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REVISTA LUMEN ET VIRTUS ISSN 2177-2789 VOL.

II Nº 4 MAIO/2011

 

OS IDEAIS DE IGUALDADE,  FRATERNIDADE E LIBERDADE NA  PRÁTICA DEMOCRÁTICA:   ENTRE ROUSSEAU E HABERMAS  
Renato de Almeida Vieira e Silva http://lattes.cnpq.br/0524756060525155

Rousseau foi quem melhor definiu o ideal da democracia, que hoje está em conflito com as democracias reais: uma sociedade só é democrática quando ninguém for tão rico que possa comprar alguém e ninguém seja tão pobre que tenha de se vender a alguém. Boaventura de Souza Santos 121 

RESUMO – A democracia,como forma de organização e participação, tornou-se pouco a pouco um processo referencial de construção das sociedades e países, caracterizando-se por seu universalismo e aceitação. Esse processo consagrado traz em sua essência a possibilidade de diferentes leituras e de eventuais conflitos de interpretação na sua aplicação, tornando-o dinâmico e ao mesmo tempo controverso. Através desse trabalho exponho as bases referenciais da democracia moderna a partir dos ideais propostos por Rousseau e as reflexões contemporâneas de Habermas, inserindo-os no contexto de um mundo complexo, multicultural e de sociedades plurais. PALAVRAS-CHAVE – democracia, poder, ideal, representação, pluralidade, consenso   ABSTRACT – La démocratie comme une forme d'organisation et de participation, est devenu progressivement un processus de construction et de réference des sociétés et des pays, caractérisé par son universalisme et l'acceptation. Ce processus inscrit dans l'essence apporte la possibilité d'interprétations différentes et d'éventuels conflits d'interprétation dans leur application, ce que rend a ce processus un caractère dynamique et au même temps controversée. Grâce à ce travail j’expose les fonde ments de la démocratie moderne repères des idéaux proposés par Rousseau et les réflexions contemporaines de Habermas, en les insérant dans le contexte d'unesociété complexe, multiculturelle et pluraliste. MOTS-CLÉS – démocratie, pouvoir, idéel , représentation, pluralisme, consensus

Renato de Almeida Vieira e Silva

 

política e financeira. as quais introduziram mudanças importantes no pensamento europeu a partir do século XVII. salvaguardas e benefícios que estavam muito acima da capacidade da sociedade em sustentar. que trouxe profundas mudanças nas estruturas sociais. Essa estrutura social praticamente dividia a população em três segmentos. o encargo de manter os gastos da parcela privilegiada. Esse movimento cultural. Os iluministas caracterizavam-se pela importância que davam à razão. sociais e políticas que davam sustentação ao poder absoluto dos reis. em toda a Europa. de outro. em decorrência das transformações econômicas e sociais trazidas pela Revolução Industrial. Restava ao terceiro estado. as quais produziram os elementos que 122  vieram a resultar na Revolução Francesa. ficou conhecido como Iluminismo ou Século das Luzes. econômicas e políticas do país. a acumulação de privilégios pela aristocracia e à forte influência política da Igreja Católica. encabeçando a hierarquia social do país. Reconheciam que somente por meio do racionalismo. dentro de uma sociedade profundamente desigual. O Iluminismo por sua vez.REVISTA LUMEN ET VIRTUS ISSN 2177-2789 VOL. proporcionou a necessária inquietude. sendo que os dois primeiros – representados pela nobreza e pelo clero católico – detinham poder. econômica. a nobreza e o clero. Por um lado havia a monarquia. As ideias iluministas influenciaram movimentos revolucionários que visavam mudanças nas estruturas econômicas. surgiu na Inglaterra. II Nº 4 MAIO/2011   Introdução O período que antecede a denominada Revolução Francesa foi marcado por graves problemas internos na sociedade francesa nas áreas social. As ideias econômicas defendiam a prática da livre iniciativa. sobretudo a partir da propagação dos ideais iluministas. a nascente burguesia e a grande população que vivia dos campos trabalhando em sua maioria em terras pertencentes à nobreza. A crise que se estabeleceu em decorrência dessas mudanças foi acompanhada por um conjunto de novas ideias filosóficas e econômicas que defendiam a liberdade de pensamento e a igualdade de todos os homens perante as leis. político e filosófico que aconteceu entre os séculos XVII e XVII. afirmavam ser possível compreender perfeitamente os Renato de Almeida Vieira e Silva   . acompanhada de manifestações. constituiu um processo que se desenvolveu ao longo de mais de um século. recursos. representando por camponeses e a burguesia ascendente. Esse estado de coisas. sobretudo na França. sustentadas em seus direitos e privilégios e.

o Iluminismo foi um processo longo do qual as transformações culturais então iniciadas influenciaram importantes movimentos que resultaram na Independência Americana . O Iluminismo e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão Pela filosofia iluminista. Esse processo histórico constituiu um divisor de águas entre o poder absolutista da monarquia e representa a transformação política da Europa moderna. independente de classe social.. tendo Rousseau como um dos seus principais mentores. projetos políticos . Dessa forma. na Inconfidência Mineira e na Revolução Francesa. com indivíduos iguais e livres. ao absolutismo do rei e dos privilégios dados à nobreza e ao clero. na França. em 1789. do ensino público . Defendiam a democracia.REVISTA LUMEN ET VIRTUS ISSN 2177-2789 VOL. à propriedade e á liberdade religiosa e de expressão. surgiu em meio às grandes transformações resultantes da Revolução Francesa. fraternidade e liberdade. A fraternidade se estabelece quando existe de fato uma comunidade politicamente solidária. existia a crença de que se todos os cidadãos fizessem parte uma sociedade mais justa. Renato de Almeida Vieira e Silva   .consagrou os ideais liberais e burgueses extraídos do Iluminismo. o homem tinha em sua constituição natural a bondade. a ruptura com o poder real significou transformações sociais e políticas que redundaram na reorganização das relações entre as várias camadas da sociedade da época . eles tiveram papel importante na criação do ideário contrário ás imposições de caráter religioso. Nesse sentido. Na verdade. cuja síntese resultou em três princípios básicos: igualdade. Por esta razão. credo. o direito à vida. raça e outras características que poderiam diferenciá-los. A maioria dos regimes denominados democráticos se baseiam nos ideais preconizados pela Revolução Francesa. A liberdade é em geral interpretada como a não interferência da autoridade na esfera dos interesses privados. Essa tríade do pensamento. de onde emergiu a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. porém sofria com o tempo dos efeitos corruptores da sociedade em que vivia. E a igualdade seria a ausência de privilégios entre os cidadãos. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão . II Nº 4 MAIO/2011   fenômenos naturais e sociais. do 123  sufrágio e do voto como exercícios de cidadania. tais como a igualdade perante a lei. com igualdade de direitos. a partir da criação de mecanismos legais e códigos. o bem e felicidade comum seriam alcançados. o liberalismo econômico e a liberdade religiosa e de pensamento. às práticas mercantilistas.

Percebe-se nessa forma de interpretação de Rousseau. a formulação de um poder popular pressupõe a existência de um povo e da 124  deliberação pública. as distinções sociais não podem ser fundadas senão sobre a utilidade comum”. denotando certa inflexibilidade sobre seu questionamento e Renato de Almeida Vieira e Silva   . que ajudaram a criar as bases do Estado democrático e uma nova ordem social. antes mesmo do ato pelo qual se elege um governante. sem os vícios que marcam o seu relacionamento no ambiente social. ressaltando em suas obras o papel da democracia. Discorreu o filósofo igualmente em sua obra sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. Tornou-se um crítico do absolutismo na França. à qual passam a prestar obediência mediante o respeito á vontade geral”. com que rigor foi colocada a imposição e aplicação das leis. Nessa obra. que se tornou um dos principais formuladores da então revolucionária ideia do povo como origem legítima do governo. surgindo daí a sua tese do homem natural. Por outro lado concluiu que somente um contrato tácito e livremente aceito por todos permite cada um ligar-se ao todo. Nesse ambiente tão propício surgem propostas substantivas pela igualdade de direitos. sendo esse o verdadeiro fundamento da sociedade. A desigualdade surge do mal governo entre os homens em sociedade. retendo a sua livre vontade. O homem no seu estado natural para ele é igual. Para Rousseau o contrato social é “uma livre associação de seres humanos inteligentes de deliberadamente resolver formar um certo tipo de sociedade. que não foi corrompido pela sociedade e. a Declaração francesa já enunciava princípios universais que viriam a ser repetidos em futuras legislações de períodos seguintes “Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos.REVISTA LUMEN ET VIRTUS ISSN 2177-2789 VOL. O pensamento de Rousseau A somatória de ideias e eventos egressos do espírito iluminista criou um pano de fundo para os acontecimentos que marcariam a obra de Jean-Jacques Rousseau.sendo que obedecer uma lei auto-imposta é liberdade. por ele interpretada como a aplicação das leis para todos e acima das quais nada pode se opor. através da publicação da obra Contrato Social. pensador de origem suíça. portanto. apoiados nas ideias iluministas que dominou o cenário europeu durante dois séculos e que até hoje produz efeitos sobre a construção dos processo democráticos existentes em todo o mundo. II Nº 4 MAIO/2011   Em seu artigo 1º. A liberdade estaria na lei livremente aceita.

são: a democracia majoritária e a democracia consensual O modelo majoritário tem como essência o reconhecimento dos anseios da maior parte dos representados e por isso apresenta um grande apelo por aproximar-se do ideal democrático do “governo pelo povo e para o povo”. de liberdade e de segurança. hoje já mais influenciado pela velocidade das transformações das sociedades. Por outro lado a democracia também sofreu influência da complexidade das transformações históricas. tende-se à aprovação das propostas por um percentual denominado maioria simples. 18). fundamentando-se em diferentes modelos teóricos e diferentes correntes de pensamento. A democracia ganhou corpo e substância durante o século XX.REVISTA LUMEN ET VIRTUS ISSN 2177-2789 VOL. Em geral. passando por altos e baixos na sua aplicação. René Descartes. ainda servem de referência para o jornalismo moderno. independentes de qualquer fato ou circunstância histórica. Deles podem-se enumerar o direito á vida. é resultado de um longo caminho que conta mais de dois milênios. nesse caso . A informação e a livre manifestação de ideias romperam com séculos de dominação soberana e foram precursoras das formas hoje conhecidas de divulgação de diferentes correntes de ver e de pensar e dos meios de comunicação de massa. 125  A democracia como modelo A consagração da democracia como princípio norteador de parte substancial das nações de maior influência no contexto global e sinônimo de legitimidade do exercício do poder político . poderia fornecer algo verdadeiro ao crescimento do ser humano. ou primários. de acordo com a classificação proposta por Lijphart (2008. p. até certa forma mitificados. ao nascer livre e igual. pelas práticas de consumo e tecnologias da informação. As duas correntes predominantes. O pensamento de Rousseau foi precursor dos chamados direitos fundamentais. Esse aspecto o faz próximo do pensamento de um dos maiores expoentes do racionalismo. dos regimes políticos que se sucederam e das múltiplas possibilidades que se abriram nos contextos das sociedades politicamente organizadas. ao direito de propriedade. Renato de Almeida Vieira e Silva   . Também resulta dessa mesma época a defesa da manifestação da opinião pública como forma de exercer a democracia em contraponto ao poder absolutista vigente. II Nº 4 MAIO/2011   reavaliação. Esses princípios básicos e. para quem apenas a razão e só ela. em função dos quais decorrem todos os outros.

(THOMPSON. a seu ver.1999. uma vontade coletiva.220) 126  A construção de sociedades democráticas não é tarefa das mais simples. Por isso não existe uma única fórmula ou processo referencial no qual possam se espelhar todas as sociedades. já que passa pela criação de processos por vezes ousados e ao mesmo tempo realizáveis para que se tornem práticos e reconhecidos. ele pressupões que certa igualdade social entre os participantes. p . O pensamento de Habermas O principal eixo das discussões do filósofo alemão é a crítica ao tecnicismo e ao cientificismo que.REVISTA LUMEN ET VIRTUS ISSN 2177-2789 VOL. Segundo . ele dificilmente consegue resolver os dilemas da política democrática da idade moderna. reduziam todo o conhecimento humano ao domínio da técnica e ao Renato de Almeida Vieira e Silva   . tais como quem governará e como governará.Tenta-se dessa forma o compartilhamento. observa Thompson: Apesar do inestimável apelo moral que o modelo de democracia direta e participativa suscita. Em resumo . Sobre esses aspectos. O processo democrático é em si fragmentado. A democracia poderia ser definida simplesmente como o governo pelo povo e para o povo. abrindo as regras e as instituições à maior participação. questionar os dos outros . Por essa construção desigual. a dispersão e a limitação do poder nas mais variadas partes possíveis. Tal modelo pressupõe certas condições sociais e simbólicas que raramente se verificam nas circunstâncias em que são tomadas as decisões hoje. cabendo diferentes entendimentos em suas práticas e formas de se estabelecer no imenso caleidoscópio que se constitui a sociedade das nações no mundo. vindo em seguida algumas questões fundamentais. argumentar e chegar a um juízo formado discursivamente. mas propaga no entanto que a participação da maioria seja ao máximo estendida de maneira a captar os anseios da população . II Nº 4 MAIO/2011   Já o modelo consensual não diverge muito do majoritário. apenas alguns princípios gerais já detalhados anteriormente. tendo os interesses majoritários como prioridades a ser atendidas. ele pressupõe um processo de diálogo através do qual os indivíduos sejam capazes de expressar seus pontos de vista. Ele pressupõe primeiro um local compartilhado no qual os indivíduos possam se reunir para discutir temas de interesse comum. o modelo pressupões um processo de comunicação dialógica entre indivíduos de condições sociais mais ou menos iguais que se reúnem para formar através da argumentação e do debate . Terceiro. o exercício da democracia sujeita-se a contradições e questionamentos nas suas formas de participação e de exercício do consenso.

Por fim. portanto técnico. Em sua teoria. as comunicações estabelecidas entre as pessoas são mediadas por atos de fala e são mediadas por três mundos: o mundo objetivo das coisas. As relações entre eles . organizam-se em sociedade e procuram o consenso de forma não coercitiva. Elas definem as expectativas entre os membros do grupo. carências e medos . Também introduziu uma nova visão das relações entre a linguagem e a sociedade. no qual as pessoas interagem através da linguagem. A legitimidade da ação comunicativa passa a ser alcançada apenas pela racionalidade meio-fim. A linguagem ocupa um importante papel para a coordenação das ações e para as avaliações éticas. II Nº 4 MAIO/2011   modelo científico. as pessoas coordenam suas ações à medida que interagem. Através dela. Habermas sugere um modelo ideal de ação comunicativa. as quais são do conhecimento coletivo. considerada sua obra mais importante. vem a interação orientada pelas normas sociais. Habermas procurou mostrar que os ideais de verdade. o filósofo faz uma descrição do contexto social necessário à democracia. Em seguida . estariam presentes nas interações sociais entre os indivíduos. de 1962. limitando o campo de atuação da razão humana ao conhecimento objetivo e prático. aborda o fundamento da legitimidade da autoridade política como o consenso e a discussão racional. o mundo social das normas e instituições e o mundo subjetivo das vivências e dos sentimentos. liberdade e justiça poderiam inscrever-se nas estruturas da fala cotidiana. as interações entre as pessoas mostram suas experiências . Dessa interação e compartilhamento do mundo objetivo e . de direitos fundamentais. 127  Primeiramente. e esclarece fundamentos da lei.REVISTA LUMEN ET VIRTUS ISSN 2177-2789 VOL. Delas resulta o reconhecimento inter-sujeitos e o consenso de valor. intenções. Renato de Almeida Vieira e Silva   . podendo gerar sanções em caso de violação. mas pela argumentação em função de princípios reconhecidos e validados pelo grupo. podem surgir o sucesso ou não de suas ações conjuntas. dando maior veracidade às suas manifestações e ações. as quais pré-existem ou são criadas durante a interação. publicado em 1996. de maneira que tornam mais transparente a interioridade dos indivíduos . bem como uma crítica ao papel da lei e do Estado. Em "Entre Fatos e Normas". Em "A Transformação Estrutural da Esfera Pública". mesmo que não igualitárias . quando publicou a “Teoria da Ação Comunicativa” .

possivelmente afetados. Do ponto de vista liberal . destaca essencialmente a noção de legitimidade das decisões políticas que demandem a inclusão de todos os indivíduos. portanto. independente da sua formulação. independente das teorias políticas e ideologias. no processo público de sua formulação. Do ponto de vista do exercício democrático. o mesmo. Os processos mais avançados de democracia já admitem que a resolução de muitos problemas passa pela incorporação dos elementos subjetivos e a elevação do cidadão como categoria central. vivendo juntos com um mínimo de rivalidade e conflito.REVISTA LUMEN ET VIRTUS ISSN 2177-2789 VOL. As normas e as decisões políticas só podem legitimarem-se em decorrência de poderem ser questionadas e aceitas no discurso de entre cidadãos livres e iguais. Os desafios da democracia e a proposta de Habermas A ideia de democracia deliberativa. a proteção do Estado . incorporando-se igualmente a possibilidade de formação da opinião e da vontade públicas através da prática do discurso político. a qual serviu à formulação das alternativas democráticas liberal e republicana de organização e participação. as questões 128  normativas são respeitadas . existe a definição estatutária da cidadania. Habermas pressupõe que as instituições devem estar organizadas e estruturadas de maneira que o discurso possa surgir como forma de resolução dos conflitos surgidos das quebras pactuais ou dificuldades de comunicação das comunidades. Através da argumentação permite-se o acordo entre os indivíduos. O modelo de democracia deliberativa defendido por Harbermas distancia-se da visão centrada no Estado . As democracias também passam por crises e desconfianças face à competência com que suas instituições são ou não capazes de resolver os conflitos e impasses decorrentes da própria evolução das sociedades. o processo de comunicação visa o entendimento mútuo e constitui-se a base de toda a interação. desenvolvida por diversos teóricos contemporâneos. Uma das questões mais relevantes nesse campo é como alcançar a unidade apesar das diferenças. além do esforço do exercício da tolerância. Através do modelo republicano . O ponto central é. seus direitos e limites previstos em lei. a validação das proposições e a legitimidade normativa. conciliar as identidades coletivas em relação ao papel exigido do cidadão ? Bauman destaca que o sonho de uma república e de democracia parece a melhor solução para o convívio humano. II Nº 4 MAIO/2011   Assim. O discurso daí resultante pressupõe a interação entre as pessoas. incluindo o próprio Habermas. a participação dos agentes e a simetria na comunicação. Renato de Almeida Vieira e Silva   .

uma decisão coletiva. nos momentos das eleições. e. a questão da “esfera pública” desempenha um papel crucial no modelo democrático deliberativo. ganha uma centralidade política da qual não gozava em outros modelos teóricos.julgamentos e ouvir os argumentos dos demais. II Nº 4 MAIO/2011   Desse modo. Renato de Almeida Vieira e Silva   . por isso. Pode-se dizer. à disputa eleitoral. O desenvolvimento do conceito de “esfera pública” representou inegável contribuição para os debates sobre a democracia abrindo espaço para discussões sobre os próprios conceitos de democracia até hoje vigentes. Reconhecendo o fato básico do pluralismo. atenuando ideias e discussões emanadas pelos primeiros teóricos da Escola de Frankfurt que não enxergavam tal possibilidade dentro do próprio processo evolutivo do exercício democrático. 129  Os espaços públicos – sejam eles físicos ou virtuais – se caracterizam como o local onde são discutidas as questões públicas. os defensores da democracia deliberativa sustentam.REVISTA LUMEN ET VIRTUS ISSN 2177-2789 VOL. Permitiu ainda que houvesse a revitalização do debate democrático e sobre o exercício racional dos cidadãos por meio do processo público de tomada de decisões. ao final. na medida em que é nesse espaço que se dão os processos argumentativos entre os indivíduos. opiniões. de modo direto. acerca das questões comuns à comunidade. que apenas o envolvimento e a participação de todos os atores interessados e possivelmente afetados por determinadas questões e problemas coletivos pode garantir a legitimidade e a justiça do processo público de tomada de decisões. ainda. nesse sentido. ao lado do republicanismo e do pluralismo. Isto porque as questões coletivas devem ser objeto de apreciação e decisão por parte de todos. a teoria da democracia vinculada ao conceito de esfera pública forneceu um suporte analítico diferenciado para a discussão sobre o bem comum e os rumos da comunidade política. pois dele participam sujeitos que não necessariamente estão ligados. a fim de alcançarem. consensual ou não. publicamente. que eles são mais abertos e inclusivos. que procuram expor. de um corpo de técnicos ou de uma elite política eleita. os teóricos deliberativos sustentam que o exercício da cidadania estende-se para além da mera participação no processo eleitoral. Desse modo. apenas. já que os debates são contínuos e não ocorrem. eles transcendem o processo político-eleitoral. exigindo o engajamento num processo contínuo de discussão e crítica reflexiva das normas e valores que orientam a coletividade. a quem se atribui o poder exclusivo de deliberação. Por isso. os diretamente interessados e não apenas de uma burocracia especializada. as suas razões. que interessam à coletividade. A comunicação cotidiana.

Nesse caso. se desenvolver. solidificação. a partir dela. dentro dessa perspectiva. Nesse caso. A ideia de democracia é. O significado de cidadania sofre transformações e tem sido destituído de seus antigos dogmas. A complexidade do mundo e os processos democráticos Os debates sobre o pluralismo e o multiculturalismo fortaleceram a aprimoraram as investigações sobre os tipos de democracia que melhor se enquadram às novas demandas globais. o princípio democrático indica o processo a partir do qual esses novos anseios se estabelecem e os mais diversos interesses são permitidos de maneira a possuir um mesmo peso. Diante da nova conjuntura das sociedades complexas. Este valor se constrói pautado nas diferenças que são frequentemente transformadas a partir da construção. abrindo nova concepção do exercício da política de forma emancipada e sob outra configuração. a democracia é considerada como o único caminho para que Renato de Almeida Vieira e Silva   . da existência de um procedimento democrático para que ele possa ser estabelecido. por assim dizer. A diversidade cultural existente e a heterogeneidade dos mais diversos sistemas políticos dependem. Outros agentes e alternativas se sucedem e o espaço político deixa de ser entendido apenas como a esfera da disputa entre facções e autointeressada pelo poder ou como o local de exercício de dominação. Uma sociedade que permite a pluralidade como fonte da própria existência saudável de um novo conceito de sociedade. como também na esfera internacional. tradicionalmente endossados e dirigidos por instituições do Estado-nação. paradoxalmente. o processo democrático pode ser compreendido como um valor não somente importante.REVISTA LUMEN ET VIRTUS ISSN 2177-2789 VOL. Desta forma. 130  levando em conta as novas estruturas e reivindicações políticas. mas essencial para se alcançar uma sociedade plural e. o qual se fragmenta progressivamente nas modernas sociedades. portanto. defesa do pluralismo e. Pode-se dizer que os problemas em torno das sociedades complexas e do mundo composto de múltiplas civilizações levaram à procura por uma nova configuração das relações sócio-culturais. compreendida como um valor pelo qual as sociedades que almejam um maior grau de justiça e igualdade deveriam apelar e. II Nº 4 MAIO/2011   Essa concepção de democracia distancia-se dos pressupostos das teorias que tinham na elite o controle e exercício do poder . para avançar em direção ao conceito de deliberação coletiva. diante da construção de uma unidade composta por igualdade e respeito mútuo apregoado pelos direitos humanos. nos planos internos . justa. a democracia sempre sinalizou como a melhor maneira de se conquistar um ideal de sociedade.

possam se aperfeiçoar continuamente. A politização do cotidiano trazida pela experiência revolucionária aflorou o debate em torno da tomada das decisões. Por fim. mesmo decorridos mais de dois séculos. Considerações finais Os ideais democráticos de Rousseau e alguns dos princípios emanados pela Revolução Francesa encontram ainda hoje representações teórico-práticas. os conflitos entre julgamentos morais e políticos que se formam na democracia não são tidos como um problema. por seu caráter inovador e pelas formas de criação simbólicas e de práticas políticas . como também para a história Renato de Almeida Vieira e Silva   . por suas conseqüências imediatas naquele período. o processo deliberativo permite aos sujeitos nele envolvidos que alterem suas preferências. 131  Por isso. deixando sempre em aberta a possibilidade de revisão dos princípios morais e políticos. criando uma nova linguagem em torno desse ideário de renovação. Desta forma. encontrassem maior poder deliberativo no espaço público. Ou seja. mas como parte fundamental para a busca entre a convergência nessas esferas e no espaço público. A política ganhou maior peso na vida das sociedades. ele avança em relação ao processo de mera agregação de preferências ou à negociação estratégica. mais que isso. II Nº 4 MAIO/2011   essas novas exigências de interesses e conflitos se construam. sobretudo as mais baixas . O republicanismo democrático é considerado o mais importante legado da revolução Francesa. submetam suas razões ao julgamento público e se deixem convencer pelos argumentos dos demais.REVISTA LUMEN ET VIRTUS ISSN 2177-2789 VOL. é tido como um fator positivo. o espaço deliberativo oferece aos indivíduos e grupos a oportunidade de confrontarem seus argumentos com aqueles oferecidos pelos demais interessados na questão e assim se convencerem. Alguns costumes do passado foram pouco a pouco deixados e novas formas de organização e participação foram surgindo. da legitimidade de suas demandas ou da necessidade de se implementarem as ações reivindicadas pelos outros. nesse aspecto. que privilegiam os interesses pessoais. fazendo com que a mobilização de diferentes camadas da sociedade. até então hierarquizadas em papéis previsíveis e com baixa participação nas decisões. justiça e aceitabilidade moral da decisão que virá por consequência. O modelo do conflito. ou não. se legitimem e. os argumentos auto-interessados. além de considerar a importância que este efeito traz para a própria formulação de pluralidade. em detrimento da razoabilidade. uma vez que determina a própria concepção do dinamismo.

1987. essa esfera da igualdade exige uma sensibilidade maior na estruturação política. Para que cada pessoa possa se sentir livre para desempenhar o seu papel no mundo. A liberdade pessoal é por si um valor essencial e que deve ser garantido para que se desenvolva uma sociedade equilibrada e ao mesmo tempo aberta á participação de todos aqueles que a compõem. um valor em si mesmo. Isto quer dizer que. passa a ser traduzido como um Renato de Almeida Vieira e Silva   .. o mais importante é o que está no cerne dos anseios das sociedades atuais. (. p. A democracia deve reconhecer e permitir que cada um dos cidadãos seja considerado um elemento único. tais como o marxismo e o socialismo (HUNT. é preciso que a democracia passe a ser revestida de um caráter mais substantivo e não apenas formal. incluindo correntes e movimentos de forte participação social . O discurso em favor da democracia. a democracia deve se mostrar pronta a responder às demandas das sociedades contemporâneas cada vez mais complexas. podendo desfrutar de uma igualdade e dignidade no que se refere à liberdade pessoal. Deve sinalizar os caminhos que permitam a seus participantes desenvolverem suas capacidades e expressarem suas vontades mais autênticas e muito próximas às suas histórias de vida. E desta forma. 132  Aquilo que formam as suas próprias identificações como pessoas integrantes do mundo. Uma estrutura política formada por e a partir de relações sociais. 2007. Relações sociais estabelecidas por seres humanos formados pelas suas psicologias próprias e histórias de vida que lhe são caras e indispensáveis para suas identidades pessoais. na expressão de Kant. o mundo da vida aparece como um reservatório de um conhecimento tido como dado.. na verdade. o ideal de uma sociedade democrática deve se preocupar em não inibir que seus participantes possam exercer aquilo que lhes são próprios. 124) Para que esses elementos sejam preservados. Para que isso ocorra. p.REVISTA LUMEN ET VIRTUS ISSN 2177-2789 VOL. de convicções sólidas das quais os participantes em comunicação se servem em processos cooperativos de interpretação. II Nº 4 MAIO/2011   moderna que se sucedeu no longo prazo. 260).) O mundo da vida é representado por um estoque de modelos interpretativos transmitidos culturalmente e organizados linguisticamente. Nesse aspecto. independente da democracia ser um processo instrumentalizado para se alcançar finalidades traçadas pelos seres humanos. ainda que emergidos nas identidades culturais que os compõem. cujo valor é-lhe intrínseco e que possui.” (HABERMAS. Surge cada vez mais a necessidade da coexistência equilibrada e justa entre os diferentes atores sociais.

Arend. 1789. Eric. II Nº 4 MAIO/2011   discurso em busca de um princípio moral que satisfaça e sustente a igualdade e existência das mais diversas formas de vida e formas de expressão e de participação. Petrópolis. THOMAS. São Paulo. ou até mesmo exigir. Renato de Almeida Vieira e Silva   . A Teoria da Ação Comunicativa. O Diálogo entre Culturas. 4. A Inclusão do Outro. o discurso moral torna-se elemento fundamental no contexto do discurso político de todos aqueles que vislumbram a construção de uma sociedade plural e que possa ser considerada melhor para se viver. 2008. São Paulo. No entanto fica ainda a dúvida até que ponto podemos transformar. São Paulo. J.jhtm. B. Neil. 2008 ROUSSEAU.com.html. Rio de Janeiro. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Biografia Jürgen Habermas in educacao. THOMPSON.br/declaração-dedireitos-do-homem-e-do-cidadão-1789. Beacon Press. Modelos de Democracia. que o discurso moral e democrático possa ser aplicado e aceito como modelo de aplicação universal nas mais diferentes sociedades. Rio de Janeiro.br/biografias/ult1789u391. 2002 HUNTINGTON. 2009. Do Contrato Social. in www. 2008. Zahar. 1993. Identidade. São Paulo. acessado em 10/01/2010 133  HABERMAS. Rio de Janeiro.J. Rio de Janeiro. 1987 – Tradução para fins acadêmicos de Angela Cristina Salgueiro Marques História Viva: Idade Contemporânea.usp. Jürgen.B. Larousse. Abril. Cia das Letras. François.uol. Duetto. ZYGMUNT. A Mídia e a Modernidade.direitoshumanos. Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. acesso em 10/01/2010. Tempos Interessantes. Objetiva. J. São Paulo. 2009. LIJPHART. Zahar. Samuel P.REVISTA LUMEN ET VIRTUS ISSN 2177-2789 VOL. 2004 __________________. JULIEN . Assim. Loyola. O Choque de Civilizações. Civilização Brasileira. 2004. vol. Seja fluente na cultura e no modo de vida da França. HOBSBAUM. 1999. Vozes.