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O USO DO ATO VIOLENTO AMPARADO NA LEGÍTIMA DEFESA
Edson Mariano da SILVA RESUMO: Situações violentas que colocam em risco a vida supõem tomadas de decisões que implicam em determinados casos em duas possibilidades. A primeira e salvaguarda da vida e a segunda a morte do agressor. O ensinamento da Igreja concorda com o uso da legítima defesa, sem com isso favorecer situações que vão contra a dignidade da vida humana. Para isso é necessário adotar critérios para que a conduta seja ponderada e, de fato, legítima. A pessoa se vê obrigada a repelir a agressão para salvaguardar sua vida em casos onde o Estado não consegue atender a sua necessidade. Por fim, cuidar da vida é uma necessidade e um dever de todo cristão. PALAVRAS-CHAVE: Legítima defesa. Paz. Vida humana. Violência.

O direito à vida deve ser buscado e praticado em todas as circunstancias. Entretanto, qual posição tomar quando a própria vida esta sob sério risco provocado por outra pessoa? Como agir diante de uma situação dessas quando a consciência é permeada por ensinamentos e pensamentos cristãos que apontam em direção contrária aos meios violentos? O cristão1 deve levar uma vida em consonância com os ensinamentos do próprio Jesus Cristo. Portanto, o mandamento de amar o próximo como a nós mesmos, poderá esbarrar num verdadeiro dilema quando ocorre uma situação em que deverá escolher entre preservar sua vida ou tirar a vida de outrem. O ensinamento do Magistério da Igreja indica o dever de todos em relação o respeito e a preservação da vida humana, pois “a vida humana é sagrada porque desde sua origem ela encerra a ação criadora de Deus e permanece para sempre numa relação especial com o criador, seu único fim”2. 1 O DIREITO À PAZ E À VIDA
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Quando nos referimos a cristãos estamos nos dirigindo de modo mais acentuado aos cristãos católicos e aos ensinamentos da Igreja Católica Apostólica Romana. 2 CONGREGAÇÃO PARA DOUTRINA DA FÉ. Instrução sobre o respeito à vida nascente e a dignidade da procriação: respostas a algumas questões atuais (22-21987). 6 ed. São Paulo: Paulinas, 2009. n.5.

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Todo ser humano deve ser visto como pessoa, e desse modo ele tem direitos inalienáveis. Jamais se poderá perder de vista a importância que a vida humana traz consigo. É um dom gratuito dado pelo próprio Deus. Os Entretanto, no contexto atual, verificam-se alguns posicionamentos e práticas que atentam contra a vida do ser humano. Perde-se gradualmente o senso de responsabilidade pela vida humana. O Concílio Vaticano II nos alerta: “cada um respeite o próximo como ‘outro eu’, sem excetuar ninguém, levando em consideração antes de tudo sua vida e os meios necessários para mantê-la dignamente” (GS, 27). Nesse sentido, além de cuidar para que todos tenham vida, é necessário também cuidar para que esta mesma vida tenha as devidas condições de sobreviver com dignidade. Isto, é claro, não se limita a um ato superficial e insuficiente, mas antes, é preciso valorizar a pessoa como um todo. O CaIC, 2270, nos orienta da seguinte forma: “A vida humana deve ser respeitada e protegida de maneira absoluta a partir do momento da concepção. Desde o primeiro momento de sua existência, o ser humano deve ver reconhecidos seus direitos de pessoa, entre os quais o direito inviolável de todo ser inocente à vida”. No dia 10 de dezembro de 1948 nasceu a Declaração Universal dos Direitos Humanos. No seu terceiro artigo encontramos a afirmação de que “todo homem tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal”. O respeito de que se fala deve ser compreendido em uma dinâmica que possibilite a busca da fraternidade. O Catecismo da Igreja Católica em seu parágrafo 2205 faz a seguinte observação:
O respeito e o desenvolvimento da vida humana exigem a paz. A paz não é somente ausência de guerra e não se limita o equilíbrio das forças adversas. A paz não pode ser obtida na terra sem a salvaguarda dos bens das pessoas, sem a livre comunicação entre os seres humanos, o respeito pela dignidade das pessoas e dos povos, a prática assídua da fraternidade.

A paz é requisito indispensável para a vida humana. É impossível pensar em vida digna que não leve em consideração uma cultura de paz, tão almejada pela Igreja. A paz vai além de meros tratados internacionais. É preciso levar em consideração que “ela é fruto da vontade humana, portanto, não se pode pensar que ela seja alcançada de uma vez para sempre”3. Além do mais para implantar esse
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Paz. In: LEONE, Salvino (Coord.). Dicionário de Bioética. Aparecida: Santuário, 2001. p.808.

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tipo de cultura é necessário levar em conta alguns requisitos. Antes de tudo, a mentalidade de que todos somos responsáveis uns pelos outros na construção da paz.
A paz é um dever dos responsáveis pela sorte dos cidadãos; é-o igualmente de cada uma dos cidadãos do mundo, por isso mesmo que todos devem amar a Paz, todos devem contribuir para criar aquela mentalidade pública, aquela consciência comum que a torna desejável e possível. A Paz deve estar primeiramente nos espíritos, para poder verificar-se depois nos 4 acontecimentos .

Uma convivência tranquila e harmoniosa entre os seres humanos deve ser o grande ideal a ser buscado na sociedade. É preciso estar muito atento para não cair em falsas ideologias de paz, e favorecer situações violentas ou que ao menos promovam a violência. O papa Paulo VI faz a seguinte afirmação em um de seus discursos:
A violência torna-se moda e reveste-se até, por vezes, da couraça da justiça. Propaga-se como um costume, favorecido por todos os ingredientes da delinqüência traiçoeira e por todas as astúcias da vileza, da chantagem, da cumplicidade, e delineia-se como um espectro apocalíptico, armado de inauditos instrumentos de funesta destruição. Renascem os egoísmos coletivos, familiares, sociais, tribais, nacionais e racionais. O crime já não suscita horror. A crueldade torna-se fatal, como se fosse cirurgia de um ódio declarado legítimo. O genocídio apresenta-se como o monstro portador do 5 remédio radical” .

Diante de tais argumentos somos levados a crer que é preciso fortalecer as colunas das sociedades que foram corroídas pelo tempo e buscar meios que favoreçam uma mentalidade de paz e solidariedade. 2 A LEGÍTIMA DEFESA COMO FUNÇÃO DO ESTADO O Estado é primeiro que deve zelar pela integridade física das pessoas em seu território6. Esse fato na verdade “corresponde a uma exigência de tutela do bem

Paulo VI – A Paz é possível. A Paz é um dever, p.15, Vaticano, 8 de dezembro de 1968). Paulo VI – A Paz é possível. A Paz é um dever, p.43, Vaticano, 8 de dezembro de 1972. 6 Cf. FRIGINI, Ronaldo; FRIGINI, Ana Lúcia Ferreira. Segurança pública, justiça e sistema penitenciário. In: Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Temas da Doutrina Social: Projeto nacional de Evangelização: Queremos ver Jesus Caminho, Verdade e Vida. Brasília: CNBB, 2006. Caderno 3. p.112-113.
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comum7 o esforço do Estado destinado a conter a difusão de comportamentos lesivos aos direitos humanos e às regras fundamentais de convivência civil” (CaIC, 2266). Haja vista que “permanece para os Estados a obrigação de fazer todo o possível para garantir as condições de paz não apenas sobre o seu próprio território, mas em todo o mundo”8. Entretanto, é preciso estar atento para que o direito a legítima defesa não se torne desculpa para matar indiscriminadamente. Os responsáveis por salvaguardar a paz ao povo de seu Estado podem usar da argumentação do direito à legítima defesa somente para meios políticos. Nesse sentido ela perderá o seu sentido e se tornará em um massacre desumano e contrário ao princípio de paz. É necessário ter critérios estabelecidos. Em caso de guerra, por exemplo, “Qualquer ação bélica que visa à destruição indiscriminada de cidades inteiras ou de vastas regiões com seus habitantes, é um crime contra Deus e o próprio homem, a ser condenado com firmeza e sem hesitações” (GS, 80). Para possibilitar segurança e paz à sociedade o Estado conta com pessoas que se lançam na árdua tarefa de garantir isso a todos. Aqueles que prestam algum tipo de serviço relacionado com a segurança do povo são chamados a defender o bem, a verdade e a justiça9. Os responsáveis deverão observar que “se os meios incruentos bastarem para defender as vidas humanas contra o agressor e para proteger a ordem pública e a segurança das pessoas, a autoridade se limitará a esse meios” (CaIC, 2267). 3 LEGÍTIMA DEFESA: DIREITO E DEVER DE TODO SER HUMANO Luiz Antonio Bento descreve a legítima defesa como a possibilidade que uma pessoa tem de defender-se e que durante esse ato o agressor pode vir a morrer10. O Catecismo da Igreja Católica usa as palavras de Santo Tomás de Aquino para apontar a possibilidade de matar o agressor injusto do seguinte modo: “A ação de

Bem comum não é interesse geral, pois o interesse geral não distingue cada pessoa no grupo. Considera apenas o coletivo. 8 PONTIFICIO CONSELHO “JUSTIÇA E PAZ”. Compendio da Doutrina Social da Igreja. 4 ed Tradução Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). São Paulo: Paulinas, 2008. n.500. 9 Idem, n.502. 10 BENTO, Luis Antonio. Bioética: desafios éticos no debate contemporâneo. São Paulo: Paulinas, 2008, p.113.

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defender-se pode acarretar um duplo efeito: um é a conservação da vida, o outro é a morte do agressor... Só se quer o primeiro, o outro, não”11. Como podemos perceber, durante o ato de se defender poderá incorrer na morte do agressor, esse fato não poderá dar margem para interpretações errôneas. Com isso não significa que está liberado a matar indiscriminadamente. Ao contrário, a vida humana é sempre um bem que deve ser respeitado. Para ilustrar esse pensamento, lembramos novamente que o dever de garantir a segurança e a paz é função do Estado, porém ele nem sempre consegue realizar essa tarefa de modo eficaz. Várias formas e modos de violência podem atingir os indivíduos em suas particularidades cotidianas o que torna quase impossível uma proteção em todos os casos de violência. Ademais, há de se levar em conta que o Estado prioriza mais questões nacionais enquanto que o individuo está sujeito a situações particulares que exigem uma solução no momento do ato agressivo. A partir desse dado surge a necessidade de que cada pessoa se defenda do agressor injusto. O Catecismo da Igreja Católica no parágrafo 2265, afirma que “a legítima defesa pode não ser somente um direito, mas um dever grave”. Ainda mais, “Preservar o bem comum da sociedade exige que o agressor seja impossibilitado de prejudicar a outrem”. A legítima defesa esta relacionada com uma razão social, pois, ao menos um pouco de segurança constitui parte integrante do bem comum. Sendo assim, “observando a realidade humana, parece um pressuposto comprovado que a vida social se veria seriamente perturbada se os agressores soubessem que os agredidos careceriam de bases morais para responderem à agressão”12. No ato de se defender contra o agressor há determinados casos e situações em que se incorre na morte do agressor injusto13, o que segundo alguns “é um tema bem acolhido pela moral, desde que se mantenha dentro de certos limites. A morte do agressor injusto se justifica com base na legítima defesa”14.

Santo Tomás de Aquino, S. Th II-II,64,7, apud Caic, 2263. ORDUÑA, R. Rincón (et al). Práxis cristã II: opção pela vida e pelo amor. São Paulo: Paulinas, 1983, p.121. 13 Por agressor injusto entende-se como aquele que ataca uma pessoa, seus direitos ou seus bens sem motivo justificado (ORDUÑA, R. Rincón (et al). Práxis cristã II: opção pela vida e pelo amor. p.120. 14 ORDUÑA, R. Rincón (et al). Práxis cristã II: opção pela vida e pelo amor. p.119.
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4 CRITERIOS A SEREM SEGUIDOS PARA QUE HAJA LEGÍTIMA DEFESA O ensinamento cristão não é conivente com práticas violentas e

indiscriminadas, pois elas excluem o espírito de fraternidade tão sonhado pela Igreja. Também a legítima defesa não deve ser entendida como uma atualização da Lei do Talião15. Portanto,
Se alguém, para se defender, usar de violência mais do que o necessário, seu ato será ilícito. Mas, se a violência for repelida com medida, será licito... E não é necessário para salvação omitir este ato de comedida proteção para evitar matar o outro, porque, antes da de outrem, se esta obrigado a cuidar da própria vida (CaIC, 2265).

Segundo Bento16, a legítima defesa deve atender a três condições: a) que a agressão seja “injusta” e “em ato”: tem de ser imediata, no momento; b) que haja, na reação, o uso da força mínima para afastar o agressor; c) que o prejuízo causado ao agressor seja proporcional ao juízo que se queira evitar. Outros autores ainda acrescentam que para que haja legítima defesa é necessário levar em consideração alguns critérios: que haja de fato uma necessidade; que haja ausência de más intenções e que haja proporção entre os bens ameaçados pelo agressor e a contundência da resposta17. É preciso agir com prudência e responsabilidade e sempre valorizar a vida como dom de Deus. “É preocupante a excessiva facilidade com que se subordina uma vida humana à conservação de bens materiais. O que revela uma desvalorização da vida”18. CONSIDERAÇÕES FINAIS O Estado é o primeiro que deverá garantir meios de segurança e sobrevivência a seu povo. Contudo, não podemos ficar de braços cruzados. Devemos promover uma cultura que favoreça a paz e a solidariedade entre as pessoas. Sempre que houver possibilidades valorizar atitudes que valorizem a vida
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Entendida como conjunto de Normas jurídicas de antigas civilizações, que consistia em vingar o delito impondo ao delinquente uma pena ou dano igual ao causado por ele. Expressa até hoje no dito popular "olho por olho, dente por dente". 16 BENTO, Luis Antonio. Bioética: desafios éticos no debate contemporâneo. p.115. 17 ORDUÑA, R. Rincón (et al). Práxis cristã II: opção pela vida e pelo amor. p.120-121. 18 Idem, p.121.

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humana. Jamais devemos concordar com modelos culturais que produzam a morte ou que vão contra a paz. A promoção da paz também é de ver de todos, ainda mais ao considerá-la como vontade humana. A “violência” só será legitimada quando a vida estiver correndo grave perigo de morte. Jamais poderemos atentar contra uma vida humana amparados puramente em desejos mesquinhos e individualistas. Caso os meios não violentos bastarem para salvaguardar à vida deve-se sempre optar por eles. REFERÊNCIAS BENTO, Luis Antonio. Bioética: desafios éticos no debate contemporâneo. São Paulo: Paulinas, 2008, 426 p. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Edição Típica Vaticana. São Paulo: Loyola, 1999. 937 p. CONCÍLIO VATICANO II, Constituição Pastoral Gaudium et Spes sobre a Igreja no mundo de hoje (7-12-1965). 15 ed. Petrópolis: Vozes, 1982. p. 143-256 CONGREGAÇÃO PARA DOUTRINA DA FÉ. Instrução sobre o respeito à vida nascente e a dignidade da procriação: respostas a algumas questões atuais (222-1987). 6 ed. São Paulo: Paulinas, 2009. 61 p. FRIGINI, Ronaldo; FRIGINI, Ana Lúcia Ferreira. Segurança pública, justiça e sistema penitenciário. In: Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Temas da Doutrina Social: Projeto nacional de Evangelização: Queremos ver Jesus Caminho, Verdade e Vida. Brasília: CNBB, 2006. Caderno 3. 230 p. ORDUÑA, R. Rincón (et al). Práxis cristã II: opção pela vida e pelo amor. São Paulo: Paulinas, 1983, 442 p. Paz. In: LEONE, Salvino (Coord.). Dicionário de Bioética. Aparecida: Santuário, 2001. 1162 p. PAULO VI. A Paz é possível. A Paz é um dever. As 10 mensagens para o Dia Mundial da Paz. Petrópolis: Vozes, 1987. Documentos Pontifícios, n.215. 103 p. PONTIFICIO CONSELHO “JUSTIÇA E PAZ”. Compendio da Doutrina Social da Igreja. 4 ed Tradução Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). São Paulo: Paulinas, 2008. 528 p.

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GLOSSÁRIO Bem comum: Conjunto de condições sociais que permitem e favorecem às pessoas o desenvolvimento integral da personalidade. Paz: Condição político-social inerente aos países e povos que buscam criar e manter um estado de espírito contrário a qualquer forma de conflito armado. Agressor Injusto: Aquele que ataca uma pessoa, seus direitos ou seus bens sem motivo justificado Bélico: concernente à guerra ou ao belicismo (doutrina ou tendência que advoga a guerra ou o armamentismo) Ato indiscriminado: Aquele que é praticado sem distinção ou ordem; que de certo modo é incontrolado e confuso