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WALTER BENJAMIN: MAGIA E TECNICA, ARTE E POLITICA ENSAIOS SOBRE LITERATURA E HISTORIA DA CULTURA (OBRAS ESCOLHIDAS VOLUME 1 traducio: Sergio Paulo Rowanet refico: Tae Marie Gagnebin editora brasiliense A doutrina das semelhangas Uns atnar tanga destera do semethante”é de impor- tanciafandamenta para eompreensto de grande sears do saber celle, Pore ec olbar deve cots menet no Tei tro de semelnangasenconradss que na reprodugto det pro. cess que engendra tai semelbangas, A natura engendra semelhangas basta pensar na mimica, Mas 60 homen Ue tema capaidade suprema de produit semethangas. Na ver. dade (aves no baja neninoma de ss anges superiors que no sj decisvamente o-determinada pela faculdade mime ta, Ese facade tem wna history tanto no seit fl. temitico como ontogenéica. No que dir respeito ao iio, bnincadsia fan constlacscla doa facuade- Os jogos infantis sto impregnados de comportamentos ming Cos, aie os mitam de modo algun imitagio de pesto. ‘8 iiaga no rine apenas de srcomersiante ov Profesor, zmas também mv de vento eres, A questo tnportante, Contide, saber qualaulidade paras citangs dss adest®: tment da atte mimetics, ‘A repost a essa quesdopresupbe uma reflesdoatenta sobre o siniicado logenstico do eompartamenta mimetic. Para avallar esse significado, ntobasta pensar osetidocon- temporineo do cones de semelbanga,Sabese gue 0 ireulo trisencal regio pela eda semelhanga era outrora muito Sais vaso, Era o dominio do micro e do macrocouros, para ‘menclonar apenas uma ene mille relleagSer que expe: ‘cia da semelhangs encontrou no decotrer da hist. [MAGIA B-TECNICA, ARTE E POLITICA ro Mesmo para os homens dos nossos das pode-eafirmar que tsepisdios otdlanosem que eles pereebem consientemente fssemethangas sto apenas ma pequenafragto dos indmeros flsos em que a semelhanga os determina, sem que cles te stn dso concen, As semethanyaspreebidasconscin- temente ~ poresempl, ow ont — om eomparagao com as Incontiveissemelhange: das quai no temos conse, ou {hemo so pereridas deo, sao comospeaena pot do iThere,wsvel na spestiie do mar, em comparagio com a povera mass submarina Mas cosas correspondéncias nara somente assume sua sgifieago deciva quando levamos em conta que funda. mmentalmente todas elas estimolam e despertam faculdade Imimetica que Ines correspond no homent. Dovese rele nda que nem a forge micas ner as cols mites, teu objeto, permanecram as mesmas ao curso Jo tempo: ave fom passer doy seulos a eneria tims, e cam ela © thm da aprecnio mimetic, sbandonou cert expayts a ver oeupundo outrs: Tales nasa temersrio SupOr que ‘Sita uma dvgao esencalmente unitiia no desenol eno histérico desta faculdademimélca. ‘primeira vista, tal deg estaria na crescent fragii- dade dese dom, Pos o universe do homem moderno parece onter aquelas correspondénclas mdgicas em mull menor ttnmtdade ques des povsantigos om primis A questo € osc trata de uma extgte da faculdade minetica ou de sua ‘fansformagio, Emer indretamente, a ssrolgia pode fev alguns indleis sobre essa mcamorfse. Invesiando as Entigas tradigbes,podemes imaginar que earasconiguasbes Senses ella sido dotada de caracteristcas mimetcas de fue hoy nd podemos suspeltar. As constelagses 80. Um cxemple Tara compreendemor xs exemple, temos qv conesber co horéscopo com una fotaidade expetal, caja andisecabe Unterpretacioastroliea (a post das astos const Snidade pie, as earsclersdcat dos plantas Individuals Somente pode ser prcebias pela sua influécia nessa Posi Gio) Detemor acetro principio de que os process elests foes imitans eos ano, ant iivdual como eae mentee Je que esa itablisiade cones preseriges pars Siang dwn semethangapeenstente. ssa itaidade pelo homem, ou a faculdade mimética que este possui, cons titui, por ora, a nica instineia capaz de assegurar & astrolo- sia 0 seu cardter experimental, Se o génio mimético foi verda- ‘deiramente uma forga determinante na vida dos Antigos, eles nnlo poderiam deixar de atribuir ao recém-nascido a plenitude ‘esse dom, concebido sobretudo como um ajustamento per- feito. ordem ebsmica 7 Maso momento do nascimento, que € 0 decisivo, & ape ‘nas um instante. Isso evoca outra particularidade na esfera do semelhante, Sua percepeio, em todos os casos, dé-se num re lampejar. Ela perpassa, veloz, e, embora talvez possa ser re- ccuperada, no pode ser fixada, a0 contrario de outras percep- ‘goes. Ela se oferece ao olhar de modo to efémero e transit io como ma constelacto de astros. A percepeZo das seme Thaneas, portanto, parece estar vinculada a uma dimensio temporal. A conjungio de dois asiros, que 56 pode ser vista ‘num momento especifico, € obseryada por um tereeiro prota fonista, 0 astrologe. Apesar de (oda a precisao dos seus ins- ‘trumenios de observacio, 0 astrinome niio consegue igual re- sullado, ‘A alusfo & astrologia poderia bastar para esclarecer 0 conceito de uma semelhangs extra-sensivel. Esse conceito & ‘obriamente relativo. Ele deixa claro que nossa pereepgio no Inais dispde do que antes nos permitia falar de uma seme- Thanga entre uma constelagio € um ser humano. Nao obs tante, possuimos também um enone, que nos aproxima de ‘uma compreensio mais clara do conceito de semethanga ex- tra-sensvel. Ba linguagem, ‘ih muito se em admitido uma cesta inflvgncia da fa- ‘culdade mimética sobre alinguagem. Mas essa opini carece de fundamentos sides, endo se cogitou nunca seriamente de investigar a signifieagao, e muito menos a histria, da facul- dade mimética, Sobretudo, tais rellexdes ficaram estreita- ‘mente vineuladas & esfera mais superficial da semelhanca, a Sensivel, De qualquer modo, os iavestigadores reconhecem, nna onomatopéia, 0 papel do comportamento imitativo na ge nese da linguagem. Mas, sea linguagem, como é Obvio para 1s pessoas mais perspicazes, no é um sistema convencional de signos, 6 imperioso recorrer, no esforco de aproximar-se da ‘sua esséncia, a certasidéias contidas nas teorias onomatopai- ‘cas, em sua forma mais crua e mais primitiva. A questlo & MAGIA E-TECNICA, ARTE R POLITICA podem essasinsituigdes ser adaptadas a uma concepelo mais ‘struturada e mais cida? Em outras palavras: podemos dar um sentido a frase de Leonhard, contida no seu ensaio evelador, A palavra: “Cada palavra ea lingua inter so onomatopaicas”? A chave, que pela primeira vez tora essa tese transparente, esté oculia no conceito da semelhanga extra-sensivel. Se ordenarmos virias palavras das diferentes linguas, com mesma signficacto, fem torno desse significado, como seu centro, pode-se verficar como todas essas palavras, que no tém entre si a menor se methanga, slo semelhantes a0 significado situado no centro. ‘Tal concepeio énaturalmente proxima das teorias misticas ov {cologicas, sem com isso abandonar o Ambito da filologia em- piriea. Mas, como se sabe, as teorias misticas da Tinguagem zo se contentam em submeter a palayra oral a seu campo reflexivo e preocupam-se igualmente com a palavra eserita. E digno de nota que esta pode esclarecer a esséncia das seme- thangas extra-sensiveis,talvez melhor ainda que certas conti guragées sonoras da linguagem, através da relagio entre a imagem eserita de palavras ou letras com 0 significado, ou ‘coma pessoa nomeadora. Assim, a palavra beth tem o nome de ‘uma casa, E, portanto, a semelhanga extra-sensivel que esta- belece a ligagdo nio somente entre 0 falado e o intencionado, :mas também entre o escrito eo intencionado, e entre o falado eo escrito, Eo faz de modo sempre novo, originirio, iredu- tivel ‘A mais importante dessas ligagdes é talvez a éltima, entre a palavraescrta ea falada, Pois a semelhanga que nela preva: lece €comparativamente a menos sensivel de todas. E também que foi alcangada mais tarde. A tentativa de captar sua ver dadeira esséncia nlo pode ser realizada sem reconsttuir a his ‘ria de sua génese, por mais impenetravel que seja a obscu- ridade que cerca esse tema. A moderna grafologia ensinow- ‘nos a identificar na escrta manual imagens, ow antes, quebra- cabegas, que o inconsciente do seu autor nela deposita, E de supor que a faculdade mimética, assim manifestada na ativi- dade de quem escreve, foi extremamente importante para 0 ato de escrever nos tempos recuados em que a escrta Se ori finou, A escrita transformou-se assim, a0 lado da Tinguagem nal um arquivo desemelbancss, de cmrespondéncias extra: Essa dimensio — mégica, se se quser — da linguagem e dacserita nio se desenvolve isoladamente da outra dimensio, 2 semidtica. Todos os elementos miméticos da lingvagem Cconstituem uma intengdo fundada, ito 6, eles s6 podem vir a Juz sobre um fundamento que thes ¢ estranho, e esse funda- ‘mento nao é outro que a dimensio semi6tica e comunicativa, da lingvagem, O texto literal da eserita € 0 Ginico e exclusiva fundamento sobre o qual pode formar-se o quebra-cabeca. O contexto signficativo contido nos sons da frase é 0 fundo do ‘qual emerge o semethante, num instante, com a velocidade do relimpago. Mas, como essa semelhanga extra-sensivel esti presente em todo ato de leitura, abre-se nessa camada pro- funda o acesso ao extraordinario duplo sentido da palavra lei- ‘ura, em sua significagio profana e magica. O colegial Ié 0 abecedirio, e 0 astr6logo, o futuro contido nas estrelas. No primeiro exemplo, o ato de ler nfo se desdobra em seus dois componentes. O mesmo nio ocorre no segundo caso, que torna manifests os dois estratos da leitura: 0 astrologo 1é no céu a posicio dos astros e 1é ao mesmo tempo, nessa posiclo, futuro ou 0 destino. Se essa letura a partir dos astros, das visceras e dos aca- sos era para o primitiv sinénimo de leitura em eral, e se além disso exist ‘como foi o caso das runas, pode-se supor que o dom mimético, foutrora o fundamento da clarividéncia, migrou gradativ ‘mente, no decorrer dos milénios, para a linguagem e para a escrta, nelas produrindo um arquivo completo de semelhan- fas exira-sensiveis. Nessa perspectiva, a linguagem seria a mais alta aplicagio da faculdade mimética: um medium em ‘que as faculdades primitivas de percep¢a0 do semethante pe- netraram to completamente, que ela se converteu no medium fem que as coisas se encontram e se relacionam, no direta- mente, como antes, no espirito do vidente ou do sacerdote, ‘mas em suas essEncias, nas substincias mais fugazes e deli cadas, nos proprios aromas. Em outras palavras: a clar <éncia confiow a escrita e& linguagem as suas antigas foreas, no correr da hist6ri Porém o ritmo, a velocidade na leitura ena escrita, inse- pariveis desse processo, seriam como o esforgo, ov o dom, de fazer o espirito participar daquele segmento temporal no qual as semelbangas irrompem do fluxo das coisas, transitoria MAGIA ETRENICA, ARTE E POLITICA sguida. Assim, mesmo & mente, para desaparecet Asim men che taegrtana, ara sx compreenie ot eta deer aue sabes 4 wt {EDO mse Jaouaney um momento citeo qv 0 I" Por nese ego pe esquecer se ho quer air de mios Apéndice (© dom de ser semelhante, do qual dispomos, nada mais € {que um fraco residuo da violenta compulsio, a que estava su JBitoo homer, de tornar-sesemelhante ede age segundo ali ven comelhanga. Ea faculdade extinta de tornar-se semelhante {a muito além do estreito universo em que hoje podemos ainda Var as semelhanas. Foi a semelhanga que permitiu, h& mile- tins, que a posigao dos astros produisse efeitos sobre a exis- {Gnela humana no instante do nascimento, 1933

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