas outras que compõem o rol das ciências humanas. Se ambos fossem realidades idênticas. caso queiramos um direito menos injusto. não existiriam normas jurídicas injustas. A partir da próxima aula. tais realidades não se confundem... segundo sua opinião. deputados federais e senadores aumentaram suas remunerações. b) Ciência humana que estuda ± e não cria ± normas jurídicas. a palavra ³direito´ apresenta diversos significados. com muita freqüência. Tais atos ofendem o senso de justiça de todo o povo brasileiro. Dessa forma. devem ser realizadas no ordenamento jurídico brasileiro. uma vez que conhecer o Direito. Por que o estudo do direito é importante para a sua formação? 5. ademais. sendo apenas uma das muitas aberrações existentes em nosso direito que devem ser mudadas democraticamente pela sociedade civil organizada. fundamentadamente e em cada caso. uma vez que o direito brasileiro os autoriza. por meio da mídia impressa. Abaixo foram selecionados alguns significados do vocábulo ³direito´ constantes do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. O que é ³instituição´ para o Direito? 4. Contudo. Apesar de o direito e a justiça serem conceitos próximos e complementares. sendo reto. Trata-se de ato que. por isso. ou seja. ainda que de forma básica. atingem cifras astronômicas. é fundamental para sua formação profissional. estudaremos suas principais instituições. embora não seja justo. Pelo fato de direito e justiça não se encontrarem de forma necessária. em sua grande maioria é obrigado a viver com um salário extremamente baixo. fixado por esses mesmos parlamentares. Todos nós já nos revoltamos ao saber. Qual é o objetivo fundamental da disciplina Fundamentos do Direito Público e Privado? 3. deputados estaduais. abjetos e injustos. probo e íntegro. acadêmica e humanística. Os principais são os seguintes: a) Conjunto das normas jurídicas válidas em determinado Estado. Atividades 1. se opõe ao que é errado. Prova disso é que os homens sempre lutaram ± e ainda lutam ± para adequar o direito à justiça. existem normas jurídicas justas e outras absolutamente injustas e imorais. como a que permite aos membros do Poder Legislativo a fixação de seus próprios vencimentos. d) Aquilo que é correto e justo e. o homem justo seria aquele que respeita a eqüidade. que vereadores. que. televisiva ou virtual. Esclareça. seus principais temas. 2. podemos considerar os freqüentes e cada vez mais gordos aumentos ± ou ³reajustes´. qual dos quatro sentidos estudados nesta aula foi empregado pelo dicionarista: . Defina ³direito´ de acordo com os quatro principais pontos de vista expostos nesta aula. c) Atributo ou faculdade pessoal que protege certos interesses humanos. mas não ilegais ou antijurídicos. Contudo. como ironicamente são chamados ± imorais. que. desajustado etc.justiça é dar a cada um aquilo que lhe é devido.

o senso comum. de padronização. procedimento etc. certo. d) Sem erros. o . Exemplo: É preciso extirpar os aspectos arcaicos do direito brasileiro. comerciante direito não rouba no peso. Aula 02. por nascimento. Exemplos: Direito de caça. aquele que define o direito como um conjunto de normas reguladoras da convivência social. f) Aquilo que é facultado a um indivíduo ou a um grupo de indivíduos por força de leis ou dos costumes. correto. Exemplos: Estudante de direito. regalia. de normalidade. justo. e) O que é justo.DIREITO: a) Que segue a lei e os bons costumes. Interessa-nos sobretudo o primeiro e mais importante significado do termo. O conceito de norma A palavra ³norma´ descende do termo latino norma. m) Conjunto de leis e normas jurídicas vigentes num país. ou seja. correto. não é direito furar fila. sem respondê-las. certo. o patrão tem direito de despedir por justa causa. bom. traçando as fronteiras do ilegal e do obrigatório. direito de exercer a medicina. vimos quão variados são os sentidos do vocábulo ³direito´. Além de outras significações.) Exemplos: O guarda tem direito de multar os infratores. é impossível conhecer de maneira cientificamente adequada as instituições jurídicas que serão apresentadas no decorrer do presente curso. direito de se casar com quem quiser. l) Ciência que estuda as regras de convivência na sociedade humana. Exemplos: Homem direito. c) De conduta impecável. Exemplo: O fidalgo.. jurisprudência. de modelo etc. correto. honesto. irrepreensível. Exemplo: O direito é deixar livres estas pessoas. Exemplos: Não está direito os ricos não pagarem impostos. Exemplo: Suas contas estão direitas. Exemplos: Direito de praticar qualquer religião.O conceito de norma Introdução Na nossa primeira aula. h) Privilégio. Mas o que são normas jurídicas? Existem outros tipos de normas? Como o direito regula a vida em sociedade? Todas estas questões são de fundamental importância e. g) Prerrogativa legal (para impor a outrem alguma medida. i) Autorização legal (para determinadas ações ou atividades). b) De acordo com os costumes. esclareceremos tais aspectos nesta e na próxima aula. tinha direito de ocupar uma alta posição na sociedade. j) Conjunto de normas da vida em sociedade que buscam expressar e também alcançar um ideal de justiça. Assim sendo. Seu contrário é o anormal. n) Conjunto de cursos e disciplinas constituintes do curso de nível superior que forma profissionais da lei. faculdade de direito. Exemplo: Uma moça direita. as normas morais e éticas etc. de atributo pessoal e de justiça (correção). justo. que remete às idéias de regularidade. correto. pode remeter à noção de ordenamento jurídico. de ciência jurídica. Normal é aquilo que todos fazem ou aceitam.

que regulam nosso comportamento diante dos outros membros da sociedade tendo em vista uma dada noção. Na realidade. Os exemplos acima já são suficientes para demonstrar que muitos aspectos da nossa vida são regrados. dirigidos aos judeus e aos cristãos de forma geral. difusa e inconscientemente aceita. sugestões. não se pode contar apenas com a boa vontade dos seres humanos. e não pedidos. e as regras presentes no Alcorão. Graças às normas. podemos observar a presença da norma social ³não mentir´. ou seja. regulados por normas. pois são elas que a organizam. Tal se dá mediante a sanção. em nossa cultura. ou seja. Há normas religiosas. que pode ser definida como conseqüência normativa. que proíbe o muçulmano de manter relações sexuais com a sua mãe. uma norma. o vocábulo se liga à noção de normalidade. tais como as de etiqueta. etimologicamente. As diferentes normas cumprem um papel fundamental na sociedade. tais como os dez mandamentos. NORMA = MANDAMENTO DIRIGIDO À CONDUTA DE OUTREM Existem diversos tipos de normas. uma vez que. explicando por que considerou algumas como jurídicas e outras como religiosas ou sociais. Já temos. Todas as normas são mandamentos. objetivando comandar-lhes a conduta. 23. o que temos é um comando paterno dirigido ao filho. Eis o melhor e mais simples conceito de norma: mandamento dirigido à conduta de outrem. de modo que os mentirosos são quase sempre malvistos pelos outros membros da comunidade.raro. podemos enumerar diversas outras. como aquela contida na Surata IV. portanto. as suas filhas e as suas irmãs Há também as chamadas normas sociais. A sanção normativa De nada adiantariam as normas se elas não dispusessem de uma garantia de que serão cumpridas. de ética coletiva. SANÇÃO = CONSEQÜÊNCIA NORMATIVA . Além das normas religiosas e sociais. o convívio social seria impossível sem elas. uma ordem nascida da vontade de um indivíduo ou de um grupo de indivíduos e que se destina a outro ou outros indivíduos. Por exemplo: quando um pai diz ao seu filho ³Você não sairá hoje´. o excêntrico. uma vez que as ordens que podemos formular e receber são muito diversificadas. que nos dizem de que maneira devemos nos comportar nos diferentes ambientes que freqüentamos para sermos considerados educados. uma primeira noção de norma. Assim. Atividade O que é norma? Dê exemplos de normas jurídicas. Com efeito. e não com as mãos. compostas por preceitos de observância obrigatória para os fiéis de certo credo. conselhos ou apreciações. Norma é. É preciso que as normas sejam capazes de se impor diante daqueles indivíduos que não as cumprem espontaneamente. controlando a conduta de seus membros de modo a criar um sentimento de segurança coletiva e de relativa previsibilidade. religiosas e sociais que regulam a sua vida e tente diferenciá-las. Um bom exemplo de norma de etiqueta é aquela que nos manda comer com o auxílio de talheres. sabemos o que podemos fazer e o que devemos esperar dos outros na maior parte das situações. portanto. Os tipos de normas são variadíssimos e não nos cabe aqui traçar uma lista completa das espécies normativas.

a toda evidência. quantia mensal equivalente a um salário mínimo´. A norma ³não matar´ (artigo 121 do Código Penal Brasileiro) possui forma penalizadora porque a sanção para o seu descumprimento corresponde a uma pena de privação da liberdade de 6 a 20 anos. as indústrias químicas) uma recompensa ou prêmio caso cumpram o mandamento.´ O que muda em ambos os exemplos é a sanção ± prêmio ou castigo ± conectada ao mandamento normativo. da seguinte maneira: ³Todo aquele que não matar receberá. na verdade. as sanções negativas têm se mostrado. hipótese em que estaremos diante de uma norma dotada de sanção positiva (norma premial).´ 2. o que. Ora. inclusive renomados juristas. Muitos autores. é muito mais fácil obter a obediência das pessoas ameaçando-as com um mal do que lhes prometendo um bem. Para que você compreenda melhor. será obtida se as indústrias químicas não poluírem o meio ambiente.´ NOTE BEM: Nas duas situações descritas acima a norma é a mesma: ³As indústrias químicas não devem poluir o meio ambiente. hipótese que corresponde a uma norma equipada com sanção negativa (norma penalizadora). não é correto. Prometendo-se aos destinatários da norma (no caso. imagine a seguinte norma: ³As indústrias químicas não devem poluir o meio ambiente´. historicamente. nesse caso específico. a conseqüência do cumprimento ou. essa finalidade pode ser alcançada de duas formas: 1. contudo ela foi expressa de duas formas diferentes: em forma premial e em forma penalizadora. Dessa forma.A sanção é. por parte do Governo. No entanto ela poderia ter sido expressa de forma premial. A norma em si é a mesma. um castigo ± a ser aplicada àqueles que descumprirem a norma em questão. do descumprimento do mandamento posto pela norma. Fixando-se uma penalidade ± isto é. uma vez que existem sanções positivas e sanções negativas. O que a norma objetiva é a preservação ambiental. seria menos eficaz e de operacionalização infinitamente mais complexa que a atual. Segundo Kelsen. o que é mais comum. Exemplo: ³As indústrias químicas que não poluírem o meio ambiente serão beneficiadas com descontos nos impostos que devem pagar. Tal conseqüência pode ser positiva ou negativa. finalidade que. Exemplo: ³As indústrias que poluírem o meio ambiente serão punidas com pesadas multas. como vimos. confundem o conceito de sanção com o de penalidade. mais efetivas que as positivas. forma normativa que. . Tal confusão se dá porque as sanções negativas ± as penalidades ± são bem mais numerosas e eficazes que as sanções positivas.

preferencialmente. não passam de vagas alusões encontráveis aqui e ali nos textos sagrados das várias crenças religiosas. ³Se você não se negar a lavar o chão. Sanção penalizadora e preceito afirmativo: Se X ocorrer (a norma pretende que seu destinatário não realize um dado ato X). dar-lhe-ei um carro novo´. de sanções negativas. segundo a visão do genial pintor flamengo Hieronymus Bosch A norma jurídica ³não matar´. Talvez por isso os suplícios do inferno sejam apresentados com um colorido bastante realista e selvagem ± exibindo uma surpreendente riqueza de detalhes ± enquanto as delícias do paraíso.³ É possível apresentar qualquer norma mediante a fórmula ³Se A. deve ser Y (Y corresponde a uma sanção negativa). Sanção premial e preceito nãoafirmativo: Se X não ocorrer (a norma pretende que seu destinatário não realize um dado ato X). expulsá-lo-ei de casa´. Todas as normas. as religiões lançam mão. deve ser B no qual A corresponde ao pressuposto normativo (ou preceito) e B à sanção. que se ocupa exclusivamente de normas jurídicas. alguém matar (pressuposto normativo). pode ser assim decomposta: ³Se (1450-1516). de acordo com a estrutura sancionatória (premial ou penalizadora) que se quiser conferir à norma em sua segunda parte. 4. deve ser Y (Y corresponde a uma sanção negativa). Veja abaixo quatro maneiras diferentes de se apresentar a norma ³lavar o chão´: 1. Todas as normas possuem uma estrutura dúplice: na sua primeira parte localiza-se o pressuposto normativo. deve ser Y (Y corresponde a uma sanção positiva). De acordo com Kelsen. podem ser expressas segundo o modelo acima. deve ser castigado com uma pena de prisão de 6 a 20 anos (sanção negativa). ³Se você não lavar o chão. se realizado. . 3. Sanção penalizadora e preceito não-afirmativo: Se X não ocorrer (a norma pretende que seu destinatário realize um dado ato X). que se relaciona diretamente ao mandamento que deve ser seguido. deve ser Y (Y corresponde a uma sanção positiva). expulsá-lo-ei de casa´. dar-lhe-ei um carro novo´. quase desconhecidas. Na sua segunda parte encontramos a sanção. ³Se você se negar a lavar o chão. Eis o esquema formal de qualquer norma: Se A. Sanção premial e preceito afirmativo: Se X ocorrer (a norma pretende que seu destinatário realize um dado ato X). as diferentes ordens normativas vêm preferindo sanções penalizadoras às sanções premiais. que garantirá a observância da ordem contida no pressuposto normativo. 2. por exemplo. CURIOSIDADE: O estudo da lógica e das várias formas por meio das quais se pode formular um mandamento é essencial para a ciência do direito. aquela situação ou ato pretendido ou proibido pela norma que. independentemente de suas formas verbais.Historicamente. quando os castigos infernais foram abundantemente retratados tanto pelas religiões quanto pelas artes plásticas e literárias. em especial no que se relaciona ao período da Idade Média no Ocidente. Basta que na primeira parte esteja contido o pressuposto. O inferno. para verem cumpridas as normas que impõem a seus fiéis. deve ser B´. ³Se você lavar o chão. dará lugar a uma sanção positiva ou negativa. ou seja.

é necessário diferenciá-la das normas religiosas e sociais. A sanção jurídica A norma jurídica é uma espécie normativa que se diferencia das demais graças a algumas particularidades relativas à sua sanção. Alemanha ou China. até mesmo da vida. visto que estas. Assim. VOCABULÁRIO Entenda-se Estado como uma específica e complexa forma de organização social que congrega três elementos básicos: povo. servem a idêntico propósito: controle social. resguardam a ética coletiva do grupo que as adota. e não Paraná. Como todas as normas. que promete se efetivar apenas no além-túmulo. território e poder soberano. ao qual estão juridicamente subordinados. são exemplos de Estados: Brasil. não desejando sofrer os castigos que fazem parte do extenso e criativo rol argumentativo de todas as religiões que já alcançaram certo nível de dominação e de aceitabilidade social. antes de defini-la de forma rigorosa e tecnicamente correta. Apesar de algumas condutas ± tais como o assassinato ± representarem ao mesmo tempo ilicitudes jurídicas e sociais devido ao potencial ofensivo que encerram. quando se trata de normas sociais ou costumeiras. torna as normas religiosas muito mais eficazes que as jurídicas. de certo e errado. o que diferencia a norma jurídica das demais é a sua sanção não-transcendente e socialmente organizada. Na próxima aula. Dessa forma. tal e qual as jurídicas. como separá-las das normas jurídicas? As normas sociais ou costumeiras são aquelas formadas ao longo dos tempos pelos hábitos de uma dada comunidade e. as normas jurídicas brasileiras integram o direito brasileiro. veremos o que se deve entender por ³norma jurídica´ quando descrevermos suas principais características.Atividade Qual é a importância da sanção para as normas e quais são suas duas principais formas? Fundamente a sua resposta. Os bens e os males distribuídos pelo direito se relacionam à nossa vida cotidiana. de certa forma. Os castigos e prêmios prometidos pelas religiões somente se verificam ± em tese e segundo seus dogmas ± após a morte do indivíduo. As pessoas podem não temer castigos terrenos tais como a perda da liberdade ou. A sanção jurídica. que é a capacidade de criar um ordenamento jurídico próprio e independente. na verdade. nem tudo aquilo que é interditado pelas normas sociais . portanto. que. diferentemente da religiosa. em casos extremos. bastante simples diferenciar as normas jurídicas das normas religiosas: basta observar a enorme diferença existente entre as sanções típicas dessas duas ordens normativas. mas a grande maioria dos seres humanos se preocupa com seu destino após a morte. se dá neste mundo. Rio de Janeiro ou Bahia. SANÇÕES JURÍDICAS = NÃO-TRANSCENDENTES SANÇÕES RELIGIOSAS = TRANSCENDENTES É. O conjunto das normas jurídicas de certo Estado forma o seu direito. deve ser B). Diz-se que a sanção jurídica é não-transcendente porque ela se realiza neste mundo. são Estados -Membros que compõem o todo maior chamado de Estado brasileiro. e não realidades místico-metafísicas. Vejamos o que isso significa. ao contrário da sanção religiosa. o que. as jurídicas também apresentam estrutura dúplice (Se A. Na verdade. de bem e mal etc. uma vez que as normas jurídicas têm por missão regular a convivência social concreta e efetiva. aliás. visto que se fundamentam nas noções correntes de adequado e inadequado. Mas. Contudo.

acima. irracional e desorganizada como a da sociedade. ela é socialmente desorganizada. posto que não conta com uma estrutura de poder constituída e organizada que garanta a sua aplicação. sua intensidade e outras importantes circunstâncias que a envolvem. não gera efeitos na órbita do direito.. ou então podem não acreditar mais em nenhuma de suas palavras. e não na mente daquele que falta com a verdade. inclusive. A reação do Estado diante da desobservância de seus comandos normativos não é desconcentrada. Por exemplo: para a maioria das comunidades humanas. mentir é uma conduta proibida pelas normas sociais. observando. a norma ³não mentir´ é social. completamente desorganizadas. as condições previstas nos respectivos ordenamentos jurídicos. não é punido juridicamente no Brasil. o Estado estrutura-se e aparelha-se de . há a possibilidade de se aplicar sanções sociais mais severas. isolando-o da comunidade. Contudo. como no caso das sanções sociais. Tal aplicação normativa não dependerá de avaliações subjetivas e emocionais. como diferenciar a sanção jurídica da sanção social ou costumeira e. distinguir as normas jurídicas das normas sociais? Basta que você leia o parágrafo anterior novamente para perceber a diferença básica existente entre essas duas importantes formas de controle social. Ainda hoje certos grupos humanos acreditam que a punição adequada para o mentiroso é a extração de sua língua. ³podem não acreditar mais em nenhuma de suas palavras´ etc. Pois bem. Note que.é também proibido pelo direito. é socialmente organizada. ao me referir a aplicações de sanções sociais. enxergando-o como um indivíduo socialmente desacreditado e indigno de confiança. Todavia. ³as pessoas com as quais convive podem passar a evitá-lo´. que. A sanção jurídica. aquela pessoa que falta com a verdade unicamente para se divertir ou por compulsão. A mentira em si não é considerada um ilícito jurídico e o mentiroso. Ao direito a mentira não importa. detalhar e definir. podem ser proibidas pelo direito vigente. Na verdade. que. no caso das normas premiais) dos comandos normativos. e não jurídica. por seu turno. Inexiste qualquer garantia quanto à sua aplicação: não se conhece de antemão sua forma. Tal depende dos ânimos e dos humores dos membros do grupo social que a sustenta. a aplicação de suas sanções jurídicas. por isso mesmo. a não ser em algumas situações especiais. ademais. SANÇÃO SOCIAL/COSTUMEIRA = SOCIALMENTE DESORGANIZADA SANÇÃO JURÍDICA = SOCIALMENTE ORGANIZADA A sanção social ou costumeira pode ser aplicada ou não. diferentemente da sanção jurídica. ele pode vir a sofrer uma sanção social: as pessoas com as quais convive podem passar a evitá-lo. Ao contrário. da forma mais completa possível. Os diferentes Estados criam estruturas capazes de garantir. racionais e previamente determinados pelos próprios Estados. sabendo que em certas circunstâncias suas normas jurídicas vão ser inevitavelmente descumpridas por alguns indivíduos. seguindo uma série de requisitos legais e lançando mão de critérios objetivos. descrevi tais situações de maneira condicional: ³ele [o mentiroso] pode vir a sofrer uma sanção social´. por conseguinte. são uma espécie de monopólio estatal. para tanto. como se a mentira residisse nesse órgão. visto que conta com todo um complexo aparato técnico cuja função é garantir a sua aplicação na hipótese de desobservância (ou observância. como quando alguém lança mão de inverdades para obter vantagens econômicas indevidas ou mente no contexto de um processo em que servia de testemunha. ou seja. Expressei-me assim em relação à sanção social porque.. Apenas os Estados podem aplicar sanções jurídicas aos seus cidadãos. apesar de não haver uma sanção jurídica para o mentiroso. Normalmente. Em algumas comunidades. será feita na medida das regras estatais.

se comportam como se fossem Estados. deve ser B´. apesar de. à conseqüência do cumprimento (sanção premial) ou do descumprimento (sanção penalizadora) do comando normativo. são minuciosamente organizadas. não nos compete no presente momento. Essas três espécies normativas distinguem-se em virtude do tipo de sanção que apresentam: a) As sanções jurídicas são não-transcendentes e socialmente organizadas. c) As sanções sociais são não-transcendentes e socialmente desorganizadas. assim como as jurídicas. Distinga a sanção jurídica das sanções religiosas e sociais. as prisões. no qual A representa o pressuposto normativo. isto é. deverem ser. tal discussão refoge ao âmbito teórico desta disciplina e somente pode ser desenvolvida mediante uma visão sociológica do fenômeno jurídico. 4. Para isso ele criou o Poder Judiciário. Nada obstante. mas também nas religiosas. 2. isto é. falta de recursos técnicos ou equipamentos. sempre jurídicas. Diferencie a norma premial da norma penalizadora. despreparo ou indiferença daqueles que gerem o sistema jurídico. resta esclarecer que as sanções sociais são. tarefa que. não-transcendentes. O que é sanção? Fundamente a sua resposta. b) As sanções religiosas são transcendentes e socialmente organizadas. questões técnicas jurídico-processuais etc. influência do poder político ou econômico no campo do direito. O que diferencia ambas as espécies é a organização de sua aplicação. as polícias e uma infinidade de instrumentos aptos a garantir a correta e efetiva aplicação de suas sanções. . apesar de interessante. Existem diversos tipos de normas. que. e B corresponde à sanção. nesse sentido. a situação que dará ensejo à aplicação da sanção. as leis. dentre as quais se destacam as jurídicas. 3. há algumas situações nas quais as sanções jurídicas não são aplicadas. atributo existente não apenas nas sanções jurídicas.modo a garantir a aplicação da sanção jurídica. Nada obstante. religiosas e sociais: Tipo de sanção Jurídica Religiosa Social Resumo Não-transcendente X Aplicação socialmente organizada X X X Normas são comandos dirigidos à conduta dos indivíduos e apresentam a estrutura ³Se A. Atividades 1. previstas e descritas pelas diversas religiões que. Por fim. teoricamente. de certa forma. Tal ocorre graças à concorrência de diversos fatores: incompetência. O que é norma? Fundamente a sua resposta. O quadro abaixo sintetiza as principais características que distinguem as sanções jurídicas. as religiosas e as sociais.

muito mais do que punir os desviantes e os malfeitores ± que em comunidades normais representam sempre a minoria ±. as religiosas e as sociais (ou costumeiras).A norma jurídica Introdução Na aula passada. é preciso descrever aquela espécie normativa que nos interessa de forma especial: a norma jurídica. os homens deixaram de temer com tanto pavor os castigos impostos pelos deuses. uma vez que normas são mandamentos dirigidos à conduta de outrem. maior o espaço das normas jurídicas. com o advento da contemporaneidade. Pois bem. Trata-se de definição bastante completa porque se refere às duas principais características da norma jurídica (objetividade e despsicologização). tais como as jurídicas. Sem direito não há sociedade. tema já enfrentado na aula anterior. As normas jurídicas. . passam a compor o principal conjunto normativo regulador da vida em sociedade. A simples existência de normas religiosas e sociais não basta para obter a obediência dos indivíduos. realista e satisfatória. descreveu e definiu a norma jurídica de forma clara. a sociedade encontre meios eficazes de autodefesa. O que significa ³norma jurídica´? Quais são as suas características mais marcantes? Como ela cumpre a função de controle social? Tais questões serão respondidas na presente aula com a ajuda de Hans Kelsen. tais normas se diferenciam de maneira bem clara porque suas sanções possuem características próprias: a sanção jurídica é não-transcendente e socialmente organizada enquanto a sanção religiosa é transcendente e socialmente organizada. mas. Ainda que as normas religiosas e sociais (costumeiras) exerçam uma importante ação inibitória nos impulsos anti-sociais (destrutivos) da maioria das pessoas. que. visto que coordena. organiza e define as ações permitidas aos membros da comunidade ao mesmo tempo em que proíbe e pune aquelas condutas consideradas delituosas. e também à especificidade de sua sanção. É preciso que. A organização social depende de vários fatores. Vimos que existem várias espécies normativas cujo objetivo é regular algum aspecto da vida humana. A partir de então. aquelas que regulam e organizam a vida em sociedade. a religião cumpria o papel hoje reservado ao direito. em relação a tais sujeitos. isto é. sempre existirão algumas que não se curvam diante dos deuses e dos costumes. O principal deles é o direito. as mais importantes são as que se destinam ao controle social. objetos de estudo desta aula.Aula 03. como a jurídica. após termos tomado contato com a noção de norma. diferentemente desta. extremamente místicas e supersticiosas. Dentre os muitos tipos de norma. que. por meio de sua coercibilidade intrínseca. Contudo. não-transcendente. em sua famosa teoria pura do direito. Quanto mais as normas religiosas recuam. Por seu turno. exercem a importante função de garantir à maioria dos membros da sociedade que a ordem será mantida e que não há motivo para se revoltar contra o poder constituído1. Normas jurídicas e controle social O conjunto das normas jurídicas ± o ordenamento jurídico ± cumpre um importante papel na sociedade. Apesar de servirem a um mesmo propósito. discutimos os conceitos de norma e de sanção. não é socialmente organizada. CONCEITO PRELIMINAR DE NORMA JURÍDICA A norma jurídica constitui um comando objetivo e despsicologizado cuja sanção é não-transcendente e socialmente organizada. Eis o conceito técnico-científico de norma jurídica. a sanção social é. Nas sociedades primitivas. o direito passou a ser cada vez mais solicitado como a principal forma de manutenção da ordem social.

Tendo em vista a relevante função exercida pelo direito na sociedade. pode vir a ser utilizada. jamais comete atos de violência. 1996. 2. As µsanções¶ são. coercitivo. assim.L. O Estado e o ordenamento jurídico por ele produzido lançam mão da coerção para que os comandos contidos nas normas jurídicas sejam cumpridos pela população. de certa maneira. ‡ Violência é o uso não-autorizado. por isso. Obedecer. muitos sucumbiram à tentação. exceto em sociedades muito pequenas e fortemente coesas. A. Ribeiro Mendes. Hart. Indubitavelmente. um comando dirigido à conduta de outrem. efetivamente. ou seja. O direito é. seria arriscar-se a ser posto irremediavelmente contra a parede.214) No mundo primitivo. isto é. demonstrando no decorrer dos tempos. sem se sujeitarem às suas obrigações. Em uma palavra: coerção é a ameaça de uso da força física. com maior ou menor acerto. p. tornando-se coativo apenas em casos excepcionais. Atividade Por que atualmente a importância do direito como forma de controle social vem crescendo? A objetividade da norma jurídica Como todas as espécies normativas. serão normalmente maiores. mas também como a utilização de armas de todos os tipos). a submissão a um sistema de restrições seria loucura. torna-se necessário conhecer as duas principais características das normas jurídicas que. se não houvesse nenhuma organização para a coerção daqueles que tentariam então obter as vantagens do sistema. na ausência de uma organização especial para a sua descoberta e punição. a norma jurídica é. pois o uso da força física lhe é legalmente autorizado. exigidas não como motivo normal para a obediência. Trad. um mandamento. Lisboa: Calouste Gulbenkian. na verdade. Contudo. Por exemplo: Se um policial age dentro dos limites impostos pela lei. 1³Todos são tentados por vezes a preferir os seus próprios interesses imediatos e. as vantagens das abstenções recíprocas são são tão palpáveis que o número e a força dos que cooperariam voluntariamente num sistema coercivo. o direito e a religião não se distinguiam. mas como uma garantia de que os que obedeceriam voluntariamente não serão sacrificados aos que não obedeceriam. não é um comando qualquer.A.de forma que é impossível conceber um Estado contemporâneo sem o seu correspondente ordenamento jurídico. Compreende todas as formas de utilização da força física não-autorizadas pelo direito.´ (H. mas sim um comando objetivo. Todavia. mas que no futuro. sem isto. ed. ‡ Coerção é a possibilidade do uso da força física. um comando que não se funda na vontade de um indivíduo. É uma força física que não está sendo. exercida. ou seja. da força física. A única utilização legal da força física é a jurídico-estatal. são responsáveis por essa extraordinária capacidade de ordenar a vida em sociedade que o direito vem. O conceito de direito. VOCABULÁRIO ‡ Coação é o uso efetivo e concreto da força física (entenda-se força física aqui não apenas como força corporal. ilegal (proibido pelo direito). O comando expresso por uma norma jurídica sempre se funda em outra . se verificadas determinadas circunstâncias.

Ambos exigem nosso dinheiro. se um fiscal de tributos exige que você lhe entregue R$ 100.00 em razão de um imposto nãopago. A figura que melhor representa o ordenamento jurídico é a pirâmide hierárquica: na sua base encontram -se as normas jurídicas inferiores. e assim sucessivamente. no Brasil. e no cume da pirâmide localiza-se o fundamento de validade de todo o ordenamento. e não apenas em sua vontade. inciso XLVII. existente. deve se reportar àquela que lhe é superior. no subjetivismo ± de um indivíduo.00. Sentido subjetivo = Fundamentase na vontade de quem emite a ordem. Aparentemente. que. nenhuma norma jurídica inferior ± e todas as demais normas do nosso ordenamento são inferiores à Constituição ± pode prever ou mandar aplicar a pena de morte. Por exemplo: o artigo 5º. para que uma norma jurídica comande a nossa conduta. uma vez que o ordenamento jurídico apresenta-se como estrutura escalonada na qual as normas inferiores (particulares) dependem das normas superiores (gerais). a pena de morte. o que temos é um comando objetivo. mas em uma norma jurídica que lhe ordena cobrar essa quantia. o que temos na verdade é um comando baseado unicamente na vontade do ladrão. o ato do criminoso e o do fiscal de tributos são iguais. Assim. em nosso caso. deve se basear na norma que lhe é imediatamente superior na escala hierárquica normativa. ou seja. Trata-se de uma norma? Sem dúvida! Todavia. concreta) máxima. Sentido objetivo = Fundamenta-se em outra norma superior. Tal norma se baseia em outra. que dependem das superiores. ORDENAMENTO JURÍDICO = ESTRUTURA PIRAMIDAL HIERARQUICAMENTE ORGANIZADA Dessa maneira. Aos dois entregamos a quantia solicitada. Mas apenas a conduta do agente do Fisco está autorizada pelo ordenamento jurídico. Quando um criminoso ordena a você que lhe entregue R$ 100. de estatura hierárquica superior. se fundamenta em outra até que se alcance a Constituição. é a Constituição da República Federativa do Brasil. seu sentido é meramente subjetivo porque se funda apenas na vontade ± ou seja. uma vez que se baseia em norma válida (comando objetivo). a norma da qual todas as demais dependem. Entretanto. por sua vez. até que se chegue à Constituição. por sua vez. Esta. A ordem do fiscal não se baseia em sua vontade pessoal. Dessa forma. NORMA . ou seja. alínea ³a´ da Constituição proíbe. as normas do ordenamento jurídico brasileiro são válidas somente se não contrariarem a Constituição. que. ela deve ser válida. não mais fundamentável. mas fundamental.norma hierarquicamente superior. que é a norma positiva (isto é.

como aconteceu no exemplo do pai e filho. hierarquicamente superior. o comando normativo somente tem existência enquanto sustentado pela autoridade que o formulou. as portarias. se tal for considerado pelo ordenamento jurídico como fonte do direito. Na verdade. Entretanto. . mesmo os injustos. A maioria das normas necessita de um suporte psicológico que mantenha a sua existência. comandos psicologizados. se o pai que ordenou ao filho que estudasse mudasse de idéia ou viesse a morrer. defendia a tese segundo a qual Deus dotou os seres humanos da capacidade de escolher livremente. Nós poderíamos lhe responder que as normas que guiam os impérios. não sendo. as decisões finais tomadas pelos juízes no curso dos processos ± também são normas jurídicas. o que se verifica em última análise é a atuação da vontade do pai sobre a conduta do filho. A objetividade é uma característica essencial de qualquer norma jurídica. Boa parte das normas são. Atividade Por que se diz que o sentido das normas jurídicas é sempre objetivo? Comando despsicologizado Todas as normas nascem de uma vontade. Em outras palavras: para que as ordens postas pela vontade de alguém se mantenham é preciso que esse alguém queira conservar essas normas. Existem normas cuja existência depende da permanência daquela vontade específica que lhes deu realidade. Santo Agostinho se perguntava o que são os impérios sem justiça senão grandes bandos de salteadores e o que são os bandos de salteadores senão pequenos impérios injustos. Uma norma jurídica positiva ± isto é. quando um pai ordena ao filho que vá estudar. assim como as leis. pois se ligam diretamente à vontade psíquica que lhes deu realidade. portanto.O comando normativo pode ter um sentido objetivo ou subjetivo. ao tomar uma decisão final relativa ao conflito que aprecia. os decretos. Santo Agostinho (354±431) Célebre filósofo cristão medieval. ele cria uma norma jurídica particular. ou seja. A norma posta pelo pai nada mais é do que uma expressão de sua vontade. têm sentido objetivo. Por outro lado. como no caso do criminoso que nos exige a carteira. e não ideal ou imaginada ± apenas encontra sua validade em outra norma jurídica posta mediante atos legislativos ou mesmo por meio do costume. concreta e existente. Nesse caso. As sentenças judiciais ± ou seja. as normas apresentam sentido objetivo quando fundam seu comando não na vontade de quem emite a ordem. No exemplo acima. válida apenas para as partes envolvidas no processo que preside. enquanto aquelas que regulam os bandos de salteadores apresentam sentido subjetivo. Será subjetivo quando se funda apenas na vontade de quem o formula. Elas também se originam de um querer. As jurídicas não são diferentes. todos os comandos normativos foram queridos ou desejados por um indivíduo ou por um grupo de indivíduos. portanto. Todas essas normas se fundamentam em normas jurídicas superiores. jurídicas. acima. Na verdade. ele o faz baseando sempre -se em uma norma jurídica mais geral e abrangente: a lei. as medidas provisórias etc. Assim. É por isso que se diz que o juiz aplica a lei. sem o que não poderiam existir. As normas jurídicas são sempre objetivas porque se fundamentam em outras normas superiores e não simplesmente na vontade daqueles que as utilizam. sem qualquer interferência divina. é necessário que continue ³querendo´ tais normas. sua ordem perderia a validade. mas sim em outra norma. entre o bem e o mal (livre-arbítrio).

Assim. a norma em si permanece válida. as religiosas ± dependem. mesmo que o legislador que as criou não esteja mais vivo. Todavia. E as normas jurídicas? Elas dependem da vontade original que as criou para permanecerem válidas e existentes? As normas jurídicas não surgem naturalmente. Devido a tais fatos. uma vez que não se conectam à vontade psíquica daqueles indivíduos que lhes deram existência. a todo momento. as normas jurídicas não necessitam mais do suporte psíquico humano que lhes deu origem. ela se desprende completamente da vontade daqueles que originalmente a quiseram. São ordens criadas pela vontade daqueles que. visto que. A norma jurídica. pode ser inteiramente diferente daquele originalmente pensado pelos legisladores. É preciso. esta sim. Se as normas jurídicas dependessem da vontade daqueles que as criaram para permanecerem existindo haveria um caos completo. com o passar dos tempos. de 11/01/1973): certamente a maioria dos parlamentares que o criaram já morreram ou então não mais exercem função legislativa. diferentemente de outras normas. O segundo. isto é. ao sentido autônomo que essa norma passa a ter após a sua entrada no mundo jurídico. . ou seja. mesmo que os legisladores que criaram uma dada norma já não mais existam. as pessoas acreditam que as normas religiosas são queridas por Deus. Assim. que. como se fossem frutos ou legumes. ser substituídas. certamente pode mudar ou mesmo se extinguir. Esse é o sentido da afirmação de um dos personagens do magnífico romance de Fiódor Dostoiévski. É possível. todas as normas religiosas perderiam sua validade. pois elas deveriam. detêm o poder político.869. de uma ³vontade´ para permanecerem operantes e existentes. considera-se que ela está pronta para gerar seus efeitos indefinidamente. tudo é permitido´. Os irmãos Karamázov: ³Se Deus não existe. de certa maneira. Isso significa que as normas jurídicas são comandos despsicologizados. as normas continuam válidas.CURIOSIDADE: Mesmo as normas mais eficazes de todos os tempos ± isto é. É por esse motivo que. ao contrário de outros tipos de normas. em determinada sociedade. que. que você aprenda desde já a enxergar a norma jurídica como um comando objetivo e despsicologizado. depois de sua entrada em vigor. dessa maneira. se Deus deixasse de existir ou se nunca tivesse existido. uma vez criadas. o monopólio da coerção. o sentido dessa norma deve ser sempre atualizado por meio da interpretação. por exemplo. as jurídicas são completamente autônomas em relação à vontade das autoridades que as põem. pode-se dizer que o Código de Processo Civil não é mais válido? É claro que não! Se uma norma jurídica foi regularmente aprovada pela(s) autoridade(s) estatal(is) a quem cabia tal ato. pois passam a existir de forma totalmente autônoma em relação ao indivíduo ou ao grupo de indivíduos que as criou. pois a realidade por ela regulada também se transmuda. Para tanto. Veja. portanto. O primeiro termo refere-se à vontade dos legisladores quando criaram uma dada norma jurídica. não havendo que se perguntar pela vontade psíquica humana que lhe deu origem. Por exemplo: quando os legisladores que as fizeram morressem ou se aposentassem. Todavia. Essa capacidade de transformação que a norma jurídica ostenta é um formidável instrumento de controle social. falar em uma voluntas legislatoris (vontade do legislador) e em uma voluntas legis (vontade da lei). uma vez que se ligam à vontade da divindade. inclusive. a situação do nosso Código de Processo Civil (Lei nº 5. desvincula-se do psiquismo subjetivo daqueles que a criaram e passa a ser um produto do Estado cuja função é regular a vida em sociedade. Do contrário. seria impossível organizar a sociedade. Quando a norma jurídica nasce ± e para isso ela deve passar por todo um procedimento. cumprir diversos requisitos e apresentar certas características ±. a visão que se tem de uma norma pode (e deve) mudar.

Por isso o sentido das normas jurídicas pode evoluir e se transformar com o tempo. Este último sentido indica o objeto de estudo do presente curso e. exibem as características da objetividade e da despsicologização. apresentamos o conceito de norma jurídica.As grandes divisões do Direito 1 Introdução Vimos. Aula 04.Além disso. visto que suas normas se impõem aos indivíduos de forma coercitiva e gerando na sociedade um sentimento de segurança. o direito pode ser entendido por meio de variados enfoques. a sua finalidade. sempre que nos referirmos ao direito. a norma jurídica se desvincula da vontade daqueles que lhe deram realidade. com o imenso e fascinante mundo jurídico.. após o seu regular surgimento. Por que as normas jurídicas são importantes para o controle social? 3. Atividades 1. Para fazer face à sua missão de manutenção da ordem social. mantidas e localizadas em uma estrutura estatal hierárquico-piramidal cujo ponto mais alto é representado. mas sim em outras normas superiores. Nesta aula. Assim como todo objeto de estudo sociocultural. estamos tomando contato. uma vez que somente os ditos legisladores teriam autoridade para determinar o sentido e o conteúdo das normas que criaram. VONTADE DA LEI (VOLUNTAS LEGIS) = OBJETIVO/FINALIDADE DA NORMA JURÍDICA Resumo O direito é uma importante forma de controle social. e não uma mera expressão da vontade dos legisladores que a criaram. O que é norma jurídica? 2. no Brasil. podendo ser livremente interpretadas pelos seus aplicadores tendo em vista não a vontade original dos legisladores. analisaremos duas das principais divisões do direito. pouco a pouco. essencial à compreensão do direito como forma de controle social. inclusive. Dessa maneira. Diferencie o sentido das expressões voluntas legislatoris e voluntas legis. a partir de agora. estaremos evocando a idéia de sistema jurídico-normativo. na realidade. o direito se vale de normas jurídicas que. que o vocábulo ³direito´ possui vários significados. ou seja. mas a vontade da lei. pela Constituição da República de 1988. os juristas elaboraram formas de explicação didáticas chamadas de . na Aula 1. pode dificultar a compreensão dos fenômenos jurídicos por parte daqueles que ainda não os conhecem a fundo ±. Por que se diz que as normas jurídicas são comandos objetivos e despsicologizados? 4. quando as normas jurídicas nascem elas passam a ser vistas como uma criação do Estado e de seus cidadãos. o seu objetivo. Ela se torna um produto do Estado e da sociedade. diferentemente das demais. Na aula anterior. Cientes dessa riqueza teóricoconceitual ± que.. Mas. tal geraria uma situação extremamente incômoda. Diz-se que as normas jurídicas são comandos objetivos porque não se fundam na vontade psíquico-subjetiva de quem as formula. Além disso. Os mais importantes são: Direito como ciência e direito como conjunto de normas jurídicas.

de alguma forma. Dividindo o universo jurídico. um dos mais conhecidos e importantes filósofos jusnaturalistas do Ocidente. b) Direito material (substantivo) e direito processual (adjetivo). fica mais fácil compreendê-lo.C. Direito positivo e direito natural A oposição direito positivo/direito natural constitui.C. Política e . inteiriça e compacta. Santo Agostinho. mera sombra do justo original. o ser humano. Trata-se do direito natural. Tais divisões existem. refletirão a complexidade e a variedade do universo jurídico. c) Direito objetivo e direito subjetivo. para simplificar o seu estudo.) Aluno de Platão e célebre filósofo grego. ao qual cabe apenas cumpri-las e preserválas. ao lado de Aristóteles. portanto. As divisões do direito são didáticas. sendo uma arraigada e tradicional modalidade de abordagem teórica do fenômeno jurídico. na realidade. muitos pensadores. As duas últimas serão estudadas na próxima aula. que deve se submeter ao ordenamento jusnatural. Em razão disso. os filósofos devem governar o Estado porque são os únicos capazes de contemplar a justiça natural (ideal). entendem que o direito natural. a mais antiga divisão do direito.³divisões do Direito´. Aristóteles (384 a. Dedicaremos esta aula à apresentação das duas primeiras divisões. intuitivamente. Locke e Rousseau. Pois bem. portanto. sem dúvida nenhuma. Não é possível obter um conhecimento total do direito sem antes analisá-lo mediante diferentes pontos de vista que. para facilitar o estudo do direito. em cujo texto Platão traça o esquema de um Estado ideal no qual o exercício do poder político-jurídico cabe exclusivamente aos sábios. destacando-se seus Diálogos e A república. Suas obras abrangem várias áreas do conhecimento humano ± da física até a ciência política ±. Aristóteles. se sobrepõe ao direito criado pelos homens. Pois bem. Segundo os jusnaturalistas ± assim são chamados aqueles que acreditam na existência de ordens jurídico naturais ±. o direito é uma realidade unívoca. muito mais perfeita que a justiça dos homens. eis as principais divisões do direito: a) Direito positivo e direito natural.) É. desde tempos imemoriais. como Platão. tal partição permanece válida e útil.±322 a. Tais normas guardam uma perfeição intrínseca porque derivam diretamente da própria natureza das coisas ou da vontade dos deuses. uma vez que. ou seja. d) Direito Público e Direito Privado. afinal. acredita na existência de uma ordem jurídica superior àquela criada pelos homens. jamais criá-las.±348 a.C. Santo Tomás de Aquino. servem. de um conjunto de normas criadas pela natureza ou pelos deuses que. Cícero. Apesar de contemporaneamente ter perdido um pouco de sua importância. as normas do direito natural independem do Estado. Platão (428 a. são capazes de expressar um ideal absoluto de justiça. por ser absolutamente justo. escreveu obras sobre Direito. Segundo Platão.C.

suas idéias objetivavam garantir o domínio da Igreja ± a ³intérprete´ da vontade de Deus ± em relação aos diversos centros medievais de poder político-jurídico (feudos). Assim. para Locke.) Foi o mais importante pensador romano de seu tempo. visto que o direito natural. por exemplo. Santo Agostinho (354 ± 431) Pregava a necessidade de submissão do poder político humano ao poder espiritual divino. já conheciam a distinção entre direito natural e direito positivo que. isto é. ao direito posto por atos humanos. ao contrário do primeiro. Além da divisão já estar presente nas obras de Platão e de Aristóteles. A díade direito positivo/direito natural foi largamente estudada na Antiguidade greco-romana. corresponde à separação entre direito divino e direito humano. grosso modo. que ele chamou de recta ratio (reta razão). efetivo e existente na realidade social. sustentava que a liberdade e a igualdade eram direitos naturais ± isto é. as normas jurídico-positivas constituíam uma espécie de garantia para as normas de direito natural. uma vez que o .C. que sabia distinguir as ordens dos deuses das normas criadas pelos homens. enterrou o corpo de seu irmão. Em Antígona. as normas jurídicas humanas somente seriam válidas se respeitassem a ordem natural cósmica. Entendia que a missão do Estado era salvaguardar e conservar os direitos naturais. O direito humano corresponde ao que hoje chamamos de direito positivo. desafiando as ordens do tirano Creonte. O direito criado pelos homens é falível ± já que. que nenhum poder político estaria autorizado a desobservar. de forma que as normas jurídico-positivas atenienses só se aplicariam aos cidadãos de Atenas. o grande dramaturgo ateniense Sófocles (c. injusto. pertencentes a todos os seres humanos ±. nunca negá-los.C. conduta que havia sido proibida pelo governante. as espartanas vigorariam apenas entre os espartanos etc.C. Para Cícero. é um dos mais importantes teóricos da ciência política e do Direito. acreditava que o direito humano (lex humana) somente teria validade se respeitasse o direito divino (lex aeterna). às vezes. Marco Túlio Cícero (106 a. Santo Tomás de Aquino (1225-1275) Filósofo cristão medieval nascido em território hoje pertencente à Itália. que. Antígona afirmou que a norma jurídica por ele criada era inválida. seria inegavelmente superior ao direito positivo. John Locke (1632±1704) Célebre filósofo iluminista inglês. Distinguia perfeitamente o direito posi tivo do direito natural. Os gregos. diferentemente dos deuses. o ser humano comete erros ± e. onde quer que estivessem. Ao ser interrogada por Creonte. julgava ser aplicável a todos os homens. concreto. 496 a. Sófocles nos conta como a personagem-título. Já a validade espacial do direito positivo estaria circunscrita aos limites do poder de certas sociedades.±43 a. Na prática. criado por Deus. ± 406 a. Jean-Jacques Rousseau (1712±1778) Importante filósofo e escritor suíço. sua mais célebre tragédia. autor de O contrato social.C.) nos provou que o conhecimento de tal diferenciação era algo comum para o homem grego.Ética que são estudadas até os dias de hoje.

se normatizam e se organizam os procedimentos necessários à efetivação das primeiras. ao estabelecerem privilégios e benefícios para a nobreza e o clero. próprio da Filosofia do Direito ±. os monarcas. Na atualidade. confundindo-se com a noção de justiça. entre outros motivos. a teoria do direito natural foi banida do pensamento jurídico contemporâneo. direito de propriedade. Obviamente. Trata-se de relevante divisão do direito que separa as normas jurídicas de acordo com os seus conteúdos. ou seja. da qual falamos na Aula 1. Os revolucionários derrubaram a monarquia e instituíram uma república na França porque. que é o único direito efetivamente existente. SIMPLIFICANDO: Existem certas normas que dizem respeito diretamente aos nossos direitos e obrigações (direito material) e outras que se relacionam à forma por meio da qual se regulam. Direito material (substantivo) e direito processual (adjetivo) Diferenciação preliminar Existem dois tipos básicos de normas jurídicas: as materiais e as processuais. Tal se baseia na idéia de que as normas jurídicas postas pelos homens ± no caso. Graças a juristas como Hans Kelsen. da Antiguidade até os dias de hoje. servos e nobres. por exemplo. Atividade Descreva. Antígona acaba sendo morta em conseqüência de sua ousadia. a teoria do direito natural possui importância apenas retórica. enquanto as normas de direito processual se referem às formas± isto é. As normas de direito material criam direitos e deveres para os cidadãos. pelos membros da Igreja. o de que o direito positivo deve se sujeitar ao direito natural ± serviu. na Modernidade. Acreditava-se que o direito positivo e o poder dos homens eram limitados e falhos. outra coisa bem diversa é exigir a . elas eram arquitetadas pelos detentores do poder religioso. como combustível intelectual para a Revolução Francesa. não se podendo conceber qualquer ordem jurídica concorrente em relação ao direito positivo. a evolução das idéias de direito natural e de direito positivo. por um tirano ± não podem suplantar certas normas que surgem de instâncias superiores e divinas. deviam obedecer às normas jurídicas emanadas da vontade divina. Hoje. o direito natural. dados pela natureza a todos os homens. isto é. Posteriormente. e não para negar sua validade. a noção de direito natural serviu a propósitos conservadores e antirevolucionários. Este mesmo argumento ± qual seja. na Idade Média. a idéia de direito natural permanece viva apenas no plano jusfilosófico ± isto é. ANTIGUIDADE E IDADE MÉDIA: DIREITO NATURAL > DIREITO POSITIVO CONTEMPORANEIDADE: DIREITO POSITIVO Na Antiguidade e Idade Média. Nos dias atuais. Mas o que importa é o significado de seu ato de recusa em relação às ordens de Creonte. Hoje. aos processos ± por meio das quais se exige a observância de um direito ou se obtém a satisfação de uma dada obrigação jurídica. estariam desrespeitando os direitos naturais de liberdade e de igualdade. ATENÇÃO: Uma coisa é você ter.sepultamento digno seria um direito natural de todos os homens. Ao contrário. pois serve unicamente para criticar e propor mudanças nas normas de direito positivo. como ocorria na Antiguidade e no medievo. a visão científica do direito e a objetivação/racionalização das relações de poder político-jurídico acabaram por enterrar definitivamente a noção de direito natural. razão pela qual todos. o direito natural não existe como ordem jurídica. a concepção laica (não-religiosa) de Estado. o direito natural era superior ao direito positivo. em 1789.

se alguém lhe furta um livro. as normas que definem e garantem o seu direito de propriedade são materiais. um terço relativo às férias. tem a única e exclusiva função de ser o instrumento de concretização do primeiro. ±. os adjetivos são palavras que se ligam aos substantivos e servem para qualificá-los. Os processos são regidos por um grande número de normas jurídicas que têm por finalidade garantir a eficácia do direito material. Assim. não poderá exercê-lo de forma concreta. que. as que estabelecem como transcorrerá o processo judicial no qual seu direito de propriedade será efetivamente discutido são normas processuais. que. Assim. à segurança e à propriedade. o direito de crédito não existe sem a respectiva comprovação. a segunda. há uma estreita ligação entre o direito material e o direito processual. por seu turno. Vejamos se você compreendeu bem. Assim também no direito. aplicabilidade etc. Ela significa o seguinte: De nada adianta que o indivíduo tenha um dado direito se não puder resguardá-lo de forma eficaz e concreta no contexto de um processo. arrombar a porta. É preciso contratar um advogado. e não consegue provar tal fato no processo ± mediante um recibo. visto que as normas jurídico-processuais se relacionam às materiais para lhes conferir certas qualidades essenciais: efetividade. ATENÇÃO: O direito processual não é simplesmente um apêndice do direito material. pode trazer enormes prejuízos às pessoas que pretendem ver seus direitos materiais respeitados e juridicamente reconhecidos. não receberá de volta o seu capital. posto por normas processuais. se você tem o direito de receber certa quantia em dinheiro. graças a um empréstimo feito a um amigo. concretude. Um não existe sem o outro. descanso semanal remunerado. à igualdade. Aquela garante um direito e esta descreve a forma de efetivá-lo em caso de desrespeito. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida. Daí a importância do conhecimento das normas processuais. matá-lo e reaver o objeto. por exemplo. processual. o juiz determinará os prazos. É o seu instrumento de efetivação. há um prazo.sua proteção efetiva nos casos em que for desrespeitado. ±. Quando esta for omissa. Há uma antiga expressão jurídica segundo a qual ³o que não está no processo não está no mundo´. por mais que você tenha. com o que se instaurarão processos judiciais. isto é. uma testemunha etc. Daí a outra nomenclatura para a díade direito material/direito processual: direito substantivo e direito adjetivo.. Artigo 177 do Código de Processo Civil: Os atos processuais realizar-se-ão nos prazos prescritos em lei. o direito de crédito. horas extras etc. Se você trabalhou em uma empresa que não lhe pagou todas as verbas trabalhistas como manda a lei ± décimo terceiro salário. se não for corretamente manejado. Se não o fizer em determinado período de tempo. perderá o direito a tais verbas.. para que você as reclame perante a Justiça do Trabalho. tendo em conta a complexidade da causa. O direito material precisa ser efetivado pelo processual. materialmente falando. Leia as normas jurídicas abaixo e diga qual é a principal diferença existente entre elas: Artigo 5º (caput) da Constituição da República Federativa do Brasil: Todos são iguais perante a lei. proporá ações judiciais junto ao Poder Judiciário. à liberdade. . Processualmente. O processo é o instrumento do direito. A primeira norma jurídica é material. você não pode ir até a casa do criminoso. Como você sabe. Pois bem. que. Na realidade. para recuperar o bem e punir o malfeitor. sem distinção de qualquer natureza. Muitas vezes os cidadãos têm direitos que não se efetivam porque seus advogados não sabem lidar com as normas processuais a eles referentes.

o caminhar e o desenvolvimento do processo ± que. o processo é uma espécie de ritual no qual há várias fases a serem esgotadas até que se chegue à decisão final. mesmo entre graduados em Direito. impõe um sistema geral. VOCABULÁRIO Muitas pessoas chamam de ³processo´ o volume encadernado de folhas no qual estão reduzidos à forma escrita os principais atos jurídico-processuais. ouvir-se algo como: ³Por favor. infelizmente ± formam o chamado direito processual. Esta ³parte imparcial´ é o Estado ± personificado na figura do juiz ±. que deve resolver o conflito de acordo com as normas jurídicas aplicáveis.784/99 (Lei federal de processo administrativo) . por meio da aplicação de diferentes normas jurídicas ± materiais e processuais ±. neste processo existem vários prazos que devem ser cumpridos. normas materiais. introdutoriamente. uma vez que o processo é o conjunto Direito processual brasileiro ‡ Código de Processo Civil ‡ Código de Processo Penal ‡ Parte processual da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) ‡ Lei nº 9. pode-se dizer que processo é um conjunto de atos logicamente ordenados que têm por finalidade garantir a efetividade do direito. é claro. no caso de serem violadas ou desobservadas.) quanto pelo juiz (designação de audiência. de acordo com o direito aplicável. tratamos. portanto. e outros. que. apresentamos a noção de normas jurídico-processuais. O processo é. pode ser bem lento. as normas que regulam a evolução. proíbe as pessoas de apelarem para a violência com o objetivo de resolver seus próprios problemas e. pois tem mais de mil folhas´. que. oitiva das testemunhas e das partes. Na verdade. normas processuais. sentença etc. trata-se de um erro. e uma ³parte imparcial´.). que. assim. por deter o monopólio da força. do direito processual. O direito processual se define como um conjunto de normas jurídicas cuja função é conferir efetividade e concretude aos direitos previstos nas normas jurídico -materiais. por algum motivo.Assim. Os atos que conformam o processo são praticados tanto pelas partes (acusação. você deve buscar recompô-lo por meio da instauração de um processo judicial. É muito comum. tenta resolver os conflitos de interesse dos particulares. Tal sistema é composto pela organização jurídico-judiciária. Mas o que é processo? De forma bastante simples. alguns trazem. têm uma certa controvérsia. Veja o quadro de exemplos: Direito material brasileiro ‡ Código Civil ‡ Código Penal ‡ Parte material da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) ‡ Código Tributário ‡ Código Comercial Direito e processo No item anterior. racional e previamente conhecido de resolução de controvérsias. majoritariamente. ou seja. Pois bem. às vezes. requerimento de produção de provas etc. defesa. Os sujeitos do processo são sempre três: as duas partes conflituosas. E. pegue o processo que está em cima da mesa´ ou ³Este processo está muito pesado. se o seu direito à propriedade for ameaçado ou negado. um conjunto encadeado e lógico de atos mediante os quais o Estado verifica qual das partes em conflito tem razão. Dessa maneira. Dos diversos conjuntos normativos existentes no Brasil.

contraditar as teses lançadas pela parte contrária. Não é permitido ao juiz limitar a discussão e a apresentação de razões jurídicas. e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e a ampla defesa. LVII . com os meios e recursos a eles inerentes. da forma mais completa e profunda possível. Se a matéria é trabalhista ou administrativa. como o próprio ser humano. as normas processuais a serem aplicadas estão no Código de Processo Penal. são falhas e injustas. Tecnicamente. deve conhecer e exigir o cumprimento.logicamente organizado dos atos das partes e do juiz. Há inúmeras normas processuais.aos litigantes. duas das mais importantes divisões do direito são aquelas representadas pelas díades direito natural/direito positivo e direito material/direito processual. existente e . respectivamente. os seus pontos de vista. e que. motivo pelo qual. como cidadão. LV . O direito processual constitui disciplina altamente específica e técnica cujo estudo compete unicamente aos profissionais do direito. assim. as teses. tal volume recebe a designação de autos judiciais e é assim que deve ser chamado. Contudo. Isso significa que todos os meios de prova permitidos pelo direito devem ser postos à disposição das partes. que. A idéia de direito natural remete a um conjunto de normas jurídicas absolutamente perfeitas e justas. Pois bem. O princípio da ampla defesa visa a favorecer o esclarecimento dos fatos relativos ao processo. LIV . É o direito real. didaticamente. Trata-se dos princípios do contraditório e da ampla defesa: ‡ Princípio do contraditório: Todas as partes envolvidas em um processo têm o direito de debater livremente. dependendo da matéria a ser discutida. Por exemplo: Se uma parte traz para o processo novas provas que a outra não conhece. existem duas garantias jurídicas presentes em todos os tipos de processo e que você. concebidas pela natureza ou por Deus. deve-se atentar. deve-se aplicar normas de processo civil. podendo. Por outro lado. a compreender melhor o amplo e complexo mundo jurídico. de maneira ampla.são inadmissíveis. uma vez que existem variados tipos de processo. Se o assunto se relaciona ao direito civil. idéias e questões relativas à causa. são superiores às normas jurídicas criadas pelo homem. Resumo Existem várias divisões que nos ajudam. LVI . e alguém apenas será considerado culpado perante o direito depois que tal for objetiva e juridicamente comprovado (presunção de inocência) LEGISLAÇÃO CONSTITUCIONAL Principais normas jurídico-processuais contidas na Constituição da República Federativa do Brasil (incisos do artigo 5º): LIII . no processo. ‡ Princípio da ampla defesa: Em qualquer processo. em processo judicial ou administrativo. Já o direito positivo corresponde ao direito efetivamente posto por atos humanos de vontade. constitui um direito fundamental das partes a possibilidade de apresentarem. as provas obtidas por meios ilícitos. uma vez que as partes devem ter as mesmas oportunidades processuais (igualdade processual).ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória.ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente. e não o volume de folhas que os documentam. no presente curso. segundo a tradição jurídico-filosófica ocidental. discutiremos apenas temas relativos ao direito material. se a questão é penal. é preciso que o juiz conceda a esta última oportunidade para que as analise.ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal. para as normas jurídicoprocessuais que conformam o processo do trabalho e o processo administrativo.

Assim. Ambas têm uma grande importância. Para que servem as divisões jurídicas mencionadas na questão anterior? 3. As normas de direito material criam direitos e deveres para os cidadãos.concreto. Por outro lado. se analisarmos as normas em seu . Trata-se apenas de uma mudança de perspectiva: o objeto observado ± as normas jurídicas ± é sempre o mesmo. Da mesma forma. veremos no próximo item que uma norma jurídica pode pertencer ao campo do Direito Público ou ao do Direito Privado. mas sim às mesmas normas que. Por fim. de alguma maneira. a noção de direito subjetivo/direito objetivo não divide as normas jurídicas em dois grupos diversos. em relação a quem elas criam direitos e obrigações. nunca a ambas as esferas concomitantemente. uma vez que nos ajudam a compreender o fenômeno histórico-social chamado de direito.As grandes divisões do Direito 2 Introdução Na aula anterior. é fora de dúvida que elas dividem seu objeto de estudo em dois. Vejamos: segundo a díade direito natural/direito positivo. processuais. estaremos adotando um enfoque subjetivo. 2. Por outro lado. Nesta aula. a díade direito subjetivo/direito objetivo não se refere a dois grupos diferentes de normas jurídicas. Se observamos as normas da perspectiva do indivíduo ± ou seja. Ao contrário das demais divisões. Conceitue e diferencie: a) Direito positivo e direito natural. as normas de direito processual se referem às formas de concretização do direito que. quando nos referimos às outras divisões. uma norma jurídica é jusnatural ou positiva. direito natural/direito positivo e direito material/direito processual. podem ser observadas por meio de enfoques diferentes. no meio jurídico. do sujeito ±. Seus dois princípios fundamentais são o do contraditório e o da ampla defesa. notaremos que certas normas são materiais e outras. Direito subjetivo e direito objetivo Diferentemente das duas divisões antes estudadas e daquela que separa o Direito em Público e Privado. o processo é um conjunto organizado de atos tendentes a efetivar o direito material. começamos a estudar as grandes divisões do Direito. encerraremos a análise das divisões jurídicas conhecendo duas outras importantes formas de se entender o direito: direito subjetivo/direito objetivo e Direito Público/Direito Privado. pelas expressões ³princípio do contraditório´ e ³princípio da ampla defesa´? Aula 05. O que se entende. foi desrespeitado. Já no que se refere à divisão direito subjetivo/direito objetivo. o que muda é o ponto de vista. como vimos. Atividades 1. Por outro lado. O que é processo? 4. Todas as normas jurídicas podem ser entendidas por meio da óptica subjetiva ou objetiva. b) Direito material e direito processual. se adotarmos o ponto de vista próprio da noção de direito material/direito processual. As duas primeiras são. como faces da mesma moeda.

Assim. todo direito corresponde a um dever. Eis dois exemplos interessantes: ³Todos os cidadãos brasileiros têm direi o à t liberdade´ e ³Todos os cidadãos brasileiros têm direito à saúde´. o ordenamento jurídico ±. Não nos cabe aprofundar as noções expostas acima. ao mesmo tempo. Portanto. Tais normas criam deveres? É claro que sim! No primeiro caso. Não existe norma jurídica que se comporte de forma diversa: ao gerar um direito. Por que dizemos que toda norma jurídica é bilateral? Porque dela sempre se originam. considera o direito apenas em relação aos seus sujeitos. tal significa que outras pessoas têm deveres em relação a você e vice-versa. privilégios. é sinal de que alguém tem o dever de efetuá-lo. limitar ou reprimir essa liberdade. Basta que sejam corretamente analisadas. A divisão direito subjetivo/direito objetivo é uma das mais complexas do direito. a prática de certos crimes ± o direito subjetivo à liberdade conferido aos indivíduos pode ser limitado pelo Estado. caput. Os romanos. É impossível existir um direito sem que haja um dever a ele relacionado. Na verdade. Tal visão. tal significa que ninguém pode negar. sendo objeto de calorosas discussões entre os juristas. a bilateralidade das normas jurídicas somente pode ser notada diante da combinação do enfoque subjetivo com a abordagem objetiva. objetivando compreender a sua inserção no ordenamento jurídico enquanto um todo sistemático. por exemplo. as normas jurídicas podem ser entendidas com o auxílio de diferentes perspectivas. Constituição da República Federativa do Brasil). objetivamente. Somente em casos excepcionais ± juridicamente previstos em lei. e não os seus efeitos em relação aos cidadãos ± ou seja. Posso observá-las buscando destacar os direitos e os deveres que criam ± tal corresponde a um estudo subjetivista ± ou então posso analisá-las em relação a outras normas. Contudo. É dever de toda a sociedade ± e principalmente do Estado ± respeitar a liberdade dos brasileiros e estrangeiros residentes no país (art. Já o direito objetivo evidencia as relações existentes entre as normas e visa a estudar o conjunto das normas em si ± ou seja. unitário e coerente. na realidade dão origem também a deveres. ela necessariamente dá origem a um dever que lhe corresponde. direitos e deveres. Simplificando: Todo direito criado por uma norma jurídica corresponde a um dever. que procura estudar as normas jurídicas em si mesmas. .conjunto. O direito subjetivo põe em relevo os direitos e deveres dos cidadãos. os direitos e os deveres são correlatos. em sua imensa sabedoria jurídica. DIREITO SUBJETIVO = DIREITOS E DEVERES DOS CIDADÃOS DIREITO OBJETIVO = IDÉIA DE ORDENAMENTO JURÍDICO Note bem. corresponde à idéia de direito objetivo. e não os benefícios. uma das grandes contribuições práticas de tal divisão consiste em evidenciar a natureza bilateral de toda norma jurídica. se você tem direitos. 5º. importando-nos muito mais com a idéia de sistema normativo. Com efeito. estaremos observando o direito por meio de uma abordagem objetiva. os direitos e deveres que criam ±. Mesmo normas que aparentemente só criam direitos. como. já diziam: Ius et obligatio correlata sunt. os direitos devem ser realizados e concretizados por alguém. a norma jurídica dá lugar a um dever geral de abstenção para toda a sociedade e para o próprio Estado. Por exemplo: Se você tem o direito de receber certo pagamento. ou seja. Se tenho direito à liberdade. umas interligadas às outras mediante vínculos de hierarquia. que são mais do que suficientes para este curso de natureza introdutória. É impossível existir um direito sem um dever que com ele se relacione. proteções e obrigações que cria para as pessoas. afinal.

com o Estado. objetivamente. É impossível separar ambas as realidades: para que um dado direito seja satisfeito. garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção. muitas vezes contra a nossa vontade. as normas jurídicas criam direitos para os cidadãos. LEGISLAÇÃO CONSTITUCIONAL Artigo 196 da Constituição da República Federativa do Brasil: a saúde é direito de todos e dever do Estado. na prática. b) Entre dois ou mais Estados. Jamais se esqueça da lição aprendida nesta aula: direito e dever são dois termos indissociáveis. Na realidade. tal significa que o Estado tem o dever jurídico de proporcionar meios capazes de efetivar tal direito. aqueles capazes de satisfazer as exigências postas pelos direitos. criam. Falar em direito significa falar em dever. ao mesmo tempo. Exemplo: as normas jurídicas constantes de um tratado internacional celebrado entre o Brasil. particulares. que. a resposta é ainda mais óbvia: se todos os brasileiros têm direito à saúde. portanto. no âmbito nacional ou internacional. deveres. o Direito Privado corresponde a um conjunto jurídico-normativo cujas normas regulam as relações entre particulares. Cite-se. Já o Direito Público existe para organizar relações nas quais o Estado. Nós temos o dever jurídico de pagar tributos e o Estado tem o direito de recebê-los. individuais. em tese. por fazerem parte de um ordenamento amplo. infelizmente. Um bom exemplo é a obrigação que temos de pagar tributos. de alguma forma. constitui um dos temas mais relevantes. o Direito Público regula as relações que se dão: a) Entre as pessoas e o Estado. muitos deveres impostos ao Estado. Subjetivamente. existem. Pois bem. conforme previsão constante do artigo 196 da Constituição da República Federativa do Brasil. graças à sua importância prática. a Alemanha e a França. deixa de cumprir alguns deles. é necessário que alguém esteja obrigado a fazê-lo. proteção e recuperação. No segundo caso. O Direito Privado trata. Contudo. Trata-se de uma relação jurídica que mantemos. Atividade Por que se diz que o direito é bilateral? Dê exemplos que ilustrem a bilateralidade das normas jurídicas. Por outro lado. Que deveres? Ora.O direito de ir e vir é uma das várias expressões da liberdade conferida aos cidadãos brasileiros. como exemplo. Somente conseguimos chegar a tais conclusões porque observamos as normas jurídicas por meio de uma combinação da óptica subjetiva e objetiva. de relações privadas. . as normas jurídicas aplicáveis a um contrato de compra e venda realizado entre duas pessoas. Direito Público e Direito Privado Conceituação A tradicional divisão do Direito em Público e Privado. complexos e fascinantes da ciência do direito. comparece como sujeito de direitos ou de obrigações jurídicas.

data que. com a tomada de Constantinopla ± então sede do agonizante Império Romano do Oriente ± pelos turcos. Observe o seguinte quadro: Direito Privado Direito Civil Direito Comercial (ou Empresarial) Direito Público Direito Constitucional Direito Administrativo Direito Tributário Direito Financeiro Direito Penal Direito Processual Civil Direito Processual Penal Direito do Trabalho Direito Eleitoral Direito Previdenciário Direito Internacional Público Direito Internacional Privado Direito Agrário Direito Ambiental VOCABULÁRIO ‡ Jusprivatista ou privatista: Relativo(a) ao Direito Privado. conceitos claros e uma base teórica bastante aprofundada.Pessoa Direito Público: Pessoa . o que lhe garantiu uma estrutura mais lógica. a cidade de Roma foi fundada por Rômulo em 753 a.Direito Privado: Pessoa . direito das obrigações etc. Foi senhora de boa parte da Europa. uma vez que vem evoluindo desde a Antiguidade. portanto. Na civilização romana ± que durou cerca de 22 séculos1 ± .Estado As diversas disciplinas jurídicas ± chamadas de ³ramos do direito´ ± são divididas e definidas de acordo com a predominância do Direito Público ou do Direito Privado em seus conteúdos normativos e teóricoconceituais. regulando as relações civis (direito de família. sucessório. passado por diversas fases político-jurídicas (realeza. conforme se verifique neles um maior número de normas relativas a uma ou outra dessas divisões. 1Segundo a lenda. praticamente todo o direito era de matriz privatista. ‡ Juspublicista ou publicista: Relativo(a) ao Direito Público. .. Evolução histórica O Direito Privado constitui a parte mais desenvolvida do direito. do Norte da África e de importante parcela do Oriente (Palestina). especialmente no momento romano. de Direito Público ou de Direito Privado. posteriormente. Assim. tornando-se assim o maior império da Antiguidade. tendo. principado e dominato).Estado Estado . Os ramos do Direito são. o Direito Privado passou por um longo processo de transformação. devido à sua relevância. república.) dos cidadãos romanos. é considerada pelos historiadores com o fim da Idade Média e o início da Idade Moderna.C. extinto apenas em 1453.

ser muito mais importante do que o Direito Privado. o pai era visto como autoridade absoluta dentro de sua família. de certa forma. Hoje. Não se admitia qualquer intervenção do Estado na economia e no mercado a fim de regular preços. o Direito Público existia de forma embrionária. castigar seus filhos. condições de venda.Em Roma. eram consideradas absolutamente privadas e que. Com efeito. assistimos hoje a dois processos simultâneos: a publicização do Direito Privado e a privatização do Direito Público. O Estado proíbe os pais de maltratarem seus filhos e define limites. tem o direito ± e ao mesmo tempo o dever ± de castigar os filhos. Em segundo lugar. e hoje passa a ser limitado e regulado pelo Estado. apesar de. por exemplo. as relações entre consumidores e produtores de bens e serviços eram totalmente reguladas pelo Direito Privado. no passado. Seu poder ± o ³pátrio poder´. Sem dúvida. o poder político-jurídico exercido pelo Estado em relação aos cidadãos é que o Direito Público passou a te r alguma importância. unicamente quando se sentiu a necessidade de se restringir. por isso mesmo. que lhe deixava ampla margem de liberdade para. Apenas em um ambiente contemporâneo. Apenas contemporaneamente surgiu a necessidade de se criar um certo número de normas jurídicas que limitem a ação estatal. nos dias de hoje. já que o processo de limitação do poder político-estatal ainda está em curso. A publicização do Direito Privado é uma realidade inegável. não poderiam ser regulamentadas pelo poder estatal. As noções próprias e específicas do Direito Público começaram a surgir apenas a partir da Revolução Francesa. visto que somente nesse momento histórico iniciou-se o processo de limitação do poder do Estado. Cada vez mais o Estado se imiscui em relações que. Na Grécia. ainda está em plena construção. porque no mundo contemporâneo é muito difícil traçar as fronteiras do espaço público e do espaço privado. esse poder é percebido como um direito que antigamente dizia respeito apenas ao espaço privado da família. o poder político-jurídico estatal não era limitado: o Estado estava autorizado a exigir tudo dos indivíduos. é que o Direito Público pôde florescer. Na verdade. mas também obrigações. mas tal não pode se dar de maneira a negar a dignidade da criança ou a provocar-lhe traumas psíquicos e físicos. por meio de normas jurídicas. é público. em 1789. Outro exemplo: Até o início do século XX. em Roma e na Idade Média. entre outras matérias. antigo termo hoje substituído pela expressão ³poder familiar´ ± era regulado apenas pelo Direito Civil. O Direito Público. o Direito Privado regulava. uma vez que as normas jurídicas são criadas. Tudo era organizado pelos próprios indivíduos ± compradores e vendedores ± com base em parcas normas de Direito Civil e Comercial e em suas vontades específicas. Apesar das importantes diferenças que separam os campos jurídico-privatistas dos jurídico-publicistas. ao contrário. ele vem se desenvolvendo até os dias de hoje. mas também a mãe. Por quê? Em primeiro lugar. atualmente muitos juristas sustentam que a díade Direito Público/Direito Privado representa uma forma ultrapassada de se enxergar e compreender o direito. no qual se entende que o Estado possui não apenas direitos. Exemplos? Há quarenta anos. O Direito Público que conhecemos hoje desenvolveu-se graças às modificações introduzidas nas idéias de Direito e de Estado pelos revolucionários franceses de 1789. de 13 de julho de 1990. qualidade dos produtos e outros aspectos relativos ao consumo. Assim. não só o pai. as relações familiares. para o poder familiar). Na Antiguidade. . porque todo direito. garantidas e aplicadas pelo Estado. no Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei Federal nº 8069.

Dessa maneira. Daí a necessidade de se conhecer perfeitamente ambas as esferas jurídicas. com exceção das ações proibidas por lei. a privatização do Direito Público se dá na medida em que vários conceitos. uma vez que as normas e os princípios aplicáveis ao Direito Público e ao Direito Privado são diversos. a divisão Direito Público/Direito Privado permanece útil e necessária. As pessoas têm autonomia para organizar as suas . Direito Privado: Tudo que não é expressamente proibido é permitido. Da mesma forma.Hoje. devem ser controlados. Por outro lado. pelo Direito Privado. e hoje conformam o aparato teórico-conceitual juspublicista. Qual é a razão dessa diferenciação? Simples: o Estado é um ente que detém uma gama enorme de poderes que. não se pode utilizar estruturas próprias do Direito Público para se compreender o Direito Privado. a maioria das noções basilares e essenciais do Direito foi construída pelo Direito Privado e. o Estado foi chamado a intervir ativamente na economia e no mundo do consumo. Já no campo do Direito Privado. obviamente. Ele está proibido de processar. Por outro lado. a regra é a da liberdade. Todavia. Conceitos fundamentais. quando se trata do Direito Público. importa notar que o princípio básico do Direito Público é restritivo e o do Direito Privado é. Não lhe é permitido exigir tributos que não estejam previamente definidos em lei. passou a ser aplicada ao Direito Público. que protege o cidadão das ações abusivas daqueles que são sempre os mais fortes nas relações de consumo: os fornecedores. historicamente. Dessa maneira. Tudo que não é expressamente permitido é proibido para o Estado. a não ser que sejam adaptadas às características específicas da seara privatista. como os de ³pessoa jurídica´. Isso significa que nas relações particulares vigora a regra geral da liberdade: O indivíduo pode fazer tudo aquilo que quiser. de ³contrato´ e de ³responsabilidade jurídica´. no que se relaciona ao Direito Privado. Do contrário. o Estado só pode penalizar um cidadão por um crime expressa e previamente definido em lei. ao contrário. Assim. criando regras obrigatórias. foram constituídos. teorias e objetos de estudo do Direito Público e do Direito Privado são diferentes. Dessa maneira. Princípios básicos A bipartição Direito Público/Direito Privado não apresenta funções exclusivamente didáticas ou teóricas. Por isso todos os atos e condutas do Estado devem estar previstos em lei. tanto para consumidores quanto para fornecedores. no que se refere ao Direito Público. Um bom exemplo dessa nova atitude estatal em relação ao mercado de consumo é o nosso Código de Defesa do Consumidor (Lei Federal nº 8. é limitação (controle). Tudo que não lhe é expressamente proibido é permitido. Ou seja. de 11 de setembro de 1990). graças às enormes mudanças sociais e à crescente complexidade das relações de consumo. após sofrer certas adaptações e modificações mínimas que não alteraram sua natureza básica. todas as condutas e ações não-proibidas expressamente são permitidas.078. Direito Público: Tudo que não é expressamente permitido é proibido. o Estado só pode fazer aquilo que lhe está expressamente permitido por normas jurídicas. tal divisão tem grande importância prática. Na realidade. apesar da interpenetração dos campos privatistas e publicistas. todas as condutas e ações não-previstas de forma expressa no ordenamento jurídico estão proibidas. estruturas e teorias do Direito Privado ± tecnicamente muito mais perfeito que o Direito Público ± são aplicados ao primeiro. como veremos no próximo tópico. Exemplo: O Estado só está autorizado a cobrar tributos previstos em lei. ampliativo. Os conceitos. considera-se como uma ação juridicamente proibida. A palavra-chave. julgar e penalizar os indivíduos por crimes que não têm existência legal.

Resumo As díades direito objetivo/direito subjetivo e Direito Público/Direito Privado são importantíssimas para se compreender o direito de maneira científica. Quando ele é visto da óptica dos cidadãos para quem são criados direitos e obrigações (bilateralidade jurídica). as relações entre o Estado e as pessoas. privilegiando-se assim a idéia de ordenamento jurídico. tudo aquilo que não é expressamente permitido é proibido (regra do controle). diz-se que se trata de uma abordagem subjetiva. Eis um bom exemplo: em um contrato de compra e venda. 5. e. diferentemente. Por que se diz que todas as normas jurídicas são bilaterais? 3. Atividades 1. b) Direito Público e Direito Privado. para que nasçam obrigações exigíveis dos cidadãos. nas quais a presença do Estado não se faz sentir. Conceitue e diferencie: a) Direito subjetivo e direito objetivo. é preciso limitar as ações do Estado e garantir a liberdade das pessoas e não o contrário. uma perspectiva objetiva do direito ocupa-se em destacar as normas jurídicas em si mesmas. no plano jurídico interno. Regra DIREITO PÚBLICO DIREITO PRIVADO Restrição (controle) Exceção Liberdade (permissão) Liberdade (permissão) Restrição (controle) Dessa maneira. mais do que nunca. Por outro lado. Quais são os princípios básicos do Direito Público e do Direito Privado? . bastando lembrar que. um dos contratantes fosse o Estado. A primeira se refere aos dois principais enfoques mediante os quais o fenômeno jurídico pode ser entendido. na seara internacional. O Direito Público regula. Descreva a evolução histórica da divisão Direito Público/Direito Privado. 2. expressa e previamente. em normas jurídicas. no Direito Público. No Direito Privado. Ao contrário: permanece válida e útil. desde que estas não ofendam normas jurídicas vigentes. estas devem ser definidas. nota-se que as regras e os princípios válidos para o Direito Público e para o Direito Privado são bastante diversos. o vendedor e o comprador podem prever quaisquer cláusulas e condições. além dos seus vínculos mútuos. tudo aquilo que não é expressamente proibido é permitido (regra da liberdade). uma vez que.vidas. o Direito Privado normatiza as relações entre pessoas. 4. Já a segunda divisão. as relações entre os Estados. não se podendo dizer. Direito Público/Direito Privado. Portanto. teorias e estruturas aplicáveis a ambas as searas jurídicas são bem diversas ± daí a necessidade da divisão ±. portanto. que tal divisão é inaplicável nos dias atuais. evidencia os dois grandes campos de aplicabilidade do direito. ao contrário. Se. A díade Direito Público/Direito Privado permanece útil e atual? Fundamente a sua resposta. Por seu turno. haveria uma enorme limitação no que tange à criação das cláusulas e das condições contratuais. As noções. uma vez que as limitações jurídicas são excepcionais.

Lembre-se de que o ordenamento jurídico é uma estrutura escalonada e hierárquica. executiva e judiciária) ± e garantidoras de direitos individuais para os cidadãos. tendo em vista as necessidades específicas que você enfrentará. Comecemos. já o dissemos nas primeiras aulas e voltamos a repeti-lo. como nos lembra um velho provérbio chinês. Com isso. ser aprofundada durante o seu curso de graduação e sua vida profissional. pretendemos oferecer a você uma visão panorâmica do Direito.] o ramo do Direito Público que expõe. Definição e objeto do Direito Constitucional O Direito Constitucional é a mais importante disciplina jurídica. de dois tipos: estruturadoras do Estado ± e das três funções que o compõem (função legislativa. Ramo do Direito Público. como você logo notará. iniciaremos uma nova etapa do nosso curso. teorias e estruturas amplas e gerais necessárias à perfeita compreensão de qualquer temática jurídica.. que. o Direito do Trabalho. Além disso. Desta aula em diante. comparável a uma pirâmide. estuda as normas fundamentais que formam um dado ordenamento jurídico. . estudaremos as instituições centrais do nosso ordenamento jurídico. discutiremos temas relativos a outros ramos do Direito. AS NORMAS CONSTITUCIONAIS SÃO O FUNDAMENTO POSITIVO DE VALIDADE DO DIREITO Assim sendo.Aula 06. necessariamente.Direito Constitucional 1 ± Constituição e Estado Introdução A partir de agora. conjunto fundamental de normas jurídicas que. a examinar o Direito Constitucional. Contudo. Como veremos na próxima aula. o Direito Civil e o Direito Administrativo. basicamente. O fundamento de qualquer norma jurídica deve ser sempre buscado na Constituição. consiste na base primordial de todo conjunto jurídico-normativo.. No seu ápice encontra-se a Constituição. não encontra outras que lhe sejam superiores. já que estudaremos importantes características das mais relevantes disciplinas jurídicas. Nas aulas anteriores ± da primeira até a quinta ±. o Direito tributário e o Direito empresarial. com o auxílio de José Afonso da Silva. começar um trabalho equivale a terminá-lo pela metade. como ³[. Nosso curso de Fundamentos do Direito Público e Privado é apenas um começo. dentro do sistema jurídicopositivo. que deverá. Você notará que os conhecimentos acumulados até aqui serão extremamente úteis para o entendimento desta e também das nossas próximas aulas. privilegiando aquelas pertencentes a disciplinas essenciais como o Direito Constitucional. tais como o Direito Penal. portanto. tais normas são. podemos definir o Direito Constitucional. analisamos conceitos.

‡ Objeto de estudo do Direito Constitucional: Princípios e normas fundamentais que regem determinado Estado. é uma forma de organização social. como o faz Pinto Ferreira. de Fustel de Colanges. e não de estima ou parentesco. do estabelecimento dos poderes e dos diversos órgãos políticos estatais.. RESUMINDO ‡ Definição de Direito Constitucional: Ramo do Direito Público que examina os princípios e as normas fundamentais que regulam a existência jurídica de determinado Estado. visto que o homem é um animal que precisa viver entre seus iguais. exercício e limitação do poder político-jurídico.. é essencial a leitura do já clássico A cidade antiga. qual é a relevância de se conhecer o Direito Constitucional no contexto de seu curso de graduação? Direito e Estado Noção de Estado O Estado é. os juristas preferem entendê-lo como um dado puramente jurídico. das antigas famílias até a civilização greco-romana. . posteriormente. Desse modo. clãs e tribos. A primeira e mais antiga forma de organização social é a família. dos direitos e garantias fundamentais dos cidadãos etc. Nela já observamos a presença de uma autoridade ± a mãe ou o pai ± e um certo número de regras obrigatórias para os demais indivíduos. é muito mais complexo que famílias. uma forma de organização social. No decorrer dos tempos. A família. as famílias foram se tornando maiores e se juntaram a outras que possuíam crenças religiosas e formação cultural semelhantes. uma vez que desde cedo o homem sentiu a necessidade de criar certas regras que regulassem a sua vida em sociedade. o objeto de estudo do Direito Constitucional são os princípios e normas fundamentais que organizam o Estado. O Estado. que o Direito Constitucional é a ciência positiva das constituições´1. o Estado é uma das mais importantes instituições jurídicas. É a época de formação dos clãs (união de famílias) que. Tais normas dispõem acerca da forma de governo. Com o surgimento de novos problemas. INDICAÇÃO DE LEITURA Para aqueles que pretendem aprofundar seus conhecimentos sobre as primeiras formas de organização social. darão origem às tribos (união de clãs). como na família. surgiram formas de se organizar tais grupos. ou seja. do mesmo modo. obra que conta com várias edições em língua portuguesa. Suas necessidades físicas. assim como a família. Todavia. A vida humana só é possível de forma coletiva. Como esses princípios e normas fundamentais do Estado compõem o conteúdo das constituições [. Trata-se de uma forma de organização social que detém o domínio político-jurídico de uma dada porção territorial na qual vivem determinado número de indivíduos. do modo de aquisição. pode-se afirmar. aqueles que definem e sistematizam a organização político-jurídica estatal. Criação própria da Idade Moderna. mais difíceis de serem solucionados. Apesar da existência de várias teorias que tentam explicar sua origem. Atividade Por que o Direito Constitucional é considerada a mais importante disciplina jurídica? Para você. Tal domínio é exercido mediante a aplicação de normas jurídicas.]. os clãs e as tribos são formas de organização social. o que equivale a dizer que o vínculo que une os cidadãos ao Estado é um vínculo de direito.interpreta e sistematiza os princípios e normas fundamentais do Estado. emocionais e espirituais apenas podem ser plenamente satisfeitas quando vive em grupos mais ou menos complexos e extensos.

a capacidade de representar o único centro produtor de normas jurídicas em certa região. . LEGISLAÇÃO CONSTITUCIONAL Excerto do artigo 12 da Constituição da República Federativa do Brasil: São brasileiros: I . investigar a presença dos três elementos constitutivos. avós etc. É a presença ou a ausência desses elementos que nos autoriza a classificar uma dada organização social como estatal ou não-estatal. Pois bem. da monopolização da força em certo território de modo a comandar as condutas daqueles que nele vivem. pode-se dizer que. ainda que de pais estrangeiros. na forma da lei.natos: a) os nascidos na República Federativa do Brasil. necessita-se apenas de centralização da ordem jurídica. na realidade. As formas de se adquirir a nacionalidade são variadas e cada Estado adota as suas. o vínculo da nacionalidade. Para que haja um Estado. ou seja. ± franceses. designativo dos indivíduos que mantêm um especial vínculo com o Estado. ao jurista. justas ou injustas. Aqueles que nascem em território brasileiro são considerados brasileiros. não importando se são democráticas ou autocráticas. ainda que nele o poder seja exercido de forma autoritária ou injusta. podemos dizer que o Estado somente o é porque possui o monopólio do poder político-jurídico. não é suficiente nascer na França. território e poder. há um Estado e que as normas postas pelo grupo são jurídicas.naturalizados: a) os que. Sustenta Kelsen: Se um dado grupo social consegue impor a sua vontade por um tempo relativamente longo. c) os nascidos no estrangeiro. Os conceitos de direito e de Estado não se confundem com as noções de democracia. boas ou más. isto é. que abstraia o processo de formação histórica do Estado e as diversas vicissitudes ± avanços e retrocessos ± que tal processo implicou. No Brasil. exigidas aos originários de países de língua portuguesa apenas residência por um ano ininterrupto e idoneidade moral. ESTADO = ORDEM JURÍDICA CENTRALIZADA (KELSEN) Elementos do Estado Da leitura do conceito acima pode-se observar que o Estado é composto por três elementos: povo. desde que estes não estejam a serviço de seu país. qual seja. desde que venham a residir na República Federativa do Brasil e optem. em tal situação. justiça e liberdade. Diferentemente. comandando a conduta dos demais membros da sociedade sem que haja uma contestação séria de suas ordens. É preciso ter ascendentes ± pais. adquiram a nacionalidade brasileira. um único conceito. de pai brasileiro ou de mãe brasileira. b) os nascidos no estrangeiro. pela nacionalidade brasileira. constituindo. o povo constitui a base humana do Estado. Se estiverem presentes. se adotarmos uma perspectiva exclusivamente jurídica. Por exemplo: para ser francês. Assim.Hans Kelsen chega a afirmar que direito e Estado se confundem. Basta. Trata-se aqui de um conceito jurídico. não importando se seus pais são ou não brasileiros. de pai brasileiro ou de mãe brasileira. desde que qualquer deles esteja a serviço da República Federativa do Brasil. em qualquer tempo. vários Estados europeus concedem a nacionalidade apenas a indivíduos que descendam de outros nacionais. a principal ± mas não a única ± regra de atribuição de nacionalidade relaciona-se ao fato de se nascer em território nacional. há um Estado. II .

visto que as norm]as jurídicas estatais vigoram também: ‡ na massa de ar atmosférico que o recobre. desde que requeiram a nacionalidade brasileira. Atenção: A idéia de território não se confunde com o pedaço de terra no qual se localiza um Estado.a dignidade da pessoa humana. ‡ em outros Estados que estejam juridicamente dominados.b) os estrangeiros de qualquer nacionalidade residentes na República Federativa do Brasil há mais de quinze anos ininterruptos e sem condenação penal. juridicamente. ou seja. Kelsen o define como o âmbito de validade espacial das normas jurídicas de determinado Estado. o último e mais importante elemento constitutivo do Estado é o poder político-jurídico. sua própria ordem jurídica. sendo muito mais ampla e abrangente. ‡ nas suas embaixadas localizadas em Estados estrangeiros. formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal. quando pretende criar uma lei. ou seja. Todo o poder emana do povo. aquele que detém o monopólio da coerção. colônias. ‡ no subsolo.os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa.a soberania. por exemplo. capaz de conceber o seu próprio direito. até uma determinada altura (espaço aéreo). O território é o segundo elemento do Estado. O que significa isso? Simples: Quer dizer que a noção de território corresponde a todas aquelas realidades nas quais as normas jurídicas de certo Estado têm validade. um Estado é soberano quando pode criar. Todas essas realidades podem compor o território de um Estado. O poder soberano não depende de outros para se impor. Diz-se que o poder de um Estado é soberano porque. até onde se conseguir perfurar. nos termos desta Constituição. O que caracteriza tal espécie de poder é sua capacidade de regular. não encontra rivais. que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente. Dessa maneira. SOBERANIA = INDEPENDÊNCIA POLÍTICO-JURÍDICA LEGISLAÇÃO CONSTITUCIONAL Artigo 1º da Constituição da República Federativa do Brasil: A República Federativa do Brasil. O poder político é o poder supremo. as relações sociais de um determinado povo instalado sobre certo território.o pluralismo político. . ‡ até uma certa faixa do mar (mar territorial). Por exemplo: O Brasil. Portanto. uma vez que vivemos em um Estado independente. não necessita solicitar permissão a Portugal. chamado por muitos autores de soberania ou de governo independente. de forma exclusiva. a outro Estado estrangeiro. ser soberano significa não se submeter. III . juridicamente. Parágrafo único. como. IV . Finalmente. constitui-se em Estado democrático de direito e tem como fundamentos: I . V . independentemente da vontade dos demais Estados. II .a cidadania. A embaixada brasileira nos Estados Unidos da América faz parte do território brasileiro.

ou seja. Em um Estado de direito. Fundamente a sua resposta. Tal noção é relativamente recente. Como vimos no tópico anterior. antes exercido de modo absoluto e ilimitado. Atividade Com base no que estudamos até o presente momento. limitando seus poderes e definindo seus órgãos político-administrativos. como o Estado se organiza contemporaneamente? Tal será o objeto de nossos estudos no próximo tópico. estrutura e prevê as formas de seu exercício. aos governados e ao próprio Estado. A vontade dos governantes ± monarcas como Louis XIV na França ±. garantindo. seria. as normas jurídicas se aplicam a todos: aos governantes. Um Estado soberano é aquele que detém autoridade plena e governo próprio dentro de seu território. naturalmente. organizações sócio-políticas em que o poder político-jurídico se auto-regula (teoria da autolimitação). no qual se buscava limitar o poder político-jurídico. em 1789. Relações Estado/Direito antes e depois da Revolução Francesa Criador (supremacia) Criatura (subordinação) Estado Absolutista (até 1789) Estado Direito Estado de direito (a partir de 1789) Direito Estado DEFINIÇÃO DE CONSTITUIÇÃO ³A constituição do Estado.Pode-se definir soberania como a capacidade político-jurídica conferida aos Estados de criarem. unicamente para os cidadãos. A partir da Revolução Francesa. devendo-lhe ser. desde o seu descobrimento ± um Estado. A noção de Constituição surgiu neste contexto histórico. a forma de seu . O direito era visto como uma criação do Estado e. o Direito Constitucional objetiva examinar os princípios e as normas fundamentais que regem e organizam o Estado. a organização dos seus elementos essenciais: um sistema de normas jurídicas. uma vez que delineia. de modo independente. território e poder ± surge a forma de organização social conteqqqmporânea conhecida por Estado. diga se o Brasil é ± e também se sempre foi. submisso. isto é. portanto. O Estado passou a ser entendido como uma criação do direito. seu conjunto normativo supremo. considerada sua lei fundamental. era a base de um poder político naturalmente ilimitado. obrigatoriamente. que regula a forma do Estado. escritas ou costumeiras. Pois bem. visto que até o fim do século XVIII as normas jurídicas não se aplicavam aos governantes e não geravam deveres para o Estado. então. certos direitos para os cidadãos que o Estado deve. da junção dos elementos analisados ± povo. respeitar. A Constituição representa um limite para o exercício do poder político. ademais. o criador é mais poderoso que a criatura. A idéia de Constituição e o Estado de direito Nos dias de hoje é impossível conceber a existência de um Estado desenvolvido sem uma Constituição que lhe estruture. Tal ocorre porque os Estados contemporâneos são Estados de direito. absoluta e incontestável. razão pela qual as formas estatais assim organizadas são conhecidas como Estados absolutistas. Contudo. Cada Estado possui sua Constituição. seus ordenamentos jurídicos. a situação se inverteu.

tal poder dependia exclusivamente da vontade do monarca absoluto. que não reconhecia quaisquer limitações jurídicas para a sua atuação. o estabelecimento de seus órgãos. iniciar o trabalho. mediante as quais se sustenta que o poder políticojurídico deve respeitar os limites postos pelo direito. e não em oposição a ele. processo ou efeito de constituir. à qual todas as outras leis devem ajustarse. isso ocorrerá somente se você. traçando limites entre os poderes e declarando os direitos e garantias individuais. noções e idéias que. SENTIDO JURÍDICO: conjunto das leis fundamentais que regem a vida de uma nação. A constituição do governo se deu de maneira irregular.1 SENTIDO JURÍDICO: conjunto de leis fundamentais que regulam os direitos e deveres no âmbito de cada Estado da Federação. Todavia. parecem obscuras começarão a se tornar mais claras. 4. Surgiram assim as noções de legalidade e de juridicidade. na seqüência. carta constitucional. 42). As idéias de Constituição e de Estado de direito nasceram juntas e não podem ser entendidas de maneira isolada: O Estado de direito é aquele cujas normas ± principalmente as constitucionais ± se aplicam a todos. e não se deixar dominar pelas paixões e caprichos humanos. é necessário que você comece a tomar contato com a lei maior que rege o Estado brasileiro. lei básica. inclusive ao próprio Estado. Com o tempo. Antes dela. p. lendo-a inteiramente e dedicando especial atenção aos artigos 1º até 135. de maneira indistinta. os direitos fundamentais do homem e as respectivas garantias. . Na próxima aula. lei maior [É a lei máxima.] Exemplos: O presidente jurou seguir e defender a Constituição do país [freqüentemente com inicial maiúscula]. a idéia de Constituição. o modo de aquisição e o exercício do poder. como quer o provérbio chinês citado no início desta aula. Exemplo: Indivíduo de constituição forte. 4. conjunto dos elementos que constituem algo. CURIOSIDADE: Acepções do vocábulo ³constituição´ no Dicionário Houaiss da língua portuguesa: 1. Exemplos: O respeito mútuo é importante para a constituição da sociedade matrimonial. Exemplo: A constituição da mesa diretora dos trabalhos não agradou a todos. elaborado e aprovado pela Assembléia Legislativa do mesmo. e que regula as relações entre governantes e governados. destacando-se. composição. razão pela qual é importante que você a conheça. conjunto das características corporais de um ser. Ainda que não entenda muitas das expressões e conceitos utilizados em tais dispositivos constitucionais. geralmente elaborado e votado por um congresso de representantes do povo. conjunto normativo máximo que limita. ato. Em síntese. veremos algumas características básicas de todas as Constituições e. de maneira que as Constituições atuais descenderam das idéias lançadas naquele momento histórico pelos franceses. A partir da Revolução. à primeira vista. restringe e submete o poder político estatal. compleição. 2. carta magna. A Revolução Francesa transformou completamente a forma de exercício do poder político. físico. 3. Tais idéias nasceram na França revolucionária de 1789 e se espalharam pela Europa e pelas Américas.governo. a constituição é o conjunto de normas que organiza os elementos constitutivos do Estado´ (Idem. os limites de sua ação. neste contexto. passaremos a considerar alguns aspectos da atual Constituição da República Federativa do Brasil. o poder político passou a ser exercido pelos governantes com base no direito.

A essência das coisas não se transforma por meio de palavras mágicas. Quem pode exercer o poder político-jurídico? Quando? De que maneira? Quais são as atribuições que os diversos órgãos e agentes detentores de poder político- . todas as estruturas do Estado estão previstas na Constituição. a Constituição limita.Resumo O Direito Constitucional. o poder políticojurídico. sem dúvida. Pois bem. limitando-lhe. c) Constituição. O que significa a expressão ³Estado de direito´? Como ela se relaciona à idéia de Constituição? Fundamente a sua resposta. território e poder político-jurídico independente (soberania). em razão de sua importância. CONSTITUIÇÃO = ESTRUTURAÇÃO FORMAL DO ESTADO + PREVISÃO DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS Nesta aula. uma vez que estuda os princípios e as normas que estruturam o Estado. Quais são os três elementos formadores do Estado? Defina cada um deles. que formam o seu núcleo fundamental: a estruturação formal do Estado e a previsão dos direitos e garantias fundamentais. juridicamente. b) Estado. a Constituição seria o seu manual de instruções. Se eu chamar uma maçã de laranja. Com efeito. não há palavras mágicas no direito: uma Constituição é um conjunto jurídico-normativo que apresenta certas características essenciais. Pode-se definir Constituição como o conjunto normativo supremo de determinado ordenamento jurídico.Direito Constitucional 2 ± A estrutura formal do Estado Brasileiro Introdução Na aula anterior. 2. na próxima. Se tais características não estiverem presentes. por Constituição. segundo a qual todos ± os governantes. a Constituição reúne as mais poderosas normas jurídicas que vigoram em dado Estado. Entende-se. notamos que o Direito Constitucional é. pois se ocupa das normas supremas que organizam o Estado. a mais importante disciplina jurídica. é a mais importante disciplina jurídica. portanto. complexa forma de organização social composta por três elementos: povo. não basta que tomemos um certo número de normas jurídicas e as apelidemos de Constituição. um conjunto jurídico-normativo supremo que congrega princípios e regras cuja função é restringir e regular o poder político-estatal. tema que. os governados e o próprio Estado ± estão sujeitos às mesmas normas jurídicas. Estruturação formal do Estado Se o Estado fosse um eletrodoméstico. normatiza e restringe o poder político-estatal. Ora. Por representar um conjunto normativo hierarquicamente superior. toda Constituição possui duas partes básicas. ramo do Direito Público. contribuindo assim para a concretização da idéia de Estado de direito. não podemos falar em Constituição. exige uma reflexão aprofundada e específica. a idéia de direitos e garantias fundamentais. Com efeito. Atividades 1. Conceitue: a) Direito Constitucional. Todavia. Aula 07. 3. nem por isso ocorrerá uma tal transformação. examinaremos a estrutura formal do Estado Brasileiro e.

44 a 135) CAPÍTULO I ± Do Poder Legislativo (arts. 33) CAPÍTULO VI ± Da intervenção (arts. 85 e 86) Seção IV ± Dos Ministros de Estado (arts. só existe enquanto previsto pelo direito. 84) Seção III ± Da responsabilidade do Presidente da República (arts. 92 a 100) Seção II ± Do Supremo Tribunal Federal (arts. 89 e 90) Subseção II ± Do Conselho de Defesa Nacional (art. 42) Nacional (arts. 76 a 83) Seção II ± Das atribuições do Presidente da República (art. 59) Subseção II ± Da emenda à Constituição (art. . 60) Subseção III ± Das leis (arts. 48 a 50) Seção III ± Da Câmara dos Deputados (art. 59 a 69) Subseção I ± Disposição geral (art. 34 a 36) CAPÍTULO VII ± Da Administração Pública (arts. são respondidas pela Constituição. 32) Seção II ± Dos Territórios (art. 18 e 19) CAPÍTULO II ± Da União (arts. possui uma existência jurídica. É como se tivéssemos diante dos olhos uma radiografia do Brasil e pudéssemos enxergar o seu esqueleto. que os juristas chamam de arcabouço formal: TÍTULO III DA ORGANIZAÇÃO DO ESTADO (arts. 53 a 56) Seção VI ± Das reuniões (art. 51) Seção IV ± Do Senado Federal (art. 25 a 28) CAPÍTULO IV ± Dos Municípios (arts. 37 a 43) Seção I ± Disposições gerais (arts. a forma básica do Estado brasileiro. 29 a 31) CAPÍTULO V ± Do Distrito Federal e dos Territórios (arts. 70 a 75) CAPÍTULO II ± Do Poder Executivo (arts. 37 e 38) Seção II ± Dos servidores públicos (arts. regula e confere concretude ao Estado. 32 e 33) Seção I ± Do Distrito Federal (art. que. uma vez que ela organiza. e muitas outras. 58) Seção VIII ± Do processo legislativo (arts. 91) CAPÍTULO III ± Do Poder Judiciário (arts. do Distrito Federal e dos Territórios Seção IV .jurídico possuem? Como se limita tal poder? De que modo se dá a relação entre as três funções do poder político-jurídico e o que os seus membros podem ou não fazer? Todas essas questões. como vimos na aula anterior. 61 a 69) Seção IX ± Da fiscalização contábil. 39 a 41) Seção III ± Dos militares dos Estados. 20 a 24) CAPÍTULO III ± Dos Estados federados (arts. 18 a 43) CAPÍTULO I ± Da organização político-administrativa (arts. 87 e 88) Seção V ± Do Conselho da República e do Conselho de Defesa 89 a 91) Subseção I ± Do Conselho da República (arts. 44 a 75) Seção I ± Do Congresso Nacional (arts. financeira e orçamentária (arts. 44 a 47) Seção II ± Das atribuições do Congresso Nacional (arts. 76 a 91) Seção I ± Do Presidente e do Vice-Presidente da República (arts. 101 a 103-B) (art. observamos a estrutura. Neles. 52) Seção V ± Dos Deputados e dos Senadores (arts.Das Regiões (art. 57) Seção VII ± Das comissões (art. 43) TÍTULO IV DA ORGANIZAÇÃO DOS PODERES (arts. ou seja. 92 a 126) Seção I ± Disposições gerais (arts. Observe os títulos III e IV da nossa Constituição (artigos 18 a 135).

Da mesma forma. Monarquia: Cargo de dirigente máximo vitalício e hereditário. forma de governo oposta à república e na qual o chefe máximo do Estado possui cargo vitalício e hereditário. c) forma do Estado brasileiro. diferentemente da monarquia. 127 a 135) Seção I ± Do Ministério Público (arts. 133 a 135) 110) O exame de todos esses artigos demandaria um tempo enorme e escaparia completamente aos objetivos do presente curso. 131 e 132) Seção III ± Da Advocacia e da Defensoria Pública (arts. 104 e 105) Seção IV ± Dos Tribunais Regionais Federais e dos Juízes Federais (arts. o Legislativo. 122 a 124) Seção VIII ± Dos Tribunais e Juízes dos Estados (arts. 106 a Seção V ± Dos Tribunais e Juízes do Trabalho (arts. República: Cargo de dirigente máximo temporário e eletivo. dizem respeito aos seguintes temas: a) forma e sistema de governo do Brasil. Nos artigos de44 até o 135 encontram-se outras . na monarquia o rei obtém o poder político-jurídico graças ao princípio hereditário. independentes e harmônicos entre si. 127 a 130-A) Seção II ± Da Advocacia Pública (arts. Atividade Qual é a diferença fundamental entre a monarquia e a república? Tripartição das funções do poder político-jurídico Uma das formas de controle do poder político-jurídico é a tripartição de suas funções. É necessário que o titular do poder político-jurídico se renove com o tempo por meio de eleições ou de outras técnicas jurídicas capazes de garantir a rotatividade no poder. Por ora. tais como as eleições populares. 125 a 126) CAPÍTULO IV ± Das funções essenciais à justiça (arts. b) sentido e importância da tripartição das funções do poder político-jurídico. Por seu turno. isto é. que garante a continuidade de uma mesma família na direção superior do Estado. Nas repúblicas ± palavra que encontra suas raízes no latim. uma vez que res significa ³coisa´ e publica evoca a idéia de ³bem ou interesse comum a todos´ ± não se admite que a mesma pessoa exerça o poder político-jurídico por tempo indefinido ou vitalício. prevista em nosso ordenamento jurídico pelo artigo 2º da Constituição: ³São poderes da União. o chefe máximo da república é escolhido por meio de processos eletivos. 118 a 121) Seção VII ± Dos Tribunais e Juízes Militares (arts. 111 a 117) Seção VI ± Dos Tribunais e Juízes Eleitorais (arts. Tal significa que o cargo de dirigente máximo do Estado brasileiro é temporário e eletivo. por toda a vida. o Executivo e o Judiciário´. d) forma de exercício do poder político-jurídico em nosso Estado. como se pode notar pela leitura do artigo 1º de nossa Constituição. Tal estudo só se justifica no âmbito de cursos de graduação em Direito. Essas noções. é suficiente que extraiamos dos dispositivos citados alguns conceitos basilares que nos auxiliem a compreender o funcionamento do Estado brasileiro.Seção III ± Do Superior Tribunal de Justiça (arts. Forma de governo republicana A forma de governo brasileira é a republicana. que examinaremos na seqüência.

se não neutralizada. promulgada pelos revolucionários franceses de 1789: ³A sociedade em que não esteja assegurada a garantia dos direitos nem estabelecida a separação dos poderes não tem Constituição´. Art. que as colocou em prática pela primeira vez. é natural que o poder político-jurídico abuse de suas prerrogativas. conforme se pode perceber pela leitura do parágrafo primeiro do artigo 1º de nossa Constituição. ele encontra sua origem na soberania popular. Do contrário. A grande questão reside na forma de se limitar o poder político-jurídico. é o poder supremo. o sistema de governo ± ou regime político. Uno e indivisível. Segundo Montesquieu. detalhando-lhes o funcionamento. Charles-Louis de Secondat. as atividades que o poder político-jurídico é chamado a realizar. ‡ Função judiciária = resolução dos conflitos surgidos em decorrência da aplicação das leis. por exemplo). as funções do poder político-jurídico se desvinculam. estruturas e servidores.disposições constitucionais relativas aos chamados poderes da República brasileira. é preciso que suas funções sejam separadas e efetivadas por diferentes órgãos. O que se divide são as suas funções. Atividade Com que objetivo as funções do poder político-jurídico são tripartidas no Estado de direito? Qual é a importância da teoria de Montesquieu nos dias de hoje? Sistema de governo presidencialista Conforme o artigo 76 da Constituição da República. 16º da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. A . como preferem alguns autores ± brasileiro é presidencialista. uma vez que cada um desses agentes e órgãos deve vigiar a utilização do poder político-jurídico realizada pelos demais. Na verdade. sustenta o filósofo francês. A teoria da tripartição (separação em três) das funções do poder político-jurídico foi apresentada por Montesquieu em sua clássica obra O espírito das leis. Posteriormente. os governantes o utilizarão de maneira arbitrária e autoritária. O abuso do poder político-jurídico ocorre quando todas as suas funções se concentram nas mãos de um único indivíduo (o rei ou o ditador. somente o poder político-jurídico pode se controlar (teoria da autolimitação). Não é o poder político-jurídico que se divide. que serão entregues a órgãos e estruturas diversas entre si: ‡ Função legislativa = criação das leis. sendo repartidas entre vários agentes e órgãos. pelo menos minorada. motivo pelo qual deve ser controlado. ao contrário. ou seja. por definição. que. Assim. barão de Montesquieu (1689 ± 1755) Escritor e filósofo francês conhecido pela sua teoria da separação das funções do poder político-jurídico. Se. ‡ Função executiva = aplicação concreta das leis. uns independentes dos outros. Cada função fiscaliza e controla as demais em um sistema no qual se têm competências e atribuições específicas. a possibilidade de abuso é. É o que Montesquieu chamou de sistema de freios e contrapesos (³checks and balances´): As funções ³freiam´ umas às outras quando ameaçam abusar do poder que lhes foi confiado. as idéias de Montesquieu foram adotadas pelos Estados europeus graças à influência da Revolução Francesa. O presidencialismo se opõe ao parlamentarismo.

diferença básica entre eles se encontra nas relações mantidas entre o Poder Executivo e o Poder Legislativo. No sistema presidencialista, o Poder Executivo é exercido pelo Presidente, auxiliado pelos Ministros de Estado, de maneira que se nota uma separação bem clara entre o Executivo e o Legislativo. Ao Legislativo, em tal sistema, cabe apenas a feitura das leis, e não a administração do Estado e a aplicação dessas mesmas leis. Trata-se de um sistema de governo relativamente novo, uma vez que surgiu com a Constituição Americana de 1787. A grande maioria dos Estados latino-americanos adota o sistema de governo presidencialista em detrimento do parlamentarista, que, por ser um regime político mais tradicional, costuma ser adotado por Estados que possuem uma larga história de desenvolvimento das instituições político-jurídicas, tais como a maior parte dos Estados da Europa Ocidental. No parlamentarismo não há uma separação clara entre o Poder Executivo e o Poder Legislativo, visto que a administração superior e a chefia do governo cabem não a um Presidente, mas sim a membros do Poder Legislativo ± ou seja, do Parlamento ± especialmente escolhidos para tal fim e organizados em uma instituição política chamada de Gabinete, cujo líder é o Primeiro-Ministro. Um conhecido exemplo de Estado parlamentarista da atualidade é a Inglaterra. Características Chefe de governo Separação das funções do poder político-jurídico Surgimento Exemplos Atividade Faça uma pesquisa histórica e responda se o Brasil já foi regido por meio de um sistema de governo parlamentarista. Forma Federal de Estado A Teoria Geral do Estado nos ensina que, em relação à organização do poder político-jurídico, os Estados são, basicamente, de dois tipos: unitários ou federados. Na verdade, existem diversas subdivisões, detalhes e especificidades no que se relaciona a tal tema, um dos mais espinhosos e difíceis do Direito Público. Todavia, a nós nos bastam algumas informações fundamentais. Formas básicas de Estado: Unitário e Federal. Diz-se que um Estado é unitário quando o poder político-jurídico ± ou seja, a capacidade de criar normas jurídicas ± está unificado em um órgão central. Tal órgão normalmente divide o território estatal em inúmeras regiões administrativas ± também chamadas de comunas ou de distritos ± com a finalidade de facilitar a sua administração. Contudo, essas regiões administrativas não gozam de autonomia, ou seja, não podem inovar a ordem jurídica, isto é, criar direito próprio. Há um único ordenamento jurídico, válido para todo o Estado. Tal forma estatal é característica da Europa, e um bom exemplo de Estado unitário é a França. Presidencialismo Presidente Clara e nítida Constituição Americana de 1787 EUA e Brasil Parlamentarismo Primeiro-Ministro Pouco clara Sistema tradicional e histórico Inglaterra e Espanha

O Estado unitário francês e suas diversas regiões administrativas. Diferentemente, no Estado federal existem variados centros produtores de normas jurídicas, todos autônomos. Próprio de Estados que apresentam ampla extensão territorial e difundido nas Américas, o federalismo é uma forma de Estado que possibilita a convivência de diversificadas ordens jurídicas em um mesmo território. De acordo com o caput do artigo 1º da Constituição da República Federativa do Brasil (CF/88), nossa forma de Estado é, assim como a dos Estados Unidos da América, a federal. A estrutura básica da federação brasileira está formalmente prevista no Título III de nossa Constituição (arts. 18 a 43). LEGISLAÇÃO Excerto do caput do art. 1º da Constituição da República Federativa do Brasil: ³A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel1 dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito´ (grifos inexistentes no original). 1 A união federativa dos Estados-Membros, que, como veremos, não são soberanos, mas apenas autônomos, é sempre indissolúvel, o que significa dizer que os Estados-Membros brasileiros estão proibidos de deixar a União e se apresentar como Estados independentes. Ao contrário, nas confederações, os Estados que dela fazem parte permanecem soberanos e possuem o chamado direito de secessão, ou seja, a capacidade de abandonarem, a qualquer momento, a união confederativa. Tal ocorre porque as confederações são formas de Estado efêmeras e pouco duradouras, que existem apenas para fazer face a situações temporárias, como, por exemplo, ameaças externas provenientes de outros Estados. Após o fim da situação que levou os Estados soberanos a se confederarem, o destino inevitável das confederações é a extinção, com a separação definitiva dos Estados confederados, ou o fortalecimento da união, com a conseqüente transformação da confederação em federação. Tal processo

ocorreu com os Estados note americanos, que se confederaram objetivando se libertar do domínio da Inglaterra ± de quem eram colônias ± e, posteriormente, passaram a se organizar sob a forma de federação. Nos Estados federais, há uma pluralidade de ordens jurídicas autônomas que convivem harmonicamente no mesmo território. Neles, percebemos a presença de, pelo menos, dois tipos de direito, o federal e o estadual.2 VOCABULÁRIO ‡ Estatal: Relativo a Estado, forma de organização social que congrega três elementos: Povo, território e poder político-jurídico soberano. Exemplo: O Estado brasileiro celebrou um acordo internacional com o Estado francês. ‡ Estadual: Relativo a Estado-Membro. Exemplo: As leis estaduais paulistas são diferentes das leis estaduais amazonenses. 2 O federalismo brasileiro apresenta importantes peculiaridades em relação ao modelo teórico clássico. Uma delas é o fato de possuir três níveis de produção jurídico-normativa, de modo que não apenas a União e os Estados-Membros criam direito, mas também os Municípios. No Brasil, além da ordem jurídica federal, estamos submetidos a ordens jurídicas estaduais (nelas o conjunto normativo superior é representadopela respectiva Constituição Estadual) e municipais (onde a norma jurídica máxima é chamada de Lei Orgânica Municipal). Os Municípios, assim como os Estados-Membros, detém certa autonomia e podem, respeitados alguns requisitos, criar seus ordenamentos jurídicos específicos, desde que as normas constantes da Constituição da República Federativa do Brasil sejam observadas, uma vez que se impõem de forma determinante tanto aos Estados-Membros como aos Municípios. A extensão e a amplitude da autonomia dos Estados-Membros e dos Municípios depende de vários fatores jurídicos, históricos, sociais, políticos, econômicos e culturais. Assim, por exemplo, os Estados-Membros nos EUA possuem muito mais competências e atribuições legislativas que os Estados-Membros brasileiros. É por isso que cada Estado-Membro americano tem seu próprio código penal, algo impensável no Brasil." O direito federal, produzido pela União Federal, é válido para todo o território brasileiro e, por natureza, se ocupa de questões mais gerais, que afetam o Estado como um todo. Já o direito estadual é gerado pelos chamados Estados-Membros, que compõem a União. Cada um desses Estados possui autonomia para criar suas próprias ordens jurídicas parciais, desde que não tratem de assuntos e temas que cabem somente à União, que, diferentemente dos Estados-Membros, não é autônoma, mas sim soberana. Exemplos de Estados-Membros no Brasil são Paraná, Amazonas, Bahia, Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro etc. Para um Estado, ser soberano significa não ter seu poder político-jurídico limitado por quaisquer ordens jurídicas superiores. Por isso a União ± o Brasil como um todo ± é soberana e os Estados-Membros não o são, uma vez que nestes últimos a capacidade de criação do direito é limitada ± ou seja, não-soberana ±, sendo, por isso, chamada de autonomia, conceito que não se confunde com o de soberania. É graças a essa razão que os Estados-Membros devem sempre observar, além de suas próprias normas jurídicas, aquelas outras, superiores ± mormente as da Constituição Federal ±, emanadas do poder central. SOBERANIA: Capacidade plena e ilimitada de criar normas jurídicas. AUTONOMIA: Capacidade limitada de criar normas jurídicas.

Assembléias Legislativas Estaduais. pois as normas jurídicas que regularão a sociedade serão impostas pelos governantes sem qualquer possibilidade de discussão. mediante o voto. visto que o povo participa. Por outro lado. 14 a 16. A forma de exercício do poder político-jurídico contrária à democracia é a autocracia. stalinismo e fascismo) etc. ou mesmo por um único indivíduo. da criação das normas jurídicas que regem o Estado e a sociedade. A autocracia é um gênero que engloba várias espécies: as ditaduras. que. pois. que se compõe da Câmara dos Deputados e do Senado Federal´. Por isso. disposição constitucional reforçada pelos arts. Nos governos autocráticos. as tiranias. 3 A junção da Câmara dos Deputados Federais e do Senado Federal origina o Congresso Nacional. vivemos em um Estado democrático. garantia dos direitos fundamentais. o poder político-jurídico não é controlado nem restringido pelo direito. dependem de sua vontade particular. indiretamente. o que pode gerar revoltas. nas democracias há uma certa socialização do poder político-jurídico. Para a manutenção de sistemas autocráticos é necessário que o Estado se organize de uma maneira extremamente autoritária. na qual o poder político-jurídico é exercido por um número limitado de indivíduos. divisão das funções do poder político-jurídico e pluralidade de partidos políticos. que irão compor os diversos Parlamentos da República ± Câmaras Municipais. O nazismo foi uma das várias formas de autocracia que assolaram o século XX. prerrogativas franqueadas a todos os cidadãos brasileiros acima de 16 anos. a teor do artigo 44 da Constituição Federal: ³O Poder Legislativo é exercido pelo Congresso Nacional. As principais características dos Estados democráticos são as seguintes: existência de uma Constituição.Atividade Por que os Estados-Membros e os Municípios brasileiros devem sempre respeitar as normas contidas na Constituição da República? Forma democrática de exercício do poder político-jurídico O poder político-jurídico é exercido no Brasil de maneira democrática. LEGISLAÇÃO CONSTITUCIONAL Já no artigo 1º da atual Constituição brasileira se prevê a forma democrática de exercício do poder políticojurídico. deputados federais e senadores ±. motivo pelo qual o Estado autocrático é fortalecido ao máximo para fazer frente a tal possibilidade. indiretamente. Nas autocracias não há socialização do poder político-jurídico. que passa a ser visto como ditador. deputados estaduais. assim. vêem sua liberdade diminuída e excessivamente limitada. os cidadãos participam da formação da vontade estatal mediante o exercício de direitos políticos. os totalitarismos (nazismo. que dispõem acerca dos direitos políticos. . formalmente. tais normas não são capazes de representar quaisquer garantias para os governados. Tais direitos se resumem na possibilidade de votar (cidadania ativa) e de ser votado (cidadania passiva). as monarquias absolutas. pode-se dizer que. governos eleitos periodicamente por sufrágio universal. visto que as normas jurídicas não são entendidas como limites à atuação do governante. Na medida em que os cidadãos escolhem. Câmara dos Deputados Federais e Senado Federal3 ±. Ao contrário. seus representantes políticos ± vereadores.

Qual é a forma de governo do Brasil? Fundamente a sua resposta. no que consiste a teoria da tripartição das funções do poder políticojurídico. examinaremos a noção de direitos e garantias fundamentais. após uma breve introdução à história constitucional brasileira. 1º e 18 a 43 da CF/88).Resumo A Constituição possui dois núcleos básicos fundamentais: A estruturação formal do Estado e a previsão dos direitos e garantias fundamentais. constitui-se como República Federativa na qual o sistema de governo é presidencialista e o poder político-jurídico é exercido de forma democrática. Qual é o sistema de governo adotado no Brasil? Fundamente a sua resposta.Direito Constitucional 3 ± Os Direitos e Garantias Fundamentais Introdução Na Aula 7. vimos que as Constituições têm dois núcleos básicos: A estruturação formal do Estado e a previsão dos direitos e garantias fundamentais. fecharemos nossos estudos acerca do Direito Constitucional. Quais são as diferenças básicas entre a autocracia e a democracia? O Brasil é um Estado democrático ou autocrático? Fundamente a sua resposta. apenas traçaremos algumas idéias gerais que poderão ser aprofundadas por meio da leitura de boas obras de Direito Constitucional1. Nesta aula. de forma resumida. como vimos. Executivo e Judiciário (arts. razão pela qual. ‡ Forma de Estado: Federativa (arts. O tema dos direitos e garantias fundamentais é um dos mais complexos e fascinantes do Direito Constitucional. 1 Sobre a construção histórico-filosófica dos direitos fundamentais. Quanto ao primeiro aspecto. é absolutamente necessário que você os leia com muita atenção. 1º da CF/88). A era dos direitos (Rio de Janeiro: Campus). 2º e 44 a 135 da CF/88). 3. 1º e 14 a 16 da CF/88). com o que. 1º e 76 a 91 da CF/88). a obra clássica continua sendo a magnífica coletânea de ensaios de Norberto Bobbio. que. Antes de começar a estudar os tópicos desta aula. Os direitos e garantias fundamentais Conceito Os direitos e garantias fundamentais estão previstos nos artigos 5º a 17 da nossa Constituição. quando reunimos importantes informações sobre o Estado brasileiro. Por que se diz que a forma de Estado brasileira é federal? 5. O primeiro tema foi analisado na aula anterior. Aula 08. 4. Explique. ‡ Forma de exercício do poder político-jurídico: democrático-indireta (arts. 2. ‡ Tripartição das funções do poder político-jurídico: Legislativo. no limitado espaço de uma aula. podemos sintetizar as características estruturais do nosso Estado da seguinte maneira: ‡ Forma de governo: Republicana (art. Para o estudo dos . Atividades 1. ‡ Sistema de governo (regime político): Presidencialista (arts.

além de referir-se a princípios que resumem a concepção do mundo e informam a ideologia política de cada ordenamento jurídico. mas concreta e materialmente efetivados3. nos traz indicações importantes a respeito desses direitos. ao Estado caberia apenas respeitá-los. Trata-se. direitos públicos subjetivos. direitos individuais. ao contrário. os direitos e garantias fundamentais. evidentemente. não apenas formalmente reconhecidos. Na França da Revolução. submetem o Estado. os direitos e garantias fundamentais foram chamados de direitos naturais. Fundamental é aquilo sem o que a existência humana não é possível. fundamentais do homem no sentido de que a todos. às vezes. se desenvolvido após tal momento histórico e chegado até os dias de hoje bastante modificados. aquelas prerrogativas e instituições que ele concretiza em garantias de uma convivência digna. Por isso mesmo. de um conjunto de direitos ± cujo titular é o cidadão ± sem os quais não se pode viver dignamente em um Estado de direito. O adjetivo ³fundamental´. direitos humanos. muito maior e mais poderoso que ele. evitando que este cometa abusos e arbitrariedades. na verdade. por igual.direitos fundamentais no ordenamento jurídico brasileiro. Nesse sentido. limitar e restringir o poder político-jurídico. no nível do direito positivo. por comporem a Constituição. No qualificativo fundamentais acha-se a indicação de que se trata de situações jurídicas sem as quais a pessoa humana não se realiza. DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS = Limitação do poder estatal Foi no contexto da Revolução Francesa que os direitos e garantias fundamentais surgiram. livre e igual de todas as pessoas. José Afonso da Silva nota que a expressão ³direitos e garantias fundamentais´ conta com diversos ± e nem sempre esclarecedores ± sinônimos: direitos naturais. A primeira dificuldade relativa aos direitos e garantias fundamentais advém da amplitude terminológica que os envolve. por estarem garantidos em uma Constituição. se não fosse limitado e restringido. não convive e.] porque.´ Todavia. razão pela qual se apresentariam como direitos independentes do Estado. São Paulo: Malheiros).. também são limitações impostas ao poder político-jurídico do Estado quando este se relaciona com o indivíduo. liberdades fundamentais. os direitos e garantias fundamentais foram . devem ser respeitadas certas regras e princípios supremos que. nem mesmo sobrevive. tais direitos nasceriam com o homem. é óbvio que esse mesmo Estado deve respeitá-los e entendê-los como limites à sua atuação. De acordo com os teóricos pré-revolucionários. Se o homem tem certos direitos que estão acima do próprio Estado ± direitos esses que não foram dados pelo Estado mas. é reservada para designar. nasceram com o ser humano ±. São Paulo: Atlas) e de José Afonso da Silva (Curso de direito constitucional positivo. Simplificando: Nas relações do Estado com os indivíduos. direitos do homem. já o disse José Afonso da Silva. tendo.. parece-nos que a noção de direitos e garantias fundamentais fica mais clara se vincularmos a sua definição às idéias que discutimos nas duas aulas anteriores. contudo. liberdades públicas e direitos fundamentais do homem2. devem ser. Tais normas visam a resguardar o indivíduo diante de algo que. fazendo parte de sua essência. Qual é a função básica de uma Constituição? Ora. certamente o esmagaria. os manuais mais acessíveis e gerais são os de Alexandre de Moraes (Direito constitucional. que propõe o seguinte conceito de direitos e garantias fundamentais: CONCEITO DE DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS Direitos fundamentais do homem constitui a expressão mais adequada [. Inicialmente.

a compra e a distribuição de medicamentos. Seu poder não chega a tanto. podemos agrupar as principais características dos direitos e garantias fundamentais da seguinte maneira: . com efeito. a contratação de profissionais da área de saúde. na forma da lei. Tomemos dois direitos fundamentais: A liberdade de crença religiosa e o direito à saúde. Hoje já não se sustenta que os direitos e garantias fundamentais representam direitos naturais que se ligam à essência humana. A liberdade de crença configura-se como restrição ao poder do Estado e um direito fundamental do indivíduo. Neste nosso mundo não há nada imodificável e perfeito. Alguns exemplos podem esclarecer tais conceitos. Atualmente os direitos e garantias fundamentais simbolizam limites que o Estado não pode ultrapassar ± devendo se manter inerte diante de certas prerrogativas. inciso VI: é inviolável a liberdade de consciência e de crença. tal se realizará mediante ações estatais concretas. uma vez que se encontra limitado pela Constituição. muito menos a essência humana. LEGISLAÇÃO CONSTITUCIONAL Constituição da República Federativa do Brasil. o direito à saúde. conjunto normativo no qual se prevê a liberdade de crença. A Assembléia Nacional Constituinte da França revolucionária. a criação e a manutenção de estruturas de saneamento básico etc. O papel dos direitos naturais não é.expressamente declarados ± ³positivados´. mantendo-se. Ora. Ao contrário. o patrocínio a pesquisas médicocientíficas. benefícios e direitos conferidos aos cidadãos ± ou então ações exigíveis do próprio Estado. de acordo com a linguagem jurídica ± em um documento legislativo de imensa importância: A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. visto que sequer sabemos se há uma tal essência. de acordo com o artigo 6º da Constituição da República Federativa do Brasil. Está garantida. portanto. art. Significa que o Estado não está autorizado a exigir que nós adotemos esta ou aquela orientação religiosa. Por outro lado. inerte diante do indivíduo. não bastando que o Estado deixe de interferir na vida dos cidadãos. o que apenas se torna possível por meio de ações como a construção de hospitais. colocar-se como normas protetivas de necessidades humanas universais e imutáveis. o Estado deve garantir. templos religiosos dos católicos. O primeiro será realizado na medida em que o Estado não impuser uma crença oficial ou uma religião obrigatória. dos muçulmanos e dos judeus. pela nossa Constituição Federal. a liberdade de crença religiosa. sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida. 5º. imodificável e eterna. DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS = LIMITAÇÕES IMPOSTAS AO ESTADO + AÇÕES EXIGÍVEIS DO ESTADO Atividade Como os direitos e garantias fundamentais se relacionam com a necessidade de se limitar o poder do Estado? Características Com base nas lições de José Afonso da Silva4. é necessário que ele crie condições para que as pessoas possam efetivamente gozar de saúde. responsável pela elaboração da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Nas fotos. a proteção aos locais de culto e a suas liturgias.

Ainda que não queiramos. por exemplo. até mesmo depois da morte. Isso significa que ninguém está autorizado. normatizam e estabelecem direitos e deveres para os indivíduos que mantêm entre si determinadas relações jurídico-sociais. o pagamento de horas extras. a igualdade e a liberdade. por isso mesmo. a ³vender´ a sua liberdade por meio de um contrato de compra e venda. a liberdade das pessoas pode ser limitada ± mas não anulada ± quando praticam crimes e. especialmente aquelas chamadas de trabalhistas. Visto que as necessidades humanas evoluem. transferi-los ou doá-los. ‡ Irrenunciabilidade: Muito ligada à característica anterior. as pessoas não podem abrir mão desses direitos ou perdê-los. poderá restringir alguns direitos e garantias fundamentais. não podem ser objeto de transações comerciais. Atividade Descreva e explique o sentido das quatro principais características dos direitos e garantias fundamentais. que protegem o homem enquanto indivíduo e também enquanto membro de uma coletividade. Desde que o Estado se baseie em motivos jurídicos razoáveis. tornando-se escravo. Vale dizer. à igualdade. à propriedade etc. o descanso semanal remunerado. ao contrário. Para exemplificar. coloca-se a questão da irrenunciabilidade. portanto. pois tal equivaleria a uma comercialização do direito fundamental à vida e à dignidade. as férias anuais. constituindo sua dignidade e protegendo seus bens mais valiosos. Em relação a eles não se verificam requisitos que importem em sua prescrição. entre outros bens jurídicos de extrema importância.‡ Historicidade: Os direitos e garantias fundamentais se desenvolvem e se transformam com o próprio homem. podemos citar alguns direitos do trabalhador como o décimo terceiro salário. a liberdade. Ainda que um indivíduo nunca tenha exigido a efetivação de um direito fundamental. as pessoas estão proibidas de negociar os seus órgãos. devem cumprir suas penas em presídios. portanto. Entretanto. trocá-los. Por exemplo. mas não rejeitá-lo ou recusá-lo de forma absoluta. a característica da inalienabilidade não impede que os direitos e garantias fundamentais sofram restrições por parte do Estado. é importante levar em consideração o comentário de José Afonso da Silva: ³O exercício de boa parte dos direitos fundamentais ocorre só no fato de existirem reconhecidos na ordem jurídica. Os indivíduos não podem renunciar aos direitos e garantias fundamentais que a ordem jurídico-constitucional lhes oferece. a garantia de salário não-inferior ao . garantindo-lhe. uma vez que evoluem com o tempo. Os direitos e garantias fundamentais não possuem ³prazo de validade´. 5 . nunca deixam de ser exigíveis´. ‡ Imprescritibilidade: Dizer que os direitos e garantias fundamentais são imprescritíveis significa afirmar que os seus titulares ± os indivíduos ± não têm prazo para exercê-los. Não se pode vendê-los. a igualdade e a propriedade. ou seja. que regulam. Por isso mesmo.Aliás. os direitos e garantias fundamentais também devem seguir o curso da história. realidades que o Estado não deve desconsiderar. Permanecem válidos e eficazes durante toda a vida das pessoas e. em razão de uma sentença criminal. Fazem parte da pessoa. mas. ‡ Direitos sociais. poderá fazê-lo a qualquer tempo. à educação. cuja fiel e integral observância não pode ser desconsiderada pelo Estado. em alguns casos. Tais direitos estão previstos no artigo 5º da nossa Constituição. mas sim direitos supremos. Da mesma maneira. proteger. temos. direitos absolutos. quais sejam. ‡ Inalienabilidade: Trata-se de direitos que não possuem conteúdo patrimonial e. Pode-se até mesmo deixar de exercer um direito fundamental. Classificação Os direitos e garantias fundamentais previstos na Constituição do Brasil são os seguintes: ‡ Direitos e deveres individuais e coletivos. Não são. direito à saúde. não são negociáveis. uma vez que tal tipo de direito jamais prescreve5.

se quiser ser efetivo. ou seja. a assistência aos desamparados. uma vez que se afastou do contexto histórico-social brasileiro. econômicas. as normas jurídico-trabalhistas não esgotam o rol dos direitos sociais. à previdência e à assistência social. a moradia. as principais características das anteriores Constituições do Brasil: ‡ A primeira Constituição brasileira surgiu em 1824. trata-se de nosso oitavo texto constitucional. exercer o poder político-jurídico. assim. uma vez que o direito. além de fixar quais são os cargos públicos privativos de brasileiros natos e outros temas correlatos. há Constituições promulgadas. Diz-se que uma Constituição é outorgada quando não foi produzida pelos representantes do povo. ‡ As estruturas formais do Estado previstas na Constituição de 1891 foram mantidas pela Carta . razão pela qual não teve grande eficácia no Brasil. de 1946 e de 1988 foram promulgadas. Contudo. ‡ Direitos políticos. Pedro I. Por outro lado. apesar de ser considerada pelos constitucionalistas como uma das mais perfeitas Constituições de nosso Estado. No Brasil.´ ‡ Direitos de nacionalidade. culturais e políticas. à educação. que são muito mais amplos. artigo 6º: ³São direitos sociais a educação. a ser exercido pelo imperador. toda a Constituição de 1891 se baseou na americana. ‡ A Constituição de 1891 foi a primeira carta republicana do nosso país. sendo extremamente diferente da atual Carta Constitucional. determinando quem possui o direito de voto ± cidadania ativa ± e quem pode ser votado ± cidadania passiva ± e. mas. Ocupam os artigos 12 e 13 da atual Constituição. à segurança. imposta pelo detentor do poder políticojurídico. as Constituições de 1891. estabelecia um quarto poder ± o moderador ±. e conferia direito de voto apenas a indivíduos que detivessem elevado poder econômico (voto censitário). LEGISLAÇÃO CONSTITUCIONAL Constituição da República Federativa do Brasil. de 1937 e de 1967/1969. as Constituições brasileiras foram se transformando. a proteção à maternidade e à infância. na forma desta Constituição. ao contrário. Além disso. estabeleceu a tripartição das funções do poder político-jurídico. deve acompanhar a sociedade que pretende normatizar e regular. Encontram-se nos artigos 14 a 17 da Constituição do Brasil. o sistema de governo presidencialista e a forma federal de Estado. as de 1824. diferenciando-os de forma justificada. conferindo uma exacerbada autonomia e enormes poderes aos Estados-Membros. Além disso. tivemos quatro Constituições desse tipo. a segurança. A evolução constitucional brasileira: breve histórico A atual Constituição da República Federativa do Brasil não é a primeira. que estabelecem as estruturas básicas da democracia brasileira. regulam a criação e o funcionamento básico dos partidos políticos. No Brasil. de 1934. a saúde. Com as mudanças sociais. As Constituições podem ser outorgadas ou promulgadas. Vejamos. Aliás. rapidamente.mínimo etc. posto que abrangem também direitos relacionados à saúde. que determinam quem são os nacionais brasileiros e também como ± no caso de estrangeiros ± se obtém e se perde a nacionalidade brasileira. o lazer. elaboradas por órgãos político-jurídicos compostos por representantes do povo ± Assembléias Nacionais Constituintes ± e que têm por missão estabelecer um texto constitucional popular e democrático. Na verdade. a previdência social. Atividade Após ter lido os dispositivos constitucionais acima indicados. Encontram-se previstos nos artigos 6º a 11 da Constituição da República. Foi outorgada por D. pois determinava que a forma de governo do Brasil era monárquica. do ponto de vista técnico. à moda da Constituição americana de 1787. o trabalho. cite um exemplo de cada espécie de direito fundamental.

. origem das famigeradas medidas provisórias dos dias de hoje. ademais. a atual Constituição da República Federativa do Brasil. justa e solidária.12. de acordo com o seu parágrafo de abertura. Extremamente autoritária. e não outorgadas. foi outorgada por Getúlio Vargas após o golpe que. se viu mergulhada nas trevas do autoritarismo. uma vez que privilegia a figura do cidadão e prioriza a realização da cidadania. romperam definitivamente com a ordem constitucional.] organizar um regime democrático. instaurou a ditadura do Estado Novo. apesar de formalmente promulgadas. apelidada. que incorpora inovações e possibilita uma grande abertura e renovação do direito brasileiro. uma vez que o Executivo se agigantou e passou. durante mais de vinte anos. tendo suspendido e eliminado vários direitos e garantias fundamentais com vistas à manutenção da ³segurança nacional´. de 1946 e de 1967/1969.. uma vez que privilegiou os direitos e garantias fundamentais. que assim limitou a atuação e a autonomia dos Estados-Membros. de 1934. razão pela qual foi promulgada a Constituição de 1946. o direito de voto feminino. embora muitos juristas insistam em dizer que foram promulgadas. Nela o Poder Executivo se fortaleceu em detrimento dos demais. a ³[.Constitucional de 1934. dissolvendo a Câmara dos Deputados Federais e o Senado Federal. a liberdade. a Europa se livrou. Atividade Descreva as principais características das Constituições brasileiras de 1824. trata-se do ³[. a justiça e o bem-estar social e econômico.. Na Constituição brasileira de 1934. variados regimes autoritários (o fascismo na Itália. foi promulgada. inclusive. tecnicamente inferior à de 1891. confirmando uma tendência da época que veria surgir. que. Nessas Constituições. começou a se preocupar com questões sociais. deixou de prever vários direitos e garantias fundamentais que hoje consideramos essenciais.] instrumento mais autoritário da história política do Brasil´6 ±. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 Com o fim da ditadura militar e a redemocratização do Estado brasileiro. de ³Constituição cidadã´. visto que na Constituição de 1988 são tratados temas até então relegados ao . a se redemocratizar. chamada de ³polaca´ em virtude de sua semelhança com a Constituição fascista e pouco democrática da Polônia. No Brasil sentiu-se a necessidade de um novo texto constitucional. As Constituições de 1967 e de 1969 se assemelham à Constituição ditatorial de Vargas. por meio do Ato Institucional nº 5. foram efetivamente outorgadas pelos militares que. Buscando inspirar-se nas de 1891 e de 1934. de 1937.10. antes menosprezados pela ³polaca´ de Getúlio Vargas. ‡ As Constituições de 1967 e de 1969 foram impostas pelo governo militar após o golpe de Estado de 1964. embora tenha sido importante para a redemocratização do Brasil. Na realidade.1988. na Europa. de 13. o franquismo na Espanha.) e mesmo totalitários (o nazismo alemão e o stalinismo soviético). que assegure à Nação a unidade.1968 ± segundo José Afonso da Silva. Propunha-se.´ ‡ A Constituição de 1937. a tripartição das funções do poder político-jurídico compareceu no texto normativo apenas de modo decorativo. inspirada na Constituição alemã da República de Weimar (1919). A maioria dos constitucionalistas e dos estudiosos do direito em geral afirma que se trata de um texto constitucional extremamente avançado. de 1891. entre outros avanços. em 05. que. é notável a centralização do poder político-jurídico e das rendas nacionais nas mãos da União. em parte. ‡ Com o fim da Segunda Guerra Mundial. dos extremismos nazi-fascistas e começou. o salazarismo em Portugal etc.. Previu. a Constituição de 1946 já nasceu velha. colocando as bases de uma sociedade democrática. a legislar por meio de Decretos-Leis. A ³Constituição cidadã´ representa um projeto de normalização da ordem político-jurídica brasileira. desde o seu surgimento. gradualmente.

não é função do Executivo. direitos sociais. que consiste na tensão entre a previsão teórica e a efetiva aplicação normativa. Conceitue. de uma forma ou de outra. de forma resumida. 2. exclusivo do pai. pelo poder familiar. Por fim. qual seja: Organizar a sociedade de maneira justa e racional. de 1946 e de 1967/1969 ± antes do texto atual. De nada vale um arcabouço jurídico-constitucional formalmente perfeito se ele não é capaz de cumprir a sua missão. solidária e fraterna. aponte as principais características e diferencie os direitos e garantias fundamentais. Os direitos e garantias fundamentais são de dois tipos básicos: Limitações impostas ao Estado. como na previsão de medidas provisórias. a nova definição de família ± com a substituição do antigo pátrio poder. Não basta que uma norma jurídica exista para que seja eficaz. antes de tudo. direitos de nacionalidade e direitos políticos ± são as seguintes: Historicidade. institutos jurídicos que. sob pena de esvaziamento do projeto democrático. Atividades 1. A proteção ao meio ambiente. é o representante da soberania popular. a ³Constituição cidadã´. a história constitucional do Brasil. de 1937. Descreva a importância da atual Constituição da República. o que. sempre prontas a descumprirem comandos constitucionais em nome de interesses mesquinhos e egoístas. de 1891. . razão pela qual não deve ter suas competências e funções minoradas.esquecimento ou que. 3. às crianças e aos adolescentes. a Constituição de 1988 não é perfeita. principalmente por algumas autoridades político-jurídicas. na prática. como a de 1988. O Brasil já teve sete Constituições ± as de 1824. As medidas provisórias ± previstas do artigo 62 da Constituição e filhas dos malfadados Decretos-Leis do período ditatorial ± maximizam de forma desproporcional o Poder Executivo e desprestigiam o Legislativo. afinal. composto de bons ou maus membros. que. irrenunciabilidade e imprescritibilidade. Além dos defeitos técnicos que apresenta. o grande desafio da atual Constituição é mostrar-se efetiva e. pode-se afirmar que a Constituição enfrenta o drama inerente a todo o direito. aos idosos. de 1988. ou ações exigíveis do Estado para que se possa garantir às pessoas uma existência digna. mas do Legislativo. Todavia. pertencente tanto ao pai como a mãe ± e a igualação jurídica entre homens e mulheres são matérias relevantes que passaram a fazer parte de nosso cotidiano graças aos avanços jurídicos proporcionados pela atual Carta Constitucional. como qualquer norma jurídica. não vinham sendo adequadamente considerados pelos operadores do direito. inalienabilidade. em alguns pontos ela ainda se prende a antigas concepções autoritárias. As principais características dos direitos e garantias fundamentais ± que podem ser de quatro espécies: Direitos individuais e coletivos. Relate. dão ao Presidente da República o poder de criar normas jurídicas similares a leis. livre e igualitária. por razões diversas. a previsão de direitos e garantias fundamentais constitui a base de qualquer Constituição. que durante mais de vinte anos se viu mergulhada nas trevas do autoritarismo. Resumo Ao lado da estruturação formal do Estado. que representa um inovador projeto de redemocratização e de normalização da ordem político-jurídica brasileira. Assim. Eis a vocação de qualquer Constituição que se queira democrática. ao consumidor. de 1934. fazer-se respeitar.

portanto. do resultado de um longo e fértil processo de evolução. define o objeto da disciplina: ³Regulando os direitos e as obrigações de ordem privada concernentes às pessoas. considerados. unitário e lógico. a sua família. na realidade. tendo em vista especialmente aspectos relativos aos bens. 7 e 8. entanto. o direito civil é o estudo que se faz para investigar. não-política ou pública). e entre as pessoas e os bens. CONCEITO DE DIREITO CIVIL Ciência que estuda as normas jurídicas reguladoras dos ³[. . à família e à sucessão.2002).] interesses dos cidadãos entre si ou entre eles e as entidades coletivas. que. Trata-se. importante ramo do Direito Privado. uma vez que o Direito Civil é. Nas Aulas 6. que o influenciaram bastante ± encontra sua origem remota no jus civile praticado pelos romanos há mais de dois mil anos. portanto. conceituais e institucionais do Direito Civil já se encontram enraizadas na mentalidade jurídica dos povos ocidentais. principalmente do Código Civil (Lei nº 10. concernentes a sua capacidade. Tal se deve à sua milenar evolução. às obrigações. como direitos e obrigações de ordem civil´1 (isto é. ou seja.Direito Civil I : A pessoa no Direito Introdução O Direito Civil é a mais importante disciplina do Direito Privado. as normas de Direito Civil constantes de várias leis. Tal lei traz as regras e os princípios fundamentais do Direito Civil.] Como ciência. [. objeto do Direito Comercial (ou Empresarial) e de natureza trabalhista. um dos maiores autores do Direito Civil brasileiro. Além disso.´2 O objeto de estudo do Direito Civil são.. Tal se deve a interessantes fatores históricos. Não é de se espantar. umas com as outras. a mais antiga ciência jurídica... que o Direito Civil se apresente aos nossos olhos como um conjunto normativo extremamente coerente. como vimos. Ambas as situações são regidas pelo Direito Civil. o alemão e o francês. Por exemplo: O casamento dá origem a relações privadas que se verificam entre marido e mulher. examinamos alguns aspectos do Direito Constitucional.Aula 09. harmônico. aos bens e às suas relações. determinar e expor sistematicamente os fenômenos jurídicos compreendidos dentro dos limites do seu conteúdo. Nesta e nas próximas duas aulas. que são complementados pela chamada legislação civil extravagante3. é uma disciplina jurídica que objetiva estudar as relações privadas entre as pessoas ± com exceção daquelas de natureza comercial.1. o direito civil conceitua as pessoas. de 10. sem dúvida. as principais estruturas teóricas. a seus bens e a suas convenções. celebrado por dois indivíduos que não são comerciantes. OBJETO DO DIREITO CIVIL Caio Mário da Silva Pereira. concentraremos nossa atenção no Direito Civil. assim também um contrato de compra e venda. caracteriza os acontecimentos de que resultam os direitos e obrigações e formula as relações de direito que se podem estabelecer entre as pessoas. trata das relações entre particulares. Definição e objeto do Direito Civil O Direito Civil.. a seu estado. define os bens. Em razão deste fato. verá que boa parte dos conceitos e noções de Direito Civil envolve uma complexidade bem menor do que os do Direito Constitucional.406. Basta lembrar que o nosso Direito Civil ± assim como o português. objeto do Direito do Trabalho ±. o ramo de maior relevância do Direito Público. Lembre-se de que as relações privadas ± das quais o Estado não participa de forma direta ± se dão entre duas ou mais pessoas. por normas juscivilísticas (de Direito Civil) não-compreendidas no Código Civil. Você notará que os temas e assuntos por ele tratados são muito diversos dos de Direito Constitucional.

situar-se fora de. como. Trata de -se matéria que integra a parte geral do Código Civil. Atividade Quais são os principais temas estudados pelo Direito Civil? Pessoas naturais e pessoas jurídicas O mais importante conceito do Direito Civil é o de pessoa. todavia. a palavra ³pessoa´ assume uma significação diversa daquela que usualmente conhecemos. direito e dever são categorias correlatas. vagar fora. um contrato de compra e venda. características. uma vez que. seja ela legítima (isto é. contudo ± do direito das obrigações é o contrato: suas modalidades. ter deveres. enfrentemos agora o tema basilar do Direito Civil: A conceituação e a distinção dos conceitos de ³pessoa natural´ e de ³pessoa jurídica´. os chamados ³direito de família´. ou melhor. como o próprio nome já nos indica. Por seu turno. posta por lei) ou testamentária (determinada por testamento). por exemplo. O Direito Civil é um dos mais amplos e detalhados ramos do Direito. estabelecendo direitos e deveres para ambos. Para tal ramo do Direito. aquele ente que possui ± ou pode possuir ± e exerce ± ou pode exercer ± direitos. requisitos. também. . o objeto básico ± nãoexclusivo. Vem de extra e vagare. Já o direito das coisas trata principalmente ± mas não exclusivamente ± de questões relativas à posse e à propriedade de bens. Centralizaremos nossos esforços nas principais questões que envolvem o Direito Civil. entre ascendentes e descendentes. se debruça em relação às normas juscivilísticas relativas à sucessão. CÓDIGO CIVIL PARTE GERAL Pessoas Coisas Fatos jurídicos PARTE ESPECIAL Direito de família Direito das coisas Direito das obrigações Direito das sucessões O direito de família normatiza as relações entre pais e filhos.3 Note o sentido da palavra ³extravagante´. Pois bem. Um não existe sem o outro. Lembre-se. Também se localiza na parte geral do Código Civil. como vimos. ‡ Estudo pormenorizado das normas que compõem as partes especiais do Código Civil. ‡ Exame das normas jurídicas que regulam os fatos jurídicos. formas de extinção etc. caso tenha interesse ou necessidade. ³direitos das obrigações´ e ³direito das sucessões´. o direito das sucessões. pessoa é o sujeito de direitos e deveres. esperando assim contribuir para a formação de uma base jurídica simples ± porém sólida ± que você poderá ampliar por meio de estudos complementares. ou seja. Pois bem. qualificação e caracterização das pessoas (naturais e jurídicas) e das coisas (bens). de que ter direitos significa. DIREITO CIVIL = CÓDIGO CIVIL + LEGISLAÇÃO CIVIL EXTRAVAGANTE Os principais assuntos tratados pelo Direito Civil são os seguintes: ‡ Definição. ³direito das coisas´. Finalmente. motivo pelo qual muitos dos assuntos citados não serão examinados em nossas aulas. isto é.

Tal significa que o embrião e mesmo o feto não são pessoas. ou seja. é considerado. Não são seres existentes na natureza fenomênica. As pessoas naturais ± ou físicas ± são os seres humanos. uma vez que o romano. II . objetos do direito. A pessoa natural surge. com exceção daqueles chamados de personalíssimos. basta o nascimento com vida para que se configure a existência da pessoa natural. Ainda que o indivíduo nasça e venha a morrer momentos depois. que durará até sua morte. A personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida. ou seja. Todavia. presume-se esta. além do nascimento com vida. o mundo jurídico se divide em dois grandes universos: o das pessoas e o das coisas. a forma humana. 6o. com sua mentalidade pragmática. A declaração da morte presumida. quando o indivíduo nasce com vida. 2o. No antigo Direito Romano. o direito evoluiu. Notando que em certas situações as pessoas naturais se reúnem para alcançar uma finalidade comum. diferentemente de outros ordenamentos jurídicos. para o direito. somente poderá ser requerida depois de esgotadas as buscas e averiguações. devendo a sentença fixar a data provável do falecimento. tendo. para que um indivíduo fosse considerado pessoa era necessária.se for extremamente provável a morte de quem estava em perigo de vida. como pessoa. Tal não ocorre em outros sistemas jurídicos contemporâneos. Parágrafo único. As pessoas. Art. no mundo concreto. que apresentavam defeitos físicos ± deveriam ser mortas pelos pais. não poderia admitir a existência de deficientes em sua cidade. LEGISLAÇÃO (CÓDIGO CIVIL) Art. titular de direitos e deveres. Toda pessoa é capaz de direitos e deveres na ordem civil. sem decretação de ausência: I . desde que nasça. sujeitos de direito. 1o. Art. portanto. nesses casos. e hoje todo ser humano. Trata-se de conjuntos de pessoas naturais ou de bens destinados a certas finalidades. não for encontrado até dois anos após o término da guerra. nos casos em que a lei autoriza a abertura de sucessão definitiva. Ao direito brasileiro. desaparecido em campanha ou feito prisioneiro. voltada para a guerra e a conquista. As crianças monstruosas ± ou seja. a capacidade de sobreviver após o parto. os mesmos direitos e deveres que as pessoas naturais. nos casos em que a pessoa desapareça por um longo período sem deixar vestígios. além do nascimento com vida e a viabilidade. seja esta comprovada ou meramente presumida. PESSOA = SUJEITO DE DIREITOS E DE DEVERES Existem dois tipos de pessoas: as naturais e as jurídicas. A existência da pessoa natural termina com a morte. quanto aos ausentes. o direito decidiu que tais grupos deveriam ser tratados como verdadeiras pessoas. mas a lei põe a salvo. embora sejam protegidos pela lei graças a razões práticas e humanitárias. isto é. exercem suas prerrogativas em relação às coisas. que exigem. a viabilidade. no Brasil. os direitos do nascituro. 7o. Art.Na realidade. PESSOA NATURAL = SER HUMANO APÓS O NASCIMENTO COM VIDA Já as pessoas jurídicas são realidades criadas pelo direito.se alguém. Pode ser declarada a morte presumida. constituiu-se como pessoa. que dizem . desde a concepção. posto que eles não poderiam combater por Roma.

o INSS ± Instituto Nacional do Seguro Social ± é uma pessoa jurídica de direito público. As pessoas jurídicas de direito privado são criadas por particulares e. As pessoas jurídicas são. e de direito privado. Parágrafo único.os Municípios. assim. SIMILAR À PESSOA NATURAL.os Estados. pessoas jurídicas. 40. uma associação de bairro.as demais entidades de caráter público criadas por lei. 42. as fundações. o Distrito Federal e os Territórios. como. política. Além do Brasil. os Estados-Membros e o próprio Brasil são. mas pelo registro de seus atos constitutivos ± por exemplo. as sociedades comerciais. as organizações religiosas e os partidos políticos. para o direito. Por isso podem comprar e vender. regem-se.a União. no que couber. Considerando que tais pessoas jurídicas estão fora do território brasileiro. tão reais quanto as naturais. interno ou externo. São pessoas jurídicas de direito público externo os Estados estrangeiros e todas as pessoas que forem regidas pelo direito internacional público. PESSOA JURÍDICA = REALIDADE IDEAL. Todavia. V .respeito apenas ao ser humano. pelas normas deste Código. por exemplo. o contrato social de uma sociedade de responsabilidade limitada ± nos órgãos estatais competentes para tanto. As pessoas jurídicas são de direito público. Art. normalmente.as autarquias. visam à obtenção de lucro. inclusive as associações públicas. como os Municípios e os Estados-Membros. . São pessoas jurídicas de direito público interno: I . IV . Art. Já aquelas que dependem diretamente do Brasil para existir. contratar funcionários. 41. um partido político e mesmo os Municípios. cultural. São capazes de exercer direitos e de cumprir obrigações. CRIADA PELO DIREITO As pessoas jurídicas podem ser de direito público ou de direito privado. por exemplo ± também são pessoas jurídicas de direito público. existem algumas pessoas jurídicas de direito privado que não objetivam ganhos financeiros. os outros Estados do planeta e as organizações internacionais ± a ONU (Organização das Nações Unidas) e a OMC (Organização Mundial do Comércio). o próprio Estado é uma pessoa jurídica de direito público. são chamadas de pessoas jurídicas de direito público externo. Aliás. As pessoas jurídicas de direito privado nascem não por força de lei. pagar tributos. As de direito público são criadas pelo Estado por meio de leis ou de outras normas jurídicas estatais. São as associações. Salvo disposição em contrário. as pessoas jurídicas de direito público. II . são chamadas de pessoas jurídicas de direito público interno. III . quanto ao seu funcionamento. mas sim a realização de finalidades de natureza social. a que se tenha dado estrutura de direito privado. religiosa ou beneficente. Dessa forma. pois se trata de um ente criado pela União Federal mediante lei específica. LEGISLAÇÃO (CÓDIGO CIVIL) Art. Têm existência própria e inconfundível com a das pessoas naturais que as formam. falir etc. Uma empresa pública ou privada.

as sociedades. se dá pela lei que as criou e. para o direito. ou seja. precedida. Já as demais passam a existir juridicamente desde a data em que uma lei as cria ± no caso das pessoas jurídicas de direito público ± ou a partir do momento em que são registradas no órgão competente para tanto. Começa a existência legal das pessoas jurídicas de direito privado com a inscrição do ato constitutivo no respectivo registro. CRIAÇÃO DAS PESSOAS JURÍDICAS DE DIREITO PÚBLICO = Pelo Estado. pelo registro no órgão responsável. quando obtêm personalidade jurídica. Em regra. Ter personalidade jurídica significa ³existir para o direito´.LEGISLAÇÃO (CÓDIGO CIVIL) Art. 45. as pessoas jurídicas passam a ter existência diversa da dos seus instituidores. Art. III . a existência das pessoas naturais? E a das pessoas jurídicas de direito público e de direito privado? Fundamente a sua resposta. Personalidade: Qualidade por força da qual um ente é considerado pessoa pelo ordenamento jurídico. Uma vez existentes no mundo jurídico ± o que. uma empresa não se confunde com os seus sócios. respectivamente. mediante lei específica. quando se trata de pessoas jurídicas de direito privado. São pessoas jurídicas de direito privado: I . Atividade Quando começa. averbando-se no registro todas as alterações por que passar o ato constitutivo. . exercidos e cumpridas. sendo sujeito de direitos e de obrigações. As pessoas jurídicas não se confundem com as pessoas naturais que lhes deram existência. no caso das pessoas jurídicas de direito público. DE DIREITO PRIVADO = Por particulares.os partidos políticos. diferenciando esses vários tipos de pessoas. II . de autorização ou aprovação do Poder Executivo. V . quando necessário. podem ser.as fundações. IV . 44. Assim.as associações. se tal empresa deve a alguém certa quantia. ocorre quando seus atos constitutivos são registrados no órgão competente. no cartório de registro de pessoas jurídicas ±. no que concerne às pessoas jurídicas de direito privado. por exemplo. e não os seus sócios. Personalidade jurídica e capacidade jurídica Acabamos de ver quando surgem as pessoas no mundo do direito. respeitados certos requisitos. é ela que deve pagar.as organizações religiosas. que. As pessoas naturais adquirem personalidade jurídica por meio do nascimento com vida. Têm personalidade (existência jurídica) e patrimônio (bens) próprios e inconfundíveis.

Uma coisa é ser pessoa. que devem concordar com tal ato e se responsabilizar juntamente com o menor. desde que. ouvido o tutor. elas constituem a base das noções de capacidade jurídica presentes nos demais ramos do direito. necessita-se unir à personalidade o requisito da capacidade jurídica. ou seja. um adolescente de 17 anos pode abrir uma conta bancária apenas se estiver acompanhado pelos pais. ter nascido com vida. realmente. capacidade jurídica. Outra coisa é poder exercer direitos e cumprir obrigações. exercer direitos e contrair obrigações. as regras mais perfeitas sobre a capacidade jurídica se encontram no Código Civil. quando a pessoa fica habilitada à prática de todos os atos da vida civil. A personalidade é uma espécie de aptidão jurídica genérica para se exercer direitos e contrair obrigações. Cessará. diferentemente da capacidade penal ± isto é. para os menores. não se pode negar que se trata de uma pessoa natural. Contudo. Capacidade jurídica é a possibilidade de. Todos os seres humanos o são.Leia a definição apresentada atentando para a sua parte final.´ Já a capacidade relativa ± ou incapacidade relativa ± é limitada. a incapacidade: I . IV . a pessoa é considerada plenamente capaz. por si só e sem o intermédio ou o auxílio de quem quer que seja. Parágrafo único. vender. pois cumpriu o requisito posto pelo ordenamento jurídico pátrio. efetivamente. votar. Apenas alguns seres humanos podem realizar tais atos. mediante instrumento público. ou de um deles na falta do outro. existem algumas raras situações em que o menor de 18 anos passa a ser visto pelo direito como plenamente capaz. independentemente de homologação judicial. V . se o menor tiver dezesseis anos completos. conferindo ao seu titular a possibilidade de praticar certos atos jurídicos desde que acompanhado e/ou assistido pelos seus responsáveis legais. Para que se complete. III . O Direito Civil considera que a capacidade para se exercer os atos da vida civil pode ser plena ou relativa.pelo casamento. para que as pessoas possam efetivamente exercer seus direitos e cumprir suas obrigações. A capacidade plena se verifica quando o indivíduo pode. realizar os atos previstos pelo direito. possa se sustentar sem o auxílio dos pais]. segundo o artigo 5º do Código Civil.pela concessão dos pais. De acordo com o artigo 4º do Código Civil.pelo exercício de emprego público efetivo.pelo estabelecimento civil ou comercial. Mas este bebê pode comprar. ou pela existência de relação de emprego. A capacidade varia nas diversas áreas jurídicas. A partir dos 18 anos completos. ser preso. Tais exceções estão previstas no parágrafo único do artigo 5º do Código Civil: ³A menoridade cessa aos dezoito anos completos. que somente tem início quando o indivíduo completa 18 anos. A aquisição da personalidade jurídica é apenas um primeiro passo para que as pessoas possam. para tanto. como os pais.pela colação de grau em curso de ensino superior. Assim. em função deles. ser sujeito de direitos e de obrigações não significa efetivamente exercer direitos e contrair obrigações. o menor com dezesseis anos completos tenha economia própria [ou seja. a capacidade eleitoral ± ou seja. a possibilidade de ser processado pela prática de crimes ±. Um exemplo pode esclarecer ainda mais o que acabamos de explicar: Um bebê recém-nascido é uma pessoa? Sem dúvida. Na verdade. a possibilidade de exercer o direito de voto ± principia aos 16 anos. II .4 4 Contudo. casar etc? É claro que não! Falta-lhe. são relativamente capazes (ou relativamente incapazes): . exercitar seus direitos e cumprir suas obrigações. Dessa maneira. qual seja. ou por sentença do juiz. Ora.

CAPACIDADE/INCAPACIDADE RELATIVA: art. b) os que. A vontade dos absolutamente incapazes não tem valor para o direito. são absolutamente incapazes: a) os menores de dezesseis anos. c) os excepcionais. c) os que. por enfermidade ou deficiência mental. De acordo como o artigo 3º do Código Civil. No Brasil. pode ser natural ou jurídica. Resumo O Direito Civil. . as pessoas jurídicas são de direito privado ou de direito público (externo ou interno). A personalidade jurídica equivale à existência da pessoa no mundo do direito. Caso a enfermidade mental seja leve. importante ramo do Direito Privado. à família e à sucessão. Por fim. Contando com os mesmos direitos e deveres das pessoas naturais. aqueles indivíduos perdulários que dissipam seus bens de forma desordenada e irracional. não podendo realizar nenhum ato da vida civil. como vimos. Todos os seres humanos nascidos com vida são. estar-se-á diante de caso de capacidade relativa. 3º do Código Civil. A pessoa.a) os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos. somente a de seus representantes é juridicamente válida. sujeito de direitos e de deveres. o indivíduo que não goza de capacidade jurídica plena ou limitada é tido como absolutamente incapaz pelo Direito Civil. Já as pessoas jurídicas passam a existir para o direito desde a data em que uma lei as cria ± no caso das pessoas jurídicas de direito público ± ou a partir do momento em que são registradas no órgão competente para tanto. Trata-se aqui de problema mental grave e totalmente incapacitante. que impossibilite o indivíduo de viver em sociedade. 4º do Código Civil. b) os ébrios habituais. tenham o discernimento reduzido. não puderem exprimir a sua vontade. às obrigações. Já as pessoas jurídicas apresentam-se como entes fictícios criados pelo direito. INCAPACIDADE ABSOLUTA: art. tendo em vista especialmente aspectos relativos aos bens. por deficiência mental. d) os pródigos. quando se trata de pessoas jurídicas de direito privado. CAPACIDADE PLENA: art. como aqueles que possuem capacidade limitada ± por seus responsáveis legais. 5º do Código Civil. isto é. que ainda vivem em estado selvagem. As pessoas naturais adquirem personalidade jurídica por meio do nascimento com vida. mesmo por causa transitória. ou seja. os viciados em tóxicos e os que. Por exemplo: Os surdos-mudos incapazes de se expressar por sinais convencionais ou pela escrita. não tiverem o necessário discernimento para a prática dos atos da vida civil. Deve ser sempre representado ± e não simplesmente acompanhado ou assistido. sem desenvolvimento mental completo. pessoas naturais. Na verdade. no Brasil. e) os índios não-aculturados. a capacidade dos indígenas é assunto polêmico que se regula por meio de legislação especial. a capacidade jurídica dos índios é regulada por legislação específica. constitui disciplina jurídica que examina as relações privadas entre as pessoas ± com exceção das de natureza comercial e trabalhista ±. como no caso dos loucos furiosos ou dos que sofrem de elevado grau de autismo.

Varrão (Marcus Terentius Varro.Por fim. que é a possibilidade de. Já as coisas são as realidades materiais (uma casa) ou imateriais (um crédito a ser pago) sobre as quais se exercem os direitos. proclamando que todos os homens são pessoas. Desse modo. um livro e uma árvore são coisas. tudo quanto possa ser objeto do direito. Contudo. PESSOA = SUJEITO DE DIREITOS E DE DEVERES COISA = REALIDADE SOBRE A QUAL SE EXERCEM OS DIREITOS O conceito de ³coisa´ para o direito é obtido por exclusão. e não coisas. mais ampla. como. uma vez que o conceito jurídico de bem designa. enquanto a idéia de bem. resta esclarecer que o conceito de personalidade jurídica não se confunde com o de capacidade jurídica. são os sujeitos dos direitos e dos deveres previstos pelo ordenamento jurídico. também sabemos o que é coisa: Tudo aquilo que não é pessoa. dizendo que coisas são objetos materiais ou imateriais que possuem valor pecuniário. O que se entende por personalidade jurídica? Como tal idéia se diferencia da noção de capacidade jurídica? Aula 10. na civilização romana. Atividades 1. afirmamos que o universo jurídico é dividido em duas grandes categorias: Pessoas e coisas. 5. como vimos. em lugar de coisa. no mundo jurídico. Trata-se apenas de mudança terminológica1. Pessoas. um cachorro. realizar os atos jurídicos previstos pelo direito. o escravo era visto como coisa. de forma fundamentada.Direito Civil II ± Bens. CURIOSIDADE: Antigamente. que poderia fazer dele o que bem entendesse. Quais são os principais temas estudados pelo Direito Civil? 3. tudo aquilo que não é pessoa ± natural ou jurídica ±.C. Posse e Propriedade Introdução Na aula anterior. estando regulada nos artigos 3º a 5º do Código Civil. deve-se levar em conta que os romanos. O que é Direito Civil? 2. dizia que os escravos eram instrumentos capazes de falar. por exemplo. englobaria tudo aquilo que pode ser objeto do direito. Diferencie. que dividiram o mundo jurídico em persona (pessoa) e res (coisa). Distinga as pessoas jurídicas de direito privado das pessoas jurídicas de direito público (interno e externo). apresentamos o conceito jurídico de pessoa. a pessoa natural da pessoa jurídica. Os ordenamentos jurídicos civilizados aboliram o instituto da escravidão. 116±27 a. inclusive realidades que não apresentam valor econômico. A nomenclatura ³coisa´ foi criada pelos romanos. Assim. efetivamente. Naquela oportunidade. Alguns autores contemporâneos costumam distinguir as noções de ³coisa´ e de ³bem´. Se sabemos o que significa ³pessoa´ para o direito.). É claro que nos dias de hoje tal visão é absolutamente ultrapassada. o direito à honra. assim como a antiga noção romana de res. sendo mero objeto do direito de propriedade de seu senhor. sejam elas naturais ou jurídicas. falamos em bens. ao traçarem a definição de 1 . Contemporaneamente. 4. Um autor da época. é coisa.

pois do contrário todos os bens seriam móveis. Já os bens infungíveis não podem ser substituídos por serem únicos e raros. se for visto como imóvel. seja por força própria ou alheia. presente no mundo jurídico. Por outro lado. uma vez que os bens móveis são. Cf. como. Já os bens móveis são aqueles capazes de movimento. TRANSFERÊNCIA DE BENS BENS MÓVEIS: Mediante a simples entrega do bem (tradictio). pouco influenciando na prática efetiva do direito. por exemplo. de alguma maneira. Quando você compra um livro. como o Código Civil classifica os bens: Bens móveis e imóveis São bens imóveis o solo e tudo quanto se lhe incorporar natural ou artificialmente. seja por força própria (um cavalo) ou alheia (uma mesa). obviamente. Assim. sujeitar-se-á a outras regras. não poderia ser encaixado no conceito de pessoa. respectivamente.coisa. à primeira vista. Contudo. as classificações jurídicas dos bens são de extrema importância. um quilo. não envolvendo. por exemplo. art. Sem dúvida. 1. Todavia. Dessa forma. a transferência de bens imóveis exige uma série de formalidades. visto que as classificações normalmente têm utilidade apenas teórica. uma casa (bem imóvel) pode ser movimentada e levada de um lugar para outro por uma explosão. mas sim tudo aquilo que. uma vez que determinarão as regras aplicáveis aos inúmeros tipos de bens. obviamente. Daí afirmarmos que a definição romana ± e não a contemporânea ± de coisa corresponde ao atual conceito jurídico de bem. Trata-se de matéria que. uma . portanto. Cf. basta que o vendedor lhe entregue a mercadoria para que ela seja considerada sua. se você comprar um apartamento.226 do Código Civil. que os romanos chamavam de tradictio. eu não preciso devolver exatamente os grãos emprestados. valor pecuniário. que são aquelas coisas ± objetos do direito ± que. art. não traz grande interesse. Esta divisão é bastante relevante. Vejamos. necessariamente. sendo suficiente a entrega do bem.227 do Código Civil. como uma floresta e um edifício. o registro. será regulado por certas regras jurídicas. o apartamento não lhe pertence juridicamente. se um bem é classificado como móvel. como. qualidade e espécie. É importante notar que a movimentação dos bens móveis. Por exemplo: Se você me emprestar um saco de um quilo de feijão roxo. 1. Classificações jurídicas dos bens Os artigos 79 a 103 do Código Civil apresentam os diversos tipos de bens existentes em nosso ordenamento jurídico. não pode destruí-los ou alterar-lhes a estrutura. normalmente. terão sido consumidos. Posso devolver outros grãos de feijão. motivo pelo qual a transferência dos primeiros é feita sem grandes formalidades. mas tal afetaria a sua forma. completamente diferentes. menos valiosos que os imóveis. Bens fungíveis e infungíveis Bens fungíveis são aqueles substituíveis por outros da mesma quantidade. desde que sejam da mesma qualidade e espécie e somem. interessam ao direito. que. não tinham em mente apenas realidades que apresentavam valor econômico. Até que se cumpra tal formalidade. por exemplo. é preciso registrar a transferência em um cartório de registro de imóveis. BENS IMÓVEIS: Por meio de uma série de formalidades (exemplo: Registro).

: Quadro de Picasso. todos os bens são divisíveis. ou seja. Por outro lado. BENS INFUNGÍVEIS: Insubstituíveis. Um computador. é inconsumível. sem necessitar de qualquer outro para lhe conferir existência. Já uma caneta não. o bem acessório necessita do principal para existir. se perdido. Assim. por exemplo. BENS SINGULARES: Particularizados e isolados em si. qualidade e espécie. uma laranja é vista como bem acessório em relação à árvore. Exemplo: A utilização de uma maçã. ou seja. Bens divisíveis e indivisíveis Na realidade. isoladamente consideradas. Assim. desde que tal processo não os danifique. ³o acessório segue a natureza do seu principal´. que existem enquanto coisas individualizadas bem definidas. que. como reunião de vários bens singulares. é um bem singular. BENS DIVISÍVEIS: Podem ser fracionados sem que sejam danificados. Bens principais e acessórios Um bem é juridicamente chamado de principal quando existe apenas em função de si. BENS INCONSUMÍVEIS: Não são destruídos pela utilização imediata. BENS CONSUMÍVEIS: Destruídos pela utilização imediata. Por outro lado. os bens inconsumíveis duram além de sua utilização imediata. BENS INDIVISÍVEIS: Não podem ser fracionados sem danos e/ou prejuízos. Bens singulares e coletivos Singulares são bens independentes uns dos outros.hipotética primeira edição de Os lusíadas autografada por Camões. pois fracioná-la significa danificá-la. Enquanto ainda não separada da árvore que a gerou. que se destina à alimentação. Os romanos já diziam: ³Accessorium sui principalis naturam sequitur´. assim como um quadro de Monet ou de Picasso. se a árvore for vendida.: Dinheiro. Ex. Bens consumíveis e inconsumíveis Denomina-se consumível o bem cuja utilização imediata importa em sua destruição ou em seu desaparecimento. Consideramse juridicamente divisíveis os bens que podem ser repartidos em unidades menores. Tal bem. os frutos nela presentes . Um automóvel. BENS FUNGÍVEIS: Substituíveis por outros da mesma quantidade. Entretanto. O exemplo clássico é o da biblioteca. visto que não será destruído pelo uso imediato. não pode ser substituído. somente se dá por meio de sua destruição. Já os coletivos existem apenas enquanto universalidades. representa o bem principal. por exemplo. formada por inúmeros bens singulares. BENS COLETIVOS: Reunião de vários bens singulares. diminua-lhes de forma considerável o valor ou modifique o uso ao qual se destinam. Qualquer objeto pode ser fracionado. obviamente. um bolo é um bem divisível. ou seja. Ex. pois será comida. pois a este está ligado. pois é formado por partículas menores. o conceito de divisibilidade para o direito é diverso. os átomos.

que descende do vocábulo latino res. salvo se no contrato de compra e venda houver cláusula expressa dispondo o contrário. Por exemplo: Os bens públicos são impenhoráveis. Direitos reais. BENS PARTICULARES: Todos os demais existentes no território nacional. literalmente. ou seja. que significa. Coisas jamais podem ser titulares de direitos e de deveres. tais como rios. . os bens particulares podem ser penhorados para satisfazer as dívidas assumidas por seus proprietários. Bens públicos e privados Bens públicos são os que pertencem às pessoas jurídicas de direito público interno: Municípios. pois nos negócios jurídicos deve-se estabelecer com clareza quais são os bens principais e quais são os bens acessórios. evitando. ATENÇÃO: Não há relação jurídica entre pessoas e coisas.estarão incluídos no preço. As regras aplicáveis a essas duas classes de bens são diferentes. todos os outros são particulares.os de uso comum do povo. estadual. Tal definição se torna mais clara se nos lembrarmos da origem etimológica da palavra ³real´. propriedade e posse Direitos reais são os que estabelecem e regulam os direitos que as pessoas possuem em relação às coisas. seja qual for a pessoa a que pertencerem. BENS PÚBLICOS: Pertencentes às pessoas jurídicas de direito público interno. As relações jurídicas se dão sempre entre pessoas. aos quais estão ligados. BENS PRINCIPAIS: Independem de quaisquer outros. BENS ACESSÓRIOS: Dependem dos principais. 98. não podem ser vendidos para saldar dívidas do Estado. II . mares. de cada uma dessas entidades. Distrito Federal e União Federal. ou seja. ruas e praças.os dominicais. ³coisa´. tais como edifícios ou terrenos destinados a serviço ou estabelecimento da administração federal. Tal classificação é muito importante. Já os particulares não contam com tal privilégio. territorial ou municipal. ou real. visto que os bens públicos têm proteções que não se aplicam aos bens particulares. as pessoas exercem seu direito em relação a elas. assim. pertencentes a particulares. sejam elas naturais ou jurídicas. inclusive os de suas autarquias. como objeto de direito pessoal. EstadosMembros. Excetuadas algumas situações. III . Art. problemas futuros. estradas. Atividade Dê exemplos de cada um dos quatorze tipos de bens estudados neste capítulo. LEGISLAÇÃO (CÓDIGO CIVIL) Art. São bens públicos: I . Todos os demais bens localizados no território brasileiro são privados. São públicos os bens do domínio nacional pertencentes às pessoas jurídicas de direito público interno. Elas são sempre objetos do direito. isto é.os de uso especial. 99. que constituem o patrimônio das pessoas jurídicas de direito público.

1. ou seja. mediante justa e prévia indenização em dinheiro. Na clássica obra de Fustel de Coulanges (1830±1889) sobre os ritos. existindo em praticamente todas as culturas humanas. de considerável número de pessoas. No presente curso.é garantido o direito de propriedade. a propriedade plena verifica-se quando todos os elementos se reúnem. Assim. XXIII . gozar e dispor da coisa. o culto. Por outro lado. por mais de cinco anos. e o direito de reavê-la do poder de quem quer que injustamente a possua ou detenha. § 2º São defesos os atos que não trazem ao proprietário qualquer comodidade. para a sua perfeita compreensão. bem como a reavê-lo do poder de quem o possua de forma ilegítima. Apenas contemporaneamente tal característica vem sendo relativizada. na posse ininterrupta e de boa-fé. e sejam animados pela intenção de prejudicar outrem. § 3º O proprietário pode ser privado da coisa. LEGISLAÇÃO CONSTITUCIONAL Incisos do artigo 5º da Constituição da República Federativa do Brasil: XXII . . Ao contrário. O proprietário tem a faculdade de usar. ressalvados os casos previstos nesta Constituição. exigindo. A propriedade é um dos direitos mais antigos.a propriedade atenderá a sua função social. dizemos que a propriedade está limitada. vamos nos limitar a indicar o sentido dos dois principais direitos reais: A propriedade e a posse. § 1º O direito de propriedade deve ser exercido em consonância com as suas finalidades econômicas e sociais e de modo que sejam preservados. ou por interesse social. a gozar e a dispor do mesmo. ou seja. o uso. para as antigas sociedades grecoromanas. não pode servir apenas para satisfazer os interesses privados do seu dono. a propriedade é composta por quatro elementos: A posse. pago o preço. o autor nos informa que tal direito era. Com efeito.228. de forma exclusiva. É com base nestas idéias que grandes fazendas improdutivas podem ser desapropriadas pelo Governo para fins de reforma agrária. a propriedade sempre apresentou um caráter absoluto. a possuir. a flora. a fauna. detalhada e complexa. nas mãos da mesma pessoa (física ou jurídica) ou de um grupo de pessoas (co-propriedade). de conformidade com o estabelecido em lei especial. por necessidade ou utilidade pública ou interesse social. § 4º O proprietário também pode ser privado da coisa se o imóvel reivindicado consistir em extensa área. o direito e as instituições da Grécia e de Roma ± A cidade antiga ±. obras e serviços considerados pelo juiz de interesse social e econômico relevante. valerá a sentença como título para o registro do imóvel em nome dos possuidores. § 5º No caso do parágrafo antecedente. ou utilidade. Se um desses elementos falta. visto que se trata de disciplina extremamente técnica. Entretanto. Diz-se hoje que a propriedade deve cumprir sua função social. em caso de perigo público iminente. LEGISLAÇÃO (CÓDIGO CIVIL) Conceito legal de propriedade Art. XXIV . deve também contribuir para a construção de um Estado de direito mais justo e democrático. o juiz fixará a justa indenização devida ao proprietário. em conjunto ou separadamente. as belezas naturais. aprofundados e sólidos conhecimentos jurídicos. bem como no de requisição. e estas nela houverem realizado. nos casos de desapropriação. o gozo e o poder de disposição da coisa. a usar. Ter a propriedade de um bem significa deter o seu domínio jurídico (dominium).Existem vários direitos reais em nosso ordenamento jurídico. o estudo detalhado de tal matéria cabe aos civilistas. bem como evitada a poluição do ar e das águas. pelo direito. estar autorizado. o equilíbrio ecológico e o patrimônio histórico e artístico.a lei estabelecerá o procedimento para desapropriação por necessidade ou utilidade pública. sagrado e inquestionável.

que não o proprietário. Contudo. As coisas que interessam ao direito são chamadas de bens. Instituições de direito público e privado. é a possibilidade. nas mãos de outras pessoas. Assim.Pois bem. ³propriedade´ é um conceito jurídico.368. 232). que a propriedade é um direito exercível erga omnes. identificando-se com o domínio direto. isto é. É que a propriedade é o direito que a pessoa tem de possuir. Por isso os juristas dizem. as principais classes de bens são as seguintes: . por doação. desmembrando-se para constituir direito real de outra pessoa. embora aquela seja um dos elementos desta. Todas as outras pessoas. A posse é. ed. ou seja. o proprietário é também o possuidor de um determinado bem. com exceção do proprietário do bem. Se vejo um indivíduo dirigindo um automóvel. objeto do direito. gozo e/ou disposição. aos proprietários ± a capacidade de reaver seus bens. que inclusive contará com proteção legal. se alugar seu apartamento para uma outra pessoa. a exteriorização do domínio. por meio de herança etc. gozar e dispor de um dado bem. 1979. que pode ser exercido contra todos. sobre certo bem. Podendo ser adquirido de várias formas ± mediante compra e venda. 4. 1. diz-se plena propriedade. usar. uma vez que. venham a embaraçar ou a impedir o legítimo exercício do direito de propriedade. ninguém mais pode utilizá-lo. não podendo. o possuidor direto será o locatário. em seu linguajar técnico. imediatamente. o exercício de fato. A propriedade também dá aos seus titulares ± ou seja. uma vez que detém o domínio imediato do bem. o elemento da propriedade que se torna visível. ³A esta altura. portanto. gozar e dispor da coisa. criador da Teoria Objetiva adotada pelo direito brasileiro. A posse é. usar. de exercer o domínio. sua posse. posso sustentar que se trata de seu possuidor. A propriedade. se é seu proprietário ou não. o aspecto exterior da propriedade. p. Todavia. não posso dizer. Se todos esses elementos estão reunidos. 1. tudo aquilo que não é pessoa ± natural ou jurídica ± é coisa. Segundo o Código Civil. Propriedade é o poder conferido pelo direito a uma pessoa (física ou jurídica) ou a um grupo de pessoas (co-propriedade) de possuir. a posse é um dos elementos da propriedade. ±. garantida pelo ordenamento jurídico. se um desses elementos deixa de estar presente. Tratamento jurídico da propriedade: arts. podemos notar que existe uma distinção entre posse e propriedade. Já a definição de posse se refere muito mais a um fato do que a um direito. por seu turno. atual e efetivo de alguns dos poderes inerentes à propriedade: Uso.196 a 1. revista e aumentada. o direito de propriedade que uma pessoa tem faz dela o proprietário exclusivo de dado bem. O ordenamento jurídico confere direitos tanto para o proprietário quanto para o possuidor2. Daí por que Ihering. por exemplo. de alguma forma. com exclusão das demais pessoas existentes no mundo (efeito erga omnes). São Paulo: Nelpa.224. ou seja. a propriedade diz-se limitada. abstendo-se de praticar atos que. Resumo No mundo jurídico. indevidamente. pois. visível e concreto do bem. o estado de fato que exterioriza a propriedade.228 a 1. é claro que você continuará a ser o proprietário. ser expulso do imóvel pelo proprietário. existem situações nas quais tais direitos se dissociam. com exclusividade. conceituou-a como a exteriorização da propriedade´ (Nelson Godoy Bassil Dower. 2 LEGISLAÇÃO (CÓDIGO CIVIL) Tratamento jurídico da posse: arts. estão juridicamente obrigadas a respeitar a propriedade do primeiro. Normalmente. caso estes estejam. Na realidade. Contudo.

Distinga. usar. isto é. a idéia de direitos reais. Os dois direitos reais mais importantes são a propriedade e a posse. A propriedade também dá aos seus titulares a capacidade de reaver seus bens. a matéria recebe tratamento detalhado. Como ensinam os romanos1. podem exigir o cumprimento da obrigação jurídica). ‡ Bens fungíveis e infungíveis. fazer ou não fazer algo para outra ou outras pessoas (são os credores. quais sejam: As noções de pessoa física e jurídica. Assim sendo. na verdade. com exclusão das demais pessoas (efeito erga omnes).Direito Civil IV ± Direito Obrigacional. ‡ Bens públicos e privados. ‡ Bens singulares e coletivos. tendo um direito subjetivo. Direito de Família e Direito de Sucessões Introdução Nas Aulas 9 e 10. Aula 11. para finalizar esta parte do nosso curso relacionada ao Direito Civil. Direitos reais são aqueles que estabelecem e regulam os direitos que as pessoas possuem em relação às coisas. fundamentadamente. buscaremos compreender as estruturas fundamentais que integram o direito obrigacional. ‡ Bens consumíveis e inconsumíveis. se comprei um livro seu. tendo lugar quando alguém está obrigado a prestar um serviço qualquer a . de três modalidades: obrigação de dar (dare). No Código atual. a diferenciação de personalidade jurídica e de capacidade jurídica. Inicialmente. isto é. na presente aula. nas mãos de outras pessoas. caso estejam. a noção de posse do conceito de propriedade. Já a posse é a exteriorização do domínio. ou seja. O que são ³direitos reais´? 4. Propriedade é o poder conferido pelo direito a uma pessoa (física ou jurídica) ou a um grupo de pessoas (co-propriedade) de possuir. constitui a visibilidade imediata da propriedade. Atividades 1. você tem a obrigação de entregá-lo a mim. aqueles que estão constrangidos por uma obrigação jurídica) devem dar. Assim. propriedade e posse. podemos definir obrigação como um vínculo jurídico mediante o qual uma ou mais pessoas (são os devedores. extenso e sistemático nos artigos 233 a 965. Já a obrigação de fazer relaciona-se a uma tarefa. aqueles que. estudamos alguns dos temas centrais relativos ao Direito Civil. a definição e a classificação dos bens. ou seja. ‡ Bens divisíveis e indivisíveis. o exercício de fato de alguns dos poderes inerentes à propriedade.‡ Bens móveis e imóveis. Contudo. ‡ Bens principais e acessórios. Direito obrigacional A análise das obrigações compõe uma importante e extensa parcela do Direito Civil. do aspecto exterior da propriedade. é preciso examinar alguns conceitos fundamentais relativos a outras partes da ciência juscivilística. gozar e dispor de um dado bem. basicamente. Trata-se. A obrigação de dar corresponde a um ato de entrega. o direito de família e o direito das sucessões. obrigação de fazer (facere) e obrigação de não fazer (non facere). ilegitimamente. 3. as obrigações são. Indique o sentido das classificações jurídicas dos bens estudadas nesta aula. O que significa a palavra ³bem´ para o direito? 2.

resguardar. ³A substância das obrigações não consiste nisto. 7. Existem obrigações que se impõem independentemente ou. que consiste na exigência de que um ou mais indivíduos se mantenham inertes. ³amarra´ etc. Exemplificando: Quando se formaliza um contrato de compra e venda. os atos ilícitos e as leis configuram duas importantes fontes ± ambas involuntárias ± das obrigações. transferir. fazer e não fazer Diz-se que há uma obrigação entre duas ou mais pessoas quando elas se encontram atadas por um vínculo jurídico. ligatio. Assim sendo. o vendedor compromete-se a entregar a coisa vendida. tal como quando bate no automóvel de outra pessoa. Uma pessoa somente está obrigada perante outra quando com ela mantém algum tipo de vínculo. que contraria o direito ±. às vezes. é de não fazer. Por fim. já era perfeitamente conhecido e estruturado pelos juristas romanos. pode ver surgir para si uma obrigação. se você pratica um ato ilícito ± ou seja. isto é. Dessa maneira. 2. conservar ou extinguir direitos. de não construir muros. tendo o direito subjetivo de exigir o preço do bem. posso contratar um artista para que pinte o meu retrato.outrem. Exemplo: Dois vizinhos celebram um contrato mediante o qual não podem construir muros entre as suas propriedades. MODALIDADES DE OBRIGAÇÕES JURÍDICAS: Dar. fundamental para o direito contemporâneo. cumpri-las. acordo de vontades entre as partes. ou seja. que se obrigam a cumprir o que foi entre elas combinado sob determinadas condições. solvere). com o fim de adquirir. Entretanto. 3. duas ou mais pessoas que mantêm entre si uma obrigação ficam ³amarradas´ ± isto é. Já o comprador tem o dever jurídico de pagar e o direito subjetivo de exigir a entrega da coisa. instrumentos jurídicos mediante os quais duas ou mais pessoas criam direitos e deveres entre si voluntariamente. que pode ser instaurado de diversas formas: Voluntariamente (com a participação da vontade dos sujeitos) ou involuntariamente (sem a participação da vontade dos sujeitos). CURIOSIDADE: A própria palavra ³obrigação´ denota o sentido de vínculo existente entre duas ou mais pessoas. 13). Institutas. Principais acepções da palavra ³contrato´ no Dicionário Houaiss da língua portuguesa: 1. juridicamente ligadas ± até que a obrigação seja cumprida ou solvida (em latim. que torne nosso algum corpo ou nossa alguma obrigação. 1 O conceito de obrigação. neste caso. Digesto. A forma mais comum de se criar vínculos jurídicos de modo voluntário é a celebração de contratos. modificar. documento que ratifica esse acordo. como o provam duas clássicas definições encontráveis em textos de época: ³Obrigação é vínculo de direito por imposição do qual somos obrigados a pagar uma coisa a alguém de acordo com o direito de nossa sociedade´ (Florentino. 3. A obrigação do artista se consubstanciará na feitura da obra. pacto entre duas ou mais pessoas. significa ³laço´. de maneira voluntária. 44. uma vez que descende do termo latino obligatio. Assim. o contrato é definido pelos juristas de forma bem simples como um acordo ou encontro de vontades. Por exemplo. Ora. as obrigações não surgem unicamente quando as pessoas as criam de comum acordo. Com efeito. fazer ou prestar´ (Paulo. a saber. existe a chamada obrigação de não fazer. mas que constranja outrem para conosco a dar. 3). Do simples ato de bater em um carro alheio surge a obrigação de indenizar . em latim. A obrigação. até mesmo contra a vontade das pessoas que as devem satisfazer.

como vimos no início deste capítulo. Devedor: Possui direito subjetivo. ato ilícito. que se vêem dotados de direitos subjetivos e de deveres jurídicos graças às normas jurídicas legisladas. por força de algum vínculo jurídico. Esta obrigação é posta por lei. Agora. . já podemos afirmar que tais realidades se originam das obrigações. ou seja. Credor: Possui dever jurídico. conceitos que conformam a noção de bilateralidade jurídica. A lei é possivelmente a mais fecunda fonte de obrigações para os indivíduos. Assim. podendo ser uma só pessoa ou um grupo de pessoas. as obrigações sempre dão lugar a um direito subjetivo e a um dever jurídico. a cumprir certa obrigação. ainda que você não queira ou não concorde em fazê-lo. que. Do mesmo modo. como vimos. Na Aula 5. Objeto: Dar. além de caracterizar-lhes os devedores e os credores. É preciso que todos estejam presentes em uma dada relação intersubjetiva para que possamos falar em obrigações jurídicas. a obrigação de pagar imposto de renda não nasce de um hipotético contrato que mantemos com o Estado nem de atos contrários ao direito. Tecnicamente. Sem eles. São eles: ‡ Vínculo jurídico (vinculum iuris). assim como o devedor. a lei cria obrigações para as pessoas ± físicas e jurídicas ± independentemente de suas vontades. Como você percebeu nos exemplos dados. a efetivação de algum ato (facere) ou mesmo uma omissão (non facere). em cada um deles. aquele que está obrigado. Podemos resumir tudo que dissemos até aqui apresentando os elementos das obrigações. O credor é o titular do direito subjetivo. ‡ Credor (creditor). PRINCIPAIS FONTES DAS OBRIGAÇÕES JURÍDICAS Voluntárias: Contratos. o devedor se liga ao credor por uma obrigação jurídica. Do mesmo modo. ‡ Objeto (debitum). que corresponde à modalidade de obrigação assumida pelo devedor diante do credor.aquele que sofreu prejuízos. a espécie de vínculo. fazer ou não fazer. os pais têm a obrigação legal de alimentar os filhos. Involuntárias: Atos ilícitos e leis. ELEMENTOS DAS OBRIGAÇÕES Vínculo jurídico: Contrato. O objeto das obrigações pode ser a entrega de algo (dare). lei etc. pode ser instaurado tanto voluntariamente (exemplo: Mediante um contrato) quanto involuntariamente (exemplos: Por imposição legal ou pela prática de um ato ilícito). aquele que está autorizado pelo direito a exigir do devedor a satisfação de dada obrigação. ‡ Devedor (debitor). isto é. Atividade Apresente exemplos de obrigações de dar. as obrigações não se formam. de fazer e de não fazer. ser apenas uma pessoa ou um grupo de pessoas. examinamos as noções de direito subjetivo e de dever jurídico. indicando. Tal não decorre de um contrato entre pais e filhos e muito menos de um ato ilícito: Deriva da lei. podendo. na maioria dos casos.

511 a 1. mas sim uma expressão de afeto. chefiada por um sacerdote ± o pai ±. Hoje a família apresenta-se sob outra feição. em suas normas. e. A estrutura da família primitiva ± isto é. entre os diversos componentes da instituição jurídica conhecida por ³família´. Daí a necessidade de grupos sociais organizados. por isso mesmo. No Código atual. então. de um dos mais interessantes e polêmicos temas do Direito Civil. que dirigia o culto aos deuses e. já que poderia. Segundo alguns estudos de antropologia moderna. felicidade. detinha um poder absoluto sobre os demais membros da família. a mais duradoura e a mais universal forma de se organizar a vida grupal. uma vez que. tendo em vista a manutenção da riqueza de suas respectivas famílias de origem. segundo Aristóteles. afeição e fidelidade não tinham qualquer sentido prático. a família é a primeira. por ser o mais forte. O elemento econômico. criar outro ser humano. Com a liberação sexual da década de 1960. os homens necessitam viver em grupo. e até o início do século XX. o direito de família acaba refletindo. ainda é importante. pelo inciso I do artigo 5º da Constituição Federal de 1988 ±. a mulher perdeu sua condição superior e o homem. a união entre duas pessoas não é mais um negócio. sem dúvida. um bom ou um mau negócio. passou a liderar o grupo. compreendida a mecânica das relações que dão origem aos seres humanos. A família. Casar poderia ser. Como bem demonstrou Fustel de Coulanges em seu clássico estudo A cidade antiga. A noção de família sofreu várias transformações com o decorrer do tempo. de modo que as normas aplicáveis a pais. de forma geral. Os casamentos eram feitos por conveniência. Nos dias atuais. à igualação jurídica entre ambos os sexos garantida pelos ordenamentos jurídicos desenvolvidos ± no nosso caso. principalmente. crenças ou simplesmente na força física. princípios e teorias. que nascia de suas entranhas.Direito de família O direito de família é a parte do Direito Civil que mais vem se modificando com o tempo. a família estruturava-se como organização religiosa. é uma forma de organização social. Uma das explicações para esse curioso fato seria que nos tempos pré-históricos a mulher era vista como uma espécie de ser divino. nunca o resultado de sentimentos pessoais e de inclinações afetivas. que há muito tendo perdido o caráter sacro. assim como o Estado. Todavia. à conquista do mercado de trabalho pela mulher e. vemos surgir uma verdadeira revolução no campo do direito de família. Idéias como as de amor.783. sem dúvida. pois o casamento era um contrato no qual as partes ± marido e mulher ± assumiam obrigações mútuas. filhos e cônjuges (marido e mulher) modificaram-se enormemente. Pois bem. Posteriormente. Com efeito. agora se vê também despido de sua função econômica. Nas sociedades da Índia. as grandes mudanças pelas quais a sociedade e a mentalidade humana vêm passando. A partir da Idade Média. conforme rezam algumas normas arcaicas do Direito Romano. As principais inovações foram as seguintes: ‡ Redefinição do casamento. da Grécia e de Roma. podendo inclusive matar seus filhos. nas primeiras civilizações humanas a família era muito mais uma instituição religiosa do que um grupo de pessoas que estavam juntas pelo afeto. mas os fatores que levam as pessoas a contraírem matrimônio ± seja ele civil (oficial) ou religioso ± são preponderantemente de outras . Por tratar das relações jurídicas entre pais e filhos. a vida em comunidade deve ser regrada e conduzida por uma autoridade. as normas relativas ao direito de família encontram-se dispostas nos artigos 1. a família passou a ser interpretada por meio de um viés econômico e patrimonialista. é provável que o matriarcado ± domínio da família pela mãe ± tenha antecedido o patriarcado (domínio do pai). sozinha. aliada à popularização dos anticoncepcionais. são animais políticos. Trata-se. maridos e mulheres. pré-histórica ± era extremamente simples: Havia sempre um indivíduo que comandava os demais membros do grupo e cujo poder se baseava em mitos. de maneira que as linhagens perpetuassem suas fortunas.

de escárnio e até mesmo de violência.724. assistimos ao fim do pátrio poder. As relações pessoais entre os companheiros obedecerão aos deveres de lealdade.. contínua e duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família. O fato é que. LEGISLAÇÃO (CÓDIGO CIVIL) Art. Atividade Das inovações ocorridas no direito de família brasileiro.631. [. é notável a mudança de perspectiva ocorrida em tal seara. Art. Hoje o casamento deixa de ser um contrato com conteúdo exclusivamente econômico para dar lugar a uma união de afeto. compete o poder familiar aos pais. configurada na convivência pública. 1. com base na igualdade de direitos e deveres dos cônjuges. e de guarda. ‡ O reconhecimento e a proteção jurídica dispensada às uniões estáveis constituem outra grande novidade do atual direito de família brasileiro. ademais. respeito e assistência. as relações afetivas entre pessoas do mesmo sexo já começam a ser entendidas como situações perfeitamente normais. sustento e educação dos filhos. evolução que aponta para o efetivo reconhecimento jurídico de tais uniões em um futuro próximo. enquanto menores. que. Hoje o nosso Direito Civil reconhece como perfeitamente legítimas e jurídicas as uniões informais de duas pessoas que. resta frisar que.630.] Art. É reconhecida como entidade familiar a união estável entre o homem e a mulher. Divergindo os pais quanto ao exercício do poder familiar. Tendo em vista que a Constituição não permite qualquer discriminação. LEGISLAÇÃO (CÓDIGO CIVIL) Art. hoje os homossexuais são vistos por uma óptica mais objetiva e menos preconceituosa. Antes objeto de repúdio. o outro o exercerá com exclusividade. exercido em conjunto e de comum acordo por pais e mães. 1. que. atualmente.511. na falta ou impedimento de um deles.. Durante o casamento e a união estável. é muito similar à do casamento.723. ‡ Por fim. 1. graças às enormes transformações ocorridas na sociedade brasileira nas últimas três décadas. e não unicamente a sua dominação.espécies. A lei civil prevê direitos e deveres para aqueles que se encontram em tal situação. razão pela qual os cônjuges possuem os mesmos direitos e deveres. . as uniões homossexuais gozam de um respeito e de uma aceitabilidade social que antes eram impensáveis. 1. mesmo sem celebrar casamento civil ou religioso. antiga expressão utilizada pelo Código Civil anterior e que designava o poder quase absoluto do pai sobre os filhos. apesar de as uniões homossexuais ainda não serem aceitas pelo Direito Civil brasileiro. instituição jurídica à qual a união estável se compara de maneira analógica. ‡ Graças à nova caracterização do casamento. O casamento estabelece comunhão plena de vida. tendo o homem perdido sua antiga posição de superioridade. o que se verifica nas famílias contemporâneas é o poder familiar. tem por objetivo a proteção dos interesses dos filhos. Visto que nossa Constituição garantiu a igualação jurídica entre homens e mulheres. é assegurado a qualquer deles recorrer ao juiz para solução do desacordo. Parágrafo único. 1. qual delas lhe parece a mais importante? Fundamente a sua resposta. visto que as tarefas do casamento se dividem igualitariamente entre marido e mulher. LEGISLAÇÃO (CÓDIGO CIVIL) Art. mantêm convivência comum com perspectivas de continuidade. Os filhos estão sujeitos ao poder familiar.

A outra metade. Contudo. Antes de todos. uma vez que. o Estado recebe o patrimônio do de cujus. Em tais casos verifica-se a sucessão testamentária (artigos 1. só receberia os bens de João se este não tivesse filhos. receber uma parcela do patrimônio do de cujus. Assim sendo. em testamento e para qualquer pessoa. antes mesmo dos descendentes.965 do Código Civil) ou excluídos da sucessão (artigos 1. legalmente. e sua mãe ainda está viva. Se ele não os tiver. conforme explicitado na nota nº 2). avós etc. A parte do Direito Civil que regula tal tema é o direito das sucessões. os bens serão divididos igualmente entre os dois filhos. os colaterais (irmãos. existindo herdeiros necessários (descendentes e ascendentes sucessíveis). voluntariamente e de forma expressa. uma vez que tais bens são considerados pelo direito como pertencentes ao casal. o cônjuge (marido ou mulher).961 a 1. os bens que transmite aos seus herdeiros correspondem apenas à parcela daqueles que formam o patrimônio do casal.784 a 2. primos etc. parente do falecido. contemplando sempre exceções e especificidades. necessariamente. A mãe de João nada receberá. Ela. dispõe que sucederão ao de cujus ± ou seja. necessariamente. o cônjuge apenas receberá bens do de cujus se ele não tiver ascendentes vivos2. sucessivamente e na seguinte ordem: Os ascendentes (pais. Assim. A outra parcela pertence ao cônjuge sobrevivente ± chamado pelo Direito Civil de ³meeiro´ ±. que.) e. o testador pode legar. Os ascendentes somente serão chamados se não houver descendentes. A sucessão legítima é a regra. Após separada a parcela que cabe à sua esposa (metade do patrimônio. quando faz o testamento indicando quem irá receber seus bens. Exemplo de sucessão legítima: João.Direito das sucessões Quando alguém morre. Desse modo. que herdará os bens daquele que não tem herdeiros sucessíveis. primeiramente são convocados os descendentes. são chamados a herdar. normalmente deixa bens que devem ser repartidos entre outras pessoas. herdam os descendentes (filhos. estando normatizada nos artigos 1. respeitada a chamada ordem de vocação sucessória. chamada de ³legítima´ pelo Direito Civil. aos seus ascendentes e descendentes. São os herdeiros necessários que receberão a ³legítima´ por meio da sucessão legítima. apenas metade dos seus bens. é aquela posta por lei. estes devem. que receberá a outra parcela somente se não existirem descendentes e ascendentes sucessíveis. na falta total de parentes. na qual o indivíduo. por fim. como dissemos. a metade do patrimônio do de cujus. e assim por diante. Nessa modalidade o herdeiro não precisa ser. A vontade . uma vez que ele deixou descendentes. chamadas de sucessores ou herdeiros. se existentes. Contudo.818 do Código Civil). se um cônjuge falece. não pode dispor da totalidade do patrimônio. as pessoas têm o direito de dispor de parte de seu patrimônio por meio de testamentos. Imensamente complexo e detalhado. casado e pai de dois filhos.) do falecido.857 a 1. 2 Isso porque o cônjuge (marido ou mulher) já recebe. o testador. falece. Pode-se definir sucessão como a forma de se transmitir o patrimônio de uma pessoa falecida a seus sucessores. indica quem deve receber seus bens.990 do Código Civil). ao morto ± os seus parentes e o Estado. que é ascendente. A sucessão legítima. até que se chegue ao Estado.027 do Código Civil. Existem duas espécies básicas de sucessão: A legítima e a testamentária. a não ser que tenham sido deserdados (nos casos previstos nos artigos 1. Da mesma forma.814 a 1. razão pela qual nos limitaremos a indicar apenas alguns de seus conceitos basilares.). netos etc. o direito das sucessões é composto por uma infinidade de regras e de princípios. definida por lei ± artigos 1829 a 1844 do Código Civil ±. pertence.

percebe-se uma mudança de perspectiva positiva no que se refere à apreciação das uniões entre homossexuais. visto que a noção de família é diferente nos vários períodos históricos pelos quais passou a humanidade. Resumo Obrigações ± objeto de estudo do direito obrigacional ± são vínculos jurídicos mediante os quais uma ou mais pessoas (devedores) devem dar. em testamento. Indique as principais inovações do atual direito de família brasileiro. Defina e distinga a sucessão legítima e a sucessão testamentária. fazer ou não fazer algo em relação a outra ou outras pessoas (credores). importante ramo do Direito Privado. as principais inovações no direito de família são as seguintes: Redefinição do casamento. Atividades 1. Atualmente. Neste caso. Além disso. falece e deixa todos os seus bens. mediante testamento. estudamos os conceitos e estruturas basilares do Direito Civil. credor e objeto. Aula 12. devendo ser dividida igualmente entre ambos. Existem duas espécies básicas de sucessão: A legítima. que é a regra e se dá de acordo com a lei. examinamos temas relativos ao Direito Constitucional. mediante um contrato) ou involuntária (por exemplo. como vimos. por imposição legal ou como conseqüência do cometimento de um ilícito). segundo a lei. e a testamentária. Já o direito das sucessões regula a forma de se transmitir o patrimônio de uma pessoa falecida (de cujus) aos seus herdeiros. Nesta e na próxima aula. que. casado e pai de dois filhos que não foram deserdados e nem excluídos da sucessão. devedor. base de todo o Direito Público. por isso ele está autorizado a legar.Direito Administrativo I ± Atos Administrativos Introdução Nas aulas 9 a 11. pertence aos filhos. 4. Exemplo de sucessão testamentária: João. . Descreva os elementos das obrigações. o patrimônio de João será separado em duas partes. O direito de família ± parte do Direito Civil que regula as relações entre os membros das comunidade familiares ± vem evoluindo através dos tempos. herdeiro testamentário de João. excepcional e definida de acordo com as disposições contidas no testamento deixado pelo morto. O que é obrigação para o Direito? 2.do testador não está acima da lei. voltaremos a nos centralizar na seara do Direito Público. Tais vínculos jurídicos podem surgir de maneira voluntária (por exemplo. Os principais elementos das obrigações são vínculo jurídico. A segunda parte será entregue a Pedro. apenas metade do seu patrimônio. Pedro. para o melhor amigo. A primeira é a legítima. após retirada a parcela que cabe à esposa (meeira). ao discutirmos tópicos do Direito Administrativo. substituição do pátrio poder pelo poder familiar e reconhecimento jurídico das uniões estáveis. Quais são as modalidades de obrigação existentes no Direito Civil brasileiro? 3. Antes. regula as relações entre Estados ou entre o Estado e as pessoas. 5. que. nas Aulas 6 a 8.

´1 O Estado. Assim. recebem o nome de Administração Pública. a expressão ³Administração Pública´ tomada em seu sentido objetivo designa a própria atividade administrativa. as normas jurídico-positivas ± regras e princípios ±. devo levar tal pendência ao Judiciário. isolada a função legislativa nada significa: Não basta fazer a lei. se ocupa com o estudo da função administrativa (ou executiva). o impasse seja solucionado. são os membros do Poder Judiciário. portanto. que prevêem. mediante a qual se executa a lei de forma rotineira. há duas formas de aplicar as leis: De maneira contenciosa ou de ofício. a atividade de aplicação rotineira. os funcionários públicos exercem funções administrativas. como mecanismo responsável pela organização e ordenação da sociedade. que. estadual ou municipal. para que. Por outro lado. é preciso aplicá-la. visando ao bem comum. estruturas e agentes diversos. Seu objeto são. pode-se dizer que a Administração Pública é realizada. portanto. concreta e imediata da lei. majoritariamente. que aplicam as leis para resolver conflitos de interesses. pode-se dizer que um funcionário do INSS e o próprio INSS. As normas jurídico-legais são aplicadas de ofício ± ou seja. Contudo. de forma geral. os agentes e as atividades públicas tendentes a realizar concreta. CONCEITO DE DIREITO ADMINISTRATIVO ³Conjunto harmônico de princípios jurídicos que regem os órgãos. A atividade típica da Administração Pública corresponde à função executiva ou administrativa. é a gestão de bens e interesses qualificados da comunidade no âmbito federal. Dessa maneira. a maioria das situações de aplicação da lei não envolvem conflitos. sem que haja um conflito de interesse entre particulares a ser resolvido pelo Poder Judiciário. dentre as quais se sobressai a criação de leis. visto que todas as suas ações estão reguladas por leis. exerce várias funções. A função administrativa é realizada pelo Estado mediante órgãos. No Direito Público ± do qual o Direito Administrativo é um dos ramos ± a . ramo do Direito Público. isto é. 2 ³Administração pública. se tenho um problema com o meu vizinho. às quais eles simplesmente dão cumprimento. regulam e limitam o exercício de tal atividade. Assim. pelos órgãos e agentes pertencentes à estrutura do Poder Executivo. CONTENCIOSA (FUNÇÃO JURISDICIONAL) DE OFÍCIO (FUNÇÃO EXECUTIVA OU ADMINISTRATIVA) APLICAÇÃO DA LEI: Cabe àqueles que exercem a função jurisdicional concretizar as leis de maneira contenciosa. direta e imediatamente os fins desejados pelo Estado. O sentido subjetivo é utilizado quando queremos nos referir às pessoas físicas ou jurídicas que exercem a função administrativa. A expressão ³Administração Pública´ tem um sentido subjetivo e outro objetivo2. Todavia. segundo os preceitos do Direito e da Moral. ao cumprir as suas tarefas. como pessoa jurídica. rotineira e cotidianamente ± pelos diversos órgãos.Definição e objeto do Direito Administrativo O Direito Administrativo. estruturas e agentes do Estado que conformam a Administração Pública. aplicando a lei. Pois bem. fazem parte da Administração Pública Federal. Assim.

Tais funcionários públicos não criam as leis nem julgam conflitos de interesses de acordo com elas. as funções administrativas são efetivamente realizadas pelo Poder Executivo.´3 A função administrativa é. de bem-estar individual dos cidadãos e de progresso social´ (Idem. compreende pessoas jurídicas. mas tal não significa que apenas ele exerça este tipo de função. uma vez que cumprem a lei rotineiramente. o que nos parece inadmissível. nesse sentido. Eles unicamente as cumprem. ela designa a natureza da atividade exercida pelos referidos entes. algumas delas altamente especializadas. deputados. representação do Estado no exterior. com exceção da produção legislativa (função legislativa) e da resolução de conflitos de interesses por membros do Poder Judiciário (função jurisdicional). o Direito Administrativo constitui ³[. b) em sentido objetivo. uma vez que envolve grande número de atividades. objeto de estudo do Direito Administrativo. .] o ramo do direito público que tem por objeto os órgãos. CONCEITO JURÍDICO DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA ³Basicamente. a mais diversificada e complexa das funções estatais. controle da economia. aplicação da norma penal (mediante a criação e a manutenção de sistemas carcerários). a administração pública é a própria função administrativa que incumbe predominantemente ao Poder Executivo. A função administrativa consiste. exercendo suas atividades conforme as prescrições legais. São exemplos de tarefas realizadas pela Administração Pública: Defesa interna (polícias civil e militar) e externa (forças armadas) da população e do Estado. formal ou orgânico. cumprimento das decisões do Poder Judiciário etc. Atividade Conceitue e diferencie as expressões ³função executiva´ (ou administrativa) e ³Poder Executivo´. órgãos e agentes públicos incumbidos de exercer uma das funções em que se triparte a atividade estatal: a função administrativa. na aplicação concreta das normas oriundas do Poder Legislativo por meio de atos administrativos. saúde. ± exercem que tipo função? A administrativa. agentes e pessoas jurídicas administrativas que integram a Administração Pública. oferecimento de serviços públicos de educação. Pode-se dizer que o conceito de função administrativa é obtido por exclusão: Toda atividade estatal. material ou funcional. Assim sendo. Pense bem: Os funcionários do Poder Judiciário e do Poder Legislativo ± e não os seus membros. de natureza pública´4. constitui função administrativa (ou executiva). Como bem acentua Alessi. senadores etc.locução Administração Pública tanto designa pessoas e órgãos governamentais como a atividade administrativa em si mesma. ATENÇÃO: Muitos autores confundem o conceito de função administrativa (ou executiva) com o de Poder Executivo. previdência e assistência social aos cidadãos. vereadores. em sua maioria. são dois os sentidos em que se utiliza mais comumente a expressão administração pública: a) em sentido subjetivo.. Assim sendo.. Sem dúvida. ela designa os entes que exercem a atividade administrativa. como juízes. subjetivamente a Administração Pública é o conjunto de órgãos e serviços do Estado e objetivamente é a expressão do Estado agindo in concreto para satisfação de seus fins de conservação. tributação. desembargadores. em síntese. pode-se falar de administração pública aludindo aos instrumentos de governo como à gestão dos interesses da coletividade. a atividade jurídica não contenciosa que exerce e os bens que se utiliza para a consecução de seus fins. p. sem dúvida. 79).

que são membros do Poder Judiciário hierarquicamente superiores aos juízes). direta e imediata. na presente aula. entre os quais se destacam as sentenças (decisões finais proferidas por um juiz) e os acórdãos (decisões finais de um grupo de desembargadores ou de ministros. empregos e funções públicas são acessíveis aos brasileiros que preencham os requisitos estabelecidos em lei. realizar um interesse público. uma vez que o exercício de cargos e empregos públicos depende.a investidura em cargo ou emprego público depende de aprovação prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos.Atos administrativos Realização da função administrativa e interesse público A função legislativa compreende a proposição. concreta e imediatamente. Já a função jurisdicional se efetiva mediante os diversos atos judiciais. publicidade e eficiência e. . está autorizado. deve-se privilegiar o primeiro. prática vedada pelo nosso ordenamento jurídico. a discussão e a aprovação de normas jurídico-legais. abordá-lo em profundidade. A Constituição Federal prevê o concurso público como o principal meio de acesso ao serviço público. de modo que não nos cabe. a autoridade administrativa nada mais está fazendo do que cumprir a lei. pois do contrário o ato de desapropriação equivaleria a um confisco. moralidade. salvo algumas exceções legais. a desapropriá-la. ou seja. aplicando-a de forma rotineira. ou seja. na forma da lei. II . ou seja. ressalvadas as nomeações para cargo em comissão declarado em lei de livre nomeação e exoneração. Entretanto. É claro que o aplicador do direito deve buscar harmonizar ambas as esferas. O tema dos atos administrativos é um dos mais polêmicos e detalhados do Direito Administrativo. de acordo com a natureza e a complexidade do cargo ou emprego. a criação de leis. Se em certa situação o interesse público se opõe ao interesse privado. se tal não for possível. relacionando-se ao bem comum. emanados das autoridades administrativas responsáveis. na forma prevista em lei. é importante saber que todo ato administrativo deve. pelo direito. dos Estados. ao bem de toda a sociedade. também. ao seguinte: I . O interesse público transcende o âmbito privado e individualista das pessoas isoladamente consideradas.os cargos. Eis as duas principais características do interesse público: supremacia em relação ao interesse privado e indisponibilidade. de efetiva aprovação em concurso público. 37. LEGISLAÇÃO CONSTITUCIONAL Art. do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade. Exemplo: Se o Estado necessita construir um hospital em determinada área pertencente a particulares. impessoalidade. declarações ou ações do Estado tendentes a concretizar a lei. o interesse público sobrepujará o privado. de forma inescapável. Por exemplo: As pessoas aprovadas em concursos públicos devem ser investidas nos cargos públicos aos quais concorreram mediante atos administrativos de nomeação. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União. Por seu turno. Com a nomeação do candidato aprovado. Diz-se que o interesse público se impõe diante do interesse privado porque as necessidades da sociedade vêm antes das do indivíduo. Contudo. assim como aos estrangeiros. devendo indenizá-los previamente. a função administrativa realiza-se por meio de atos administrativos.

tratar-se-á de ato absolutamente nulo. ou por interesse social. deve-se levar em conta a extensão real e o significado desse interesse. a lei regula. impondo-se em relação a ele apenas em situações nas quais seja impossível a harmonização. Ademais. Identificar o interesse público com o interesse do Estado ou dos líderes políticos constitui postura extremamente perigosa. segundo a teoria da tripartição das funções do poder. respeitar o interesse público é um dever jurídico. Do contrário. mediante justa e prévia indenização em dinheiro. O interesse público expressa a vontade geral do povo. uma vez que prevê. realidades nas quais o indivíduo encontrava-se completamente submetido à autoridade estatal. Quando se trata. Por fim. Vinculação e discricionariedade Existem várias maneiras de classificar os atos administrativos. Não se trata de um bem do qual a Administração Pública possa abrir mão. . deve se orientar rumo a uma finalidade pública. Um bom exemplo de ato administrativo vinculado é o da aposentadoria compulsória: Ao completar 70 anos. Para ela. a que nos importa no presente tópico é aquela que os separa em atos administrativos vinculados e atos administrativos discricionários. Como o interesse público não pertence à Administração Pública. pois pode trazer como conseqüência a instauração de um Estado autoritário ou mesmo totalitário.LEGISLAÇÃO CONSTITUCIONAL Inciso XXIV do artigo 5º: A lei estabelecerá o procedimento para desapropriação por necessidade ou utilidade pública. portanto. o que significa que qualquer ato administrativo. ancorada em pressupostos éticos e jurídicos e que objetiva a melhoria geral das condições de convivência social. que não é sinônimo de interesse do Estado ou dos governantes. sempre e em quaisquer circunstâncias. como a Alemanha nazista e a União Soviética stalinista. ao verificar que um certo servidor completou 70 anos. mas sim ao povo. Dessa forma. por mais simples que seja. o interesse público é indisponível para a Administração Pública porque esta não pode escolher entre realizá-lo ou deixar de fazê-lo. Todavia. cabe controlar a legalidade dos atos praticados pela Administração Pública. o servidor público deve se aposentar. os modos de realização da função administrativa. o interesse público. Atividade Explique o significado da supremacia do interesse público em relação ao privado e indique o sentido da indisponibilidade do interesse público. diante de certas circunstâncias. a Administração Pública está obrigada à aposentá-lo. Ocorre a primeira hipótese ± atos administrativos vinculados ± quando a lei não deixa qualquer espaço de subjetividade ao administrador público. ocorrendo a hipótese X. ela está obrigada a concretizá-lo. que não se identifica pura e simplesmente com a vontade daqueles que exercem o poder político. de atos vinculados. devendo ser extirpado do mundo jurídico pelo Poder Judiciário. a norma jurídicolegal ordena que sejam tomadas medidas específicas: A lei não deixa margens de escolha e de subjetivismo ao administrador público. Assim. A Administração Pública está constitucionalmente obrigada a efetivar. a quem. deve-se praticar o ato Y. Contudo. a conduta do administrador público. ainda que não o queira. ressalvados os casos previstos nesta Constituição. determina e limita. Tal classificação relaciona-se à margem de liberdade de escolha do administrador público na prática do ato administrativo. Não há outro modo de cumprir a lei. minuciosamente. deve-se observar o sentido real da expressão ³interesse público´. de forma bastante clara e minuciosa. A lei dispõe que. EM SUMA: O interesse público deve buscar coadunar-se com o privado.

É preciso que o indivíduo se submeta a uma série de testes. por exemplo. Assim. estuda a função administrativa (ou executiva) realizada pela Administração Pública. obviamente. consistente na aplicação ± imediata. por lei. de acordo com critérios de oportunidade e de conveniência ± que. Em tais hipóteses. vinculada ± da norma jurídica. quando se solicita uma licença para o porte de armas de fogo. por aquela que lhe parecer mais adequada. caso a caso. como no caso da aposentadoria. designa a própria atividade administrativa. entre várias alternativas. O objeto do Direito Administrativo são. Por outro lado. DISCRICIONARIEDADE = Liberdade conferida. Por outro lado. o INSS.VINCULAÇÃO = Regramento específico imposto. os discricionários possibilitam uma liberdade mais ou menos ampla no que diz respeito à conveniência e à oportunidade da prática do ato. A diferença é que os vinculados não prevêem nenhuma margem de subjetivismo em sua aplicação. não a discricionariedade não é absoluta. Subjetivamente. é utilizado quando queremos nos referir às pessoas físicas ou jurídicas que exercem a função administrativa. Todo ato administrativo deve. Não se trata de aplicação automática ± ou seja. Outro exemplo: Quando uma norma jurídico-legal determina que o Estado deve garantir a saúde dos cidadãos. pois sua ³moldura´ está minuciosamente determinada por lei. construção de hospitais. visto que a lei não pode prever. ao administrador público. por lei. aplicação de verbas em programas de prevenção. deverá resolver de que maneira irá concretizá-la. regulam e limitam o exercício da função administrativa. a liberdade de escolha ± constitui uma necessidade da Administração Pública atual. para que seja considerado apto a portar armas de fogo. motivo pelo qual faculta à Administração Pública certa liberdade para escolher a melhor conduta a praticar. ramo do Direito Público. A discricionariedade ± isto é. os pedidos. oportuna e conveniente à realização do interesse público. Em essência. ela não diz como tal tarefa será efetivada. predominantemente realizada pelo Poder Executivo. A expressão ³Administração Pública´ possui sentido subjetivo e objetivo. todas elas. para cumprir tal lei. negá-los ou acatá-los. portanto. legais e. todas as hipóteses de sua própria aplicação. a critério da Administração Pública. É o administrador público que. o que não significa que estejam autorizados a se afastar da lei. Por ser expressão plural da . e. como. aptas à satisfação do interesse público. fala-se em ato discricionário: O administrador está legalmente autorizado a optar. tomada em seu sentido objetivo. concreta e nãocontenciosa ± das leis por meio de atos administrativos vinculados (regrados) ou discricionários (relativamente livres). contratação de profissionais da saúde etc. por exemplo. realizar um interesse público. Resumo O Direito Administrativo. Entretanto. devem ser legais ±. obrigatoriamente. cuidadosa e casuisticamente. os atos administrativos discricionários não diferem dos vinculados: Ambos representam ações da Administração Pública e nenhum deles prescinde da existência de lei para a sua prática. escolhendo uma ou algumas dentre várias opções teoricamente possíveis: Distribuição gratuita de medicamentos. a Administração Pública tem o direito de considerar. Contudo. ao administrador público. as normas jurídico-positivas que prevêem. em várias situações o legislador não tem condições de prever a realidade de forma rígida e fechada nos estritos limites da lei. pois as opções dadas ao administrador devem ser.

REGRAS = Adotam a lógica dual do ³tudo ou nada´. Apresentando feição geral. Noção de princípio para o Direito O ordenamento jurídico. Distinga os atos administrativos vinculados dos discricionários. analisamos algumas das principais características das normas jurídicas. a norma ³não matar´ constitui uma regra. dois tipos de normas jurídicas: As regras e os princípios. encarnam os valores de justiça e de razoabilidade de uma dada sociedade. o que significa que a Administração Pública deve efetivá-lo em quaisquer circunstâncias. Não há meio-termo. devem sempre buscar realizar o interesse público. As regras são normas jurídicas que se comportam de acordo com uma lógica dual (binária) de ³tudo ou nada´. Atividades 1. como. não admitindo harmonização com aquelas que lhe sejam contrárias. Dessa maneira. o fato de suas sanções serem nãotranscendentes e socialmente organizadas. Não se pode cumpri-la ³mais ou menos´.Direito Administrativo II ± Princípios Constitucionais da Administração Pública Introdução Vimos na aula anterior que o Direito Administrativo constitui ramo do Direito Público responsável pelo estudo da função administrativa (ou executiva).vontade de toda a sociedade ± e não do Estado ou dos governantes ±. ou seja. Ou o indivíduo se abstém de matar. podemos dizer que as regras são normas jurídicas com baixo grau de generalidade e que. Já os princípios são normas jurídicas dotadas de maior fluidez. diz-se que o interesse público transcende os interesses privados. ou mata e a descumpre. é um conjunto sistemático. Ou as cumprimos ou não as cumprimos. por isso mesmo. Assim é que se fala em princípio da boa-fé ou princípio da supremacia do interesse público sobre o privado. Assim. unitário e coerente de normas jurídicas. e cumpre a regra. completaremos nossos estudos sobre o Direito Administrativo indicando os princípios que o regem. Na presente aula. Existem. já o sabemos. O que significam as expressões ³função administrativa´. Nas Aulas 2 e 3. se aplicam de forma direta às situações concretas. basicamente. por exemplo. de mandamentos dirigidos à conduta das pessoas. O que é Direito Administrativo? 2. . Aula 13. Não há como compatibilizar regras contrárias: As regras ³faça X´ e ³não faça X´ não podem ser válidas ao mesmo tempo. aprendemos que a função administrativa se realiza mediante atos administrativos ± vinculados ou discricionários ±. ambos de observância obrigatória para as pessoas físicas e jurídicas. Além disso. concreta e rotineira das normas jurídicas produzidas pelo Poder Legislativo. que. obviamente. teremos apresentado uma visão panorâmica desta disciplina jurídica cuja importância aumenta a cada dia. que consiste na aplicação de ofício (não-contenciosa). Quais são as duas principais características do interesse público? 4. Em síntese. ³Administração Pública´ e ³interesse público´? 3. sendo também indisponível.

Por isso. uma vez que dois princípios contrários podem se compatibilizar graças ao caráter geral que apresentam. as Administrações Públicas municipais. LEGISLAÇÃO CONSTITUCIONAL: Excerto do artigo 37. vejamos quais são estes princípios explícitos e implícitos. dos Estados. extremamente numerosas. A atividade administrativa. Atividade Diferencie. da moralidade. específicas e mutáveis. Trata-se dos princípios constitucionais implícitos da Administração Pública. Alguns deles estão expressamente definidos na Constituição. publicidade e eficiência. apesar de não estarem expressos. formando uma espécie de sistema no qual todas as partes estão conectadas. observar os princípios básicos que orientam. derivam dos primeiros e do próprio arcabouço jurídico-constitucional. Princípios constitucionais explícitos da Administração Pública Segundo o artigo 37 da Constituição da República Federativa do Brasil. Princípio da legalidade O princípio da legalidade é. Elas devem. da Constituição da República Federativa do Brasil: A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União. Como veremos. do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade. ou seja. As regras. Pois bem. da publicidade e da eficiência. Os princípios constitucionais da Administração Pública ± tanto os explícitos como os implícitos ± não podem ser entendidos de forma isolada. estaduais. determina que todos os atos da Administração Pública devem ser legais. ao contrário do particular. não são os únicos a regularem o exercício da função administrativa. Produto direto da noção de Estado de direito inaugurada pela Revolução Francesa. os princípios das regras. distrital e federal devem se submeter aos princípios da legalidade. As regras são inferiores aos princípios. ao conhecermos os princípios que regem a Administração Pública. São os chamados princípios constitucionais explícitos da Administração Pública. estes princípios se inter-relacionam e se complementam. moralidade. juridicamente. da impessoalidade. Na verdade. sem dúvida nenhuma. os princípios constituem as proposições básicas e elementares das ciências. obrigatoriamente. o mais importante de todos aqueles que regulam a atividade administrativa. rege-se por uma série de princípios obrigatórios. . mas apenas uns em relação aos outros.A lógica que orienta a aplicação dos princípios não é a do ³tudo ou nada´. nada mais são do que particularizações dos princípios. mandamentos gerais que expressam os valores acolhidos por determinado sistema jurídico. pois tratam de realidades próximas e complementares. Existem outros que. PRINCÍPIOS = Proposições gerais que expressam e resguardam os valores supremos de dado sistema jurídico. auxiliando-se mutuamente. conformam e dão sentido ao ordenamento jurídico. caput. Dessa forma. impessoalidade. parece-nos muito mais proveitoso estudar os princípios. Todavia. somente pode fazer aquilo que está expressamente previsto em lei. estaremos obtendo informações bastante completas sobre seu disciplinamento jurídico. realizada pela Administração Pública. o administrador público.

ao erigir a moralidade como princípio expresso. têm de encontrar fundamento em lei. os princípios da eqüidade e da justiça e a noção de honestidade. e não de interesses pessoais dos agentes que a compõem. uma vez que os cidadãos têm direito a uma Administração Pública íntegra. Não basta que o administrador cumpra cegamente a lei. ³nem tudo o que é lícito (legal) é honesto´. PRINCÍPIO DA IMPESSOALIDADE: A Administração Pública não pode se guiar por caprichos e vontades pessoais. A Constituição. PRINCÍPIO DA MORALIDADE: Além de legal. Os agentes e as autoridades administrativas. condutas e práticas que não contam com expressa permissão legal são. exige mais: Há de se observar os bons costumes. proba e honesta. Princípio da moralidade O princípio da moralidade impõe aos administradores públicos o respeito às normas éticas que regem a sociedade. atos como a aceitação de propina são contrários à moralidade administrativa. ao exercer uma função administrativa. Assim. Significa que atos atentatórios à moral média da comunidade são ilegítimos e ilícitos. devem evitar quaisquer favoritismos e perseguições. Exemplo da aplicação concreta do princípio da impessoalidade é a exigência de aprovação em concurso público para que alguém possa obter um cargo público.000 anos já diziam que ³non omne quod licet honestum est´. Do contrário. A Administração Pública deve respeitar o padrão valorativo da sociedade da qual faz parte. automaticamente proibidas. mas sim pelo padrão impessoal da lei. uma vez que todos os atos administrativos. uma vez que todos são iguais perante a lei. mesmo os mais simples. PRINCÍPIO DA LEGALIDADE: A Administração Pública somente pode agir dentro dos estritos limites da lei. O único padrão de conduta para a Administração Pública é o legalmente previsto. A Administração Pública deve adotar uma postura impessoal no trato com os cidadãos. ou seja. as regras da correta administração. Aristóteles dizia que a lei é a razão sem paixões. como bem o sabiam os romanos. para a Administração Pública. pois muitas vezes os mandamentos morais não estão previstos em normas jurídicas. Assim evita-se que o administrador público e o próprio Estado abusem do poder que lhes é conferido pelo povo. .Como vimos de forma detalhada na Aula 5 ± onde discorremos sobre os princípios básicos do Direito Público e do Direito Privado ±. Princípio da impessoalidade O princípio da impessoalidade determina que a Administração Pública deve sempre objetivar a realização do interesse público. Dessa forma. íntegra e moral. apesar de humanos e sujeitos a toda sorte de preferências pessoais e antipatias. são inválidos. é de se exigir dela uma conduta neutra e imparcial. como cabe à Administração Pública concretizar as normas jurídico-legais. que há mais de 2. Uma Administração Pública moral não é aquela que simplesmente cumpre a lei de maneira mecânica e acrítica. a Administração Pública também deve ser honesta.

Legalidade . rotinas e serviços são apenas instrumentos ± muitas vezes burocráticos ± para se alcançar um fim. qual dos cinco princípios constitucionais explícitos da Administração Pública é o mais importante? Justifique a sua resposta. Isso significa que a Administração Pública deve dedicar mais atenção aos fins do que aos meios. impeçam ou atrasem a realização plena. a teor do inciso XXXIII do art. é um dever de todo administrador público. PRINCÍPIO DA PUBLICIDADE: Os atos.Eficiência Atividade Segundo lhe parece. o da satisfação do interesse público. de alguma forma. ou seja. especialmente aqueles que se relacionam à aplicação de recursos públicos. sob pena de responsabilidade. ou seja. lembrando-se que os inúmeros procedimentos. Não se coaduna com uma Administração Pública democrática e contemporânea a viciosa prática do sigilo. imediata e concreta do interesse público. Ser eficiente.Princípio da publicidade O princípio da publicidade proíbe à Administração Pública o ocultamento de seus atos e procedimentos. documentos e procedimentos devem ser públicos. muitas vezes morosos e burocráticos. LEGISLAÇÃO CONSTITUCIONAL: Inciso XXXIII do artigo 5º da Constituição da República Federativa do Brasil: todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular. ou de interesse coletivo ou geral.Publicidade . qual seja. Princípio da eficiência O princípio da eficiência obriga a Administração Pública a obter resultados úteis. PRINCÍPIO DA EFICIÊNCIA: A Administração Pública deve atentar para a obtenção de resultados eficazes. 5º da Constituição Federal.Moralidade . acessíveis a quaisquer pessoas. É por essa razão que os atos administrativos precisam ser publicados ± em Diários Oficiais ou. O mesmo ocorre com a Administração Pública: Seus atos. que somente se justifica em casos específicos (inciso XXXIII do artigo 5º da CF/88). A atividade administrativa deve ser efetivada às claras. ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado. podendo qualquer um do povo ter acesso a papéis que pertencem à Administração Pública. uma vez que se relacionam a interesses públicos ± de todos ±. que serão prestadas no prazo da lei.Impessoalidade . em jornais de grande circulação ±. Assim. na falta deles. documentos e procedimentos administrativos são acessíveis a todos. privilegiando os fins em detrimento dos meios. e não a interesses privados. concretos e efetivos. obter resultados eficazes e úteis em sua missão institucional. de portas abertas. salvo aqueles cujo sigilo se justifica. ela também deve parecer honesta. . Um antigo e espirituoso ditado preceitua que não basta à mulher de César ser honesta. obstruam. não se compatibilizam com o princípio da eficiência atos administrativos que. ATENÇÃO: Memorize a palavra LIMPE para se lembrar dos cinco princípios constitucionais explícitos da Administração Pública: .

desde que apresentem valor histórico. etnográfico. tombar um imóvel não significa demoli-lo. paisagístico ou cultural. Alguns autores entendem que o princípio da razoabilidade exige proporcionalidade entre os meios utilizados pela Administração Pública e os fins ou objetivos que pretende realizar. podendo ser inclusive acusado da prática de crime caso se omita e deixe de fazê-lo. Trata-se de não abater pombos com canhões. atos administrativos que não visam a finalidades públicas são inválidos perante o Direito Administrativo. complexas e dispendiosas estruturas administrativas mantidas por Municípios. Outro importante princípio implícito é o da razoabilidade (ou proporcionalidade). sem dúvida fazem parte do grupo de princípios que regulam as atividades da Administração Pública. Tais princípios derivam de nossa estrutura constitucional democrática e da própria definição de interesse público. se ficar provado que tais motivos inexistem. Assim. Por exemplo: A Administração Pública tomba um imóvel particular alegando que este tem um valor histórico. Tanto bens imóveis quanto móveis podem ser tombados. uma vez que somente por meio da motivação pode-se observar se dado ato foi praticado de forma legítima e legal. atentem contra o bom senso. apesar de não estarem ³escritos´ em nenhum artigo constitucional. arqueológico. mesmo que não sejam ilegais ou imorais. ou seja. VOCABULÁRIO: Na esfera do Direito Administrativo. Segundo o princípio da finalidade. são princípios implícitos os da supremacia do interesse público em relação ao privado e o da indisponibilidade do interesse público pela Administração. para que seja conservado e protegido pelo Estado. de alguma forma. irracionais ou que. Ofenderia o princípio da razoabilidade ± e também ao da eficiência ± o administrador que ordenasse a abertura de um processo administrativo que tivesse por finalidade averiguar o desaparecimento de um clipe de papel em determinada repartição pública. Ora. Contudo. o administrador público tem o dever de anulá-lo.Princípios constitucionais implícitos da Administração Pública Graças ao fato de não se encontrarem descritos de forma expressa na Constituição. um bom administrador público deve agir não apenas de forma legal e moral. é possível reunir um elenco básico de princípios que. EstadosMembros e União Federal apenas se justificam por serem instrumentos voltados para a realização de finalidades públicas. As enormes. à qual remetemos o estudante desejoso de rememorar o sentido e a importância destas realidades. mas também sensata. segundo o qual são vedadas à Administração Pública práticas bizarras. os administradores públicos são obrigados a esclarecer as razões pelas quais praticam determinado ato. Contudo. artístico. mas sim colocá-lo sob a guarda especial da Administração Pública. Graças à motivação. os atos administrativos podem ser revistos e até mesmo anulados tanto pela Administração Pública quanto pelo Poder Judiciário. o ato administrativo de tombamento será anulado pelo Poder Judiciário. Ao verificar que determinado ato é ilegal. os atos administrativos podem ser questionados pelos cidadãos e anulados pelo Poder Judiciário quando se consegue provar que o motivo declarado para a prática dos mesmos não se verifica na realidade fática. Além disso. a enumeração dos princípios constitucionais implícitos da Administração Pública varia de autor para autor. artístico ou cultural inestimável. todos os atos administrativos devem objetivar realizar um fim público. Assim. a legitimidade e a legalidade das ações administrativas podem ser questionadas por qualquer . De acordo com o princípio do controle. A meta de toda atividade administrativa é a realização e a satisfação do interesse público. o custo de tal processo superaria em muito o valor do objeto! Já o princípio da motivação (ou justificação) determina que todos os atos administrativos sejam fundamentados. como vimos na aula anterior. Trata-se de princípio importantíssimo. Dessa forma.

punir os subordinados. Depois de termos tomado contato com algumas noções fundamentais do Direito nas Aulas 1 a 5. São princípios constitucionais explícitos da Administração Pública: Legalidade. Resumo O ordenamento jurídico é um conjunto sistemático. o universo jurídico é muito . o princípio da hierarquia determina que a Administração Pública deve organizar-se de forma hierárquica. indisponibilidade do interesse público. o Poder Judiciário também está autorizado a anular atos administrativos ilegais2. Enumere e descreva o significado dos princípios constitucionais implícitos da Administração Pública. Além disso.cidadão junto ao Poder Judiciário. além de controlar e fiscalizar os atos dos servidores subalternos. A Administração Pública pode declarar a nulidade de seus próprios atos. do Direito Civil (Aulas 9 a 11) e do Direito Administrativo (Aulas 12 e 13). 346 e 473. apesar de não estarem expressos. anulando -os quando eivados de ilegalidade ou revogando-os por motivos de conveniência e oportunidade. ramo relevante do Direito Público. respeitados os direitos dos cidadãos. Todavia. Desse modo. moralidade. que. São princípios constitucionais implícitos da Administração Pública: Supremacia do interesse público em relação ao privado. unitário e coerente de regras e de princípios jurídicos. 3. respeitados os limites legais. derivam dos primeiros e do próprio arcabouço jurídico-constitucional. Ademais. possui capacidade de anular os atos administrativos ilegais. publicidade e eficiência. O que é princípio para o Direito? 2. Enumere e descreva o significado dos princípios constitucionais explícitos da Administração Pública. As regras são normas jurídicas que se comportam de acordo com uma lógica dual de ³tudo ou nada´. Alguns deles encontram-se explicitados no artigo 37 da Constituição. A atividade administrativa rege-se por uma série de princípios obrigatórios. razoabilidade (ou proporcionalidade). 2 Conforme entendimento do Supremo Tribunal Federal expresso nas súmulas nos. na Aula 4 apresentamos questões relativas ao Direito Processual. Aula 14. examinamos os principais conceitos. Escolhemos dedicar maior cuidado e tempo a tais disciplinas porque envolvem assuntos gerais cujo conhecimento parece-nos imprescindível em seu curso de graduação.Outros Ramos do Direito I ± Direito Penal e Direito do Trabalho Introdução Começamos a nos aproximar do fim deste curso de Fundamentos do Direito Público e Privado. controle e hierarquia. de maneira que os órgãos e agentes superiores exerçam o comando dos serviços administrativos. Por fim. estruturas e normas do Direito Constitucional (Aulas 6 a 8). Atividades 1. em consonância com a teoria da tripartição das funções do poder adotada pela Constituição brasileira. Outros. Já os princípios são proposições gerais que expressam e resguardam os valores máximos de determinado sistema jurídico. impessoalidade. finalidade. motivação. a Administração Pública se apresenta como uma estrutura piramidal na qual as autoridades superiores podem.

e multa.reclusão. tipificar os crimes ± ou seja. Direito Penal Definição e objeto do Direito Penal O Direito Penal. reduzido à impossibilidade de resistência: (PRECEITO PRIMÁRIO) Pena . como são duas as tarefas das normas penais. como vimos nas primeiras aulas. no mínimo. Feita tal justificativa. por qualquer meio. Direito Tributário e Direito Empresarial (ou Comercial). Assim. de 7 de dezembro de 1940. os nossos dois últimos encontros servirão para reunir informações básicas sobre outras importantes disciplinas jurídicas: Direito Penal. para si ou para outrem. entre outras atividades. o castigo a ser aplicado aos transgressores do preceito primário. religiosas. Dessa maneira. Devido à relevância de tais valores. as normas que os resguardam apresentam sanções negativas . Deve-se sempre levar em conta que. portanto. vejamos. (PRECEITO SECUNDÁRIO) Artigo 157 do Código Penal (roubo) Art. nesta aula. as mais importantes ± porque obrigatórias ± são as jurídicas. ou seja. em sua maioria. bastante modificado pela reforma empreendida pela Lei nº 7. tendo em vista os fatos de natureza criminal e as medidas aplicáveis a quem os pratica. duas também são as suas partes: No preceito primário ± primeira parte da norma penal ± encontra-se a descrição minuciosa da conduta considerada criminosa pelo legislador (tipificação). Desse modo. como a vida e a liberdade. (PRECEITO SECUNDÁRIO) CONCEITO DE DIREITO PENAL ³Conjunto de normas jurídicas que regulam o poder punitivo do Estado. objetiva estudar as normas que definem crimes e impõem penalidades aos indivíduos. Na segunda parte. mediante grave ameaça ou violência a pessoa. ou depois de havê-la. Entretanto. denominada de preceito secundário. existem algumas que objetivam proteger os nossos bens e valores mais importantes. de quatro a dez anos. 121.´1 O Direito Penal como limitação ao poder do Estado Visto que vivemos em sociedade. costumeiras etc. o Direito Penal (ou Criminal) pretende. Eis dois exemplos típicos de normas penais: Artigo 121 do Código Penal (homicídio simples) Art. Matar alguém: (PRECEITO PRIMÁRIO) Pena . para se obter uma idéia razoável da multiplicidade e da riqueza da ciência jurídica. As normas jurídico-penais buscam. bem como as penas a serem cumpridas por aqueles que não se comportam conforme determina a legislação penal. Seu objeto.848. basicamente.reclusão. de forma clara e objetiva ± e determinar as penas aplicáveis àqueles que os praticam. que. Direito do Trabalho. encontra-se a pena. Dentre as normas jurídicas. é preciso estudá-la. defini-los legalmente.mais amplo do que o que vimos até agora.209. descrever os atos tidos como criminosos. durante cinco anos. Muitas delas são morais. se encontram sistematicamente reunidas no Código Penal (Decreto-Lei nº 2. alguns temas relativos ao Direito Penal e ao Direito do Trabalho. são as normas jurídico-penais constantes de nosso ordenamento. de seis a vinte anos. é preciso respeitar certas normas de conduta e de convivência. Subtrair coisa móvel alheia. ramo do Direito Público. de 11 de julho de 1984). 157.

XIX. d) prestação social alternativa. o Estado pune os indivíduos que se recusam a cumprir as normas jurídico-penais. a vida. em caso de crime. para a restauração da ordem jurídica interna do país. e) suspensão ou interdição de direitos. conseqüências do descumprimento dos mandamentos penais ± são bastante graves. por exemplo. garantias para os cidadãos. administrativos etc. que de outra forma se veriam constantemente ameaçados por um Estado que. Para cumprir a sua missão. razão pela qual as suas sanções negativas ± as penas. garantindo a segurança. a penalidades sérias como a prisão perpétua e a pena de morte. salvo em caso de guerra declarada. nem todos os atos ilícitos correspondem a crimes. limitam direitos essenciais do indivíduo. É por isso que se diz que o Direito Penal regula o direito de o Estado punir. ou seja. nos termos do art. Isso quer dizer que tal é permitido pelo Direito? De forma nenhuma! O Direito prevê sanções negativas a serem aplicadas àqueles que descumprem o que ficou contratualmente acertado. além de extremamente poderoso. c) de trabalhos forçados. e) cruéis. como o dos Estados Unidos. normalmente. Os ilícitos penais são aqueles expressa e previamente descritos nas leis penais. furto. Assim. aquele que desrespeita a norma protetora do valor ³vida´ ± ou seja. As sanções penais são reservadas apenas para os ilícitos considerados extremamente graves pela sociedade: Homicídio. Todos os crimes ± ilícitos penais ± devem ser legalmente tipificados. Dessa maneira. Todavia. corrupção etc. d) de banimento. As normas penais são. 84. não encontraria limites para as suas ações. Existem vários atos contrários ao Direito que não são criminosos. impondo-lhes sanções que podem variar de uma simples multa até a privação da liberdade por longos períodos. LEGISLAÇÃO CONSTITUCIONAL: A pena de morte e a prisão perpétua não são adotadas pelo Direito Penal brasileiro. ao direito penal. em casos extremos. XLVII ± não haverá penas: a) de morte. Um dos mais importantes princípios do Direito Penal é o da presunção de inocência: Ninguém será . Assim. c) multa. roubo. Um exemplo: Deixar de cumprir um contrato não é. b) de caráter perpétuo.´2 Expliquemos: Como autoridade soberana. pertence. a liberdade e os demais direitos dos cidadãos. entre outras. o chamado jus puniendi: ³A função repressiva do ato anti-jurídico. O ³direito de punir´ estatal é regulado por inúmeras normas jurídicas. tais sanções não são penais. ao contrário do Direito Penal de outros Estados. devem estar previstos em lei de maneira clara e inequívoca. O Estado deve cumprir uma série de regras e observar determinados princípios para que possa aplicar sanções penais aos indivíduos. Contudo. que. podemos definir as normas penais como aquelas aptas a proteger os valores essenciais da existência humana. São os chamados ilícitos civis. e este age em defesa da ordem e da sociedade. b) perda de bens. pois de outro modo ele abusaria de seu poder. existem ilícitos penais e ilícitos não-penais. mas do Estado contra o delinqüente. As penas de reclusão são cumpridas em penitenciárias. A infração à lei [penal] significa violação do direito subjetivo público do Estado. estupro. a que proíbe o homicídio: Artigo 121 do Código Penal ± está sujeito a uma pena de reclusão de 6 a 20 anos. Assim. pois. um crime. Veja o que dispõem os incisos XLVI e XLVII do artigo 5º da nossa Constituição: XLVI ± a lei regulará a individualização da pena e adotará.extremamente gravosas. ação penal não é da vítima contra o criminoso. mas civis. como. a exemplo da pena de prisão. as seguintes: a) privação ou restrição da liberdade. chegando. portanto. Por quê? Simples: Somente em relação a eles o Estado poderá lançar mão das sanções penais. o Estado zela pela manutenção da ordem jurídica. o pagamento de indenizações.

não para cultivá-lo. O ócio constituía então o ideal de todo cidadão bem-educado. à guerra e à política. Não se trata.). ramo do Direito Público. constitui disciplina jurídica voltada para o estudo das normas que objetivam regular as relações entre aquele que presta certo serviço (o empregado) a outrem (o empregador). comércio etc. como habitualmente se diz. contrariando ordens divinas. sendo. de privilegiar criminosos. quando a Igreja determinou aos camponeses a prática diária de orações e de serviços nas lavouras como forma de obtenção da salvação espiritual: Labora et ora.. LEGISLAÇÃO CONSTITUCIONAL Incisos do artigo 5º da Constituição da República Federativa do Brasil: LIV ± ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal. Atividade Por que o Direito Penal limita o poder de punir conferido ao Estado? Por fim. nunca a serviços manuais (artesanato. só por isso. portanto. tendo em vista a proteção de um dos mais importantes valores de nossa sociedade: O trabalho3. o mandasse para a prisão. assim tomando ciência do bem e do mal. O instituto da presunção de inocência existe em todos os Estados civilizados e protege o cidadão diante do poder do Estado. que. uma vez que os homens livres deveriam se dedicar à filosofia. No contexto greco-romano. do contrário. Dessa forma. agricultura. limitadoras e reguladoras do poder de punir conferido ao Estado (jus puniendi). VOCABULÁRIO: Sentença transitada em julgado: Decisão final do Poder Judiciário em determinado processo contra a qual já não se pode mais interpor quaisquer recursos. comeu do fruto da árvore do conhecimento.considerado culpado senão após sentença transitada em julgado que o declare como tal. alegando tratar-se de um criminoso. 3. era entendido como atividade própria de escravos. o trabalho passou a ser valorado positivamente apenas a partir da Idade Média. Na realidade. pode-se definir o Direito Penal como a ciência jurídica que se ocupa com o estudo das normas penais. após a finalização de um processo judicial. Direito do Trabalho Definição e objeto do Direito do Trabalho O Direito do Trabalho. sendo por isso obrigado a cumprir determinada pena.. poderia ser exercido de forma irracional. Deve-se recordar também que o Deus cristão criou Adão para gozar do jardim das delícias. Tal não pode ser feito graças ao Direito Penal: Para que um indivíduo seja considerado culpado. alguém somente pode ser tido como criminoso. ³aconselhavam´ . LVII ± ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória. O valor ³trabalho´ foi visto de maneiras muito diversas no decorrer da história humana. definitiva e imodificável. injusta e ilegítima. O trabalho apenas lhe foi imposto pelo criador como penalidade. uma vez que. exige-se que ele se submeta a um processo racional e regulado por regras legal e previamente determinadas. Imagine se um governante não simpatizasse com você e. oportunidade em que poderá provar a sua inocência.

O Direito do Trabalho apresenta feição nitidamente protetiva. seguro-desemprego etc. Um exemplo: A mulher conta com licença maternidade de 120 dias. Para o operário. Para o empresário. o fim do contrato de trabalho nada mais é do que um inconveniente a ser sanado. tão bem dissecado por Max Weber. na verdade. o valor ³trabalho´ seja visto como algo negativo. uma vez que. O empresário é proprietário dos meios de produção. O direito não pode fechar os olhos para essa diferença. O princípio basilar do Direito do Trabalho é o da proteção dos trabalhadores. pode significar a diferença entre comer e morrer de fome. é inegável que um operário e o dono da empresa na qual trabalha são diferentes. não necessariamente para si. sob pena de se tornar ineficaz e injusto. há uma razão biológica para tanto. do Decreto-Lei nº 5. contudo. sustenta que o trabalho dignifica o homem. ao mesmo tempo. com os quais obtém lucros. O direito contemporâneo não é e nem pode ser um direito igualitário no sentido de tratar todas as pessoas da mesma maneira. A parte mais importante das normas jurídico-trabalhistas ± objetos de estudo do Direito do Trabalho ± está reunida na Consolidação das Leis Trabalhistas ± popularmente conhecida por CLT. justiça é tratar os iguais de forma igual e os desiguais de forma desigual. visto ser a mulher quem carrega a criança no ventre. o surgimento de uma espécie de convivência entre o ócio e o trabalho.452. Tais direitos são. Pense bem: Parece adequado exigir os mesmos deveres jurídicos de um adulto perfeitamente racional e de uma criança de cinco anos? É claro que não. Daí a necessidade de um direito específico para protegê-los. limitação da jornada diária e semanal. .os padres. deveres para o empregador e para o Estado: Salário não inferior ao mínimo legal. na contemporaneidade assistimos a uma revalorização do ócio sem que. férias. uma vez que. Já o operário tem apenas sua força de trabalho para vender. ao contrário. e não opostos. semelhantemente a outras disciplinas jurídicas ± como o direito do consumidor e o direito da criança e do adolescente ±. As pessoas não são efetivamente iguais. O direito pode e deve tratar as pessoas de maneira desigual. Da mesma forma. A relação entre ambos não é igualitária e nem equilibrada: Um manda e o outro obedece. Dispensar-lhes o mesmo tratamento jurídico significa desconsiderar suas diferenças concretas em nome de uma abstração igualitarista. Observa-se. sem o qual o poder dos empregadores sobre o empregados não encontraria limites. afinal. enquanto o período concedido ao homem é de apenas 5 dias. e não o homem. no entanto. são valores complementares. Todavia. visto que nas relações de trabalho eles quase sempre se encontram em situações inferiores. o espírito burguês capitalista. trata-se. Modernamente. transformandoo em um ser capaz de se auto-sustentar e de criar riquezas. Por fim. descanso semanal remunerado. FGTS. Tal não seria justo e nem razoável. objetiva resguardar determinada parcela do povo: Os trabalhadores. de acordo com Aristóteles. de 1º de maio (dia do trabalhor) de 1943 ± e no artigo 7º da Constituição Federal. licença maternidade. desde que haja um bom motivo para tanto. O Direito do Trabalho intervém nas relações de trabalho objetivando diminuir essa desigualdade ao garantir certos direitos ao trabalhador. Economicamente diferentes. décimo terceiro salário. que.

No início da revolução industrial inglesa não se conhecia normas jurídico-trabalhistas. Não se trata da criação de privilégios, mas da garantia da justiça social. O trabalhador precisa contar com certos benefícios e garantias sem os quais seria reduzido a uma situação de medo, de incerteza e de indignidade que o faria semelhante a um escravo, como ocorreu na revolução industrial inglesa do século XIX, quando as pessoas, sem quaisquer direitos trabalhistas, laboravam até 16 horas por dia em fábricas absolutamente insalubres e inadequadas para abrigar seres humanos. O Direito do Trabalho visa à diminuição da desigualdade econômica existente entre empregadores e empregados. Para tanto, protege os últimos por meio de normas jurídicas, muitas delas contidas na CLT. Atividade O Direito do Trabalho é um direito igualitário? Fundamente a sua resposta. A relação de trabalho Nem toda prestação de serviço constitui uma relação de trabalho protegida pelo Direito do Trabalho. Existem várias formas de se prestar um serviço a outrem. Apenas aquelas que reúnem certas características são consideradas verdadeiras relações de trabalho, reguladas, portanto, pelas normas jurídico-trabalhistas. Assim, para que possamos falar juridicamente em relação de trabalho entre empregado e empregador, deve se observar a existência de quatro características: ‡ Pessoalidade: O empregado deve prestar pessoalmente o serviço ao empregador, não podendo se fazer representar por outro indivíduo. Isso significa que apenas pessoas físicas podem ser empregadas, pois somente elas são capazes de prestar serviços de modo pessoal. ‡ Subordinação: Em qualquer relação de trabalho deve-se verificar a subordinação do trabalhador em relação ao seu patrão, que está juridicamente autorizado a comandar a maneira mediante a qual o empregado deverá agir dentro da empresa, fiscalizando a duração de seus serviços, horários, a qualidade das tarefas prestadas etc. Faz parte do poder conferido por lei ao empregador a direção da relação de trabalho. Se não há subordinação do empregado ao empregador, não há, juridicamente falando, trabalho. ‡ Habitualidade: É preciso que o serviço seja prestado de forma não-eventual, ou seja, deve ser exercido com certa freqüência, pois a relação de trabalho é contínua, e não esporádica. Quando se contrata um eletricista para consertar algum eletrodoméstico ou uma faxineira para limpar a casa de 15 em 15 dias não se pode falar em vínculos trabalhistas, mas sim em simples contratos de prestação de serviços, regidos pelo Direito Civil e não pelo Direito do Trabalho. ‡ Remuneração: O trabalho deve ser remunerado. Prestação de serviço sem pagamento não é trabalho. Assim, se presto um serviço gratuito a alguém, não posso exigir que sejam cumpridas as normas da CLT, protetivas apenas das relações de trabalho. Faltando qualquer uma dessas características, não existe relação de trabalho, o que traz como conseqüência a inaplicabilidade do Direito do Trabalho ao caso. Resumo O Direito Penal, ramo do Direito Público, objetiva estudar as normas penais, que, basicamente, tipificam os crimes e determinam as penas aplicáveis àqueles que os cometem.

O conjunto das normas jurídico-penais ± objeto do Direito Penal ± limita e regula o poder de punir conferido ao Estado (jus puniendi), uma vez que ele deve cumprir várias regras e observar certos princípios, como o da presunção de inocência, para que possa aplicar sanções penais aos indivíduos. O Direito do Trabalho estuda as normas jurídicas reguladoras das relações entre empregados e empregadores, apresentando feição nitidamente protetiva, uma vez que protege juridicamente os trabalhadores, economicamente deficientes em relação ao empregador. Na verdade, o Direito do Trabalho visa à diminuição da desigualdade econômica existente entre empregadores e empregados. Contudo, nem toda prestação de serviço constitui uma relação de trabalho protegida pelo Direito do Trabalho. Para tanto, é preciso que o serviço prestado seja pessoal, subordinado, habitual e remunerado. Atividades 1. O que é Direito Penal? 2. Por que o Direito Penal é considerado uma limitação ao poder estatal? 3. O que é Direito do Trabalho? 4. O Direito do Trabalho é importante para a sociedade contemporânea? 5. Enumere e explique as características da relação de trabalho.

Aula 15- Outros Ramos do Direito: Direito Tributário e Direito Empresarial
Introdução Esta é a nossa última aula. Espero que os seus conhecimentos jurídicos tenham se ampliado. Se antes você conhecia o Direito mediante uma visão de senso comum, agora você é capaz de entendê-lo por meio de um ângulo mais científico. É claro que as noções e os conceitos examinados no presente curso representam apenas uma amostra do que é, verdadeiramente, o mundo jurídico. Contudo, são um início. E na vida os inícios são sempre mais valiosos e difíceis que as finalizações. Sem dúvida, mais importante que chegar à outra margem do rio é atravessá-lo, como escreveu João Guimarães Rosa. E a nossa travessia foi longa e produtiva. Chegaremos à outra margem do nosso riozinho ± lembrando que o mar continua aberto para futuras expedições ± estudando dois importantes ramos do Direito: Direito Tributário e Direito Empresarial. Direito Tributário Definição e objeto do Direito Tributário O Direito Tributário, ramo do Direito Público, estuda as normas jurídico-tributárias, ou seja, aquelas que regulam o poder do Estado no que se relaciona aos tributos. O Direito Tributário assemelha-se muito ao Direito Penal, disciplina jurídica vista na aula anterior. Assim como o Direito Penal, o Direito Tributário regula e limita um dos poderes do Estado: O poder de criar e de cobrar tributos. Na verdade, todos os ramos do Direito Público têm por finalidade regrar ± e, desse modo, limitar ± a atuação e os poderes do Estado em relação aos cidadãos. Depois do Direito Constitucional, matriz de todas as normas juspublicísticas, talvez as mais importantes disciplinas do Direito Público sejam o Direito Penal, que

regula a liberdade do indivíduo diante do poder de punir do Estado, e o Direito Tributário, que resguarda o patrimônio das pessoas perante o poder de tributar conferido ao Estado. Desde o surgimento dos primeiros grupos humanos foi necessário que os membros de tais comunidades primitivas contribuíssem para a manutenção da vida grupal com uma parte de seus bens, seja de forma voluntária ou, o que foi mais comum, de modo compulsório, isto é, obrigatório. Para que os agrupamentos humanos se mantivessem, era preciso garantir a segurança contra grupos rivais ou hostis. Contemporaneamente, as tarefas exigidas do Estado não se limitam apenas à garantia da segurança, posto que se tornam cada vez mais complexas e numerosas devido à evolução da sociedade, compreendendo atividades como o oferecimento de serviços públicos de saúde, de educação, de previdência e de assistência social. Daí a justificativa do tributo, que, historicamente, serviu para financiar as diversas formas de organização social que a humanidade conheceu em sua evolução: O clã, a tribo, a cidade antiga, o feudo e, modernamente, o Estado. As atividades de cobrança e de recolhimento de tributos efetuadas pelo Estado contemporâneo são similares as dos antigos monarcas absolutistas. O fundamento de ambas é idêntica: A necessidade de manter operante a estrutura estatal. Contudo, diferentemente dos reis, o Estado de direito apenas pode cobrar tributos na medida da lei. Um cidadão somente está obrigado a pagar determinado tributo se este estiver previsto em lei, de forma prévia e expressa. Nos Estados de direito, o poder de tributar é regulado e limitado por diversas leis. Os governantes não estão autorizados a cobrar os tributos que lhes parecerem mais adequados e da forma que quiserem. É preciso que sejam previstos em lei. Além disso, sua cobrança constitui atividade plenamente vinculada ± isto é, minuciosamente detalhada por lei ±, e não discricionária. Assim como as penas do Direito Penal devem ser legalmente tipificadas de forma clara e objetiva, os tributos do Direito Tributário também necessitam ser previstos de modo inequívoco por textos legais. Tal exigência é chamada, tanto no Direito Penal quanto no Direito Tributário, de princípio da reserva legal. Por fim, pode-se afirmar que, apesar do caráter obrigatório do tributo, ele não configura sanção negativa imposta a alguém que praticou determinado ato ilícito. Não se trata de pena ou de castigo, mas de obrigação imposta a todos que vivem em determinado Estado, sem a qual ele não teria condições de existir e de cumprir suas tarefas institucionais. CONCEITO JURÍDICO DE TRIBUTO O conceito jurídico de tributo contido no artigo 3º do Código Tributário Nacional ± CTN, Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966, texto que contém as principais normas tributárias do ordenamento jurídico brasileiro ± sintetiza todas as características do tributo das quais falamos: Tributo é toda prestação pecuniária compulsória, em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir, que não constitua sanção de ato ilícito, instituída em lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada. Espécies tributárias Segundo o artigo 5º do Código Tributário Nacional, existem três tipos de tributos: Os impostos, as taxas e as contribuições de melhoria. Os impostos são os tributos mais comuns, constituindo a principal fonte de receita para o Estado. Ao contrário das demais espécies tributárias, independem de qualquer serviço específico oferecido ao indivíduo,

à ordem. Taxas são tributos decorrentes do exercício regular do poder de polícia ou da utilização. lubrificantes. A finalidade da receita adquirida pelo Estado com o recolhimento de impostos é variadíssima. entidades prestadoras de serviços de segurança pública. Além disso. na realidade. Considera-se regular o exercício do poder de polícia quando desempenhado pelo órgão competente nos limites da lei aplicável. se o Estado oferece um serviço público. como. à higiene. o Estado também pode instituir taxas para remunerar os órgãos da Administração Pública responsáveis pelo exercício regular do poder de polícia administrativa. Apenas a título de ilustração. ao . sem abuso ou desvio de poder. orçamentárias etc. administrativas. considera-se ³poder de polícia´ as atividades da Administração Pública que. é óbvio que os imóveis localizados nesses locais irão se valorizar. estão exercendo um poder de polícia administrativa. Já as contribuições de melhoria são tributos pouco utilizados no Brasil. Assim. imposto sobre a circulação de mercadorias e serviços. à disciplina da produção e do mercado. não estando vinculada a qualquer atividade determinada: Pode ser destinada a finalidades sociais. o fornecimento de água potável. por exemplo. educacionais. regulam a prática ou a abstenção de certos atos em razão de interesse público concernente à segurança. interesse ou liberdade. Por outro lado. Um exemplo: Se o Município realiza a decoração paisagística de determinada área ou o simples asfaltamento de certa rua. pois é possível medir quantos litros de água certa pessoa utilizou. ao contrário dos impostos e das taxas. antes de terra ou de pedra. obrigação instituída por lei da qual os cidadãos não podem se esquivar. uma vez que a Administração Pública não está autorizada a criar vantagens especiais para algumas pessoas em detrimento da coletividade. à tranqüilidade pública ou ao respeito à propriedade e aos direitos individuais ou coletivos. com observância do processo legal e. aos costumes. valorização imobiliária. VOCABULÁRIO De acordo com o artigo 78 do Código Tributário Nacional. Tais contribuições são instituídas para fazer face ao custo de obras públicas que geram. imposto sobre serviços de transportes e comunicações e imposto sobre operações relativas a combustíveis. câmbio e seguro e sobre operações relativas a títulos e valores mobiliários. imposto sobre operações de crédito. limitando ou disciplinando direito. efetiva ou potencial. imposto sobre a transmissão de bens imóveis e de direitos a eles relativos. imposto sobre a propriedade territorial rural. militares. imposto sobre a exportação.sendo. ao exercício de atividades econômicas dependentes de concessão ou autorização do Poder Público. tratando-se de atividade que a lei tenha como discricionária. a declaração anual de imposto de renda pode ser entregue por meio da internet. quando agentes do Município fiscalizam restaurantes objetivando verificar suas condições de higiene. de serviços públicos específicos e divisíveis. imposto sobre a propriedade predial e territorial urbana. imposto sobre produtos industrializados. além dos chamados impostos extraordinários. que não se confunde com as atividades realizadas pelas Polícias Civis e Militares. deve haver uma contraprestação daqueles que. que podem ser medidos e individualizados ± postos à disposição dos mesmos. como conseqüência secundária. as taxas são contraprestações pagas pelos indivíduos ao Estado em razão do oferecimento de serviços públicos específicos e divisíveis ± isto é. visto que se trata de um serviço específico e divisível. Se há valorização imobiliária em razão de obra pública. imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza. razão suficiente para que seus proprietários paguem ao Município a contribuição de melhoria. energia elétrica e minerais do país. pode cobrar uma taxa relativa ao mesmo. Assim. são impostos componentes do sistema tributário nacional: Imposto sobre a importação. Atualmente.

ao nascente Direito Empresarial. CTN) Imposto é o tributo cuja obrigação tem por fato gerador uma situação independente de qualquer atividade estatal específica. CTN) As taxas cobradas pela União. pelos Estados. Lei nº 10. tiveram seus imóveis positivamente afetados. têm como fato gerador o exercício regular do poder de polícia. Tal é a finalidade das contribuições de melhoria. grande parte das disposições do Código Comercial vigente (Lei nº 556. efetiva ou potencial. de 10 de janeiro de 2002 ± ou é absolutamente inaplicável à realidade atual. Direito Empresarial Definição e objeto do Direito Empresarial O Direito Empresarial ± antigamente chamado de Direito Comercial1 ± constitui ramo do Direito Privado voltado para o exame das normas que regulam os direitos e os deveres dos empresários.contrário do resto da sociedade. 77. Na realidade. é instituída para fazer face ao custo de obras públicas de que decorra valorização imobiliária. prestado ao contribuinte ou posto à sua disposição. de ciência jurídica de tendência profissional. revogados pelo novo Código Civil. Algumas das definições clássicas de Direito Comercial podem ser aplicadas. pelos Estados. 16. Seu objeto são as normas jurídicas que disciplinam a atividade empresarial. TAXA (art. pois se trata de uma lei de mais de 150 anos. Trata-se. com certas ressalvas.406.. tendo como limite total a despesa realizada e como limite individual o acréscimo de valor que da obra resultar para cada imóvel beneficiado. de 25 de junho de 1850) encontra-se revogada ± como seus artigos 1º a 456. Quadro Comparativo das Definições Legais das Espécies Tributárias IMPOSTO (art. pelo Distrito Federal ou pelos Municípios. CONTRIBUIÇÃO DE MELHORIA (art. CTN) A contribuição de melhoria cobrada pela União. Devido à extrema mutabilidade das atividades empresariais e à evolução do perfil jurídico do empresário ± antes visto como comerciante ±. pelo Distrito Federal ou pelos Municípios. Assim. Atividade O que é tributo? Fundamente a sua resposta.. Eunápio Borges entende que o Direito Comercial: ³É o complexo de normas jurídicas que regulam as relações derivadas das indústrias e atividades que a lei 1 . 81. encontrando-se dispersas em diversas leis. no âmbito de suas respectivas atribuições. relativa ao contribuinte. as palavras de grandes comercialistas permanecem atuais. . ou a utilização. de serviço público específico e divisível. no âmbito de suas respectivas atribuições. portanto. as normas jurídico-empresariais são muito variadas.

só por isso. ed. I. Já o segundo é exclusivo dos empresários. aquelas que regulam o poder de criar e de cobrar tributos pertencente ao Estado. . Daí a necessidade de defini-los de modo simples e direto. É claro que o Direito Empresarial aplica-se ao empresário unicamente quando age como tal e somente naquilo que se relaciona às suas atividades profissionais. de modo que não havia consenso perfeito entre os estudiosos sobre quem era. uma vez que. pois não exerço profissionalmente. com habitualidade e especialização. Campinas: Bookseller. Curso de direito comercial terrestre. comerciante. razão pela qual não se aplica a todos. Atualmente. O Direito Empresarial dirige-se apenas aos empresários. tratava-se de rol meramente exemplificativo. O empresário é uma pessoa que. 16). A par disso. Considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços. a atividade de comercialização de veículos. Apesar de manterem muitos pontos de contato. Definia-se doutrinariamente comércio como a atividade que liga os produtores de bens aos consumidores. mas tal não me transforma em comerciante. profissionalmente. os atos de comércio: O artigo 19 do Regulamento nº 737 de 1850 apresentava uma lista de atividades vistas como comerciais. dizia-se que comerciante era aquele que praticava atos de comércio. Já Carvalho de Mendonça entende que: ³Direito Comercial é a disciplina jurídica reguladora dos atos de comércio e. ou seja. sendo aplicável a todas as pessoas físicas e jurídicas. ao mesmo tempo. posso inclusive lucrar. 5. ou seja. Resumo O Direito Tributário é um ramo do Direito Público que objetiva examinar as normas jurídico-tributárias. efetivamente. assim como os direitos e as obrigações das pessoas que profissionalmente as exercem´ (João Eunápio Borges.considera mercantis. do Direito Penal. normatizando suas relações. figura jurídica que substituiu a do comerciante. não serei. Tratado de direito comercial. mas somente àqueles que praticam. pratica atividades voltadas para a produção ou a circulação de bens ou de serviços. Vol. de forma lacunosa e imperfeita. rotineiramente e de modo especializado. 14). ao vender o carro. Assim. direitos e deveres. No exemplo dado. Isso quer dizer que ser empresário é uma profissão. Todavia. DIREITO EMPRESARIAL = EXCLUSIVO DE EMPRESÁRIOS Mas quem é considerado empresário pelo Direito brasileiro? Caracterização jurídica do empresário Antes da entrada em vigor do novo Código Civil. dos direitos e obrigações das pessoas que os exercem profissionalmente e dos seus auxiliares´ (José Xavier Carvalho de Mendonça. p. É preciso praticar a atividade empresarial ± que pode se referir tanto a bens como a serviços ± de maneira profissional. devendo ser habitual e objetivar lucro. tal discussão já não faz mais sentido. a atividade empresarial. Rio de Janeiro: Forense. p. considerado comerciante. do Direito Tributário etc. se vendo o meu automóvel para alguém. Direito Civil e Direito Empresarial não se confundem. O Código Civil definiu de maneira clara em seu artigo 966 o que vem a ser empresário para o Direito. está sujeitos às normas do Direito Civil. o Direito conceituava. como todos os cidadãos. O primeiro disciplina as relações civis entre particulares.

2003. 3. Edgard de Brito. Trad. 1999. Trad. A era dos direitos. Carlos Nelson Coutinho. 1966. 1958. O que se entende por Direito Tributário e qual é o seu objeto de estudo? 2. Torino: Giappichelli. 1971. instituída em lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada. 1995. Edgar. Direito administrativo. as taxas e as contribuições de melhoria. O que se entende por Direito Empresarial e qual é o seu objeto de estudo? 4. fontes. Rio de Janeiro: Forense. Instituições de direito público e privado. Rio de Janeiro: Forense. BOBBIO. Ciência do direito: filosofia e metodologias jurídicas. Brasília: UnB. O Direito Empresarial ± anteriormente chamado de Direito Comercial ± constitui ramo do Direito Privado voltado para o estudo das normas jurídicas que regulam os direitos e os deveres dos empresários. Maria Celeste Cordeiro Leite dos Santos. CHAVES JUNIOR. . Atividades 1. São Paulo: Saraiva. O ordenamento jurídico brasileiro prevê três espécies tributárias: Os impostos. 5. 1991. BODENHEIMER. BRANCATO. Enéas Marzano. Manual de introdução ao estudo do direito: definição e conceitos básicos. São Paulo: Revista dos Tribunais. Rio de Janeiro: Forense. ed. ed. São Paulo: Atlas. em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir. Norberto. que não constitui sanção de ato ilícito. DIMOULIS. ainda que fosse possível. ed. Qual é o campo de aplicação do Direito Empresarial? A vida sem justiça é impossível. Dimitri. Norberto. BOBBIO. 10. Rio de Janeiro: Renovar. BOBBIO. João Eunápio. Maria Sylvia Zanella. Instituições de direito público e de direito privado. José de Oliveira. Teoria della norma giuridica. DI PIETRO. relações entre direito. interpretação e ramos do direito.Define-se tributo como prestação pecuniária compulsória. Rio de Janeiro: Campus. 2. não valeria a pena ser vivida. O direito: introdução e teoria geral. Diferencie as três espécies tributárias. Teoria do ordenamento jurídico. Santo Agostinho (354-431) Filósofo medieval Referências ASCENSÃO. 1988. Ricardo Teixeira. justiça. norma jurídica. moral e política. sujeito de direito e fatos jurídicos. 2001. direito e linguagem. BORGES. E. Trad. 1992. Norberto. Curso de direito comercial terrestre. Considerase empresário a pessoa que exerce profissionalmente atividade econômica voltada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços.

5. São Paulo: Martins Fontes. 2. São Paulo: Atlas. dominação. 21. João Baptista Machado. Direito: perguntas e respostas. Os irmãos Karamázov. Introdução ao estudo do direito: técnica. A. Numa Denis. KELSEN. Direito penal. Macaísta Malheiros. . Antônio. HOUAISS. Direito administrativo brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro. ed. Lisboa: Moraes. São Paulo: Saraiva. Introdução crítica ao direito. ed. São Paulo: Martins Fontes. 18. 2001. Trad. 3 ed. GOYARD-FABRE. 2000. André Franco. IHERING. MATOS. 2000. Trad. ed. decisão. MONTORO. Filosofia do direito e justiça na obra de Hans Kelsen. MEIRELLES. FUSTEL DE COULANGES. 2004. Ana Prata. Andityas Soares de Moura Costa. Rio de Janeiro: Forense. José Xavier Carvalho de. Herbert L. São Paulo: Nelpa. Luís Carlos Borges. 2001. Trad. PINHO. Alexandre de. ed. Questões ético-profissionais. Hely Lopes. Rio de Janeiro: Objetiva. M. ed. 1989. Introdução à ciência do direito. São Paulo: Malheiros. Belo Horizonte: Del Rey. ed. KELSEN. Simone. 2002. Curso básico de direito público e privado. E. FERRAZ JUNIOR. DOWER. 1996. Trad. MENDONÇA. ed. MORAES. ed. São Paulo: Martins Fontes. Fiódor Mikhailovitch. Rudolf von. A cidade antiga. 2006. MATOS. 2. M. Campinas: Bookseller. Trad. Ruy Rebello. Vol. Hely Lopes. 2. 1997. Belo Horizonte: Del Rey. Tratado de direito comercial. Lisboa: Calouste Gulbenkian. São Paulo: Atlas. 2004.DOSTOIÉVSKI. São Paulo: Martins Fontes. Trad. A luta pelo direito. Natália Nunes e Oscar Mendes. 1989. MEIRELLES. Lisboa: Calouste Gulbenkian. A. Instituições de direito público e privado. 2001. ed. 2000. Questões teóricas. Claudia Berliner. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2007. NORONHA. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. 2004. Direito administrativo brasileiro. HART. 1996. GILISSEN. 1988. MIAILLE. João Vasconcelos. Magalhães. ed. 1979. Ribeiro Mendes. Trad. I: introdução e parte geral. 3. A. Tercio Sampaio. 5. atualizada por Eurico de Andrade Azevedo. Direito constitucional. Michel. Questões acadêmicas. Teoria pura do direito. Andityas Soares de Moura Costa. Délcio Balestero Aleixo e José Emmanuel Burle Filho. Os fundamentos da ordem jurídica. 4. Trad. Hespanha e L. São Paulo: Atlas. 2002. São Paulo: Revista dos Tribunais. Hans. O conceito de direito. Introdução histórica ao direito. Hans. Teoria geral do direito e do estado. Trad. 25. John. Nelson Godoy Brasil. 26. Fernando de Aguiar. ed. 1979.

São Paulo: Martins Fontes. 2000. 6. 1999. De Plácido e. Vocabulário jurídico. 6 vols. 26. RÁO. Vera Barkow. 2002. teoria geral do direito subjetivo. anotada e atualizada com o Código Civil por Ovídio Rocha Barros Sandoval. análise dos elementos que constituem os direitos subjetivos. ed. 12. ed. Caio Mário Pereira da. SILVA. 2005. 1996. direito objetivo. Miguel. ed. direito positivo. Curso de direito constitucional positivo. . SILVA. Vicente. O direito e a vida dos direitos: noções gerais. ed. REALE. Trad. Rio de Janeiro: Forense. 7. 17. Curso de direito civil brasileiro. São Paulo: Malheiros. Lições preliminares de direito. 1977. SILVA. Rio de Janeiro: Forense. São Paulo: Revista dos Tribunais. Gustav.RADBRUCH. revista e atualizada nos termos da reforma constitucional. José Afonso da. São Paulo: Saraiva. ed. Introdução à ciência do direito.

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