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O ESTADO DE S. PAULO

SÁBADO, 5 DE FEVEREIRO DE 2011

sabático S5

Resenhas
PROLEGÔMENOS PARA UMA ONTOLOGIA DO SER SOCIAL Autor: György Lukács Tradução: Rodnei Nascimento e Lya Luft Editora: Boitempo (416 págs., R$ 58)

GUIA PARA REFLETIR SOBRE UMA ERA
Traduzido pela primeira vez no Brasil, projeto final de György Lukács reexamina o pensamento de Marx
REPRODUÇÃO

FAUSTO PENTEADO

A

amplitude de pensamento e a clarividência dos grandes gênios faz com que eles já “nasçam póstumos”. Desta forma, raramente são reconhecidos e, sobretudo, compreendidos em vida. Quando não raro, suas ideias são apropriadas e incorporadas aos discursos tirânicos dos mais variados matizes, servindo a formas de governo despóticas e repressivas (sobretudo, quanto à liberdade de expressão), ainda que, por ironia, em geral elas se autodenominem “populares”. Mas, afinal, o que Karl Marx, Friedrich Nietzsche e Wilhelm Reich teriam em comum, além da nacionalidade próxima? É sabido que todos esses grandes homens tiveram a originalidade de seu pensamento expropriada, adulterada, para servir a objetivos totalmente contrários àqueles que eles pregavam originariamente. Reich, o “pai da revolução sexual”, jamais pregou a libertinagem tresloucada. Apenas lutou para a libertação do ser humano de sua doença afetiva, onde o ápice da cura resultaria numa sexualidade plena e saudável. Nietzsche, por sua vez, foi completamente adulterado (com a insidiosa colaboração de sua irmã), servindo assim de garoto-propaganda do nazi-fascismo. Ele que sempre pregou a liberdade de pensamento e sempre rendeu homenagens à vida. E, por fim, Karl Marx, este laborioso filósofo, que embora tenha lutado para eliminar a “escravidão” dos trabalhadores de sua época, tem servido de bandeira tremulante quando nas mãos de forças despóticas, que jamais chegaram perto da segunda etapa da revolução comunista (onde o estado desapareceria e os cidadãos viveriam harmonicamente).

É nesse contexto político-filosófico que se insere o filósofo György Lukács, nascido na Hungria (1885-1971). Doutor pela Universidade de Budapeste, sua obra Prolegômenos Para Uma Ontologia do Ser Social foi publicada recentemente pela Boitempo Editorial. Uma obra que é uma espécie de livro testamento, em que o autor exibe sua profunda erudição ao procurar corrigir pontos obscuros no pensamento de Kant, Hegel e outros que servem de base para a compreensão do marxismo. Comumente se tem associado a derrocadadoLesteEuropeuaumdeclíniodomarxismo. Mas talvez o tempo venha nos mostrar justamenteo contrário.Afinal,Marxeo marxismo são coisas distintas, é o que a história,

em parte, nos revelou, e também agora o livro de Lukács (que deseja dissociar Marx da ideia de um determinismo econômico absoluto). Enfim, não é preciso temer Marx. É preciso, primeiro, compreendê-lo de fato e, sobretudo, historicamente. Ele, que viu crianças sendo exploradas com seus delicados dedinhos trançados em teares, jamais deixou de buscar uma forma de neutralizar a exploração capitalista. Mas o mesmo pode estar se repetindo em algum remoto rincão doplaneta,quasedoisséculosapósseu testemunho, e isso graças à distorção do seu pensamento ou quiçá devido a uma fatídica impossibilidade do ser humano em renunciar ao poder e devolvê-lo à sociedade. Seja como for, um antigo ditado afirma

que a força bruta a tudo conquista, porém sua duraçãoé breve. Isso podenos fazer pensar se a via de transformação não violenta seria mesmo tão utópica assim ou, então, se o que está no fundo de tudo é uma espécie enraizada de letargia humana, que independentedossistemassempreterminaporrepetir os mesmos padrões de existência. Quando Lukács aborda a questão do ser, em clara oposição aos “herdeiros espirituais dos métodos stalinistas”, ele estabelece um eixo referencial de suma importância, que diferencia a reflexão profunda em marcante oposição “aos planos grosseiramente manipuladores” e às “disposições táticas”. De fato, estamos diante de uma obra de grande densidade conceitual que aborda o desenvolvimento de um dos temas mais complexos da filosofia – a questão do ser. Uma querela que já remonta à Grécia Antiga, na eterna oposição entre Demócrito, que defendia a trajetória linear dos átomos, implicando um determinismo absoluto, Epicuro que introduziu o clinâmen, inserindo um elemento de caos no determinismo anterior, e Heráclito que acreditava no devir, ou seja, que o ser é um processo, estando sempre em vias de se fazer. O que adensa ainda mais a questão, é que emsuaobra,Lukácstrazacomplexidadedessaabordagemparaaesferadohumano,introduzindo a questão do ser social. Ora, se a temática grega ainda se mantém atual, Lukács adiciona ainda mais elementos à discussão,expandindoo estudoadiversoscampos do conhecimento, exigindo grande fôlego ao leitor, que se depara com sua diferenciação qualitativa dos “três importantes tiposde ser(naturezainorgânica, naturezaorgânica e a sociedade)”. Em poucas palavras: o ser social é ontológico, é real, está inscrito nohomemtantoquantoasuanaturezabiológica – eis a tese exposta por Lukács. Enfim, mais importante que o objeto do estudo, é o movimento do olhar, que se direciona agora ao próprio ser: “O homem é, no sentido mais literal, não um animal social, mas um animal que pode isolar-se apenas em sociedade”.

Reflexão. O filósofo húngaro: esforço para corrigir pontos obscuros do pensamento de Kant, Hegel e de outros que servem de base para compreensão do marxismo

PAPÉIS AVULSOS Autor: Machado de Assis Editora: Penguin Companhia (268 págs., R$ 25)

Estante

MACHADO IRONIZA A ILUSÃO
Contos de Papéis Avulsos demonstram a influência do ceticismo iluminista

DANIEL PIZA

A

edição de clássicos no Brasilénotoriamentedeficiente em quantidade e qualidade. No caso de nosso maior escritor, Machado de Assis (1839-1908), não é diferente: são raros os livros bonitos e baratos. Logo, a publicação pela coleção Penguin Companhia das Letras de seu melhor volume de contos, Papéis Avulsos, merece comemoração. O preço é bem menos amigável do que seus equivalentes de língua inglesa (R$ 25), mas melhor que o da charmosa edição de 2005 da Martins Fontes (R$ 38). Já um volume elegante de Dom Casmurro ainda é mais difícil de encontrar do que o olhar de Capitu. Outra diferença para os anglo-americanos é o aparato editorial. Só no Brasil os clássicos da Penguin são publicados com notas de rodapé, não raro explicando o

óbvio. Na coleção original, as notas são bem menos numerosas e ficam limitadas às páginas finais. Por que essa feição acadêmica? Será mesmo que, na era do Google, os leitores precisam tirar os olhos do texto para obter no pé da página uma informação sobre o que é O Príncipe de Maquiavel? Papéis Avulsos é de 1882, um ano depois da publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Que em tão pouco tempo um escritor tenha posto na praça dois livros dessa grandeza, em gêneros diferentes, permanece um espanto. Mas Papéis Avulsos é um espanto em si mesmo. Se Machado escreveu esses contos ao longo dos anos anteriores, não apenas depois da célebre crise de saúde que o levou em 1879 a se internar em Nova Friburgo, certamente eles marcam do mesmo modo sua virada literária. Até ali, tinha escrito contos e romances consistentes, com alguns “brotos” do estilo maduro (sic). Os problemas com a epilepsia e a retinite e a decadência do mundo onde vivera a vida toda, o Segundo Reinado (1840-1889), causaram reação mais radical: sua literatura ganhou uma liberdade e um humor que deixam para trás a influência de José de Alencar e o esquematismo moral dos enredos. A pretensão de totalidade de românticos e religiosos passou a ser seu maior alvo crítico – e sua prosa fundou a modernidade abaixo do Equador, unindo alegoria e realismo com uma sutileza rara em qualquer quadrante. O prefácio de John Gledson não toca nesse ponto central, nem mesmo quando fala de O Alienista, que critica a ciência que se porta como religião. O diálogo irônico da Teoria do Medalhão também mostra como Machado herdou o ceticismo iluminista – ou seja, liberal – e como não via na elite brasileira o menor traço disso. A Sereníssima República igualmente remete a Voltaire, assim como O Espelho não existiria sem Edgar Allan Poe – duas fontes que costumam ser menosprezadas pelos estudiosos do Bruxo brasileiro. Mas chega de notas de rodapé, leitor. A você, os avulsos!

O DIA EM QUE EU DEVERIA TER MORRIDO Autor: Javier Arancibias Contreras Editora: Terceiro Nome (144 págs., R$ 26) Finalista do Prêmio SP de Literatura, o autor conta a história de um jornalista que, em busca da ex-mulher, provoca incidente de proporções mundiais. Lançamento na terça, às 19h, no Bar B, São Paulo.

MEU TIPO DE GAROTA Autor: Buddhadeva Bose Tradução: Mara Lando Editora: Companhia das Letras (144 págs., R$ 33) O autor bengali revela questões culturais na Índia ao relatar um encontro em que quatro desconhecidos falam de amor enquanto esperam o trem.

PEQUENOBURGUESES Autor: Górki Tradução: Elena Vássina Editora: Hedra (190 págs., R$ 19) Na peça que originou a famosa expressão homônima, o escritor russo (1868-1936) exprime sua visão sobre o pensamento da classe média ao recriar a rotina de uma típica família russa.

OS ANOS SOMBRIOS Autor: William Wiser Tradução: Ana Luiza Borges Editora: José Olympio (347 págs., R$ 55) Sequência de Os Anos Loucos, sobre a Paris dos anos 20, a obra faz uma crônica social da Cidade da Luz na década de 30, numa narrativa que envolve casos amorosos, escândalos, suicídios, assassinatos, moda e política.

O EFEITO FACEBOOK Autor: David Kirkpatrick Tradução: Maria Lúcia de Oliveira Editora: Intrínseca (392 págs., R$ 39,90) Diferentemente de Bilionários por Acaso, este livro teve o apoio de Mark Zuckerberg, criador do Facebook, na pesquisa para contar a sua história e a da rede social.

INSIGHT Autor: Bernard Lonergan Tradução: Mendo Castro Henriques e Artur Morão Editora: É Realizações (728 págs., R$ 160) A obra-prima do filósofo canadense tenta responder a duas questões: o que acontece quando conhecemos e o que conhecemos quando isso acontece.

THE DIARIES OF SOFIA TOLSTOY Autor: Cathy Porter Editora: HarperCollins (Importado, 656 págs., R$ 35,90) Depois de se casar com Tolstoi, Sofia manteve um detalhado diário até a morte dele, em 1910. O registro revela uma mulher de sensibilidade poética atormentada pelo marido que idealizava.

THE IMMORTAL LIFE OF HENRIETTA LACKS Autora: Rebeca Skloot Editora: Crown Pub of New York (Importado, 369 págs., R$ 54,90) Previsto para março pela Companhia das Letras, a obra conta a história real da mulher cujas células têm sido usadas há décadas nos mais importantes estudos da medicina.

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